
Lembro-me aos cinco anos de ver meu pai sair de casa bem cedo. Ele sempre levava o rifle às costas e o facão preso a cintura, toda vez que ele saía eu pedia para ir junto caçar. (...) Minha vida até então resumia-se em passar os dias entre a cozinha e a horta com minha mãe, ajudando nos trabalhos da casa e com os girassóis. Ela me ensinou a matar galinhas quebrando-lhes o pescoço e onde furar os porcos para que eles sangrassem rapidamente. (...) Um pouco depois dessa época que meu pai, farto dos meus pedidos, me deu o canivete e o filhote pra que eu cuidasse. Somente eu deveria cuidar do cachorro, ele era minha responsabilidade. Quando o cachorro estivesse grande e forte eu poderia acompanhá-lo nas caçadas. (...) Cuidei dele o melhor que pude. Até dormir, ele dormia comigo. Quando eu tinha dez anos, o cachorro estava enorme, forte, esperto. Sempre me defendia quando meu pai ameaçava me bater. Era meu melhor amigo e eu sabia que logo meu pai teria que cumprir sua promessa. E em uma manhã, com poucas palavras ele me chamou para irmos para a floresta. Eu, ele e o cão. Deixou claro para eu não me esquecer do canivete. E que eu o afiasse bem, pois iria precisar.
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Caminhamos até estarmos longe o suficiente para ninguém nos ouvir. Eu nunca havia visto aquele lugar antes. Chegamos a uma clareira onde um tronco deixado propositalmente no espaço aberto esperava para que ele amarrasse o meu cachorro. Enquanto fazia isso, meu pai me dizia que para caçar eu primeiro tinha que aprender a ser forte. Aprender a ser homem. (...) Passei a tarde inteira lutando com o cão que dormia comigo e que me lambia o rosto para acordar. A cada mordida e a cada golpe de canivete, gemidos e ganidos desesperados escapavam de nós. Só com o canivete eu o enfrentei, ele me amava, mas sabia que tinha que se defender porque eu iria matá-lo. E eu sabia que se eu não conseguisse vencer, meu pai não me socorreria dos dentes que procuravam uma brecha para rasgar meu pescoço. (...) Terminei de cortar sua garganta um pouco antes de anoitecer, o animal já estava fraco pelo sangramento dos vários ferimentos. Meu pai me fez cavar uma cova no escuro, só com as mãos, debaixo de chuva. Com a chuva o sangue foi lavado e acompanhando a sujeira as minhas últimas lágrimas se perderam. Nunca mais chorei desde então. (...) Voltamos tarde, minha mãe estava preocupada e se assustou ao me ver todo machucado e sujo de sangue e terra, mas não ousou perguntar nada. Eu estava exausto, ferido, triste, mas era enfim um homem. E estava pronto para aprender a caçar.
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Ela despertou com o estômago retesado em um refluxo, trazendo para fora em golfadas espumantes o resto de comida que ainda não havia sido digerida. A acidez do vômito se confundia com outro gosto, tóxico, que irritava sua garganta e fazia suas narinas arderem. Os últimos segundos de consciência estavam marcados em sua memória pelas mãos surgidas em sua volta, envolvendo e prendendo, cobrindo sua boca de repente. A lembrança a fez perder o fôlego quase retomado. O gemido vindo do esforço de exprimir o desespero e dor através da inércia química ecoou por um espaço amplo. Levada a recorrer ao seu maior sentido para reconhecer a loucura em que se encontrava, percebeu a venda sobre os olhos impondo trevas. Depois do grito quase inaudível, ela rompeu em um choro desesperado e crescente. Descontrolada começou a chamar por socorro com toda a força de seus pulmões, até quase desmaiar rouca, com uma dor de cabeça e sede terríveis. Onde quer que estivesse, ninguém podia ouvi-la.
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Seus braços estavam muito doloridos, suspensos e presos por uma algema que entrava em sua carne a cada movimento, a altura das algemas a forçava a ficar na ponta dos pés que igualmente amarrados, obrigavam-na a uma posição insustentavelmente desconfortável. Uma corrente artificial de ar como se o ambiente contasse com algum circulador interno arrepiou sua pele, ela estava nua e tomada pelo medo. Obrigada a se manter imóvel para amenizar o sofrimento, como um animal selvagem que se dá conta da inutilidade de lutar contra as barras de sua jaula, ela conseguiu fazer com que as correntes que se ligavam às algemas acima dela se calassem. Parando de tremer, o silêncio então penetrou fundo em sua mente. Sua respiração e o bater acelerado de seu coração eram as duas únicas coisas que a defendiam da solidão de silêncio e trevas. Devagar seu olfato e paladar se recuperaram do sonífero e uma mistura enjoativa de perfumes florais a invadiu, provocando novamente náusea em seu estômago fragilizado.
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O tempo quando não podemos medi-lo transforma horas em eras e ela, sem saber a quanto tempo estava presa daquela maneira foi acostumando seu corpo na medida do possível a situação em que estava sujeito. Forçando a memória a concentrar-se para relembrar qualquer coisa que pudesse ajudá-la a manter sua sanidade ela recordou que havia ido comprar o resto dos mantimentos que faltavam na despensa da casa nova, ela e o marido tinham se mudado há poucos dias e entre o organizar das coisas, não tinham tido tempo de ir até o mercado. Seria a primeira noite que ela cozinharia para jantarem juntos, em seu lar, depois de quatro anos de noivado. Era cedo ainda, não havia mais um grande movimento na rua, mas ela cruzou com alguns conhecidos durante o trajeto entre a casa e o mercado. Depois de comprar tudo o que precisava quando estava com a chave pronta para abrir a porta do carro alguém a segurou por trás e a dominou, obrigando-a inalar alguma coisa que a fez desmaiar. O último som que ouviu foi o das sacolas de compras caindo no chão. Havia um furgão encostado próximo de seu carro... Passos... Passos? Sim, passos!
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O sangue congelou nas veias, de repente encontrou-se paralisada. Poderia ser a ajuda chegando, a polícia ou o responsável por aquilo tudo vindo ver como seu brinquedo humano estava. Mais perto, descendo alguma escada talvez, uma porta pesada, passos se aproximando. Ela ouviu o som de metal arrastado próximo de onde estava como se alguém puxasse uma cadeira para assisti-la. Então os sons se calaram. Estava sendo observada, era a atração particular de algum insano sádico. Silêncio completo. A dúvida pairou sobre o poder de sugestão ante ao medo de estar tão vulnerável, será que realmente alguém tinha se instalado ali com ela? Subitamente uma conjectura menos perturbadora se formou em sua cabeça - e se fosse alguma outra vítima? O que garantia que ela seria a única mulher a ser seqüestrada por quem quer que fosse que se divertia em mantê-la presa daquela maneira? A escuridão não respondia aos seus sussurros jogando por terra sua esperança de companhia e de descobrir qualquer coisa sobre seu estado. Ela estava quase se convencendo que havia imaginado todos os barulhos quando ouviu novos passos seguidos pelo ruído que ela julgou ser de uma torneira enferrujada sendo aberta. O som da água passando pelo encanamento confirmou sua suposição até um jato forte e frio a atingir em cheio fazendo-a girar no ar, em torno de si mesma, gritando em pânico.
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O descontrole decorrente do pavor foi tão grande que ela não pôde conter a bexiga e se urinou de medo, chorando sem parar implorando por misericórdia. Seus maiores medos eram a morte e a tortura, por isso ela pedia, por favor, que não a violentassem ou a machucassem, ela acreditava ser um único homem quem estava com ela, banhando-a com uma mangueira de pressão. Se o motivo daquilo tudo era dinheiro explicou ela que seu marido não tinha uma reserva grande de economia, pois tinham acabado de se casar e ainda estavam pagando a casa própria, porém ela podia assegurar que assim que seu marido fosse alertado, ele encontraria um modo de levantar uma quantia considerável para pagar qualquer resgate. Nunca fora boa para argumentar, não era dada a discutir nem a refletir por muito tempo sobre qualquer assunto, entretanto era nítido seu esforço para tentar convencer seu algoz do benefício de poupá-la de qualquer violência. Enquanto ela dizia tudo isso, entre soluços, tentando reconquistar o controle mínimo para soar plausível, duas mãos grandes e pesadas usando luvas de borracha carinhosamente a limpavam com a ajuda de uma esponja macia. Cuidadosamente o banho continuou sem se alongar em nenhum outro objetivo que não fosse o de asseá-la. Durante todo o processo nem uma única vez a presença próxima se manifestou sobre o monólogo da cativa.
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O cansaço psicológico alcançou seu auge, o estresse era tão alto que sua razão a tentava fazer ver seu captor através de outra perspectiva menos fatalista, sem intenção necessariamente de fazê-la algum mal. O tratamento no banho ajudou a fazê-la cooperar para ser alimentada. Colherada após colherada, uma a uma gentilmente levada até sua boca, com um lenço prontamente alerta, limpando-a caso ela conscientemente ou não se sujasse de uma sopa encorpada e revigorante que ela teve de admitir ser muito saborosa. À medida que o processo para vencer sua resistência se prolongava ela aceitava sua condição com cada vez menos dificuldade. Suas lembranças pareciam sonhos nebulosos e só as correntes e os bons tratos eram coerentes em sua lógica distorcida. O não saber a identidade do cavalheiro que tratava dela, fazia sua imaginação voar alto e produzir personagens cada vez mais simpáticos, atraentes e excitantes para representarem o papel de seu carcereiro. E ela deixava transparecer mais claramente seu desejo quando ele a tocava para limpá-la, sentia a respiração forte e quente na pele, suas pernas enfraqueciam com a possibilidade de ser pega a força a qualquer momento. Percebeu que falar não faria ele se abrir, então ela usava o corpo para tentar se comunicar. E o diálogo era intenso de sensações profundas e inebriantes.
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Ela, mesmo sem poder medir o tempo, conseguia prever quando seu companheiro vinha lhe visitar e esperava ansiosa a oportunidade de se livrar da solidão. Fantasiava enquanto estava sozinha a ponto de conversar e gemer alto. Livrava-se da tensão falando, da mesma maneira que as pessoas se abrem para um desconhecido em um divã. Qual não foi sua surpresa, entretanto, ao ser inundada por uma música fúnebre, épica e sombria, enchendo o espaço e reverberando, multiplicando-se em potência e imponência. Uma música que ela nunca havia escutado antes. Adivinhando a surpresa acompanhada de um desconforto incômodo, uma voz disse sibilante:
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_Réquiem, Mozart.
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Sua voz era encantadora, grave e suave, ela sabia que ele preparara algo especial e ela temia desfalecer de medo e apreensão. Ele se posicionou atrás dela e a livrou de sua venda bem devagar. Os olhos queimaram, desacostumados a liberdade, demoraram a focalizar o ambiente
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Era uma fria tarde de outono. As folhas úmidas calavam nossos passos. Passamos o dia inteiro andando, seguindo rastros, checando armadilhas. (...) Nada. Conseguimos muito pouco, o humor do meu pai que não era dos melhores estava quase insuportável. Ele nunca fora agradável, mas desde a morte de minha mãe ele estava cada vez mais nervoso. Para piorar, a alça do rifle arrebentou e ele foi obrigado a me dar a arma já que ele precisava ter as mãos livres parar abrir a mata com o facão. Ele não gostava que eu carregasse o rifle, não confiava em mim, dizia que eu tinha alguma coisa errada, era muito quieto. Andava e a cada três passos olhava para trás, me vigiando, como se estivesse sendo farejado por um predador. Ao menos ele agia como uma presa acuada, os olhos assustados eram os mesmos. Até que subitamente ele parou, respirou fundo e com as mãos sobre os meus ombros e olhando nos meus olhos ele me disse que eu já estava grande e que era quase um homem feito e estava na hora de eu usar o rifle. Pôs dois cartuchos em minha mão e mandou que eu cuidasse para não escapar nada. Estávamos perto.
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Foi quando para o nosso azar começou a chover, seríamos obrigados a voltar. Meu pai era a tradução perfeita da frustração e do fracasso, impotente. Ele chegou a dizer que a natureza estava se vingando de nós. Eu respondi que a natureza não nos favorece nem nos prega peças, simplesmente ela não se importa conosco. A reflexão amargurada animou meu pai e ele decidiu conferir uma última armadilha antes de irmos embora. (...) Caminhamos mais leves, já que a chuva não se importava de cair sobre nós, como um deus morto, nós também não nos importávamos de nos molhar com a chuva. Até chegamos a conversar coisas inúteis do passado, quando no meio desse momento, o chão se abriu debaixo dos pés de meu pai e ele caiu em um fosso. Minha sorte ele ter se distraído tanto, mesmo eu tendo todo o trabalho pra cavar e camuflar a armadilha, com a chuva, eu não podia garantir que ele não a percebesse. (...) Enfim, na cova rasa, com as estacas transpassando seu corpo, ele me mirou com aqueles olhos de espanto que eu sempre vou me lembrar e eu, mirando em sua testa, puxei o gatilho.
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