domingo, 1 de setembro de 2019

"Canção do Exílio Itarareense" ou "Onde as Andorinhas Sempre Voltam"


Minha terra tem pedras
Que a água fura em fúria
A natureza opressora
Nos mostra a nossa pequenez absurda

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Minha terra tem araucárias
E no entardecer dançam no céu andorinhas
Os pinhos aqui quase se dobram
Ao encarar a ventania

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Minha terra tem rios
E córregos que correm com esgoto a céu aberto
Sua cor muda de tempos em tempos
E o cheiro é sempre fétido

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Minha terra tem campos verdes
E o céu noturno é rosa quando chove
O frio do inverno
Vem do Minuano que aqui morre

***

Minha terra se diz: "a capital regional do comércio"
Mas sem oportunidades nem emprego 
Fica difícil saber
Se somos só hipócritas ou apenas néscios

***

Minha terra é fértil e próspera
E carrega consigo uma rica história
Nos paralelepípedos à Sorocabana
Lições que não se aprendem na escola

***

Minha terra tem gente pobre com esperança
Que trabalha e sobrevive e dança
Dá-se um jeito para tudo
Menos na ignorância

***

Minha terra tem lugar para todos
Mas há quem não goste de conviver com o povo
Bairristas e coronelistas
Nós não gostamos de quem somos

***

Não permita que Deus decida
Quando e se você fica ou volta
Estamos longe demais das capitais, somos tão banais

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Bonitinhos e ordinários
Mas só aqui as andorinhas
Se jogam suicidas

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Para adentrar a gruta na hora vespertina
Se você aprender a cantar a sua aldeia
Não há exílio que te reprima

segunda-feira, 5 de agosto de 2019

O Equilibrista Bêbado


Eu não sou equilibrado
Eu me equilibro apesar da vida descompensada
O bêbado e o equilibrista são um só dançando nas alturas
Abaixo está o abismo que traga as coisas que ficaram para trás
Um precipício que leva tudo que pesa, não há como evitar

Os altos e baixos da vida me balançam como terremotos
É impossível não escorregar, não cometer erros, não ficar por um fio
Eu sei que não há redes de segurança lá embaixo se eu cair
Mas há ventos de esperança que me ajudam a me reerguer
Anjos em minha volta que me perdoam se eu perder

De onde eu vim e para onde eu vou é tudo um mistério
Cada passo é em falso e o fim da linha certo
Então o agora é o melhor que espero

O passado me ensinou e eu não caio mais nas mesmas armadilhas
O futuro é cheio de esperança enquanto eu tiver a sua companhia
A vida é para ser vivida e estou feliz por te ter na minha

quinta-feira, 25 de julho de 2019

Escrever



Eu escrevo por ímpeto, por impulso
Como quem se entrega ao submundo
E com a loucura em meu útero
Eu semeio e fecundo

Eu escrevo por empáfia, por insulto
Como quem ama o imundo
E com a sujeira e húmus
Eu tinjo as palavras, impuro

Eu escrevo por amor, por Saturno
Como quem desafia o tempo e o turno
E com a alma eternizada de nada
Abro a urna sem fundo

Eu escrevo por escrever, sem rumo
Como quem perde o prumo
E com as mãos vazias e trêmulas
Sorve o último sumo

Eu escrevo por tesão, derrubo muros
Como quem erige em acúmulo
E com os dedos cava a alma
Até enterrar-se em seu túmulo

Eu escrevo porque quero, com um murro
Na boca de quem é idiota, burro
E com o sangue derramado
Deixo de me sentir tão puto

E por isso acabo aqui, não me curvo
O show não pode continuar no escuro
Encaro a vida, o grande absurdo
Para não ceder ao luto, eu luto

quinta-feira, 16 de maio de 2019

CHAMADO À BALBÚRDIA


Ante a disciplina dos submissos
Invoque a doutrina da rebeldia
Desobediência à ordem
Uma batalha por dia

Escolha o lado da luta
De quem vive a trincheira das ruas
Do gueto, do preto, do viado, do índio,
da mulher, do maconheiro, da puta
Defenda a liberdade, abaixo à censura

As balas, armas e fardas
São o discurso da covardia
Estupidez em massa
Filósofos da demagogia

Inofensivos no debate
Cada soldado que ataca sabe
Que são frágeis neste combate
Fatos vencem mitos em todo embate

Calar os que pensam
Cegar os que acreditam sem duvidar
E ensurdecer aqueles que destoam do coro
Nesta conversão de tolos
Resista como o povo, sem foro privilegiado
Onde moro não há Moro

Nem todo político é ladrão
Nem todo preso é bandido
Mas todo ladrão que é político
Diz que o cassetete é a solução
E teme, como Temer, a educação
Tentam castrar a nação
Negando o pensar à próxima geração

A pena é mais afiada que a espada
Aqueles que perdem tudo
Não temem mais nada

Anos no congresso como um parasita sanguessuga
Incitando o ódio por de trás das urnas
Você vai ver o que é realmente balbúrdia

quinta-feira, 28 de março de 2019

ORDEM NÃO NATURAL


Como um trovão antes do raio
Como amar sem nunca ter seu coração quebrado
Como a bonança antes da tempestade
Como sofrer sem saber a verdade

Como correr antes de rastejar
Como uma borboleta antes do casulo
Como os pais enterrando um filho
Como o conhecimento antes do estudo

Como a cicatriz antes da ferida
Como a culpa antes do castigo

Como se vingar antes de ser traído
Como abraçar sem ser amigo

Nem tudo faz sentido
O pior erro... ...Morrer sem ter vivido


quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

Reencontro


Os dias passam lentos como um único respirar
Todos os dias que penso em viver, viveram aqui
Comigo convivem meus sonhos e fracassos
Em meu quarto mergulho fundo até ficar sem ar
Quanto tempo vou perder até conseguir

Mesmo com os olhos lacrimejando
Confundindo-se com a chuva
Não importa os incêndios e naufrágios
Mais importante que a derrota é a luta
E a vontade de continuar

Estarei ao seu lado
Posso voar
Ou mesmo ir a pé
Se for preciso vou rastejar
Mas chegarei

Eu sempre me reencontro no fim

***

Mais uma poesia feita a quatro mãos
Mais uma parceria com o Fábio Ribas Macedo

sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

Se toda dor virasse tatuagem...


Se toda ferida pode cicatrizar
Se toda dor virasse tatuagem

A pele, não mais os olhos
Seria o mosaico das almas

E a tinta iria tomar o corpo
E os olhos saberiam sempre

Quem machucou
Quem traiu
Quem mentiu
Quem só quis ajudar
Quem fugiu
Quem fingiu não ver

O sangue derramado pode ser limpo
E um cenário de crime passa desapercebido

Mas a alma na pele seria a verdade
Todos os livros seriam lidos em braile
E folhearíamos com as mãos todas as camadas
Tatearíamos os segredos até a carne

Provaríamos com a língua a tinta
Da mais pura exposição
O aroma da revelação
Nos poros

Se toda dor virasse tatuagem
Faltaria pele para descrever
Toda dor ao redor e dentro de nós
E todos acabariam por cegar os olhos
Para não precisar ver