quinta-feira, 11 de março de 2021

Os Gordos da Minha Vida

   

   Este é um texto que faz tempo que me ronda a mente, mas por algum motivo eu procrastinava sua escrita. Ao postergá-lo, imaginava eu o escrevendo em uma data especial e assim ao compartilhá-lo ele alcançaria mais pessoas e teria mais repercussão. Quem sabe talvez no meu aniversário como uma reflexão que indicasse que a soma de mais um ano de minha existência estivesse acumulando em mim sabedoria e desta forma eu poderia ter o meu ego massageado e conseguir me promover como escritor. Duas coisas que só demonstram que não tenho nada de sábio e que o tempo só consome e desgasta as coisas e as pessoas pois a sabedoria é fruto de um exercício constante e consciente de reflexão e humildade que eu estou longe de ser capaz de assumir. Seja como for, foi nesta madrugada que ao acordar antes do nascer do sol que eu tive coragem para sentar e começar a escrever sobre os gordos da minha vida.

   Com toda a certeza um dos fatores principais que me convenceram a me levantar e vir escrever ao invés de voltar a dormir é a constatação atual que todos nós estamos tendo sobre a brevidade da vida. Fazer planos futuros, mesmo que dentro de meses, nesta conjuntura é sempre uma promessa inocente e inconsequente já que não sabemos até quando seremos poupados do sorteio na grande loteria da morte. Tenho plena consciência que se caso eu me contaminar é o fim para mim. Um sujeito que sofre de dificuldade de respirar devido ao sobrepeso, bronquite, asma, rinite e de uns anos para cá de diabetes tipo 2 é um candidato a virar estatística com certeza. E este meu quadro clínico só demonstra o porquê eu sempre fui gordo desde criança, afinal, se respirar é um desafio, praticar qualquer atividade física um sofrimento, comer torna-se um alento. Me julguem o quanto quiserem, porém acho muito difícil quem na minha situação optasse por uma decisão diferente. Logo eu me concentrei em práticas mais individuais, passivas e confortáveis como jogar videogame, hábito que detenho desde o Atari; comer; ouvir música sendo sempre incentivado pela minha mãe - o meu primeiro contato com esse mundo se deu através de artistas e álbuns como Daniela Mercury, Chico César, Caetano Veloso, Milton Nascimento, Chico Buarque, uma coletânea de Rock dos anos 70, uma coletânea de Blues, um álbum do Olodum, Skank e etc - e por último, um dos meus hábitos preferidos enquanto criança e jovem, assistir TV, comendo.

   Comecemos por um dos maiores, literalmente e abstratamente, dos gordos poderosos.

  Tim Maia é um fenômeno absurdo de um cara que tinha tudo para ser excluído e que com garra, atitude e talento de sobra se tornou um dos maiores ícones da música mundial. E percebendo tudo isso, aos poucos eu fui entendendo que era possível para um gordo chegar lá, mas que o mundo sempre colocaria barreiras e que o gordo paradoxalmente teria que se esforçar mais para conseguir chegar onde os outros menos volumosos chegavam mais facilmente. 

   Voltando ao início cronológico da minha história, na TV aberta o cara que eu considerava mais inteligente e legal e que eu sonhava um dia por ele ser entrevistado era o Jô Soares. Foi através dele que eu pude ver que se você fosse inteligente, mesmo que fosse gordo, você poderia ser respeitado e admirado. Todos que passavam pelo programa tinham uma reverência pelo seu entrevistador e eu ficava encantado com aquilo. Isso fez também que eu criasse um outro hábito que até hoje carrego que é de ser notívago, já que o Programa do Jô passava tarde da noite. Sendo assim, se eu não poderia ser o cara mais bonito, em forma e atraente eu decidi que eu poderia ser um cara inteligente e engraçado. Essa conclusão que muitos gordos chegam, principalmente na adolescência, é fruto de uma busca por uma resposta do bullying que nós sofremos. Se nós não poderíamos nos encaixar em um padrão, teríamos que ter outras coisas para oferecer. E eu aprendi rápido a desenvolver uma língua afiada que não devia nada ao Boca do Inferno ou o Bocage. No mesmo tempo que eu aprendia a argumentar e retrucar sendo extremamente sarcástico, cáustico e escroto quando preciso, algo que eu comecei inclusive a apreciar já que aparentemente eu tinha um certo talento para aquilo, eu encontrei o Rock. Com o Nevermind do Nirvana um novo mundo se abriu para mim onde aquela atitude que eu tinha como mecanismo de defesa era um estilo de vida. Antes de entender o que era ser alternativo eu era alternativo por falta de opção.

   Ainda na TV outro cara que descobri um pouco depois foi o Antônio Abujamra no programa Provocações na Cultura. Como não havia internet, era preciso garimpar a própria TV para encontrar entretenimento de melhor qualidade e propostas diferentes e eu saquei logo que as melhores coisas passavam na madrugada. O Abujamra era como o Jô, inteligentíssimo, contudo ele tinha um ar de desafiador, desconfortável, de acuar e realmente provocar o entrevistado que eu achei ainda mais parecido com a pessoa que eu estava me tornando. Até hoje procuro vídeos no Youtube de entrevistas do Jô e do Abujamra porque esses caras eram incríveis.

   Nos tempos de escola o meu apelido "Balofo" foi cunhado e o carrego até hoje com orgulho. Desde que descobri que o primeiro vocalista do Exodus, uma banda americana de Thrash (e uma das bandas que mais curto neste estilo), se chamava Paul Ballof eu comecei a ostentar esse meu apelido porque agora eu não detinha só um termo que tentava me ridicularizar pela minha forma, eu encontrara um nome artístico que iria definir a minha personalidade no palco. Eu comecei lá pelos treze, quatorze anos a minha primeira banda e já nela eu cantava uma música do Exodus e então aquilo me fez sentir poderoso, eu não era mais um cara gordo que as pessoas riam. Eu era uma entidade que defendia a liberdade de se viver como se quisesse e que enfrentava qualquer um que quisesse impor a sua vontade e verdade. Antes do NÖ CLASS eu já era inclassificável.

   Outro vocalista do metal, Andreas Geremia, da banda alemã de Thrash, Tankard, tem em sua banda muito do que eu trouxe para o NÖ CLASS. A bebedeira, a loucura, o humor, são muito parecidos. E este vocalista não coincidentemente era gordo e é por isso que eu digo que é um caminho natural para o gordo se tornar engraçado como forma de procurar aceitação. Com o tempo fui compreendendo que não dava para defender a loucura sem responsabilidade e que há temas que precisam ser tocados com cuidado. A vida sem freios dos anos 80 do Rock ficou lá e muito poucos sobreviveram e os que o fizeram carregam sequelas eternas. Então, ao me dar conta que ao subir no palco eu me tornava um exemplo, mesmo que um mal exemplo, eu entendi que eu poderia utilizar aquele espaço para transmitir um pouco do que eu acredito e assim nasceu o conceito da Horda Desclassificada, a intenção por trás das músicas próprias e os trabalho de fotografia do NÖ CLASS.

    Cada gordo que eu encontrava que era foda eu tentava gravar na memória e ter como referência porque não era fácil encontrar exemplos de sucesso. Foi assim com o Bud Spencer na porrada nos filmes de ação que tinham coreografias de luta tão complexas quanto as da Turma do Didi. No cinema, caras como o John Goodman, Brendan Gleeson e Brian Cox eram os atores que sempre faziam papeis de personagens relevantes, importantes, ameaçadores, engraçados ou que meramente pelo talento destes atores brilhavam e eu ficava maravilhado em como mesmo o gordo quase nunca sendo protagonista, ele estava de alguma forma sendo memorável através destes caras. Até no pornô, com o Ron Jeremy, os gordos estavam conquistando espaços. 

   Hoje nós temos o Mário Sérgio Cortella, o meu filósofo brasileiro moderno preferido, inteligente e cheio de classe. O próprio Pavarotti era um belo exemplar de um gordo poderoso e impecável. Minha mãe adora a música que ele canta com o U2, "Miss Sarajevo", e ela sonha comigo cantando essa música incluindo a parte em italiano do Pavarotti. Quando criança na hora do banheiro o chuveiro era o meu momento e eu cantava a plenos pulmões tudo que eu gostava, de ópera a Elis Regina e Queen e essa mistura toda me fez ser o gordo que eu sou hoje. Quem sabe não faço um cover na voz e violão, sozinho, de Miss Sarajevo, mesmo sabendo que o italiano vai sair macarrônico, só para fazer a minha mãe feliz.

   Sou um gordo que tem sua própria banda e canta e se apresenta sem pudores. E que mesmo sendo obsceno, não é inconsequente. Um professor que se espelha nos grandes pensadores que me serviram de inspiração para não só transmitir o conhecimento e sim fazer com que o conteúdo agregue sentido na vida dos alunos para que eles se lembrem das aulas, da matéria e de mim como um desenvolvimento de potencial que envolve entretenimento e informação. Um escritor que se encontrava até hoje com um bloqueio criativo sofrendo com todo o clima terrível que paira sobre nós neste momento triste e que acordou hoje inspirado para celebrar os gordos da minha vida que me inspiraram de alguma forma porque não sabe se vai durar até o aniversário. 

   E um gordo que vibrou ao ver o Thor não só desempenhando o papel negativo que costumam representar os gordos como pessoas desleixadas, acabadas e derrotadas, mas que também demonstrou que os gordos são pessoas merecedoras e podem ser herois sem precisar terem uma barriga de tanquinho. 

   Com certeza esqueci de muitos outros gordos importantes, eu queria mesmo é só relembrar e sugerir nomes que talvez as pessoas não se lembrem ou não conheçam de pessoas extremamente talentosas cada uma em seu campo de trabalho. Então me perdoem os gordos que por ventura eu não mencionei e que sejamos todos grandes grandiosos e que a nossa gula seja perdoada porque somos reféns de nossos pecados carnais. 

   De todos os erros que podemos cometer por excesso, comer é inegavelmente um dos mais saborosos.

   Que possamos ser saudáveis sem que tenhamos que nos enquadrar nos padrões e que ostentemos as nossas barrigas como conquistas de uma vida de quem sabe o que é viver sem fome e medo.

   Um bom dia a todos e tomem um café da manhã bem reforçado.

    

    

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

CRÔNICA ANACRÔNICA


Confesso que sou inegavelmente, acima e primeiramente, um artista. Desde sempre, de alma, assumir isso me parece ainda hoje uma constatação óbvia e também surpreendente. Sei disso desde criança. Sou a minha eterna companhia e por isso, por ter intimidade comigo mesmo, conhecendo os meus pensamentos, anseios, desejos, segredos e medos, sei quem sou e o que sou. É natural para mim ser essa pessoa estranha.

Porém quantas vezes não esbarrei em barreiras que de alguma forma intencionavam me enclausurar, me dissecar, catalogar e principalmente me desvendar me colocando em rótulos, me guardando em potes como se fosse possível mutilar a personalidade e fazer dela compotas de sabores distintos. Quando na música "Ordinary Man" do Ozzy Osborne o Elton John canta "They tried to kill my rock'n'roll..." (Eles tentaram matar o meu rock'n'roll...) é sobre isso que ele está falando. Pelo menos é assim que eu me relaciono com esse trecho.

Entendo que o desconhecido causa apreensão e pode ser encarado como uma ameaça. Mas se formos realmente sinceros conosco sabemos que por mais autoconhecimento que possamos desfrutar que nem sobre nós mesmos é possível afirmar certezas absolutas. Não sabemos ao certo o que somos capazes de fazer dependendo das circunstâncias e essa dúvida nos tira dos pedestais que construímos para nós mesmos e nos coloca no mesmo nível da ralé que menosprezamos. A verdade é incômoda e por isso é tão confortável se fechar dentro de parâmetros para se sentir seguro. Ninguém é cidadão de bem porque ninguém é sempre bom.

Não somos diferentes das melhores e das piores pessoas. Na verdade, as melhores e as piores pessoas não são muito diferentes entre si. Tudo depende do ponto de vista. Porque sempre trata-se primordialmente de pessoas. Não existem monstros, inimigos ou outras criaturas que mais nos atormentem do que a nós mesmos. Humanos são os arqui-inimigos de humanos e também seus salvadores. Um homem que acredita no próprio mito entende que está fazendo o melhor para os demais já que o escolheram para guiá-los e por isso, seus opositores jamais estarão à altura de sua megalomaníaca estatura. Para evitarmos exemplos tristes como esse precisamos entender a nós mesmos e assim entender as demais pessoas. 

Me lembro de quando era criança de ter medo dos adolescentes porque eles pareciam tão crueis uns com os outros e quando fui um, hoje, sei que fui tão idiota quanto qualquer adolescente que tenha me assustado enquanto criança. Este é um exemplo de reflexão tão esclarecedor quanto qualquer temporada de reality show. O mergulho no abismo pessoal acaba por nos mostrar revelações bombásticas que nos fariam querer cancelar qualquer pessoa, se acaso aquilo não se trata-se de nós mesmos. Nada como ser hipócrita para nos fazer sentir melhor sobre os nossos próprios problemas.

Fui um aluno que não gostava de estudar e me tornei professor. Tive professores admiráveis que marcaram a minha vida e talvez por isso me tornei esse paradoxo ambulante. Sou grato eternamente a eles porque com certeza a minha escolha de assumir esse papel tem a influência de seu trabalho. Mas me lembro claramente de falas quando comecei a fazer faculdade de gente dizendo que tinha pena de mim por escolher ser professor e que era uma profissão desmerecida e de pessoas frustradas e desoladas. Fazem dos professores mártires e mesmo quando tentam lhes mostrar respeito, os desrespeitam. Engraçado como me lembro dessas falas, mas não me recordo de quem as disse. Talvez porque a minha memória é convenientemente seletiva. Ou talvez seja porque realmente eram pessoas diminutas, desprezíveis e indignas de serem lembradas na minha saga épica pessoal.

E me lembro de colegas de aula que desrespeitavam os professores não porque tivessem algo contra eles, mas porque tinham problemas consigo mesmos. Feriam por estarem feridos. Essa tática é uma das primeiras que recorremos quando somos apresentados à selva social e é fácil perceber, depois de um certo treino, quando isso ocorre. Só não é fácil não se abalar e não permitir que o veneno alheio tire o nosso equilíbrio. E ninguém está imune a isso, nenhum professor ou aluno. Claro que estamos falando de uma relação entre adultos e jovens. É obrigação dos adulto serem maduros. Entretanto se perguntarmos por aí quantas pessoas conhecem professores que já choraram em sala de aula ou apresentaram comportamentos depressivos vocês vão entender a pressão que carregamos. Os atritos são invariavelmente complicados de se resolver e precisam ser revistos com menos julgamento e mais compreensão, já que nós estamos todos aprendendo. A lição é ter a humildade de reconhecer as falhas para fortalecer o espírito. Para nos curarmos. As palavras têm poder. E os professores sabem que mais importante do que tropeçar ou cair é não desistir de seguir em frente. 

Foi na escola que percebi que tinha talento com as palavras. Já pintei, desenhei, canto, toco violão, mas habilidade mesmo, com certeza é na escrita. Ser artista não requer habilidade. Porque você é o que você é independente das expectativas e comparações sociais. A arte não é uma disputa porque não é útil. A arte é inútil porque pode servir a qualquer propósito. Pode aflorar o melhor e o pior do ser humano e é exatamente por isso que é uma característica genuinamente humana. O mercado da arte é que quantifica likes, valores e repercussão. Quantas vezes recebi críticas e fui menosprezado porque estava fazendo o que gostava e segundo a noção do julgamento alheio eu não era bom o bastante. Eu faço aquilo que eu quero e o que eu gosto. Eu faço porque eu preciso fazer. E se isso incomoda, cumpre o papel da arte que é se conectar com os outros. A forma como lidamos com a expressão humana revela mais de nós mesmos do que da forma de expressão em si. E se expressar é mais do que gostar de se expressar, é uma necessidade. Eu defeco, urino, respiro e me expresso. E este texto é tão torto porque faz tempo que não escrevo e portanto estou escrevendo por necessidade, tendo mais uma vez uma recaída literária.

No ENEM fiz uma redação sobre como o Hino Nacional - embora o nosso hino seja um texto lindo que ao contrário de outros, não foca na celebração de vitórias bélicas e sim em outros traços do nosso país - tem uma construção não linear que me parece intencional para se fazer estranha à maioria das pessoas que não sabem cantá-lo por não compreendê-lo. Somos refugiados em nossa própria cultura porque com uma cultura tão rica e diversa que os padrões impostos para nos rotular acabaram nos fazendo estranhar a nossa própria identidade de ser plural. Estranhos em uma terra estranha. Não se preocupe também com isso, já que segundo Oscar Wilde "De perto ninguém é normal". 

Lembro de uma aula que preparei no começo da minha carreira como professor que ensinava sobre o conceito de crônica e citava a fala de Fernando Sabino que "Crônica é tudo que o autor chamar de crônica". Este gênero literário possui uma estrutura curta, opinião do autor e sempre apresenta uma ligação com um tempo histórico. Então aproveitando esta explicação queria dizer, só para respeitar a estrutura que acabei de apresentar, que estes meus pensamentos ocorrem no segundo ano de pandemia quando ainda no nosso país não sabemos quando todos seremos vacinados, estamos tão confusos como quando precisamos interpretar o nosso hino. E registro que temo pelas vidas de professores, equipe de profissionais escolares, alunos e familiares com a decisão estapafúrdia de volta às aulas presenciais mesmo sem termos todos vacinados.

E me despeço humildemente deste desabafo, me sentindo melhor por exercitar a escrita, esperando que mesmo que este texto tenha nascido para me tirar a angústia de precisar me expressar que ele de alguma forma consiga se conectar com outras pessoas e prolifere a reflexão para compartilhar o ato de se autoanalisar tanto quanto aprecio fazer comigo mesmo. E assim me considero a minha melhor companhia. Nem sempre concordo comigo, mas me entendo e aceito. Ao sermos sinceros conosco somos capazes de nos aceitar e entender como podemos melhorar. E assim, ao nos tornarmos melhores tornamos o mundo melhor.

E sim, isso é uma crônica. Só que anacrônica.

sexta-feira, 24 de abril de 2020

Brasil Coroado


"Nenhum homem é uma ilha..." - John Donne

Somos sim náufragos. Exilados. Apátridas.
Estamos confinados, acuados.
Divididos e conquistados.
Queimam-se as pontes.
Erguem-se os muros.
Arreganham-se os dentes.
Ridicularizam os doentes.
Sentimo-nos perdidos.
Desesperados.

Os sobreviventes não aprenderão a lição.
Lembraremos com saudades do passado.
E estaremos enganados.
Não éramos felizes.
Mesmo antes de precisarmos de máscaras já éramos mascarados.
Filhos prediletos contra bastardos.

Herdeiros do apocalipse.
Ignorantes.
Ignorados.

Enquanto alguns se afogam no mar.
Outros acenam de seus iates, estupefatos.
Precisamos nos curar dos nossos vícios.
Dos nossos pecados.

O homem é o vírus do homem. 
A doença só mostrou o quanto estamos errados.
Um brinde ao povo.
Ao abate do gado.

quarta-feira, 1 de abril de 2020

Quando o Carnaval voltar


Logo eu que sou tão intenso
Não vou poder te mostrar
O tamanho, o quão imenso
É o meu desejo

Logo eu que sou de beijar
Lamber, chupar, sugar
Morder, mordiscar, bater
Não vou poder provar
O gosto que gosto

Logo eu vou ter que esperar
Até poder me sentir de novo
Vivo, solto, livre
Uivando pelas ruas
Como um lobo

Logo eu que amo a boemia
Vou ter que me abster da orgia
Dos bares, da noite, da alegria
Dos brindes, das companhias
Tudo isso e muito mais, ah como eu queria...

Mas quando tudo passar
Quando o carnaval voltar
Quando puder abraçar
Ah, aí vocês vão ver

Como vou te cumprimentar
Com ósculos de derrubar óculos
Sem vergonha de ser sem vergonha
Aguardem porque se eu sobreviver
Vou ainda mais profundadamente viver

Vocês vão ver

Selfie


Antes de receber visitas de estranhos
Experimente morar um tempo em si mesmo
Arrume sua casa, sua vida, seu templo
Adore-se, beije o espelho
Você está em boa companhia
Seja seu próprio cortejo

Explore seu potencial, se toque
A vida é feita de tentativa e erro
Ninguém precisa te completar
Já que você é pleno
Nascer, morrer, é tudo passageiro
Somos quem somos, por inteiro

Dance nu e rebole sob a luz
Não se esconda no escuro
Troque uma ideia consigo
Você é profundo

Aceite a si mesmo, entenda o que te motiva
Brinque com os fracassos, não leve tão a sério a vida
Ame-se até quando quiser se odiar
Seja o seu melhor amigo, seu amante
Convide-se para passear

Viva seus sonhos
Desenvolva seus talentos
Se não der certo, diga:
"Ao menos eu tento"

Esteja no papel principal da sua vida
O palco é seu enquanto o coração bater
Então não deixe de fazer o melhor
Não temos tempo a perder

Lá fora o mundo pode estar acabando
Mas cada dia é uma nova estreia
E você está apenas começando

sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

GOSPEL MODERNO


Eu sigo os perdidos
Na disciplina da Indisciplina eu acredito
Estou em comunhão com a revolta
Na tempestade eu faço abrigo

Quando os cães ladram
Farejando os perseguidos
Eles se escondem na minha alma
Onde não podem ser feridos

Toda a minha solidariedade à escória
A rua é a casa dos rejeitados
E a medida do fracasso da sociedade
Todos os oprimidos são meus amigos

Você não me encontrará nos templos, altares
Nem no discurso do pastor da TV ou no político
Eu ando acompanhado dos que mais me necessitam

A verdade é que todos anseiam pelo paraíso
Mas não querem dividi-lo comigo
O inferno são os outros

Deus não é seu inimigo
E enquanto as coisas estiverem assim
Jesus está melhor no exílio


domingo, 1 de setembro de 2019

"Canção do Exílio Itarareense" ou "Onde as Andorinhas Sempre Voltam"


Minha terra tem pedras
Que a água fura em fúria
A natureza opressora
Nos mostra a nossa pequenez absurda

***

Minha terra tem araucárias
E no entardecer dançam no céu andorinhas
Os pinhos aqui quase se dobram
Ao encarar a ventania

**

Minha terra tem rios
E córregos que correm com esgoto a céu aberto
Sua cor muda de tempos em tempos
E o cheiro é sempre fétido

***

Minha terra tem campos verdes
E o céu noturno é rosa quando chove
O frio do inverno
Vem do Minuano que aqui morre

***

Minha terra se diz: "a capital regional do comércio"
Mas sem oportunidades nem emprego 
Fica difícil saber
Se somos só hipócritas ou apenas néscios

***

Minha terra é fértil e próspera
E carrega consigo uma rica história
Nos paralelepípedos à Sorocabana
Lições que não se aprendem na escola

***

Minha terra tem gente pobre com esperança
Que trabalha e sobrevive e dança
Dá-se um jeito para tudo
Menos na ignorância

***

Minha terra tem lugar para todos
Mas há quem não goste de conviver com o povo
Bairristas e coronelistas
Nós não gostamos de quem somos

***

Não permita que Deus decida
Quando e se você fica ou volta
Estamos longe demais das capitais, somos tão banais

***

Bonitinhos e ordinários
Mas só aqui as andorinhas
Se jogam suicidas

***

Para adentrar a gruta na hora vespertina
Se você aprender a cantar a sua aldeia
Não há exílio que te reprima

segunda-feira, 5 de agosto de 2019

O Equilibrista Bêbado


Eu não sou equilibrado
Eu me equilibro apesar da vida descompensada
O bêbado e o equilibrista são um só dançando nas alturas
Abaixo está o abismo que traga as coisas que ficaram para trás
Um precipício que leva tudo que pesa, não há como evitar

Os altos e baixos da vida me balançam como terremotos
É impossível não escorregar, não cometer erros, não ficar por um fio
Eu sei que não há redes de segurança lá embaixo se eu cair
Mas há ventos de esperança que me ajudam a me reerguer
Anjos em minha volta que me perdoam se eu perder

De onde eu vim e para onde eu vou é tudo um mistério
Cada passo é em falso e o fim da linha certo
Então o agora é o melhor que espero

O passado me ensinou e eu não caio mais nas mesmas armadilhas
O futuro é cheio de esperança enquanto eu tiver a sua companhia
A vida é para ser vivida e estou feliz por te ter na minha

quinta-feira, 25 de julho de 2019

Escrever



Eu escrevo por ímpeto, por impulso
Como quem se entrega ao submundo
E com a loucura em meu útero
Eu semeio e fecundo

Eu escrevo por empáfia, por insulto
Como quem ama o imundo
E com a sujeira e húmus
Eu tinjo as palavras, impuro

Eu escrevo por amor, por Saturno
Como quem desafia o tempo e o turno
E com a alma eternizada de nada
Abro a urna sem fundo

Eu escrevo por escrever, sem rumo
Como quem perde o prumo
E com as mãos vazias e trêmulas
Sorve o último sumo

Eu escrevo por tesão, derrubo muros
Como quem erige em acúmulo
E com os dedos cava a alma
Até enterrar-se em seu túmulo

Eu escrevo porque quero, com um murro
Na boca de quem é idiota, burro
E com o sangue derramado
Deixo de me sentir tão puto

E por isso acabo aqui, não me curvo
O show não pode continuar no escuro
Encaro a vida, o grande absurdo
Para não ceder ao luto, eu luto

quinta-feira, 16 de maio de 2019

CHAMADO À BALBÚRDIA


Ante a disciplina dos submissos
Invoque a doutrina da rebeldia
Desobediência à ordem
Uma batalha por dia

Escolha o lado da luta
De quem vive a trincheira das ruas
Do gueto, do preto, do viado, do índio,
da mulher, do maconheiro, da puta
Defenda a liberdade, abaixo à censura

As balas, armas e fardas
São o discurso da covardia
Estupidez em massa
Filósofos da demagogia

Inofensivos no debate
Cada soldado que ataca sabe
Que são frágeis neste combate
Fatos vencem mitos em todo embate

Calar os que pensam
Cegar os que acreditam sem duvidar
E ensurdecer aqueles que destoam do coro
Nesta conversão de tolos
Resista como o povo, sem foro privilegiado
Onde moro não há Moro

Nem todo político é ladrão
Nem todo preso é bandido
Mas todo ladrão que é político
Diz que o cassetete é a solução
E teme, como Temer, a educação
Tentam castrar a nação
Negando o pensar à próxima geração

A pena é mais afiada que a espada
Aqueles que perdem tudo
Não temem mais nada

Anos no congresso como um parasita sanguessuga
Incitando o ódio por de trás das urnas
Você vai ver o que é realmente balbúrdia