presume-se que a mulher na janela seja Alexandrina
Edwiga renomeada
como Elvira morreu depois de um parto feito no meio do mato. Seu marido abria
estradas de ferro e levava junto sua família para os confins do interior do
país. Ela ficava a maior parte do tempo sozinha com as crianças e a mãe. Foi
assim que Elvira deu à luz a um bebê e perdeu sua vida. A criança morreria de
fome uma semana depois.
A mãe de Elvira,
avó de Alexandrina, ao acolher o neto nos braços disse tristemente para que a
filha morta levasse o filho junto porque naquele fim de mundo ninguém seria
capaz de mantê-lo vivo. A mãe teve que enterrar a filha e o neto enquanto
cuidava dos demais netos desamparados até o genro retornar e descobrir o que
acontecera com sua família.
***
A mãe de Elvira
e outros membros da família não conseguiram suportar os sacrifícios que o
inferno verde dos trópicos exigia e tentaram voltar para a Rússia. Sendo
considerados traidores de sua terra pelo regime comunista eles acabaram por se
estabelecer na Polônia. Os demais parentes de Alexandrina que permaneceram aqui
continuaram a trocar cartas com a família além-mar por décadas.
***
O irmão de
Alexandrina, Luís Poss Filho, morreu aos dezoito anos enquanto trabalhava
derrubando árvores. Luís foi esmagado por um tronco imenso que tombou sobre ele.
Pai e filho deram suas vidas para abrir caminho ao progresso da era moderna do
Brasil.
***
O pai de
Alexandrina que perdera a esposa e o filho enquanto abria caminho para os trens
encontrara seu fim no dia treze de março. Elvira teria profetizado em um
momento de predestinação, semelhante ao que Alexandrina experimentara na viagem,
a data da morte do marido.
A cada ano que
essa data passava o velho Luís Poss sabia que tinha mais um ano de vida já que
realmente acreditava nas palavras proferidas por sua esposa até que enfim
chegou sua hora. Luís prometera a Elvira que se caso ele a perdesse ele não se
casaria novamente e manteve sua palavra morrendo viúvo no dia em que ela
determinara.
***
da esquerda para a direita o quarto homem é João
Doscka Klimek
Alexandrina
casou-se com João Doscka Klimek, nascido em Almirante Tamandaré,
Paraná, descendente dos camponeses da Prússia. Abridor de rodovias e estradas
como seu pai, João fez nela onze filhos, sendo cinco homens e seis mulheres. No
início de suas vidas eles foram morar em um sítio a pedido de Alexandrina já
que ela vinha de uma família de camponeses e conhecia o trabalho do campo.
João mal parava
em casa e quando ia embora deixava mais um filho dentro de Alexandrina. Certa
vez em uma de suas visitas ao ver a situação precária da família teria
aconselhado à esposa que ela e os filhos comessem pedra para saciar a fome
demonstrando o desacordo em deixar uma mulher cuidar da casa e da terra.
Segundo
Alexandrina este comentário demonstrava o desapreço do marido à sua capacidade
de cuidar da casa, dos filhos e do plantio revelando sua posição contrária em
relação a adquirir aquela propriedade e deixar que uma mulher ficasse
responsável por ela. Ao retornar outra vez João se deparou com a fartura da
horta regada ao sangue, suor e lágrimas de Alexandrina que se vingou das
palavras do cônjuge lhe oferecendo um banquete.
Alexandrina
criou e cuidou dos filhos sozinha. Um menino morreu um tempo depois de nascer e
outro aos sete anos. João Klimek teve relacionamentos extraconjugais e seus
filhos vivem espalhados pelo interior.
Ele fora
descrito por Alexandrina como um homem ausente, frio com quem ela manteve um
relacionamento sem convivência durante décadas pelo bem dos filhos. Assim que a
última filha se casou Alexandrina imediatamente se separou de João pondo um fim
ao casamento infeliz.
Mesmo sendo o
divórcio algo tão contrário aos preceitos religiosos cristãos que Alexandrina
acreditava, sua vida e liberdade estavam acima destas crenças e ela após aturar
tanta coisa finalmente teve sua paz ao viver independentemente.
Ao menos João
deixou para Alexandrina a casa em Itararé onde ela viveu até o fim da vida. Alexandrina
faleceu em mil novecentos e noventa e oito morando sozinha e rezando o terço
todos os dias.
Alexandrina, seu filho Valdomiro e família