Quando criança, durante as noites de chuva de verão, a luz caía em casa durante as tempestades e a gente saía correndo vasculhando gavetas para encontrar velas e acabava jantando tal qual o ideal de um encontro romântico, à luz de velas.
Depois de comer o arroz, o feijão e o frango, saciados, mas ainda ao redor da mesa pesada de madeira, a gente então partia para sobremesa e começava a pedir para o meu avô, Sebastião, para nos contar sobre suas histórias de "visagens".
Ele, de tudo um pouco na vida - marceneiro, pedreiro, eletricista, fotógrafo, caminhoneiro, pescador, entre tantas outras profissões e talentos - era, para mim, acima de tudo um grande contador de histórias.
Meu avô se recusava à princípio, dizendo que não gostava de falar daquelas coisas e que não era bom tocar no assunto porque aquilo atraía o mal, nos aconselhando a desistir; porém nós sabíamos que aquilo era pura mise-en-scène e a recusa fazia parte do estabelecimento do tom e construção do drama.
De bucho cheio aquele momento mágico era mais doce que qualquer comida, uma reunião em família onde adultos e criança partilhavam de uma conexão especial entre luz e sombra tais quais os nossos ancestraris ao redor de fogueiras.
Não lembro quando foi a primeira vez que ouvi suas histórias, nem quando a luz apagou pela primeira vez, contudo foram tantas vezes que isto se repetiu durante a minha infância que as trevas e a chuva pareciam conjurar uma realidade paralela repleta de segredos, mistério e relatos bizarros.
É bom deixar claro que meu avô levava muito a sério a banca de destemido, dizia enfrentar qualquer perigo da estrada e da vida sem titubear, porém quando a ameaça era sobrenatural ele não tinha vergonha de demonstrar sua hesitação e consternação, o que me impressionava mais ainda.
Seu repertório incluía de tudo um pouco, lobisomem, saci, boitatá, mula-sem-cabeça, mãe d'ouro...
Mas uma das histórias que mais me marcaram eram as de bruxas, especialmente a que vou contar agora, que teria sido contada ao meu avô por seus pais.
Quando ele nasceu, no sítio, viviam seus pais em um pedaço de terra nos confins do mundo, isolados, tirando o sustento da terra e mantinham alguns animais para consumo próprio ou para fins de escambo com vizinhos.
Naquela época, com o meu avô recém-nascido (o primeiro de uma renca de crianças), eles tinham uma cabritinha que estava prestes a parir e ela por ser muito novinha, necessitaria de auxílio no parto e se eles não a ajudassem, corriam o risco de perder algum cabritinho ou mesmo a mãe, coisa que eles não podiam se dar o luxo.
Sendo assim, quando ouviram no fim da tarde os balidos da bichinha, se arrumaram e foram atrás tentar achá-la já que é comum que para dar a luz, as fêmeas do mundo animal se escondam tentando encontrar algum lugar seguro e longe dos perigos para trazer ao mundo seus filhos.
O pai de meu avô procurou a cabritinha ao redor da casa, sem sucesso, e foi quando o desespero começava a aflorar, a mãe dele ouviu o barulho da cabritinha mais ao longe e eles logo se apressaram para correr atrás.
Foi quando cruzaram todo o terreno e ouviram seu choro do outro lado da cerca e o pai do meu avô já ia se aprontar para pular por sobre ela quando a mãe de meu avô foi invadida por um pensamento sinistro logo quando os últimos raios de sol se despediam: "_O Sebastião está sozinho em casa!".
Entenderam ao mesmo tempo que a cabritinha grávida seria incapaz de pular aquela cerca e que não era ela quem os chamava e atraía para fora de suas terras.
Os dois se arrepiaram ao constatar que algo estava os levando para fora de sua propriedade, longe o bastante para eles não terem tempo de retornar, deixando a criança indefesa abandonada em casa, pronta para ser levada por forças malignas.
E só um ser poderia imitar o barulho dos animais e possuía uma inteligência maliciosa para traçar um truque maquiavélico daqueles, uma criatura que desejava o sangue dos bebês humanos para fazer poções e aniquilar a inocência: uma bruxa.
Voltaram que voltaram que nem um raio, a mãe de meu avô já rezando e quando chegaram em casa e encontraram o filho são e salvo, se ajoelharam diante do berço, agradecendo aos céus.
Não voltaram a sair naquela noite e na manhã seguinte descobriram a cabritinha tranquila, ainda barriguda, passeando por alli, sem saber que havia sido usada como artimanha de uma entidade para tentar afastar os pais de seu filho.
Meu avô contava tudo isso com um semblante sério e eu, que desde cedo pendia para uma visão cínica e cética da vida, me perguntava qual seria a sua motivação de nos contar aquela história se aquilo realmente não fosse verdade?
Segundo ele, seus pais haviam lhe contado aquele fato e não faria sentido um homem adulto, já idoso, gastar tempo e energia para nos enganar com uma falsa história - e esta reflexão me levava a concluir que aquilo só poderia ser verdade e que não existia motivo para o meu avô mentir.
Hoje eu sei que sim, claro que tinha motivo.
O motivo é contar uma história e convencer os outros de que ela é real, causar os sentimentos e sensações desejados e parecer tão crível que o seu público, de fato, confia em você ao ponto de não imaginar que você seria capaz de enganá-lo: o ápice da literatura.
Foi assim que aprendi a arte da enganação ao escrever, atráves de meu avô e sua aura mística nas noites de tempestade, à luz de velas, sentado à mesa de madeira pesada que ele mesmo fizera, na copa da casa que ele construíra.
Um verdadeiro construtor de mundos.











