domingo, 13 de julho de 2008

O Jardineiro


“Porque tu és pó, e em pó hás de tornar”
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Gênesis, cap 3, ver 19
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A perdição da humanidade começou com um fruto, o fruto proibido da consciência do Bem e do Mal que a serpente ofereceu a Eva. Assim ao menos, ensinam os padres. Mas antes de ser fruto, ele haveria de ter sido flor, a mais bela de todas, do mesmo modo como o fruto proibido era o mais suculento dos frutos de todo o paraíso. Uma flor não precisa de engodo para que alguém queira colhê-la, sua beleza é suficiente por si só. A flor foi feita para chamar a atenção, órgão sexual das plantas, arma de sedução da natureza. E se ao invés do fruto, Eva tivesse colhido a flor da Árvore do Conhecimento? Teria Deus a condenado? Deus me condenará por trazer os homens ao pó, se nessa terra amaldiçoada eles agem como se já estivessem no inferno? Eu acho que não. Apenas destruo as ervas daninhas do Jardim do Éden, para que o perfume, as cores e a beleza das flores não se percam em meio à hera.
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O Jardineiro
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Em uma brincadeira há algum tempo atrás, eu ganhei um apelido de "Jardineiro Psicopata" por agir de uma forma, como alguns diriam, ciumenta. E, pensando a respeito, eu comecei a imaginar como seria uma figura assim, que combinasse tanta delicadeza e crueldade em um único indivíduo. Até que finalmente, algo começa a fazer sentido. Um novo personagem está para nascer, talvez demore um pouco, mas a idéia está bem clara. Eu sempre gostei de filmes com histórias policiais e de suspense, como Se7en, e de personagens psicopatas como Hannibal, da sequência de filmes que começou com o Silêncio dos Inocentes. Jack Nicholson interpretando o escritor enlouquecido no filme Iluminado, perambulando pelo labirinto com um machado, é também uma imagem que nunca esqueci. Agora quero tentar criar o meu próprio monstro e me arriscar a me colocar no lugar de uma mente perturbada como a desses ícones da literatura e cinema. Que me perdoem os leitores, pois estou prestes a dar vida a um assassino.

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Valdecir Ravazi


Nosso amor morreu
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Ela disse:
“Mal o nosso amor morreu, e seu coração já arrumou outros!”
Então respondi:
Meu coração não arrumou nada.
Estes amores aqui, apenas vieram para o enterro,
Daquele que morreu.
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Os Amantes
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Eles chegaram de mãos dadas,
sem identidade e com um destino certo.
Por alguns instantes ela foi à musa e ele o poeta
Naquele divã um sonho se efetivou e
seus papeis foram bem interpretados.
Eles se esqueceram do passado e da nova vida
que iria começar, só pensaram no presente.
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Abraçaram-se sentindo o calor um do outro.
Ele a tocou, deixando-a afoita.
Os carinhos nasceram e aos poucos aumentaram.
Colheram flores e as beijaram.
Bem me quer e mal não quer,
enunciaram seus lábios encostando-se.
Despiram-se.
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E a lua recatou-se,
fechou os olhos para não ver o que estava acontecendo.
Os namorados, no estremecer dos corpos,
mataram o desejo dos corações apaixonados.
E no cair daquela noite silenciosa,
os gemidos e os sussurros acabaram surgindo.
O amor aconteceu naturalmente.
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As pessoas que por ali passaram se horrorizaram,
mas os amantes riram com tal presente magnífico.
A ninfa virou uma deusa e a paz reinou no colo amado.
O suor molhou seus corpos quentes
e no calor daquela noite cega eles descansaram.
O nu foi coberto pelos abraços.
A vida veio trilhar de novo e o destino se cumpriu.
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Como havia pouca luz eles não me viram.
Só viram um céu sem estrelas, pedras removidas da calçada e a fonte,
que também estava descansando.
Os amantes foram embora e o palco das emoções ficou solitário.
O fantástico acabou e os montes sumiram na escuridão
Só ficaram o perfume das flores vivas no jardim e
o choro das flores esmagadas no chão.
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Esses são dois poemas de Valdecir Ravazi, escritor de Tupã que assim como Duran, conheci através do Mapa Cultural. Contista e poeta, Valdecir tem um olhar muito agradável ao escrever e falar sobre o cotidiano, com a perspicácia de um cronista. Sua poesia vai além e mostra uma delicadeza e sensibilidade agudas, um ar de riso e de lirismo invade os versos e marca os poemas, tanto quanto a sua visão singular transparece na prosa. Escritor e amigo com seu jeito próprio, que eu tenho imenso prazer em apresentar para aqueles que se aventuram a ler o que aqui posto. O Valdecir ainda vai ser visto mais vezes por aqui, com certeza.

terça-feira, 17 de junho de 2008

SONATA


Sonata
...baseado em fantasias reais...
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Prelúdio
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Ela, sem objeção alguma, sem perguntas, permitiu ser vendada por ele. E carinhosamente ele cobriu aqueles belos olhos rasgados com uma venda de seda negra. Os olhos que apenas em fitá-lo excitavam-lhe porque traduziam, sem a necessidade de palavras, quando ela estava molhada de tesão, esperando por ele. E que o olhavam pedindo por ele nas situações mais improváveis, o que o surpreendia e encantava. Ele encontrara a mulher perfeita, uma cadela de cio interminável que o satisfazia à exaustão. Rodaram pela noite fria, pelas ruas e avenidas labirínticas até ela perder o sentido de tempo e direção. Não perguntou nada durante o trajeto, obedientemente rebelde. Uma oportunidade dela para mostrar quem estava no controle. Seu silêncio o incomodaria mais; ela não vestia qualquer personagem para agradá-lo, porque o que ele mais gostava nela era seu tom desafiador, subversivo e indecente de ser. E ela gostava de se comportar assim, para ao mesmo tempo desafiá-lo a domá-la e para dizer que só ele era capaz disso. Enfim estacionaram. Silêncio absoluto. Nem parecia que ainda estavam na cidade. Não havia nada que pudesse denunciar sua localização ou o que ele pretendia. Sempre sendo conduzida pelas mãos, ela sentia o frio e a umidade da noite tocando sua pele, arrepiando os pêlos. Ele a encostou contra a parede e começou a acariciar seu sexo. Deveriam estar em algum beco, em algum canto escuro e esquecido. Beijava-a com sede enquanto seus dedos, por baixo do vestido que ela usava sem calcinha, a pedido dele, se escondiam dentro do calor do seu corpo. Suas intenções eram as piores possíveis e ela gostava disso. Excitava-se ao correr riscos. Ao sentir os dedos molharem, ele parou abruptamente; ela sabia que ele sorria aquele sorriso perverso. Ao menos ele permitiu a ela a oportunidade de experimentar a própria libido que começava a escorrer por entre as coxas. Ela não deixou por menos e, aceitando o convite para o jogo de sedução, lambeu languidamente os dedos dele, gemendo baixo. A língua viva e quente o incitava a deixá-la experimentar algo mais que seus dedos. Eles adoravam se provocar. Principalmente quando havia alguma chance de serem surpreendidos no meio das carícias. Mas não estavam ali para isso e ele não lhe daria esse gosto. Não ainda.
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O Teatro
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Saíram de onde estavam e entraram por uma pesada porta enferrujada fechada à corrente, que ele abriu com o cuidado de um invasor. Seguiram e de repente, uma breve pausa na caminhada ligeira; ele pediu a ela, sussurrando em seu ouvido, que o acompanhasse mais furtivamente dali em diante. Retirou o par de saltos dela e continuaram. Os pés sentiram o carpete macio.
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“Onde ele estaria me levando?”
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Abafado pelas paredes e passagens das coxias e camarins, uma música ganhava forma na melodia delicada que se insinuava à medida que eles se aproximavam, até que ela não sentiu mais a proximidade das paredes ao seu redor. A acústica do teatro reverberava cada nota tocada pelos dedos hábeis, distribuindo a sinfonia igualmente por todos os cantos. Ela imediatamente parou, hipnotizada. Ora cristalinos, ora graves, os sons compunham uma dança de luz e trevas que a entorpecera. Ela poderia ficar ali, eternamente, embalada pela música do piano, sem ver, somente sendo alimentada pelos ouvidos, sem coragem de se aproximar, sem coragem de se afastar. Ele, que não contava com essa reação, a tirou do transe com um sacudir brusco. Por um instante, todo o trabalho que ele teve para satisfazê-la foi ameaçado por uma ação impensada. Não havia como disfarçar a raiva momentânea que se apoderou dela, por ele tê-la privado do êxtase que experimentava. E o ódio da ameaça de ter seu plano desfeito por uma armadilha da sensibilidade feminina, também o irritou, quase o cegando. Sem precisar de explicação, como verdadeiros cúmplices, ele não precisou dizer que não poderiam discutir ou denunciar sua presença: eram intrusos e não podiam ser expostos. Porém ele sabia como desfazer o embaraço, e com um beijo profundo e longo, resgatou a verdade deles, de estarem juntos, da paixão que os transformava em animais. Ela tremia em seus braços, pois por mais que conhecesse seu homem, sabia que ele havia preparado algo realmente grande dessa vez, e a expectativa a deixava nervosa e ansiosa. A espontaneidade inata dele, escondia sua capacidade maquiavélica de planejar. Aliando seu comportamento com sua ousadia, podia-se dizer que ele era capaz de tudo.
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O Pianista
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Salvos de si mesmos, ele a conduziu por entre as sombras das poltronas da platéia, ela sempre vendada, a luz opaca mais próxima. O piano soava mais perto, capaz de dominar tanto quanto a flauta de um encantador de serpentes. Quando estavam ao lado do palco, somente um holofote de luz baixa iluminava o homem de óculos escuros e fraque. Os dedos interromperam o balé sobre o marfim e o ônix. A respiração ficou suspensa. O pianista suspirou, como se recobrasse as forças para concluir uma tarefa incômoda e penosa, afugentando fantasmas. Apagou o cigarro no cinzeiro de prata acima do piano e acendeu outro. Tateou com a mão direita ao lado de sua banqueta, procurando uma garrafa de vinho tinto já pela metade e se serviu dele. A música voltou a falar por ele. Por um segundo, ela pensou que seriam pegos, que finalmente a brincadeira de se exibir iria deixar de ser divertida para tornar-se um pesadelo. Ela, então, entendeu de uma só vez o que ele pretendia. Na intimidade da cama, certa vez confessou que tinha a fantasia de ser currada sobre um piano, ao som de alguma bela sonata, para convulsionar de orgasmo no ápice da composição, tendo os gritos abafados por beijos esfomeados, que mastigam os lábios e misturam o sangue à saliva. Entretanto, ela nunca imaginou que pudesse realizar esse sonho. Revelou o segredo porque sabia que isso o excitaria. Seu fetiche com o piano de cauda devia-se a seu primeiro namorado e primeiro homem, que tocava piano e que com ela estreou o gozo. Toda fantasia corre o risco de deixar de ser lírica, ao passar do onírico ao real. A tragédia de qualquer utopia. Quanto mais as sexuais.
Aquele medo contemplativo de antes, retornou mais profundo e sólido, misturado com uma sensação absurda de prazer que a tomou sem pedir permissão. Ela percebeu que não havia como voltar atrás. Estavam a ponto de tentar a maior ousadia que já foram capazes; todos têm limites e os de ambos seriam testados aquela noite. O que sobrasse após, estava fadado a ser sublime ou uma ruína. E sem alternativa, ela se entregou aos instintos, em febre, calando a razão e o medo.
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Interlúdio
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Ele deu-lhe a mão para ela beijar e os dedos para sugar, para calá-la, para silenciar os murmúrios de sofrimento da tortura que ele estava prestes a aplicar. Ele a deitou e mergulhou o rosto nas pernas trêmulas, sua língua a abrir caminho pelas pétalas rubras, em fogo. Ela sempre se molhava facilmente, assim como bastava um olhar ou mesmo uma brisa que convidasse os cachos vermelhos dela para dançar, para fazê-lo perder a cabeça. Porém, os dois estavam perplexos de como a situação os estimulava. Um dedo, procurando o calor e a umidade para acariciá-la onde ela era mais sensível, dois, três dedos e a língua, todos a serviço da mais cruel das torturas. Ela cravava os dentes na mão dele, para afogar os soluços que brotavam do seu ventre e respondiam pela garganta se espalhando pelo corpo inteiro, implorando pelo outro corpo para alimentar a sua necessidade de sexo. As unhas afiadas, aceradas e vermelhas como seus cabelos, seguravam firmes os cabelos dele; uma forma de tentar retribuir e controlar o tesão, o gozo, o orgasmo. Tantos tentaram fazê-la gozar sem invadi-la, sem sucesso, impacientes amantes que apenas queriam foder e voltar sozinhos para casa, mais leves. Até ele se arriscar. Sem pressa, ele descobriu onde e como ela gostava mais, e ao invés de se impacientar com a escalada da progressão do orgasmo, ele se excitava exatamente com a demora. Com o poder de torturá-la longamente, prolongando o quanto pudesse o tempo que ela precisava para o rio de fogo que escorria por suas pernas abrir-se e inundar sua boca, seu rosto, sua barba. O cheiro do sexo excitado, vermelho e ferido pela barba, era uma fragrância afrodisíaca que os enlouquecia. Entretanto, como não teriam tempo para se devorar pela noite adentro, ele a deixou a beira do precipício de aniquilação e parou. Ela, espumante, pedia clemência, seu rosto contorcido como uma viciada que rasteja por mais um pouco de sua droga. Ela avançou em um bote rápido procurando livrar a roupa que separava o membro dele da boca dela. Ele não poderia se defender do beijo, paraíso osculante que só ela sabia dar. Por isso antes que ela alcançasse o que desejava, ele segurou suas mãos com força e a ajudou a levantar-se dizendo no fundo do seu ouvido:
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“_A gente só termina isso se for no piano, como você disse que queria.”
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Ao Piano
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Acobertados pela música que crescia em sua magnitude e potência, puderam, ele e ela, subir os degraus e se aproximarem no escuro até o piano e seu pianista. E ela se viu livre subitamente de sua venda e entre a luz e a escuridão, contemplou a figura solitária sentada à frente do piano de cauda negro e lustroso. Seu rosto era o de alguém que sofre em silêncio, angustiado, sutil e sereno. Como quem espera algo especial que o distraia de seu próprio enfado do talento, degustando alguma ferida antiga. Não se podia ler em sua expressão nenhum resquício que revelasse o que se passava em seus pensamentos, um enigma. As janelas de sua alma estavam hermeticamente fechadas. O cabelo desalinhado contrastava com a bela indumentária; o vaidoso músico, mesmo ensaiando sozinho no teatro antigo em reforma, gostava de ostentar boa aparência. E os ignorava, cego. Ela percebeu a ardilosa artimanha do seu homem para conseguir realizar a sua fantasia. Ele havia se superado, sem sombra de dúvida. Ele a beijou e a colocou inclinada na borda da cauda do piano e levantou o seu vestido. Suas mãos firmes agarraram seu quadril, fazendo com que ficasse totalmente empinada. Gostava de vê-la sem o olhar pernicioso de quem está no controle da situação. Ela, sem emitir som, pronunciou para ele ler em seus lábios o pedido:
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“_Me fode...”
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Ele lhe deu um tapa no rosto, de leve, e fez da venda uma mordaça para ela. Entrou com gosto, fundo, dentro dela, que gemeu de satisfação. Mesmo com a mordaça, um vestígio de gemido escapou e se misturou à música. Como era belo o seu rosto ao ser comida: em seu semblante mil mulheres se mostravam. Desde a puta que gostava de levar tapas e provocar, à menina-mulher que sofria, como sofreu desde o primeiro instante com o pianista, de prazer. Nenhum homem ficaria imune à visão dela, fêmea bela e profana, sofrendo a delícia indecente de se mostrar e amar, em conluio corajoso e sem-vergonha. Sem culpa de ser boa.
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Revelação
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Quando a cavalgada se encaminhava para o fim que toda cavalgada como aquela termina, de orgasmo, júbilo e derrota, ele vacilou. Afastou-se, como se tivesse asco, como se não suportasse mais. Ela não entendeu, até mirar o pianista. A música, que no calor dos movimentos ela não reparava mais, estava mais simples, ainda extremamente bela, mas sua composição havia se tornado tão minimalista que só se o músico estivesse tocando com uma mão apenas ele conseguiria aquele efeito. E seu rosto, retraído, como quem sofre de uma angústia enorme, respondeu o porquê seu homem hesitara: a sua armadilha lhe enganara, o pianista não era cego. Ela percebeu no rosto do seu amante que ele sabia e que firmara um acordo para colocá-la naquela situação para realizar sua fantasia, para vencer esse desafio e chegar ao limite do exibicionismo. Ela jamais aceitaria se ele tivesse proposto antes que se mostrarem para um voyeur, pensava ele. Então, ele tentou realizar a fantasia dele, sob o pretexto de realizar a dela, e agora que havia ultrapassado o limite, via que não seria capaz de realizar seus intentos. Qual não foi a decepção dele ao perceber que ainda havia convenções em seu coração até então despudorado. Convenção não, ciúme. O pianista, por sua vez, também foi surpreendido. O que ele queria era estar ali e ser completamente ignorado. Esse era o trato: deveria enredá-los em sua música sem interromper ou se intrometer. Assistiria a sua música personificada na paixão do casal à sua frente. Testemunhar, esse era o seu papel a que tinha direito. Nem mais nem menos. Mas resistir àquela mulher era impossível. O namorado desviou o olhar, não podendo encarar a própria mulher. O pianista fez menção de fugir. E ela, brasa ardente, sedenta e esfomeada, provocantemente provocada, indecentemente deliciosa, ainda esperava para ser satisfeita. Ela estava tomada por uma súcubo que queria ser possuída. Sentia-se traída e irada pela desconfiança e por ter sido subestimada pelo próprio companheiro. Mal sabia ele que ela era mais desavergonhada do que ele sequer poderia imaginar. E ela faria com que ele aprendesse isso, da pior forma possível.
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Vingança
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Servir a dois homens, para a mulher, é ser escrava erótica. Diferentemente da supremacia da fantasia masculina de ter duas mulheres para satisfazê-los. O anseio de quebrar todas as correntes e afogar aqueles dois homens no fundo do poço, que em segredo a enganaram para satisfazer suas taras secretas, era maior do que o seu amor-próprio. Levada pelo instinto de vingança de mulher magoada, ela deu início ao ménage à trois. Sem permitir que o pianista fugisse, o hipnotizando com os seus olhos de feitiço serpentário, da mesma forma que a música a hipnotizara, ela se aproximou dele, apagou o cigarro e o beijou longamente, dando-lhe um banho de saliva. Ajoelhou-se a sua frente, bebeu o resto do vinho para não hesitar e fervorosa em sua prece, engoliu o pianista que, desacreditado, experimentava o desgosto de estar em uma situação que ele não esperava e não queria, e a surpresa de estar adorando isso.
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“_Vladimir, meu nome é Vladimir...”
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Ela não se conteve ao ver aquele sacana tão vulnerável, ela não perguntara nem queria saber o nome dele. Eles nunca teriam intimidade, esperava nunca mais vê-lo depois de terminar o que precisava ser terminado. Talvez tenha sido o sorriso de vitória sedutora em dominar os dominadores, de puta mesmo, que ela fazia nessas situações. O que importa é que, subitamente, ao ver aquela cena, o namorado que deveria achá-la grotesca, excitou-se de forma bizarra. Descobriu-se mais excitado do que outrora, o que parecia impossível. Lembrou-se de onde foi buscar o comparsa, o tarado para realizar seu exibicionismo imbecil; dos comentários doentios de seus amigos ao indicarem-no; de todo o trabalho e espera para poder ser visto fodendo a sua linda mulher, despertando desejo de um desconhecido. A sensação infantil de fazer com a sua mulher o que outro nunca poderia, de jogar na cara do desconhecido o quanto se amavam e como trepavam gostoso. Sentiu nojo de si mesmo, e masturbando-se, aproximou-se mendigando atenção à própria mulher. Ao ver o namorado derrotado, vencido e humilhado pelo desejo que com certeza ele execrava estar sentindo, ela sentiu-se vingada, embora o seu sucesso tivesse um terrível amargor. Sádica, libertou Vladimir de seu beijo para sentar em seu colo, sentindo-o enterrando-se ao máximo em seu corpo. Pegou suas mãos e as colocou em seu quadril para agarrá-la firme e forte, como o seu namorado gostava de fazer. Vestiu a máscara dominadora, embora quisesse mesmo era chorar. Os três estavam excitados e frustrados, porque haviam perdido o controle e sabiam que assim que acabassem e o frenesi terminasse, se sentiriam culpados por só terem gozado pela necessidade de se humilharem mutuamente. Rebolando em cima do pianista e chupando o namorado, eles ficaram, gemendo, se envenenando, sem coragem de sequer trocar um só olhar. Reféns dos seus corpos, até todos, ao ritmo que ela comandava, se destruírem no maior orgasmo de suas vidas.
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Último Ato
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Quais as palavras para se dizer quando se cai do paraíso para as profundezas do inferno? O pianista se encostou ao piano, com os cotovelos sobre as teclas provocando um barulho quase insuportável. O silêncio quebrado, todavia, era ainda mais insuportável. Ela se limpou rapidamente e sem dizer uma palavra, apenas com um único olhar de adeus para o seu homem, que não era mais seu, despediu-se e foi correndo para fora, lembrando de como chegara até ali. Assim que alcançou a rua, pegou um táxi e voltou para o seu apartamento, chorando copiosamente. O namorado, sem ter coragem para impedi-la, vestiu-se e, deixado a sós com Vladimir, sentiu toda a culpa, raiva, nojo, vergonha, remorso e ódio personificados naquela figura patética que precisava da paixão alheia para conspurcá-la e desse modo, satisfazer-se. Vendo a reação do homem à sua frente, Vladimir ainda tentou se explicar, mas antes que pudesse dizer qualquer coisa, o outro pegou a garrafa de vinho e a arrebentou contra a sua cabeça e, sem defesa, desmaiou esvaindo-se em sangue. Com as pontas afiadas da garrafa quebrada, perfurou várias vezes Vladimir, como que se com cada punhalada, ele pudesse ferir um inimigo que na verdade era ele próprio. Passado o instante de fúria, sem saber o que fazer, vendo as manchas de porra no maldito piano, abriu-o e jogou o seu pianista para o útero de seu instrumento. Seriam um na morte; orgulhou-se da poesia que estava para realizar, fazendo do piano o esquife para o pianista. Empurrou o piano que caiu do palco com a sua tampa da caixa acústica selada contra o chão. Com o isqueiro de Vladimir, acendeu a pira que consumiria o instrumento e seu mestre, desaparecendo nas ruas com o seu carro logo em seguida.
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Ela chegou em casa, nauseada. Despiu-se com nojo do corpo e tomou um banho demorado. Dormiu na banheira, parcialmente imersa na água quente, quando as lágrimas secaram. Acordou no meio da noite, com ânsia, vomitando. Pesadelos acordados e sonhando.
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Ele saiu com o carro, no meio da chuva que começou a cair e entre tentar ligar para o telefone do apartamento dela que ela deixara fora do gancho, do celular, e dirigir, atingiu em cheio o concreto do viaduto caindo com o automóvel de ponta-cabeça na rua abaixo. Preso pelo cinto, desacordado, não conseguiu sair a tempo do meio das ferragens, sendo carbonizado vivo.
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O incêndio criminoso que cremou o pianista vivo foi vencido pela tempestade, sem maiores danos ao teatro. Três meses depois, a orquestra da cidade fez uma bela apresentação com o repertório do músico, em homenagem.
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POSTADO POR E AGORA JOSÉ?

terça-feira, 27 de maio de 2008

O Diabo Visita o Bar do Santo


O DIABO VISITA O BAR DO SANTO
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A consciência tropeçava nos degraus da escada ascendente em espiral entre o sono profundo e o despertar, ao sabor dos sacolejos do ônibus que ganhava a rua principal de paralelepípedos. A claridade amarelada dos postes ia devagar, incômoda, jogando feixes de luz nos porões escuros de sua alma através dos olhos que reviravam. E pouco antes de vir à tona, ele viu de relance no calabouço da memória o segredo há muito esquecido, que ele esperava nunca mais ter que encarar. Olhou para o outro lado, instintivamente, tentando esconder o rosto nas sombras, e viu à esquerda, a Igreja de São Pedro, com suas torres azul-celeste e seu relógio parado, prédio típico dos templos provincianos de São Paulo. Aquele relógio, onde os ponteiros se amavam, um sobre o outro, denunciava que Deus há muito se esquecera daquela cidadezinha. Em Itararé sempre é meia-noite. Na praça, em frente à igreja, jovens tocavam violão e bebiam cachaça com refrigerante barato, cantando Legião Urbana e Raul Seixas. Enfim, o carro parou em frente a um bar, numa freada que fez o estômago do único passageiro dar voltas. Da janela via-se no letreiro o nome do estabelecimento: Bar Tropical. Uma súbita sede nervosa acompanhada de um pigarro enervante fez sua garganta arranhar; se não fosse isso, o nome nada condizente com o aspecto do ponto, decrépito, ao menos assim parecia aos olhos do recém-chegado, provavelmente desenharia um esboço de um sorriso malicioso no rosto transformado em carranca, disforme, daquele homem. Sua boca era uma caverna desértica onde um verme desidratado se debatia em meio a dentes afiados. Ressuscitar da letargia imposta pelos remédios se fazia necessário e praticamente impossível. Qualquer lugar serve para quem não sabe aonde ir, pensou. A passagem era para adiante, o mais longe possível, mas assim como não queria se lembrar de onde viera, tão pouco o destino lhe interessava. Tirando força das pernas dormentes, ergueu-se, apoiando-se nos bancos, caminhando cambaleante, exausto, para fora. Cada degrau para descer provocava vertigem, sentia que poderia desmaiar a qualquer momento. A dor é universal.
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Na esquina um grupo de rapazes bebia debaixo do luminoso de uma ótica, jogados pela calçada. Eles queriam esquecer o que viam, ou ver além da sarjeta através da revelação do álcool. A Praça São Pedro e os arredores formavam o coração pulsante e agonizante da cidade, onde bares amontoavam-se nas esquinas; pequenos refúgios para mascarar o tédio de se viver em meio ao nada.
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“Sorvetes, Massa, Picolé, Moreninha” - eis a recepção que o forasteiro teve, de uma placa simpático-patética, com letras coloridas quase circenses, que anunciavam as delícias geladas em frente a um freezer. A náusea repentina o obrigou a procurar sustento no poste, pintado de branco da base até a mais ou menos um terço de sua altura. O gosto azedo do vômito subiu para a boca, mas ele conseguiu engolir seu veneno a tempo.
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“_O que diabos seria Moreninha?” A curiosidade infantil revolveu as cinzas de seus sentimentos sem lhe pedir permissão.
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Sua aparência era horrível, seu rosto transparecia doença, descuido, desgraça. O ar noturno trazia em si o frio de uma garoa que aspergia sobre as ruas delicada umidade, perfeita para provocar os pulmões frágeis que quase imediatamente se fecharam, implorando à alma que levasse o corpo para algum abrigo do sereno. Se ao menos o toldo marrom-poeira estivesse aberto, ele não seria obrigado a entrar. Do lado do bar, uma retrosaria¹ com fachada de vidro e marquise que se transformava em varanda para o andar acima, refletia a calçada praticamente inteira ocupada por jovens, quase todos com um copo descartável na mão. Sem escolha, ele avançou bar adentro sob o olhar curioso dos senhores que se acomodavam em um pequeno banco de madeira ao lado da entrada, fingindo não se surpreenderem pela figura triste e maliciosa que cruzava por eles.
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No exato instante em que seus pés tocaram o piso escuro e sujo de bitucas de cigarro e outras raspas e restos dos freqüentadores, ele percebeu que havia alguma coisa diferente naquele lugar; por sorte, no canto esquerdo, logo após a entrada, um banco de ferro desocupado parecia esperar-lhe, como que reservado pela divina providência, em frente ao balcão de cor creme. Escondido e em paz, dali ele poderia observar sem dar na vista, o ambiente que o acaso havia preparado para ser o cenário de sua auto-piedade e flagelação mental. A sua última fuga antes do fim, quando sua alma estaria de vez além de qualquer intervenção.
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As paredes eram de um tablado antigo envernizado, que davam um ar de taverna ao boteco, um charme singular, que mesmo aquele homem ressentido com a vida teve que reconhecer. Acima desse tablado, uma pintura descorada de um verde-claro, desbotado pelo tempo, manchado, recobria a argamassa até o teto alto, cinzento. O proprietário do bar quis tornar a bodega algo mais do que um santuário profano dos infelizes e dos ébrios, dar-lhe um clima familiar, com sorvetes e esperança. Tentativa obviamente frustrada, mas sem deixar de ser surpreendente e hilária. Essa conclusão inesperada ante a análise do interior do tal “Bar Tropical” fez o estranho sorrir, sua resistência ao humor adquirida pela mágoa reunida anos a fio não conseguiu impedir que esse sorriso se abrisse em seu rosto de barba por fazer. E ele saiu menos malicioso do que ele supôs anteriormente quando avistou a entrada ainda de dentro do ônibus. De fato, aquele não era um bar comum.
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A televisão fixada em um suporte exatamente sobre o canto em que o pobre sentara dizia: “Fala que eu te escuto” em um tom de cumplicidade forçada. Com certeza, assistir àquela programação não era uma escolha da clientela que ignorava por completo a pregação e sim uma imposição do dono do estabelecimento, que tinha por religião crer em Cristo através do poder de Satanás. Deus e o diabo se confundiam; no fundo do poço pode haver salvação? A dúvida que destrói a fé do fanático também abala o frio ceticismo do ateu. Dúvida é o que nos une, a dor e a dúvida.
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A velha guarda boemia ficava na frente, sentados ou escorados, olhando o movimento da rua, os passantes, transeuntes e meninas novas. Velhos meninos que brincavam - engraçado como aquele bar misturava várias gerações que geralmente permanecem em extremos opostos e que se chocam uma contra a outra quando confrontadas - todos a procurar um vestígio de felicidade que não encontraram em nenhum outro lugar de suas vidas. O homem podia sentir que aquele bar era uma espécie de abrigo para todas aquelas pessoas.
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¹ - Loja de retroseiro; armarinho.
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Um senhor calvo com uma aparência que fez o homem sentir-se embaraçado, algo nele lembrava um monge franciscano, embora essa lembrança não justificasse seu embaraço; entrou da porta do fundo do bar e antes de atendê-lo, foi parado por dois rapazes que queriam comprar pinga e refrigerante. Um olhar penetrante analisou os dois rapidamente e então, o senhor que era chamado pelos dois, ora vejam, pela alcunha de “santo”, pediu para conferir a identidade deles. Tudo, de uma maneira bem-humorada e ao mesmo tempo inexpugnável, caricata e inquisitiva. Constrangidos, os meninos surpresos desistiram. Atravessando a rua, eles não encontrariam o mesmo embaraço para comprar bebida ilegalmente.
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Quem sabe o que é possível encontrar no fundo do poço? A luz, ao meio-dia, ou à meia-noite, é perfeita para alcançar as profundezas que ficam praticamente eternamente imersas nas trevas. Assim que os dois alcoólatras precoces saíram, Santo se aproximou do estranho observador para atendê-lo. Ele precisava pensar rápido, a sede ainda reclamava clemência, podia simplesmente despistar a atenção pedindo um copo d’água, estava na frente da pia, ou poderia também pedir uma dose de alguma coisa. Espiou de soslaio as estantes espelhadas abarrotadas de garrafas de bebida - dinheiro não era problema e ele não precisava se preocupar com sua saúde: o que não tem remédio remediado está. O que ele queria evitar era ver seu reflexo. Encarar-se era dar ao que ele dava por perdido, a si próprio, uma nova chance. Mas não, a proximidade com alguém, quando tudo o que ele desejava era solidão, o incitou a fugir. Perguntou bruscamente onde era o banheiro e Santo indicou a porta ao fundo, à esquerda. O olhar do misteriosamente santificado dono do bar recaía sobre os ombros do homem que caminhava com dificuldade por entre os pequenos grupos que conversavam e bebiam cerveja. Encostadas na parede à direita, quatro mesas comportavam três casais distintos e amigos em comum. Um pequeno biombo separava as mesas de uma outra área onde ficava a mesa de sinuca com sua dupla de jogadores e respectivos espectadores que palpitavam animados as jogadas. Passar pelo espaço entre a mesa e as paredes sem se aproximar dos jogadores era difícil. O sujeito começava a entrar em pânico, a vergonha e o asco das pessoas, fora o conhecimento irritante de que aquele senhor provavelmente estava a lhe fitar, com os mesmos olhos que ele dirigira aos meninos um pouco antes, tirava-lhe o controle.
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Esbarrou em sua fuga em um rapaz baixo, de cabelos encaracolados e olhar ferino que estava concentrado mirando sua tacada, quando cruzou a porta pesada de madeira que dava para fora. A garoa e a noite o cumprimentaram como se ele fosse o filho pródigo a retornar. Deixou que as lágrimas rompessem e para sufocar os soluços, mordeu raivosamente o lábio inferior. Olhou para a direita e viu um tanque de lavar roupa, abriu a torneira, molhou o rosto, a nuca. A água gelada acalmava, não obstante ela não era capaz de lavar toda a sujeira de suas mãos, de limpar-lhe a lama da alma, de salvá-lo. Somente ele poderia fazer isso por si. Recuperado, ele entrou no banheiro, e a aproximação de passos preocupados do outro lado da porta, vindos do bar, o alertaram a tempo de se esconder. Uma parada hesitante e a abertura da porta que se comunicava com uma segunda porta em frente, que pelos sons de gavetas de talheres e o forte cheiro de fritura deveria ser a cozinha, provaram que quem havia vindo atrás dele era mesmo o Santo, e ele não tinha certeza se o turco monge franciscano estava o perseguindo ou apenas querendo algo na despensa.
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O banheiro tinha um azul da cor dos quartos de bebê, e era tão negligenciado que uma infiltração no teto fez com que uma goteira que ficava perto do encanamento da descarga se tornasse uma pequenina estalactite. Obviamente não é necessário dizer que o banheiro não contava com papel higiênico, aquele ambiente demonstrava que nunca houve e que nunca haveria uma preocupação acerca do mínimo bem-estar dos clientes daquele santo sovina. A serpente que se prendia ao coração do homem recuperou suas forças, como um predador excitado que se depara com a presa indefesa e saboreia o momento, voltando a apertar o peito do condenado. A esperança se desfez tal sorvete que derrete quando é abandonado. Ser santo não significa não sucumbir ao pecado, provavelmente esse estado de graça está mais relacionado com o êxtase da aceitação de seus limites.
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Ali, escondido no banheiro, ele era um animal acuado e desesperado, pronto para atacar seu inimigo e morrer na tentativa de sobrevivência e desesperado se entregou ao vício que corrompera o seu corpo e destruíra a força de vontade de sua alma. Ele era escravo de sua covardia e medo. Essa situação, no íntimo, lhe causava certo prazer. Poder lentamente se matar e alimentar a piedade e o ódio contra seu estado lhe agradava. O sangue queimava nas veias azuis da pele pálida e ao se espalhar; uma risada insana galgou sua garganta e cresceu em volume e descontrole até o obrigar a sair do seu esconderijo e encarar o céu acima do pequeno espaço onde se encontravam as portas para a cozinha e para o bar. As nuvens negras que derrubavam garoa se abriram como as asas de um arcanjo noturno dando passagem para a lua brilhar, revelando uma sombra que a tomava internamente e a consumia. Olhando para o céu, de joelhos, o luar libertou da memória o segredo desgastado e as sombras do eclipse na prata o fizeram ver-se em seu fim. Destruído, eclipsado. A culpa daquela morte o perseguiria até que ele morresse. E ele soube naquele instante, antes do Santo abrir a porta da cozinha assustado pelos risos enlouquecidos; que não veria novamente a luz do dia. Nunca mais.
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Ele se levantou e sorrindo olhou para os olhos caramelados do Santo, se um homem pode se tornar santo sem deixar de ser homem, um diabo pode retroceder e voltar a ser homem. O abraçou, comovido, por ter lhe proporcionado com seu esforço silencioso, de transformar seu bar em um lugar além do que sua função exigia, a luz que ele precisava para se rever e reconhecer pacificamente sua fraqueza, derrota, pecados e covardia. Fez-se visível seu calabouço secreto graças ao Bar Tropical. Caminhou sem pressa, cumprimentando todos pelo caminho de volta. Chegou à rua e foi até os portões da igreja. Sentou-se nos degraus feito um anjo caído que volta a sentir-se querubim. A garoa se transformou em tempestade até restar somente um corpo para alimentar as notas da imprensa local de Itararé. O homem que se tornara diabo e retornara, em sua hora final, a ser homem foi enterrado sem nome, como nascem todos. Esquecido por seus inimigos. De seus amigos ele se afastara há muito tempo, por seus próprios motivos. Deus perdoa os homens, santos e demônios, ninguém sabe, inclusive Ele, o que faz.

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Marina Colasanti, again

Para sentir seu leve peso

Guardava o rouxinol numa caixinha. Tudo o que queria era andar com o rouxinol empoleirado no dedo. Mas, se abrisse a caixinha, ah! certamente fugiria.

Então amorosamente cortou o dedo. E, através de uma mínima fresta, o enfiou na caixinha.

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O passarinho

Começou dizendo que tinha um passarinho na cabeça. Queixava-se.

O passarinho batia as asas, a cabeça doía. Ninguém lhe deu atenção.

Parou até de se queixar. Gemia, conversava com o passarinho que a habitava. Morreu sufocada, o nariz entupido de alpiste.

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A busca da razão

Sofreu muito com a adolescência.

Jovem, ainda se queixava.

Depois, todos os dias, subia numa cadeira, agarrava uma argola presa no teto e, pendurado, deixava-se ficar.

Até a tarde em que se desprendeu esborrachando-se no chão; estava maduro.

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Na estréia

I

Na noite de estréia o leão tremia tanto de emoção que, num bater de dentes, acabou decepando a cabeça do domador.

II

Na noite de estréia, ao serrar sua mulher em duas, o mágico percebeu que só gostava da parte de cima.

III

Na noite de estréia, depois que todos se foram e as luzes se apagaram, a bailarina deitou-se no fio e adormeceu.

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A paixão da sua vida

Amava a morte. Mas não era correspondido.

Tomou venveno. Atirou-se de pontes. Aspirou gás. Sempre ela o rejeitava, recusando-lhe o abraço.

Quando finalmente desistiu da paixão entregando-se à vida, a morte, enciumada, estourou-lhe o coração.

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Semelhança

I

Vivia dizendo que eu parecia uma pantera. Que o andar, que os olhos. Eu deitava a cabeça no ombro dele e miava baixinho.

II

Vivia dizendo que eu parecia uma pantera. Que o andar, que os olhos. E eu me apanterava toda para agradá-lo.

III

Vivia dizendo. Mas só acreditei no dia em que, saltando do ármario, cravei-lhe os dentes na carne e o devorei.

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Uma engrenagem

Desmontou a cabeça, peça por peça. Azeitou, poliu, limpou com flanelas. Depois começou a montar. Pronta, viu que uma engrenagem tinha ficado na mesa. Pensou em recomeçar. Tentou. Não conseguiu. Faltava, para saber desmontar, aquela engrenagem principal.

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Mais da Marina Colasanti pra vocês.

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Luxúria - Isabelli Taviani

E eu não conhecia essa música e nem essa cantora. Que voz deliciosa, música e letra muito boas. Ainda mais conhecer essa música através da Andressa, a Luxúria despertou em mim.

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Manifesto dos Escritores Subversivos

A minha literatura não é sadia, na verdade, ela é mais como uma vadia. Uma saída, uma bebida. Você toma, você lê e encontra o paraíso por meia hora e uma ressaca interminável. Não é catarse, não é quimioterapia para os tumores que você cria. Eu não escrevo auto-ajuda, se tiver que escolher, prefiro te ajudar a se auto-destruir. É mais divertido. Diversão, eu me divirto escrevendo, o leitor, que me procure quando estiver com desespero e tédio. Eu não prometo mudar a vida, a verdade, o destino. Eu não ensino. Destruir muros, eu grito e urro silenciosamente através das palavras, um zoológico de monstros pessoais que eu entrego para você adotar. Procriar. Não quero permissão, atenção, submissão, adoração. Só o coração. Quem conseguir viver sem ele, não merece tê-lo. Não vou dar respostas, não vou perguntar nada que você não possa duvidar sozinho, sou seu vizinho que incomoda, quando você não tem mais com o que se importar.
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Por isso, se você é completamente feliz, satisfeito e orgulhoso de si mesmo e da vida que leva, se não se arrepende, não tem mágoa nem ressentimento, raiva ou pena, dúvida e medo, me esqueça. Quero pessoas de verdade. Ninguém nasce ser humano, poucos morrem como tais. Quem acha que não tem nada para mudar, no mundo e em si, que não acredita que possa mudar, que prefere não pensar, se afaste. Faça um favor a nós dois. Se você tem vergonha da liberdade, corra. Se quiser explicar o amor então, fuja, antes que eu te pegue. A literatura é inútil, quem lhe quiser tirar isso, que vá à merda.

terça-feira, 6 de maio de 2008

Miniconto - A Queda


A QUEDA
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A primeira coisa que senti, foi o gosto de sangue na boca. Só quando me levantei é que percebi que a queda havia sido tão forte, que as pedras do asfalto estavam grudadas no meu lábio. A areia da rua entre os dentes. Ele disse que iria empinar, mas não empinou, só queria me assustar, era brincadeira. Era brincadeira, até, após a ladeira, ele alcançar o cruzamento. Na bicicletinha da minha prima, rosa desbotada com cestinha branca na frente, a bicicleta que eu aprendi a pedalar. Eu ralei o joelho no primeiro tombo que levei quando estava aprendendo a andar de bicicleta, mesmo assim não chorei. Era criança, podia chorar, ninguém me censuraria. Mas não chorei. Era tarde, cinza, nunca vou esquecer. Como nunca vou esquecer de como se pedala. Teria tanta raiva dele por me humilhar, se...
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Tardes em que fomos pedalar e certa vez eu caí, ele sempre me deixava para trás. Nem me viu, só que me sujei todo, não tinha como disfarçar. Aquele shorts preto, nunca mais ficou da mesma cor depois que a minha avó usou água sanitária para limpar a lama. Todos tiravam sarro. Será que a mancha vermelha sairia com o tempo? Quanto tempo levaria? Quando ele namorava, na cama, dormia e eu ali, do lado, olhando eles dormirem, imaginando se eu passasse a mão nela, bem devagar, ela acordaria? Não encostei nele, não chorei, ele não dormia. Não iria mais acordar.
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Nunca mais, é muito tempo. Pra sempre, também. Só que no fundo, eu me senti feliz. Apesar de tudo, eu não queria, não podia, não deveria, mas me senti feliz. E tirei sarro dele, pela primeira e última vez. Os bons morrem cedo, otário. Adeus.

terça-feira, 29 de abril de 2008

Deuses e traição no Egito



A TRAIÇÃO DO FARAÓ E A BENÇÃO DE BAST
"A Morte chegará em Asas Rápidas àquele que perturbar a paz do Rei"

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Seus pés, feridos pelo calor das areias escaldantes, deixavam um rastro de sangue pelas dunas. Ele sabia que Sekhmet, a incansável deusa-leoa da punição, a arma de guerra de Rá, o seguiria onde ele fosse por seu crime, de assassinar o faraó. Mas aquele homem não se entregaria, mesmo sabendo que era inútil fugir, ele ganhou o deserto onde os ventos moldam o horizonte e de onde nada retorna. O deus-sol ardia impiedosamente, vigiando sua peregrinação um falcão voava em círculos sobre seus passos. A brisa quente qual o hálito da morte trazia consigo a areia que cegava e sufocava. Atrás de seus calcanhares, surgidos de suas pegadas, escorpiões e serpentes demarcavam a passagem do traidor. As mesmas criaturas que ele usou para envenenar o leito do faraó, que condenou seu maior servo a morte nos labirintos de pedra dos subterrâneos da grande pirâmide, por conhecer demais seus segredos. O Tjati sobreviveu à armadilha e queimou todos os documentos dos escribas, trouxe a morte para a família real, envenenando e decapitando o descendente de Rá para que ele não pudesse receber a honra do embalsamento pelos sacerdotes de Anúbis. Só, talvez, Ísis em pessoa poderia restaurar seu corpo, da mesma maneira que ela fez com seu marido, Osíris, juiz dos mortos, através de magias. Para preparar o cadáver do faraó para a outra vida os embalsamadores precisariam da cabeça que o Tjati atirara no Nilo e que os crocodilos de Sobek devoraram. Ele não só arruinara a dinastia do Egito, mas também destruíra a pós-vida do faraó.
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Os rugidos estavam cada vez mais próximos, logo Sekhmet o alcançaria. Suas pernas fraquejavam, as forças o abandonavam rapidamente. Cego e fraco, a voz sibilante que o guiava dizia que ele estava quase chegando, quase seguro. Não era o medo e sim o ódio que o fazia continuar caminhando. Embora todos o considerassem inquestionavelmente um traidor miserável - ele sabia que em cada lar do Egito as famílias rogavam maldições sobre seu nome - o primeiro a trair foi o faraó por temer o potencial daquele que sempre o ajudou e o admirou. E quando se sofre uma traição dessas, de quem deveria ser o exemplo para todos, tudo que se deseja é vingar-se. Não importa o preço que a mão que o reerga cobre. Somente uma mulher pedia aos deuses que poupassem a vida do Tjati, a serva de Bast, que amava o vizir e sabia que ele não era nenhum conspirador e nunca havia desejado usurpar o poder. O destino dele estava na fé dela. Bast, a deusa-gato era a única capaz de aplacar a fúria de Sekhmet, a deusa-leoa.
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Enfim, chegou ao fim, ao limite. As pernas se dobraram e ao cair, ele sabia que não teria mais como se levantar. Rolou pelas areias até as margens de um oásis seco. O falcão, subitamente caiu por terra, morto. Uma tempestade de areia e fogo negro tomou o ar e engoliu Sekhmet, a confundindo, fazendo-a perder o rastro de sua presa. O exército faraônico que Sekhmet liderava enlouqueceu ante ao poder caótico e as armas que estavam destinadas ao Tjati, acabaram por derramar o sangue dos próprios guerreiros que as empunhavam. Do corpo do Tjati surgiu uma fonte de sangue que encheu todo o oásis, Sekhmet, ao descobrir onde sua caça se escondia, correu para cumprir sua missão. Porém ali, Rá não mais mantinha seu domínio. Aquelas terras esquecidas eram de um outro deus, pertencentes a um outro ser, exilado e poderoso. Sekhmet se banhou no sangue do Tjati, celebrando sua vitória, e quanto mais sangue ela bebia, mais fundo no poço ela afundava. Ébria e descontrolada, Sekhmet percebeu tarde demais a ilusão de Seth, o deus do caos, traição, do deserto, da guerra e das serpentes. O sangue, vinho e veneno, que ela se embebedava não parava de jorrar ao ponto de ameaçar afogá-la. Garras a seguravam pelas patas e a puxavam para baixo, a leoa rugia, tentando fugir. A sua força, no entanto estava comprometida devido ao veneno de Seth. Uma enorme serpente lutava contra Sekhmet e a cada golpe que a rasgava ao meio, dos pedaços a serpente se multiplicava as centenas misturando o sangue divino ao profano. Assim a batalha continuou até a leoa tombar e não restar mais nenhuma serpente. O Tjati havia recorrido ao temível deus Seth para ter sua vingança contra o faraó que o tinha sentenciado a morte. E Seth usou a vingança do Tjati para promover a destruição. Traição atrás de traição, esse ciclo continuaria irremediavelmente, Ouroboros, se não fosse Bast.
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A tempestade se desfez e quando o mundo recobrou sua sanidade, o astro-rei estava sendo invadido por uma sombra. Um sol negro coroado por uma auréola de fogo reinava um novo reino. Que não era nem de Seth, nem de Rá. Nas alturas e profundezas sentiu-se um tremor, e do oásis onde o sangue de Tjati, Seth e Sekhmet se misturaram, surgiu a deusa dos gatos, Bast. A deusa se compadeceu de sua serva que rogava perdão ao seu amado e veio pessoalmente interceder por eles.
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Tjati se tornou uma pantera negra, de olhos de jade e corpo mais profundo e escuro que a mais triste das noites, enquanto a serva de Bast se tornou um jaguar, de olhos cor de argila e mel. E ambos fugiram enquanto o Egito se recuperava da traição, para o coração inóspito do deserto. Onde nem deuses nem homens poderiam os alcançar.

sábado, 26 de abril de 2008

A Poesia - Manoel de Barros

A POESIA - Manoel de Barros
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A poesia, a poesia está guardada nas palavras
É tudo que eu sei
Meu fardo é não entender quase tudo
Sobre o nada eu tenho profundidades
Eu não cultivo conexões com o real
Para mim poderoso não é aquele que descobre o ouro
Poderoso pra mim é aquele que descobre as insignificâncias do mundo e as nossas
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil
Fiquei emocionado e chorei
Sou fraco para elogios.