segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Alma Mater


Controle. Poder. Ordem. Mais do que necessário, vital. Afinal sempre houve e sempre haverá uma linha de comando, uma hierarquia, uma cadeia alimentar. Quando a primeira luz surgiu a primeira sombra foi criada. Eu sou apenas a evolução desse pensamento.
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Não tomo lados nem partidos, trato igualmente a todos. Por isso não me envolvo em guerras, apenas as alimento. Cada um acredita que Deus está do seu lado sem saber que eu estou muito mais próximo do que ninguém. Para mim é como tratar animais de estimação: armas e munições para ambos os lados. Nada é impossível, proibido, mas tudo tem seu preço.
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Negocio sacrifícios, lucros, vinganças, sucesso e quaisquer outros derivados dos sete itens principais do meu catálogo. Compro e vendo almas no atacado e varejo (garanto-lhe que não faz falta). Também chantageio anjos, afinal conheço bem suas quedas. Tenho contatos onde você nem pode imaginar com toda sorte de figuras. Sou mestre dos truques da Criação e me divirto em perverter, distorcer, deformar e mutilar seus frutos e filhos. Enquanto a luz da concorrência ilumina, a minha cega.
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O segredo do meu sucesso é o prazer que tenho em fazer meu trabalho. Enfim, posso lhe assegurar que estarei sempre à disposição e que você será muito bem atendido. Pronto para fechar negócio?

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Invasões Bárbaras



Eles iniciaram a marcha sobre a terra ainda úmida pelo degelo dos primeiros dias de primavera. Conforme avançavam percebiam a paisagem se transformar em uma terra desolada: campos devastados, casas queimadas e terra salgada. O povo havia preferido destruir suas próprias fazendas a deixá-las para os inimigos.
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Então avistaram o castelo, o último refúgio da resistência. Sitiaram a fortaleza e ergueram suas máquinas de cerco. Decidiram esperar as catapultas abrirem uma brecha no muro exterior da cidade para iniciar o ataque, o que levou toda a estação das flores.
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Quando o verão chegou o exército avançava com suas torres para a invasão. Ao caminharem sob a sombra da muralha uma chuva de flechas surpreendeu os soldados que tombaram gritando de terror. Sem cessar flechas flamejantes continuaram a cair sobre os maquinários de invasão. Durante semanas os arqueiros repeliram qualquer aproximação enquanto em vão se tentava erguer uma barreira na brecha dos muros. A estratégia de invasão teve de ser mudada devido a nova situação e se começou então a construir em segredo um túnel por debaixo das defesas dos exilados. Enquanto arautos e diplomatas fingiam negociar um tratado de paz os soldados na calada da noite trabalhavam incessantemente para vencer o forte.
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Ao término do verão quando o túnel estava quase pronto para ser usado os defensores da cidadela derramaram nele óleo fervendo e depois atearam fogo carbonizando grande número de inimigos. A decepção do plano rendeu aos senhores da guerra muitas suspeitas de traição e dezenas foram torturados e enforcados por conta disso.
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O outono trouxe a fome, o frio e a tristeza, em desespero os homens mobilizaram-se para um ataque em massa. Os líderes do exército temendo uma rebelião prometiam aos soldados o direito a pilhagem e os lembravam das mulheres que lhes esperavam. A batalha campal se estendeu por toda a estação. Ao longo do dia os guerreiros se enfrentavam em embates épicos e durante a noite os sobreviventes retornavam ao campo de batalha para procurar e enterrar seus mortos. O confronto só cessou quando havia mais corpos para serem enterrados do que homens para cavar, o que trouxe para defensores e invasores um inimigo em comum: a doença.
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A companhia dos mortos fez com que uma praga se espalhasse ceifando mais homens do que toda a guerra, os dois lados viram seu contingente se perder quase que por completo. Piras de corpos ardiam e aqueciam os famintos de dentro e fora do castelo. O inverno chegara mais cedo e terrível do que o anterior trazendo tempestades de neve que logo tomaram todo o horizonte. Unidos em paz forçada os soldados assistiram o sofrimento dos velhos do castelo que agonizavam, viram os cadáveres das mulheres que perderam seus maridos e tiraram a vida de seus filhos e as próprias por medo das barbáries que sofreriam caso caíssem sob o domínio do oponente e os últimos guerreiros mutilados que tinham perdido a sanidade. Muito pouco sobrara para se conquistar ou ser defendido.
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Sem comida, sem fogo, os homens tiveram de se alimentar de seus semelhantes enquanto assistiam os dedos gélidos da morte gangrenarem seus braços e pernas. Como último recurso puseram a se amputar até que nenhum mais pudesse empunhar espada.
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Por fim, rastejando, mordiam-se como cães, famintos, loucos até perecerem um a um, lentamente sob a neve.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Mr. Penny


Tudo começou simples. Quatro homens encapuzados, duas pistolas, duas calibre doze - Mr. Penny, Mr. Nickel, Mr. Dime e Mr. Quarter - no meio da tarde, em um banco com poucos clientes que se renderam facilmente e um gerente que abriu o cofre sem fazer alarde. Cheios os sacos de dinheiro Mr. Penny meteu uma bala pelas costas em Mr. Nickel o trancando no cofre. Assustados com o barulho, Mr. Quarter manda Mr. Dime ir ver o que se passa e antes de poder perguntar ao Mr. Penny o que havia acontecido esse lhe acerta uma bala na testa. Os disparos deixam todos desesperados, os reféns começam a chorar e a gritar, o gerente usa a distração e aperta o botão de emergência.
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Mr. Quarter grita para o Mr. Penny desistir e aparecer de uma vez, a polícia estava a caminho e se eles não saíssem logo dali tudo estaria terminado. Mr. Penny agarra uma mulher e a faz de escudo, respondendo que pelo contrário, aquilo era só o começo. Os dois ficam se encarando, cada um mirando a pistola contra o outro, as sirenes se aproximando. Mr. Quarter pergunta a Mr. Penny a razão dele ter os traído e a resposta é rápida: _Porque não quero dividir a amizade de Benjamin Franklin com ninguém...
Aproveitando a distração de Mr. Quarter, Mr. Penny descarrega o pente contra seu colega e ele caindo faz o mesmo. A mulher junto de Mr. Penny dá um grito e cai chorando com a barriga sangrando, Mr. Penny permanece ileso.
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Ainda daria tempo de Mr. Penny pegar as sacolas e partir no carro de fuga antes da polícia fechar o cerco. Bastava ele apagar o Mr. Wheels como fizera com o resto, assumir o volante e sumir. Mas Mr. Penny queria mais. E aí é que as coisas deixaram de ser simples.
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Um negociador, horas de tensão, uma exigência. O dobro do que havia no cofre em um carroforte e uma escolta até um avião. Os clientes do banco pelo carro e o gerente pelo avião. Se a luz fosse cortada, se um tiro fosse disparado por algum dos atiradores de elite, se a equipe da SWAT tentasse entrar, se eles usassem bomba de fumaça ou se eles não atendessem seu pedido em duas horas, todos morreriam. Enquanto isso Mr. Penny tirou todos os cartões de crédito dos clientes, anéis, alianças, celulares, pulseiras e relógios, pegou todos os trocados das carteiras. Exigiu que o gerente passasse todo o dinheiro de todas as contas dos clientes e fizesse no nome deles empréstimos do valor mais alto possível e que tudo isso fosse transferido para uma conta no exterior.
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O carro chegou e um a um os reféns foram liberados conforme acordo. Já quase dentro do carro e fora do alcance da polícia Mr. Penny viu que um dos reféns havia escondido sua aliança e agora a colocava de volta, feliz em rever a esposa. Mr. Penny pensou o quanto deveria valer uma aliança de ouro como aquela e comparou com o que estava prestes a conseguir, era óbvio que não deveria seguir, porém Mr. Penny sabia o valor de cada centavo e saiu do carro correndo contra o homem já com a mulher nos braços e atirou neles com a calibre doze. Todos os policias abriram fogo e em menos de um segundo Mr. Penny estava no chão, com dezenas de buracos de bala em seu corpo. O negociador correu até ele e perguntou o porquê dele ter feito aquilo e suas últimas palavras foram:
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_Duzentos e cinquenta e cinco dólares.
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Era o preço que ele conseguiria pela aliança.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Heroin


I've been fed since the very start by your poison
That you breastfed me with, that you gently dropped into my ears
From your venomous mouth I heard about everything
So many lies I believed in, always the right word to speak

You held me in the shadows and now I'm afraid of light
We've been in the dark for so long
How come I would bite the hand that made me strong?
As you are the mother, I am the son

Keep your friends close and your enemies even closer
That what you told me since the day I was born
And if I was once inside your womb
So what does it mean, mom?

You are, You've ever been, My heroin
Trapped me, hiding me from the world
Making me your plaything, a toy, a machine
Today this ends here

I will be no longer the guardian of your fears
Deal with your misery, this is the ending of you and the beginning of me



quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Harém & Haraam


Delicadas mãos com dedos suaves despiram cuidadosamente cada peça de seu mestre que como um paxá instalou-se na cama macia sobre almofadas de penas de cisne. Os incensos aromáticos de ervas afrodisíacas davam ao ambiente um ar místico e erótico e a música tocada pelas jovens no alaúde, cítara e no tambor árabe pareciam vir do próprio paraíso. Em cada dedo de suas mãos e pés uma boca carnuda prostrou-se a sugar, enquanto outras lhe beliscavam delicadamente os mamilos com os dentes e três compartilhavam o prazer de se dividir em seu sexo. A esposa mais velha lhe afagava os cabelos e lambia suas orelhas lhe perguntando maliciosamente ao pé do ouvido se todas aquelas mulheres não eram as mulheres mais lindas que ele havia visto em toda sua vida e se ele não era o homem mais feliz do reino de Alá. A mais jovem lhe dava na boca uvas com calda e a cada uma ele fazia questão de lhe chupar os dedos que ela havia usado anteriormente conforme sua ordem para se masturbar.
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O primeiro gozo veio rápido e todas gritaram e festejaram o ocorrido. As três que trabalhavam com o membro disputaram desesperadas entre si para poderem lamber cada gota e esfregavam com sofreguidão o esperma em seus sexos na esperança de trazer filhos para o xeique. Ele assistiu absorvido a dança do ventre com espadas e serpentes por um longo tempo admirando as esposas sensuais de olhares e sorrisos sedutores que conquistara durante sua vida. Fumando seu narguilé e bebendo vinho inebriava-se com a atmosfera de sexo que o cercava.
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Com um sinal de sua mão todas se puseram em sua frente uma do lado da outra para que ele escolhesse quais lhe cavalgariam. As fez virar várias vezes e abrirem o sexo para que inspecionasse quais delas eram as que possuíam os lábios carnudos na boca e entre as pernas do jeito que lhe aprazia. Também exigiu que algumas se beijassem para saber quais eram as mais apaixonadas. Das dezenas de mulheres que possuía separou dez entre as mais jovens, as mais lascivas e a mais velha para lhe satisfazer. As outras se deitaram em um círculo ao redor de seu amo e começaram a se satisfazer umas com as outras. O som dos gemidos misturava-se as notas da música e excitavam o velho.
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Uma a uma pela ordem escolhida galoparam por alguns minutos o sábio que grunhia e roncava como um porco cobrindo uma porca. Aquela que acabava voltava ao fim da fila ansiosa em sentir novamente um homem, mesmo o mais decrépito, dentro de si. Se ganhassem barriga não seriam mais objeto de desejo do déspota e se livrariam da tirana de sua primeira esposa por isso elas faziam de tudo para satisfazer seu dono. As que eram escolhidas para serem tomadas por trás tinham de disfarçar a dor e o desapontamento por não terem chance de engravidarem mesmo que se banhadas de gozo.
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A mais desesperada de todas para se livrar do asqueroso e caquético velho rebolou com tanta força apertando os testículos do homem que ele em um misto de prazer e revolta acabou explodindo em um orgasmo tão intenso que fez seu coração parar. A bruxa ao perceber o ocorrido correu para chamar o eunuco para cortar a garganta da assassina, entretanto as outras mulheres a agarraram pelos cabelos e a levaram até a piscina de leite de cabra e pétalas de rosa que usavam para se banhar antes de receber o xeique e lá a afogaram.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Montando Montanhas


Prefiro a dignidade de um cavaleiro derrubado à bravura de um peão sobre sua montaria.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Descobridor dos Sete Mares


Vim da selva de teus cabelos emaranhados onde dríades escondem-se em meio a medusas e os pensamentos obscenos nascem; da costa de tua testa parti. Pelo mar branco e macio como leite e cetim singrei, e cruzei as ilhas de tuas sobrancelhas afiadas de felina. Temi ao ver os poços escuros de teus grandes olhos curiosos, abismos de fúria, loucura e amor - pois sabia que se lá fosse me perderia em tua alma de esfinge e harpia. E vi o cume de teu nariz petulante de criança atrevida e rainha nobre até os lábios carnudos de tua boca maldita e deixei-me então vagar ao sabor de teu hálito doce. Com sofreguidão me libertei de teu sorriso místico de Mona Lisa e fui seguindo as curvas de teu queixo e pelo pescoço, segunda cintura, onde os vampiros sonham em cravar suas presas me deliciei e caí pelas cascatas de prazer até teu magnífico colo.
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Senti os batimentos de teu coração dobrarem nas profundezas como os sinos das catedrais inundadas de Atlântida. Regozijei-me de intenso júbilo arrebatador ao ser jogado contra os belos montes de teus seios deliciosos e por pouco não naufraguei na luxúria de meus devaneios. Acompanhei as correntes de teu ventre e pude sentir o calor de tua pele ao me aproximar das águas ao sul. Do redemoinho de teu umbigo levantaram súcubos para me atormentar, contudo nada poderia me impedir de encontrar o tesouro mais precioso que Eldorado. Já impaciente e nervoso, cheguei ao monte de Vênus e em nova selva penetrei trêmulo, salivante, ante ao úmido ar tropical de febre e desejo.
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Era de meu conhecimento as tentativas de meus predecessores em conquistar aquela gruta, terra prometida, e de suas derrotas para o esquecimento. Ali onde a rosa dos ventos era despedaçada pelo arrebol e gênios mastigavam suas pétalas, sereias me receberam com braços abertos e entre fêmeas no cio finalmente alcancei os degraus do paraíso e desvendei o esconderijo de Afrodite. Através de teu sexo desvendei teus segredos.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

IN NATURA

O Mal ...existia antes do mundo; [...] Consequentemente, existirá depois das criaturas que povoam esse mundo.

Marquês de Sade


O mundo não é um lugar perfeito. A natureza como essência não é sagrada nem benigna, nada similar a mãe que provê alimento e abrigo. O homem nunca foi e nunca será um reflexo divino de tendências justas. As florestas são recantos de monstros, onde se escondem os nossos pesadelos, não santuários de uma obra de amor.
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Não somos virtuosos, nem preocupados com o próximo antes de nós mesmos sem que isso seja nos ensinado, cobrado e se não cumprido, punido. Não respeitamos a liberdade, a opinião, a vida alheia antes da nossa e não dividimos o que é nosso se alguém não nos ameaçar. A civilização é a coleira do ser humano. Tire-a e terá o caos, bestas primitivas. Citando Dostoievéski, "se Deus não existe tudo é permitido". O Homo Sapiens não é mais evoluído que seus antepassados, apenas melhor adestrado.
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Ou seja, a Criação, se existiu alguma, não foi feita por mãos iluminadas, bem-intencionadas.
Um mundo melhor é um sonho de poucos, a maioria quer apenas um mundo em que a coleira aperte menos.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

AnticristO


Noite fria, mas era preciso trabalhar. Afinal a época era ótima. O Natal talvez não tornasse as pessoas melhores, mas fazia com que elas gastassem mais. Por isso as caçambas de lixo tornavam-se minas de ouro para quem sabia procurar. E enquanto estava imerso no lixo como um porco chafurdando na lama ouviu um choro estridente. Surpreso, procurou a origem do som, deduzindo ser alguma boneca jogada fora por alguma menina rica e mal-agradecida. Mas nunca poderia imaginar o que encontraria. Uma criança recém-nascida enrolada em um roto cobertor dentro de uma caixa de sapato suja de sangue.
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O fedor era terrível e sem conseguir se segurar o morador de rua despejou na rua em espumantes golfadas a cachaça que bebera anteriormente. Enquanto se recompunha viu as sirenes de uma viatura aproximando-se em alta velocidade. Com medo de ser encontrado com aquele bebê pôs sua mão imunda sobre a boca da criança que chorava alto. Quando se deu conta a criança havia parado de respirar. Desesperado soprou com seu bafo podre para dentro dos pulmões do nenê devolvendo o choro ao pequeno.
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Pulou da caçamba e com a criança no colo fugiu pelas ruas correndo rápido. Deixou para trás muitas latinhas que poderiam ser recicladas rendendo um bom dinheiro. O suficiente até para umas duas refeições mais uma garrafa de pinga. Quando encontrou um beco seguro, acomodou-se com algumas folhas de jornais sujas e úmidas e cobriu-se . Viu correr uma ratazana de um bueiro próximo onde fervilhavam baratas e riu-se ao ver seu companheiro, Rex, traçar uma cadelinha sarnenta e ficar engatado nela. Cansado pegou o resto da marmita que encontrara no saco de lixo do restaurante que sempre roubava e deu um resto de caldo oleoso de feijão para o menino que se regalou com cada gota.
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De manhã acordou com o som de um carro parando no beco. A criança toda suja chorava alto e sem parar o que atraiu a atenção dos transeuntes e estes com medo do mendigo chamaram a polícia. O novato puxou a arma mesmo antes de dar as ordens para o pobre diabo mostrar as mãos e quando ele o fez puxou o gatilho temendo que o hippie fosse machucar o bebê que estava em seu colo. O sangue quente escorreu sobre o menininho o batizando.

Na mesma semana que o mendigo foi morto jovens de classe média-alta atearam fogo a um outro morador de rua que dormia em um banco de praça. O menino achado no lixo foi levado a um orfanato e recebeu o nome de Jesus.

terça-feira, 3 de maio de 2011

LUXÚRIA


Insaciável, animalesca, cruel, sempre faminta consome a tudo e a todos sem se entregar jamais. Irracional segue a natureza da repetição, da soma de corpos, como em uma guerra, empilhando em sua cama vítimas e as usando sem piedade. Febril na pele e gélida no coração, uma chama que queima sem arder. Mecânica e impiedosamente previsível. Um jogo marcado, uma dança de engrenagens, óleo, encaixes e combustão. Quente e efêmera. Um pecado por simplesmente ser infantil, pequena, um caminho fácil, uma recreação que ao se tornar séria, mostra a covardia dos que se entregam a ela. Porque o sexo vai além dos sexos, os corpos são mais do que carne.
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A Luxúria não pode dominar, mas sim ser dominada, usada. Devemos pisoteá-la e fazê-la de ponte para através do corpo, excitarmos a alma.