domingo, 14 de março de 2010

Oração à Lilith


Fui seduzido pelo inferno
Me deitei com uma cadela suja
Através de tal bruxa pratiquei a imundície
Sou agora mestre na arte impura da lascívia e da luxúria
.
Cruzar como as feras
Copular como as bestas
Fornicar como os monstros
Me tornar demônio
Ser caído e rastejar
Sorrir ao queimar
Amar o fogo
Odiar a luz
Me misturar com as serpentes
Disseminar a verdadeira semente
.
Relembrar a Criação
Revelar o Falo e a Vulva
Todos os possuem, Todos são maculados
Se Deus não amasse o pecado
Não haveria nos criado
.
Fodam-se
.
Amém

O Beijo da Serpente


Insetos invasivos são meus dedos entre os seus cabelos
Puxando e arrancando como se estivesse colhendo
Em um campo, flores do mal
E o vento forte se confunde com seus gritos
.
O sangue embaixo das minhas unhas é tão nobre
Como a terra que se esconde nas mãos do jardineiro
E assim me dedico a tornar seu corpo vivo e florido
Tal uma rosa, em chamas, vivo, vermelho
.
Os meus dentes se alimentam da sua carne
Cravando-se no banquete que você me proporciona
E seus pedidos de misericórdia soam como música para os meus ouvidos
.
Minha sede é saciada na concha úmida que verte
As águas mais doces que a ambrosia dos deuses
Afinal o seu teatro de dor é quase real
.
Contudo o seu sexo excitado não mente
E assim selo nosso amor com um beijo
Minha Eva, sou sua Serpente

domingo, 7 de março de 2010

Ira


Primeiro, ele entregou seus superiores para escapar da prisão os denunciando, sem cerimônia, aos russos.
.
Isso serviu para demonstrar a ele próprio que, no fundo, nenhuma ideologia ou respeito à hierarquia era mais forte do que o seu instinto de autopreservação.
.
Ele era um sobrevivente oportunista covarde nato e sabia disso.
.
Por isso seu nome nunca foi citado no julgamento dos vinte dois réus em Nuremberg.
.
Depois, subornou os agentes do governo soviético com bens roubados de judeus para fugir da Europa.

Estas joias, que pagaram a propina para ele escapar do Velho Mundo, ele mantivera consigo utilizando o sistema digestivo como cofre temporário, provando, de fato, que ele era capaz de qualquer coisa para conseguir escapar com vida do mundo pós-guerra.
.
Remexer suas próprias fezes com as mãos nuas à procura daqueles brincos, anéis e pingentes e depois engolí-los novamente até poder encontrar alguém disposto a aceitá-los foi o preço para deixar para trás o sangue que estava em suas mãos.
.
O ódio retroalimentado o consumia e o mantinha vivo.
.
Aquilo era nojento, ao menos para os padrões comuns, entretanto para ele, um membro da SS que havia visto e vivido obscenidades que poucos seres humanos na era moderna tiveram a oportunidade de cometer e presenciar; para ele conviver com dejetos não o abalava da mesma maneira que uma pessoa normal.
.
Ao menos desta vez eram suas próprias fezes.
.
Não havia espaço para orgulho quando o assunto era sua vida e tudo valia a pena para manter viva a sua razão de viver: o odiar.
.
Mesmo que ele tivesse que odiar em parâmetros indignos aos olhos alheios, ele sabia que sempre seria digno.
.
O que aprendera com os ensinamentos da teosofia de Helena Blavatsky jamais iria esquecer: não importava o que acontecesse, ele era descendente da raça mais pura, do ser mais perfeito, ele fizera parte da Sociedade Thule e seus olhos foram abertos para as verdades desconhecidas do oculto.
.
***
.
Se fosse um cientista, poderia ter sido selecionado pela Operação Paperclip dos Estados Unidos para continuar a trabalhar no outro lado do Atlântico.
.
Como suas habilidades, a de torturar e quebrar o corpo e a mente humana, não eram tão interessantes quanto as descobertas dos cientistas de foguetes nazistas para o mundo nuclear que surgia, ele cogitou seriamente uma outra proposta: a de seguir o caminho de alguns dos seus pares que escolheram o trópico como seu novo lar.

A lista de nazistas que foram para a América do Sul era grande, eles debandaram aos milhares, porém os nomes mais célebres são o do "Anjo da Morte" Josef Mengele que faleceu no Brasil em 1979, o "Carniceiro" Klaus Barbie que viveu na Bolívia até ser extraditado para a França em 1983, onde morreu em 1991, ou o próprio "Arquiteto do Holocausto" Adolf Eichmann que viveu na Argentina até 1960 quando o Mossad o encontrou, julgou e executou.
.
O fugitivo não sabia até então que por mais que a História desconhecesse todos os crimes contra a humanidade perpetrados durante o regime nazista devido à destruição de provas e documentos; e por mais que muitos países acolhessem essa escória de braços abertos; o ódio que aquela ideologia nutria gerara um ódio semelhante em suas vítimas que nunca esqueceram ou desistiram de caçá-los e destruí-los.
.
Enquanto pensava sobre o que faria, soube de um certo grupo na América do Norte e sentiu que ali, naquela nação e com aquele povo ele poderia continuar o espírito do Terceiro Reich e sem olhar para trás partiu de navio para o seio da Terra das Oportunidades e da Estátua da Liberdade.
.
***
.
Os separatistas sulistas estadunidenses da Ku Klux Klan entendiam a sua luta e seria no coração dos inimigos que ele renovaria suas raízes, se alimentando do ódio racial para se reerguer.
.
O novo americano, Howard, era um cidadão de bem, um homem respeitável, um pai de família (foi muito fácil encontrar uma bela mulher branca, recatada e do lar para tomar como esposa e cuidar da casa e dos herdeiros arianos, futuro da raça pura) admirado e acima de qualquer suspeita.
.
Ninguém sabia de seu passado exceto o líder da KKK que dizia sentir orgulho em ter em seu grupo um verdadeiro defensor da supremacia branca.
.
E na calada da noite, quando ninguém poderia vê-los, Howard e os seus companheiros vestidos de branco com o capuz do terror anônimo sobre seus rostos queimavam cruzes para aterrorizar e mandar a mensagem àqueles que construíram a América à força de que eles não eram bem-vindos ali e nunca seriam.
.
***
.
A vida de Howard seguiu feliz por décadas alternando entre ser um membro exemplar da comunidade e o terror dos negros, imigrantes e demais minorias.
.
E aos poucos, enquanto envelhecia, as leis e o mundo foram se transformando, impedindo que homens como ele agissem para realizar o seu sonho americano branco às custas do pesadelo de todo o resto.
.
Os policiais não mais assistiam sorridentes os linchamentos e humilhações, mas passaram a proteger os negros que podiam agora conviver nos mesmos espaços que os brancos; uma afronta humilhante para a gente de bem que era obrigada a dividir os  ambientes com aqueles cidadãos de segunda classe.
.
Howard sentiu-se furioso por assistir novamente os fracos conseguirem aplacar a ordem natural - os puros deveriam dominar os impuros - entretanto, ele tinha uma vida confortável e uma família perfeita, não podia mais se arriscar e continuar a ser o terror dos não-arianos.
.
Sobrevivência sempre em primeiro lugar.
.
Em seu coração sombrio ele poderia continuar alimentando o seu ódio sem limite.
.
Ele (um Grande Mago, um Cavaleiro da Klan que sonhou em outra vida ser um Cavaleiro Teutônico da Camelot nazista em Wewelsburg ao lado de Heinrich Himmler, ex-Schutzstaffel, um guerreiro germânico genuíno) e o Grande Dragão encerraram suas atividades com a KKK sem nunca terem sido responsabilizados por seus crimes e isto era a sua maior vitória.
.
Nunca foram pegos, o crime compensara.
.
Envelheceram para se tornarem senhores inofensivos sem que ninguém soubesse do ódio efervescente que ardia em seu âmago.
.
A intolerância nunca se aposenta, contudo o tempo não perdoa ninguém, muito menos os imperdoáveis.
.
***
.
De repente veio a notícia da morte de um ex-companheiro da Klan.
.
Em pouco tempo outro e mais outro.
.
Mortes naturais, mas repentinas e em seguida.
.
Howard era um sobrevivente, um oportunista e um covarde e entendia como assassinos, traidores e conspiradores agiam, porque ele era um pouco de tudo isso e muito mais.
.
Não ousara entrar em contato com ninguém, alguém poderia estar ouvindo.
.
A paranoia se instalou, o Grande Dragão partira.
.
Por um lado aquilo era bom, ninguém mais sabia a verdade da sua vida pregressa e da sua verdadeira identidade.
.
Em seus devaneios de perseguição ele refletiu se poderia haver alguém caçando antigos membros da KKK para fazê-los confessar seus crimes e depois os matando de maneira a fazer parecer que eles haviam morrido de morte natural ou acidental.
.
"_Não é possível." - pensou Howard.
.
Isso era algo que só alguém com uma obstinação como a dele em odiar poderia fazer e ninguém além dos descendentes de Atlântida eram capazes de sustentar aquela força "Vril".
.
Isto era muito absurdo até mesmo para um paranóico como ele que conseguira viver aquela vida sórdida, secreta e inacreditavelmente impune.
.
Howard, ingênuo, não tinha como saber naquela época sobre o serviço secreto israelita chamado Mossad, o "Instituto das Sombras", que fazia exatamente o que ele temia e considerava impossível.
.
Por isso, o velho alemão dormia tranquilo, como um bebê, completamente despreocupado.
.
Mas antes de morrer lhe seria revelado o que um anjo do Mossad era capaz de fazer.
.
***
.
Uma melodia acordou Howard de sopetão. 
.
A cama e o quarto estavam vazios.
.
Uma música alta, barulhenta, tocava em algum lugar.
.
Colocou um roupão por cima do pijama e foi até o quarto da fillha, duvidando que ela pudesse lhe dar este desgosto de ouvir aquilo, naquela altura, mas ao não encontrar ninguém no quarto arrumado Howard ficou nervoso de verdade.
.
A música vinha da sala.
.
Ao descer as escadas, ele se arrependeu por não ter mantido de recordação a sua antiga Luger, se deparou com uma mulher sentada em uma cadeira branca na cozinha, à mesa, lhe esperando de maneira pertubadoramente calma.
.
Ela vestia um vestido azul antiquado, mas bonito.
.
A estranha de cabelos negros curtos parecia estar à vontade e sua atitude cordial causava mais estranheza do que se de fato Howard encontrasse um assaltante em flagrante tentando roubar sua casa.
.
Ela bebericava algo escuro, deixando escapar propositalmente pelos lábios um líquido vermelho-negro semelhante a sangue que caía de sua boca, manchando o píres e escorrendo em gotas levemente sobre seu queixo e pingando em seu busto uma única gota.
.
Aquela cena dramática era toda montada de forma proposital, embora Howard não fizesse a mínima ideia do que se tratava, ele sabia que aquilo era uma armadilha.
.
"_John Coltrane." - ela falou e de alguma forma sua voz suave soou ainda mais desconcertante do que o silêncio anterior - "_Mas infelizmente receio que você não aprecie seu talento. Sabe, ele é negro."
.
"_Quem é você?" - inquiriu ele com voz imperiosa, escondendo a preocupação sobre o comentário dela insinuando sobre sua natureza racista.
.
Será que ela sabia sobre seu envolvimento com a Klan? Era disso que se tratava aquela loucura? - as perguntas disparavam em sua mente enquanto tentava decifrar o olhar de esfinge daquela mulher.
.
"_Quem eu sou não é importante meu querido Howard, quem você é, é o que realmente importa aqui. No entanto, se precisa de um nome, você sabe, nomes são muito importantes, pode-me chamar de Ira. E aqui vai uma curiosidade só para você: em hebraico Ira significa vigilante, muito prazer. Faz muito tempo que desejo conhecê-lo." - disse ela sorrindo docemente, como uma maníaca.
.
Uma linda psicopata judia.
.
"_Me diga agora onde estão minha mulher e minha filha sua cadela judia!" - ele se aproximava devagar, esperando o momento certo para atacar e acabar com aquele pesadelo, ela despertara nele uma reação descontrolada que fazia tempo que não sentia e ele no fundo estava gostando de poder liberar um pouco daquele ódio rançoso, antiquado e podre.
.
Ele estava com os punhos cerrados, os olhos vidrados, os dentes rangiam de raiva.
.
E estava em seu direito, ela era a invasora.
.
Ele poderia alegar legítima defesa quando ligasse para a polícia contando o porquê havia estrangulado uma mulher na sua cozinha.
.
"_Se você quiser vê-las novamente, sente-se comigo. Por ora basta saber que elas estão seguras. Prometo não tomar-lhe muito tempo, caro Hess." - e um sorriso menor, sem mostrar os dentes se formou em seu rosto.
.
O teatro acabara, aquilo era um xeque-mate.
.
Ao ouvir aquele nome foi impossível para o velho nazista aposentado evitar a surpresa e o espanto estampados em seu rosto enrugado.
.
Há anos... não, décadas... ...ninguém mais o chamava assim desde... ...desde Auschwitz!
.
Nem ele mesmo se lembrava com certeza de seu nome de batismo e foi preciso forçar a memória para se recordar de sua mãe o chamando assim e confirmando quem ele era, ou fora, em outra vida, em outro mundo.
.
Sem alternativa, hipnotizado, Hess sentou-se encarando aquela fantasma nos olhos, tentando se lembrar daquele rosto.
.
"_Sim Herr Hess. Eu sei quem você é. Eu sei tudo sobre você, sobre seus segredos, sobre seus medos, desejos. Sei sobre o que você fazia no campo de concentração, sei de como você batia nos prisioneiros, de como abusava das mulheres. Sei até sobre coisas que você mesmo finge não lembrar. Dos rituais, das runas, das palavras proibidas."
.
Os olhos esbugalhados e a boca aberta, paralisada, eram confissão suficiente para Ira.
.
Hess era realmente quem ela procurava e ele sabia que estava perdido e que sua hora, depois de tantos anos, enfim chegara.
.
Ele estava perdido em seus pensamentos até que ela o trouxe de volta: "_Sua família está no porão..." - e ele se lembra da mulher e da filha.
.
Aquilo que estava na xícara e que Ira derramava propositalmente em cima de si mesma para que ele pudesse ver era realmente sangue, conclui.
.
O sangue puro e inocente da sua família, as herdeiras da Hiperbórea.
.
"_Elas estão no porão!" - A voz dela, desta vez irrompeu monstruosa e abissal soando dentro da cabeça do velho como um trovão ecoando até zunir e fazê-lo gritar de dor e desespero o derrubando da cadeira.
.
A vitrola não tocava mais, mas uma tormenta começara a cair subitamente do lado de fora da casa como se o mundo todo exterior tivesse desaparecido e sobrasse apenas aquela casa e aquele homem.
.
Ira não estava mais ali, só sua xícara suja de sangue restara sobre a mesa.
.
Howard começou a hiperventilar e enquanto pensava rapidamente, torceu para sofrer um infarto.
.
Se os nazistas conseguiram fazer contato com seres de outros planetas e de outras dimensões, conforme acreditava Hess, porque os judeus através de sua cabala não poderiam fazer o mesmo?
.
Tremendo, ele lentamente se levantou cambaleante e obedeceu à ordem de ir encontrar sua família.
.
Ele sabia que se tentasse sair de casa, nunca mais veria sua família e teria que encarar a entidade que controlava aquele sonho abominável.
.
Sem desejar ouvir aquela voz de novo ribombando em sua mente abriu a porta e começou a descer as escadas, suando frio, com as pernas bambas, se escorando nas paredes, rumo ao desconhecido.
.
***
.
Quando acendeu a luz do porão viu sua mulher e filha sentadas no chão, com as costas apoiadas em um pilar de pedra, com as mãos e pés atados, mordaças na boca e vendas nos olhos, em silêncio.
.
Ao ouvirem os passos se aproximando as mulheres começaram a chorar sem reconhecê-lo, desesperadas.
.
Ele tentou acalmá-las, as abraçando e dizendo que tudo ficaria bem, prometendo que ele as tiraria dali.
.
Ao sentir seu toque e ouvir sua voz elas entraram em frenesi, se debatendo com mais violência, gritando, possuídas pelo medo.
.
Elas não o reconheciam mais como o marido fiel e pai exemplar de sempre, ele era agora Herr Hess, o homem que se tornara um monstro para milhares de pessoas e vivera para envelhecer esquecido, com uma máscara de civilidade, sem pagar por seus crimes.
.
Ele nunca só seguira ordens, ele gostava do que fazia com os prisioneiros e fazia o que fazia porque gostava da sensação de poder, de superioridade, de decidir sobre a vida e a morte, de ser um deus.
.
Aquilo era viciante e ele passara a vida toda tentando revisitar aquele sentimento.
.
Nenhum momento em família, nenhuma noite com a esposa, nada lhe dava mais alegria do que o sofrimento alheio, a dor, a sensação de superioridade ao ver um ser humano implorar para ser morto para se livrar da agonia.
.
Agora ele poderia sentir aquilo novamente, não com judeus, mas com sua própria família sob seu jugo.
.
A porta do porão bateu com força o prendendo naquele cubículo.
.
Ele pulou e deu um grito como resposta
.
Foi então que Howard/Hess notou que em cima de uma mesa, no canto, havia uma faca.
.
***
.
Não há como saber quanto tempo ele relutou, quantas vezes ele tentou tirar a mordaça e a venda delas só para colocá-las de novo por não conseguir aguentar os gritos e o temor refletido nos olhos delas.
.
Pegou a faca e escolheu fugir, tentou abrir a fechadura, arrombar a porta, nada poderia livrá-lo daquela masmorra e então ele se deu conta de que tudo aquilo só poderia ser um sonho, um delírio, e desferiu um golpe fatal no coração.
.
Só para descobrir que não lhe era permitido morrer.
.
Mas a dor, isso ele sentia.
.
Gritou, rolou no chão, chorou, implorou por perdão, orou fervorosamente e viu que não havia resposta.
.
Ele sabia que alguém o vigiava, mas ele teria que descobrir sozinho como entreter o seu carcereiro se quisesse escapar.
.
Sem saída, impotente diante daquela vontade indescritível que o deixou sem artifícios para recorrer, sem oportunidades de contornar o seu destino como até ali ele tinha feito, Hess/Howard pegou a faca, engoliu seco o seu orgulho e se fez o que tinha que fazer para sobreviver, como sempre fizera, desde a queda de Berlim. 
.
Ira queria vê-lo assumir a sua verdadeira persona para sua família e ele aceitou que não tinha como escapar.
.
Em sua mente ele tentava se iludir repetindo que aquilo era só um pesadelo e que ele iria acordar a qualquer momento, então, começou a talhar friamente uma suástica na testa de sua mulher e depois de sua filha enquanto citava trechos de Mein Kampf.

Elas se debatiam como peixes fora d´água, tentando fugir de suas garras, porém algo tinha sido despertado em Hess/Howard.
.
Ele começou a esmurrá-las para fazê-las se submeter a ele e aquilo o fez se sentir como quando jovem, um deus na Terra.
.
Ao sentir o sangue quente nas mãos e ouvir a sinfonia de gritos, Hess/Howard sorriu e gargalhou insanamente, se libertando de quaisquer amarras que a vida civil lhe imputasse, deixando fluir a loucura de se sentir poderoso ao impor a dor a outrem.
.
Aquilo pareceu durar uma eternidade, um inferno particular de loucura, epifania, prazer e desumanização.
.
Ele não era mais um ser humano da raça pura.
.
Era simplesmente puro monstro.
.
Estava feito, estava livre.
.
O ódio o consumira por inteiro.
.
Sua família conhecera sua verdadeira face ao ter a carne retalhada pelo homem que amava.
.
A ironia daquela catarse de carnificina era encontrar precisamente em sua algoz, Ira, a mesma fagulha de destruição que havia nele, que anulava qualquer chance de redenção de sua alma.
.
O fogo eterno do ódio que não mais vê pessoas, só inimigos desumanizados, tornando de alguma forma neste processo Hess/Howard e Ira semelhantes.
.
Ela não o enxergava como uma pessoa e ele também nunca vira um judeu como um ser humano.
.
Odiar era a herança que aquele nazista legava ao mundo, às suas vítimas.
.
***
.
Ao sentir os sinais vitais diminuindo ele deitou em meio às tripas de sua família e deixou-se mergulhar no sangue e órgãos dilacerados, se tornando um com a poça de sangue e carne.
.
Enfrentara aquele inferno e o que viesse depois não podia ser tão ruim, pensou consigo.
.
Não havia mais limites a superar, ele estava livre para aceitar seus pecados.
.
Sem hipocrisia, sem demagogia, sem salvação, estava completamente perdido e sua morte o colocava longe dos homens e das ameaças de Deus. 
.
Foi com esta sensação de paz que sentiu o início do perder da consciência, sendo levado por um mar invisível para longe, agradeceu por ser-lhe permitido descansar.
.
Subitamente a casa toda acima de si foi varrida como que por um furacão, deixando apenas aquele porão intacto, enquanto o abismo de vento tubular vindo das imensidões parecia encarar o abismo de sua alma condenada.
.
Do centro do túnel, o Olho de Deus, surgiu uma figura indescritível.
.
Para os iniciados aquilo poderia ser nomeado "serafim", um globo com pares de asas flutuando, uma infinidade de olhos que brilhavam, rodas flamejantes douradas que giravam no ar, luz e majestade que vinha até Hess como um mensageiro para que ele soubesse que sua danação estava apenas começando.
.
Ele e seus parceiros da Thule, no início do partido nazista, estudavam o oculto e praticavam magia proibida, antiga, entoando cânticos esquecidos em rituais profanos com sacrifício humano, sorrindo em sacrilégio ao provocar as forças divinas.
.
Tudo na tentativa de alcançar o outro lado e consolidar o seu poder superior ariano.
.
Nunca conseguiram ter uma resposta compreensível do além, mas sua heresia alcançou algo e reverberou até os confins de onde quer que viesse aquele ser.
.
Hess praticamente nunca sentira medo, terror real em sua vida, nada de fato o fizera temer durante as décadas que gozou confortável sua posição privilegiada na sociedade racista que vivera e construíra.
.
Só naquele instante ele acessou este sentimento e foi como se todo o medo resguardado viesse de uma vez, como o rompimento de um dique, o Horror o tomou como uma enxurrada.
.
Ele começou a gritar, arrancar os cabelos, furar os próprios globos oculares com os dedos, se arranhava, batia a cabeça contra o chão, se estapeava e esmurrava, chorava, mordia a língua, qualquer coisa para tentar desparecer e não ver o que estava não diante de seus sentidos, mas de sua alma.
.
E fora tudo em vão.
.
Não havia mais escapatória.
.
***
.
Quando finalmente os sonhos delirantes do homem que gemia de dor e exasperação cessaram, a jovem mulher terminou de tomar o seu chá.
.
Ela havia injentado em Howard a droga que prometia ser a coisa mais alucinógena e perversa que a humanidade já desenvolvera.
.
Uma substância proibida, secreta, que abriria as portas da percepção e destrancaria o subconsciente de maneira a acessar a imaginação fértil da própria vítima e provocar terrores grotescos psicológicos particulares sem comparação; a produção química do inferno em vida.
.
A família de Howard dormia sedada, intocada, enquanto Ira assistira a febre que o soro causara naquele homem por horas a fio.
.
A jovem sabia que a noção de tempo era totalmente distorcida quando sob efeito daquela droga e que para Howard aquela noite pareceria realmente eterna.

Herr Hess - o homem que estuprara sua avó no campo de concentração gerara sua mãe com esta violação, sua mãe crescera disposta a passar adiante à filha toda a lição que aprendera sobre a humanidade proporcionando desde concepção a missão de Ira: um fruto amargo de ódio e vingança contra o estuprador de seu povo, de sua família, de sua avó, uma mulher que existia para retribuir a dor aos que ninguém ousava punir - estava finalmente morto.
.
A mulher e filha de Howard o encontrariam morto na cama acreditando que ele havia sofrido de um ataque cardíaco enquanto dormia.
.
Nenhum vestígio daquela visitante ou do passado daquele homem restariam para contar sua história sinistra e repugnante.
.
O mundo se esqueceria de Howard e Hess, assim como nunca saberia da existência de Ira.
.
***
.
A história trágica de Ira, não obstante, não acabaria com a realização de sua vingança.
.
Seus filhos e netos, corrompidos pelo nacionalismo, pervertidos pelo discurso de ódio sionista, se tornariam soldados de Israel.
.
Assim como Hess, eles cometeriam as piores atrocidades com a certeza de que estavam fazendo a coisa certa, livrando o mundo de uma raça menor.
.
A semente do ódio continuaria a dar frutos, transformando vítimas em monstros.
.
Em algum lugar do inferno Hess ri, pensa Ira, antes de fechar amargamente os olhos derradeiramente.


quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

A Primavera


Eu, em minha humilde ignorância, conhecia apenas o quadro "O Nascimento de Vênus", de Boticelli, que é uma de suas obras mais famosas. No entanto, ontem, enquanto fazia umas dez coisas ao mesmo tempo (quando é preciso os homens também são capazes dessa proeza, mulheres, acreditem) eu vi um programa na TV falando sobre uma outra pintura dele, "A Primavera". Além da história do artista, nesse programa eles começaram a desvendar os grandes mistérios desse quadro, que ao primeiro olhar, são difíceis de identificar.
.
Essa pintura foi uma encomenda de um presente de casamento na qual Boticelli ousou primeiramente pelo tema, dos deuses mitológicos, que não condiziam com a leva cristã da época de quadros representando Marias e crucificações. Além disso, cada figura demonstra uma profundidade perturbadora. Da esquerda para a direita, nós temos Mercúrio, o deus-mensageiro, em uma representação romanceada em seu rosto de um dos grandes patronos das artes. No entanto, reparem que ele está de costas para as demais figuras femininas, procurando um fruto, uma analogia mais moderna que os pré-rafaelitas deram ao homossexualismo. Um simbolismo que chegou a inspirar Oscar Wilde.
.
As três figuras seguintes, seminuas, sensuais, escandalosas ainda para os dias de hoje, são as três graças, as Cárites. Em seus vestidos esvoaçantes elas provocam com a sua felicidade e erotismo, insultando os olhos dos que repousam nos quadros. Quando a classe-média européia se deixou vencer pelo modismo e abraçou Boticelli como seu produto de consumo, aqueles que escolhiam A Primavera para decorar suas salas sabiam que quando algum vizinho os visitasse, se ruborizaria ao ver as três Cárites saficamente desenvoltas em sua dança. Uma delas, inclusive, olhando atenta e interessada para a figura de Mercúrio.
.
Ao centro, temos Vênus, a deusa do amor, em uma representação mais enquadrada na Maria cristã, dando uma espécie de benção para os quatro personagens da ala esquerda. Acima, temos o Cupido, deus responsável pelo arrebatamento da paixão. Cupido está vendado, cego e justo como a nossa atual justiça, pronto para disparar uma flecha flamejante.
.
Contudo, dentre todas, as figuras que mais chamam a atenção são as três figuras da ala direita. Na extrema direita temos Zéfiro, o vento do Oeste, que segundo os mitos, insanamente louco de paixão persegue e estupra Clóris, uma ninfa da floresta, a personagem ao seu lado, com flores e ramos saindo da boca. A outra mulher ao seu lado é Flora, a deusa das flores, a mulher que Clóris se torna após ser violentada por Zéfiro. Um presente nada adequado para um casamento.
.
Continuando, os mitos dizem que Zéfiro, arrependido pelo que havia feito, acaba por desposar Clóris fazendo dela, agora Flora, sua esposa. O rosto enigmático de Flora, feliz e insolente, encarando de volta os que vislumbram o quadro mostra uma combinação das personalidades de Clóris e Flora, da menina e da mulher e a do próprio Zéfiro, em uma representação andrógina, belamente bizarra, misteriosa e orgulhosa. Casta como o pensamento cristão exigia da mulher e lasciva como a filosofia pagã.
.
Um recado para a jovem esposa de um casamento arranjado, para que pudesse entender os desejos do marido e aprendesse a lidar com eles. Já que Flora jamais teve do que reclamar do seu matrimônio.
.
Assim, cheio de significados, numerosos como as flores e as espécies pintadas delicadamente uma a uma do jardim onde sem resposta tantos deuses se encontraram na mente do pintor, Boticelli ficou por séculos desconhecido e fadado ao ostracismo até ser redescoberto pelos pré-rafaelitas.

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Flor da Pele

Ando tão à flor da pele
Qualquer beijo de novela
Me faz chorar
Ando tão à flor da pele
Que teu olhar "flor na janela"
Me faz morrer


Ando tão à flor da pele
Meu desejo se confunde
Com a vontade de não ser
Ando tão à flor da pele
Que a minha pele
Tem o fogo
Do juízo final...

Barco sem porto
Sem rumo, sem vela
Cavalo sem sela
Bicho solto
Um cão sem dono
Um menino, um bandido
Às vezes me preservo
Noutras, suicido!

Oh, sim!
Eu estou tão cansado
Mas não prá dizer
Que não acredito
Mais em você
Eu não preciso
De muito dinheiro
Graças a Deus!
Mas vou tomar
Aquele velho navio
Aquele velho navio!

Zeca Baleiro

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Veneno Antimonotonia


A apoteose de um artista, os aplausos e beijos atirados para a orquestra, para o maestro, para o ator. A ligação entre o leitor e um livro, a atração de uma pessoa para com um quadro, o toque das mãos na argila úmida. O sol se pondo no mar, a lua, as estrelas e a escuridão. A praia lambendo os pés cansados.
.
O poder, a ilusão, a mágica e o mistério. Nada disso, deus, diabo e inferno, me tenta o coração. Não sou insensível, nem estou morto. Simplesmente o inferno são os outros e você, você é o meu paraíso. A minha tentação, na qual eu amo me perder. A medida exata da minha melhor loucura.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Le Petit Chaperon Rouge


A Menina do Capuz Vermelho
.
A capa vermelha se insinuava em meio ao cinza. Enquanto o capuz escondia o rosto o vestido curto demais revelava as pernas claras, provocantes. Este disfarce auxiliava Cecille a preservar sua identidade, todo cuidado era pouco. A ordem do tenente-general de polícia Gabriel Nicolas de la Reynie era clara: livrar Paris dos imigrantes indesejados, sem alarde, custasse o que custasse. E ninguém era mais indesejado do que as cortesãs.
.
Dentre elas, as principais vítimas quase sempre eram pobres, velhas ou desagradáveis demais para subornarem os oficiais com seus serviços. Contudo, naqueles tempos as belas e jovens ou as que tinham a sorte de servirem um cliente rico também não estavam a salvo dos abusos da milícia. Afinal, quando os guardas cobravam sua parte havia apenas duas opções: pagar em dinheiro tendo que trabalhar em dobro para recuperar o prejuízo ou cedendo aos monstros que compunham a força policial parisiense.
.
Por isso Cecille carregava consigo uma cesta com velas para se passar por vendedora. E ela até conseguia alguns trocados de vez em quando vendendo as velas que roubava da igreja - por Paris vale a pena ir a uma missa. No entanto, a verdadeira finalidade das velas era acobertar seus clientes que acompanhavam-na até os becos escuros. Ao perceberem o que de fato Cecille vendia, alguns fingiam-se ultrajados, mas todos acabavam usando as velas para iluminar seus pecados. Antes do fogo consumir metade das velas a maioria já estava despejando na pele rosada de Cecille um líquido tão quente quanto parafina derretida.
.
Para aqueles que não sabiam de seu trottoir, uma órfã tão encantadora e meiga perdida nas esquinas como Cecille se arriscando tarde da noite daquela maneira era absurdo. Acreditanto em sua inocência um pobre padre ofecereu a Cecille um quarto em sua residência humilde. Obviamente Cecille aceitou. Dessa maneira conseguir velas quando a preguiça não a permitia ir a missa ficava muito mais fácil. Inconveniente era apenas ter de cuidar da casa. Quando sua falta de vocação para as tarefas domésticas tornavam-se muito evidentes, Cecille propositalmente esquecia-se de trancar-se ao fazer a toalete para permitir que o velho a espiasse.
.
O Andarilho dos Cães
.
Poucos na Paris do século XVII se atreviam a desafiar a lei, porque justamente os piores criminosos eram quem a compunha. Contudo os que o faziam, rapidamente tornavam-se conhecidos. Não obstante, apenas um havia se tornado uma lenda: o andarilho dos cães.
.
Esse homem sempre acompanhado por uma matilha de vira-latas sobrevivia revirando o lixo pela corte dos milagres, lugar que ficou conhecido devido aos desaparecimentos da noite para o dia dos miseráveis. Jamais se dobrou a ninguém. Quando um destacamento foi designado para lhe colocar no lugar, aí então sua fama foi gerada. O que aconteceu possui muitos desfechos, a verdade, todavia, é que esses policiais nunca mais foram vistos novamente.
.
O homem é o lobo do homem.
.
O Lobo
.
Cecille fora traída por sua beleza. Obcecado, o padre a seguiu e flagrou Cecille com dois homens ao mesmo tempo, usando sua boca e seu sexo para lhes arrancar prazer. Tomado de vergonha, ciúme e culpa por se deixar seduzir, o padre procurando vingança foi despejar seu veneno nos ouvidos dos homens da lei como uma raposa alcoviteira. Era tarde, chovia, o padre encontrou apenas um policial. Era o suficiente. Se tratava de ninguém menos que Choufon, célebre estuprador e sádico poupado da forca e recrutado para engrossar as fileiras da polícia.
.
Chovia forte. O vestido encharcado colava-se como uma segunda pele sobre o corpo delgado de Cecille.
.
Ela corria com o coração acelerado de um cervo assustado. O predador em seu encalço diminuía cada vez mais a distância entre eles. Choufon conhecia aqueles corredores como ninguém, crescera neles e deles tirava seu sustento. Aqueles becos eram o mais próximo do conceito de lar que conhecia.
.
Com um único movimento Choufon a jogou contra parede. Não havia saída, três paredes de pedra fria e um homem perverso seguindo seu instinto mais primitivo. Era o fim para Cecille.
.
Cecille sem chance de se defender e muito menos de rogar misericórdia fechou os olhos rezando para que tudo acabasse rapidamente.
.
Choufon investiu duramente contra Cecille que mordia os lábios para calar o choro. Contudo, ao invés de violá-la, Choufon desabara sobre ela. Só quando o sangue quente lhe lavou as costas é que Cecille percebeu o que se passava.
.
O corpo caiu a seus pés como um fantoche. Um outro vulto ocupou o lugar de Choufon. Confusa entre o medo e a gratidão Cecille olhou para trás sem saber se devia sentir-se agradecida ou perdida de vez.
.
Um homem vestindo apenas um sobretudo e calças rotas fitava Choufon. Cães famintos esperavam obedientemente atrás dele. Segundos intermináveis se passaram até Cecille se dar conta que aquela era sua chance de fugir, devagar ela foi caminhando rente a parede, se afastando ao máximo dos rosnados ameaçadores. Quando finalmente ela se convencera de que conseguiria escapar ilesa, os cães avançaram contra o cadáver. Como que saído de um transe profundo o homem então voltou seus olhos vorazes para ela.
.
Em suas mãos ele tinha uma adaga como a que os policiais carregavam. Cecille percebeu que se desse mais um passo terminaria exatamente como Choufon. Aquele homem tão assustador e solitário era o infame vagabundo que matara cinco oficiais na corte dos milagres. Os rumores diziam que ele era louco e uivava para a lua vivendo como os cães que o seguiam como um líder.
.
Cecille baixou a cabeça, ele chegou mais perto. Ele passou o rosto farejando e sentindo sua pele com a língua inclusive colocando o rosto por baixo de seu vestido e provando seu sexo com a boca para reconhecê-la, como um cão. Cecille tremeu, para sua surpresa seu corpo estava úmido naquele ponto e não era em razão da chuva. Ele veio por trás e se jogou por cima dela, forçando Cecille a ficar de quatro. Ele se roçava em Cecille, mordendo-a. Cecille podia sentí-lo procurando seu caminho para dentro dela até que a sensação de que tanto se acostumara lhe preencheu de uma só vez, acertando o centro do seu corpo.
.
Nenhuma experiência anterior se comparava àquilo. Pela primeira vez ela era mulher e não prostituta, deixava-se currar sem impedí-lo. Cecille não queria que ele parasse, ela acendera-se com a idéia de amar como os cães se adoram. Flagara-se desejando-o e para sua surpresa implorou para que ele continuasse. Por fim ela não saberia dizer por quanto tempo eles ficaram se amando. Cecille e o andarilho dormiram nus e exaustos, aquecidos pelos cães.
.
Quando Cecille despertou todos haviam desaparecido. Cecille se vestiu e ao encontrar sua cesta viu dentro dela a adaga que degolara Choufon. Olhando para os lados como se aqueles olhos misteriosos ainda a espreitassem ela pegou tudo e retornou para o único homem que não tentara possuí-la.
.
A Loba e a Raposa
.
A sujeira, a lama e a água da chuva cobriam Cecille da cabeça aos pés. Sua capa vermelha não atraía mais os olhos de ninguém, tão pouco qualquer um notava suas pernas claras do modo como estavam, cobertas de barro. Sem ser notada Cecille voltou e encontrou o padre em seu aposento, masturbando-se sobre suas roupas, com lágrimas nos olhos, pedindo perdão por tê-la traído.
.
Não era só o exterior de Cecille que mudara, uma transformação mais profunda e secreta acontecera também em seu interior, algo que não podia ser visto, somente sentido. Cecille sentiu a lâmina fria, suja de sangue. Colocou em silêncio a cesta em cima da mesa e descalça se aproximou. Somente quando o gélido beijo do aço tocou seu pescoço é que ele a percebeu. Sem olhar para ela, com as mãos ainda em si, ele a ouviu ordenar:
.
_Continua. Faz. Forte.
.
O velho tentou se explicar, pedir perdão, a voz de Cecille o impediu.
.
_Uma palavra e você morre.
.
Ele a obedeceu.
.
Ele esporrou longe, tendo uma crise de tosse em seguida. Sua saúde era fraca, sua carne decrépita e ainda assim o velho se deixava encantar. Ele podia ser avô de Cecille.
.
O sangue corría rápido naquelas veias. Por isso quando Cecille lhe abriu a garganta, os jatos de sangue jorraram mais longe do que o gozo fraco, manchando os lençóis em que Cecille costumava dormir. Ela não precisava mais daquilo, de cama ou roupas, de se vender, de dinheiro. Acendeu religiosamente pela última vez suas velas e antes de partir, deixou que uma caísse no chão. A madeira podre daquele lugar queimava rápido, logo todo o cortiço estava em chamas.
.
Do coração da corte dos milagres os lobos viram a fumaça se erguendo até o céu estrelado e uivaram para a lua cheia. Os cães acompanharam o coral lúgubre; era um momento de celebração para a matilha. Finalmente o andarilho encontrara sua companheira.
.


quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Gênesis


No começo existia somente a dor, excruciante, como se sua alma tivesse sido partida ao meio. Devagar ele foi reconhecendo o mundo a sua volta. A sensação da grama úmida sob a pele, a brisa arrepiando os pelos e fazendo seu corpo tremer.
.
Seus olhos arderam ao abrir-se pela primeira vez e assim que pararam de queimar ele contemplou o céu negro sobre si e ao levantar-se o homem descobriu-se em um campo aberto, sozinho. Sem lembrança alguma até aquele momento, fraco e confuso começou a caminhar em busca de abrigo. Então clarões rasgaram o firmamento revelando na distância um vulto e logo depois seguiu-se um rugido e tudo fez-se novamente trevas.
.
Fora só um relance, o suficiente no entanto para Adão ver a forma daquele ser que lembrava a sua própria. Contudo, mais suave, menor e mais delicada. Com curvas sutis e não com a dureza de suas linhas. Os cabelos longos esvoaçavam ao sabor do vento e ela caminhava tão perdida quanto ele. Novamente aquela dor terrível retornou e o fez cair por terra gritando. Só então sua mão descobriu a enorme cicatriz embaixo de seu braço esquerdo. A última coisa que seus olhos viram antes de ser engolido novamente pela escuridão foi o rosto de Eva.
.
Perdidos naquele mundo homem e mulher se descobriram e se amaram tendo a natureza para lhes ensinar. Viviam para se alimentarem e fornicar, como animais, ignorantes de tudo. Eva era serva de Adão e ele a dominava como o predador governa sua presa. A existência era perfeita, até a inocência começar a ouvir sussuros vindos de dentro da noite. Sonhos com outros gostos por coisas estranhas que eles não sabiam como descrever ao acordar. Aos poucos o paraíso começava a se tornar uma prisão de ostracismo. Ambos cada vez mais preferiam andar cada um sozinho e pensar por si, ao existir como um único ser dividido em dois.
.
E durante esses passeios Eva descobriu uma bela árvore com um único fruto vermelho, rubro como sangue, guardada por uma criatura igualmente única. Uma serpente de escamas negras reluzentes e asas de couro, o ser mais encantador que Eva tinha conhecido até então. A víbora sibilante falou a Eva sobre segredos desconhecidos, sem revelar nenhum. Subitamente uma fome que a mulher nunca antes havia sentido desabrochou no interior de seu corpo, fazendo-a arder em febre e desejo. Contudo para saborear daquele fruto e conhecer seus segredos era preciso pagar o preço daquele monstro. Confusa, Eva fugiu.
.
Enquanto Eva lutava contra sua curiosidade, Adão taciturno olhava para o horizonte, desgostoso. Uma tempestade desabava como a que tomava o céu quando ele nascera, todavia não fora Eva que os relâmpagos revelaram caminhando pela relva, se aproximando rápida. Os movimentos daquela mulher não eram submissos, eram felinos, selvagens. A cada nova explosão de luz ela se aproximava mais e ele a via, orgulhosa e sensual. Temeroso e atraído por aquela fêmea desafiadora, Adão saiu em disparada, temendo o que seria dele caso ela o alcançasse.
.
Por algum tempo eles evitaram o que se revolvia em suas mentes e quanto mais tentavam esconder seus desejos, mais evidentes eles se revelavam. Até finalmente a situação se tornar insuportável e um sem consultar o outro partir para pela primeira vez agir obedecendo somente aos próprios anseios.
.
Eva correu até a árvore e ao invés da serpente alada de outrora, ela encontrou a vigiar o fruto, um homem com asas negras, belo e terrível, poderoso, sedutor e malicioso. Ele apresentou-se como Samael e determinou que aquela era a hora de se livrar das correntes.
.
Adão mal podia se conter, tomado de loucura ele dirigiu-se ao local onde antes a mulher surgira. Novamente ela apareceu, ainda mais bela, com garras e dentes afiados e olhos bestiais. Seu nome era Lilith assim ela dizia e em um bote ela derrubou Adão.
.
Eva ajoelhou-se e experimentou o gosto do pecado em sua boca, o beijo sujo da morte que a fez sentir viva pela primeira vez. As mãos, dedos, língua de Samael queimavam e faziam Eva esquecer-se de tudo e desejar apenas ser usada por ele, se deixar levar pelo mistério. Eva afogava seus gemidos cravando os dentes no fruto proibido, vermelho e macio; Samael cravava os dentes em sua carne rósea e perfumada, batendo as asas conforme a violava impiedosamente.
.
Adão abatido assistia excitado Lilith cavalgá-lo, movimentando freneticamente os quadris para frente e para trás. Enquanto fazia isso, Lilith rasgava o peito de Adão com as garras e mordia sua boca com tamanha voracidade que chegava a arrancar sangue.
.
A tempestade crescia e rugia, o paraíso tremia em condenação enquanto homem e mulher entregavam-se a dêmonios. Eva a ser currada pelo anjo caído Samael, o mais próximo da Luz e o grande rebelde que dividiu as falanges celestiais.
.
E Adão a ser vencido por sua primeira mulher, feita do mesmo modo que ele, que se negara a ser sua serva e a obeder a Deus, unindo-se a Samael.
.
Embora Adão não se lembrasse de Lilith, para ela, a vitória em humilhá-lo na cópula quase recompensava o asco de deixar-se invadir por tão fraco e prepotente ser. Samael tentava engolir seu desprezo por Eva enquanto a fazia um filho, o primeiro assassino do mundo. Samael e Lilith juraram profanar o trabalho de Deus e pagariam qualquer preço para derrotar seu inimigo.
.
Javé pode ter nos amado, mas quem deitou-se conosco foram os demônios.
.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

A Tragicomédia da Felicidade e do Sofrimento




Os sentimentos são inerentes ao ser humano, mas isso não significa que conseguimos entendê-los. Seu mistério alimenta a arte desde sempre. Mudamos o formato, porém a essência é igual. Sofremos e somos felizes e procuramos algo que nos provoque aquela sensação para revivê-la novamente.
.
Contudo, somos mais toleráveis ao que nos fere. O sofrimento nos acompanha desde o nascimento, a felicidade por outro lado é algo mais raro e demanda maturidade emocional. Nos machucamos e aprendemos a nos fortalecer com as feridas. Ao menos assim pensamos. Passamos boa parte da vida obedecendo o sofrimento e então, finalmente o tempo colhe aquela coisa estranha que incomodava nossa alma e que nós nunca entendemos exatamente qual a razão para sentirmos isso.
.
Enfim a constatação de que nossas escolhas não foram nossas e sim do medo de encarar o passado e de aprender que ele não é o profeta absoluto do futuro nos arrasa. Descobrimos que nossa coragem não passa de covardia e que repetimos o mesmo erro inúmeras vezes. Somos viciados na dor e no pensamento de que seremos em algum ponto revisitados pelos fantasmas de antigos traumas. Então a dor que também estava reprisada, porque nunca a encaramos de frente, se apresenta, inteira. E exatamente quando estamos prestes a conhecer o que é felicidade, compreendemos a verdadeira dor.
.
É nesse momento que provamos do que somos feitos. Porque as emoções não nos governam, nós decidimos como vamos viver. Muitos voltam para o que consideravam seguro, tentando fingir a ignorância de outrora. Outros sucumbem e se deixam invadir pela sensação de sofrimento o abraçando e fazendo dele sua casa. Poucos, muito poucos encaram a vida sem pintá-la como o céu ou o inferno. No máximo um purgatório pessoal onde somos nossos algozes.
.
O que quer que venha de fora não nos atinge tanto quanto o que nos acerta na alma.
.
Ser feliz é um desafio e tanto para quem se atreve a viver plenamente. Renunciar certezas e redescobrir o mundo e a nós mesmos pode assustar, mas o risco de ser feliz é o melhor risco que há. Basta apenas fé, algo que nunca pensei que teria ou recomendaria. Fé em nós mesmos. Na vida. Na felicidade. No amor.
.
Entre a Tragicomédia da Felicidade e do Sofrimento e o romance, eu prefiro o romance. A dois.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

SODOMA


Há algum tempo encontrei
Entre dois alvos montes o caminho
Escondido, escuro, úmido e quente
Teu esconderijo íntimo
.
Tu te fizestes de rogada
Proclamando que os portões jazeriam selados
Me convidando paro o pecado natural
Jamais no entanto desisti de tomá-la
.
Ao velar teu sono eu a sitiava
E com dedos sôfregos abria caminho
Em êxtase cobria de beijos tuas nádegas
Propondo uma trégua para teus medos
Alimentando qual a uma cadela teus instintos
.
No sonho tu se desfazias e gemendo
Arcava-se e tremia em terremoto
E a última vergonha era ameaçada
.
Derrubei os pilares morais e o pudor caiu por terra
Lidas e novas guerras nos pertencem agora
Ambos tomados de lascívia somos e uma nova era
Sem muralhas, nosso gozo alcança a glória
.
Hoje faço-te minha por inteiro
Insultando a quem quer que se ofenda
Com nosso sexo, canto, poemas
Ejaculando fogo-branco, oferenda
Ungido por mim será para sempre teu corpo