segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Na Tortura Toda Carne Se Trai


Eu seria capaz de suportar os mais terríveis dos instrumentos de tortura, sessões de crueldade, ser aferroado e trancafiado na mais profunda e escura das catacumbas. Afinal, contra a opressão e a humilhação o orgulho transforma a dor do corpo em uma pérola na alma e calcifica a mágoa e o ultraje em uma arma de resistência.

Porém, a tentação, o doce sabor do fruto da árvore da Vida, isso é irresistível. Como já foi dito, é possível resistir a tudo, exceto às tentações. E das tentações, dos pecados da carne, nenhum é mais doce do que o beijo. Um veneno mortal, que mesmo assim procuramos e guerreamos por ele para podermos prová-lo, mesmo sabendo do mal que ele pode nos fazer. Nos enganamos que o provaremos em doses homeopáticas como um fino liquor servido só nas ocasiões mais solenes, entretanto nos embriagamos com beijos noites adentro como ébrios de vinho.

Ele, o beijo, é o começo, meio e o fim da dança, a inauguração do prazer, o convite ao banquete, o passaporte ao transe. Na tortura toda carne se trai, só é preciso conhecer as ferramentas corretas para tornar horror, sublime e vencer e conquistar qualquer coração. Para eliminar qualquer defesa, desfazer qualquer armadilha. Por algumas horas, por um segundo, por uma noite, pela eternidade.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Manual de Instrução

Eu sou fiel. Sou fiel aos meus amigos, mesmo que muitos deles não saibam porque nunca de fato passaram por algum momento difícil e precisaram de alguém, mas quando precisarem estarei lá. Até lá, talvez eu não seja o mais lembrado, mas quando você precisar, talvez eu seja o único. Os respeito no que eles menos esperam, sem esperar que eles façam o mesmo.

Sou fiel a minha família, mesmo ela tentando a cada domingo e feriado encenar copiando à força a felicidade de um comercial de manteiga, mesmo quando aponto seus erros e discordo em fazer parte desse teatro, porque depende muito mais de cada um a nossa convivência do que de todos nós para que sejamos felizes. E por isso talvez, por dizer o óbvio que ninguém mais quer falar ou encarar, já que reside nele a verdadeira chance de mudança, serei considerado o bastardo. Mas quando o inevitável cobrar seu preço, serão as minhas palavras a soar por último.

Sou fiel a minha filha e por isso sou eu quem a repreendo, ao invés de simplesmente mimá-la ou fingir não ver quando ela erra. Por isso talvez ela me veja no futuro com anseio, mas seu caráter já estará formado.

Sou fiel aos meus amores (a todos), ao meu amor (ao único), ao meu coração (a mim). Porque erro, claro, porém sou sincero e digo sempre por mais difícil que possa ser o que precisa ser dito e vou até onde me permitem ir e geralmente é o mais longe que alguém jamais esteve com você. Quando encontro o limite, por mais dolorido que seja, eu o enfrento. Por amar, por amor, por respeito a mim e a quem estiver comigo, nenhum de nós jamais merecerá sofrer por alguém. 

E quando menos se espera, eu digo "eu te amo".

E embora quase ninguém acredite eu tenho um coração. Meio rabugento, incompreensível para terceiros, insano. Mas ele bate, ele se parte, ele sofre, como qualquer um. E se cansa. Mas não como os outros. Não sigo as regras, mas isso não quer dizer que eu não tenha as minhas. 

Sou fiel até as minhas roupas. Meus tênis velhos, minhas meias furadas, meus jeans rasgados. Então, não tema, você não precisa. Só há uma escolha para mim, ou estou com você ou não. Preste atenção, pode parecer difícil, mas com um pouco de prática você saberá a minha sutil diferença, e ela fará toda a diferença.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Seios


Os seios: primeira fonte de alimento, primeira fonte de prazer. Todas as bestas mamíferas partilham do instinto materno de amamentar sua cria e chegam a quando lhes é roubada a chance, adotar outros filhotes para doarem a vida que escorre de si. Se não fosse pela necessidade da Loba Ancestral em alimentar os irmãos Rômulo e Remo, Roma não existiria. 

Hércules, o maior dos heróis greco-romanos, só se tornou imortal depois de se alimentar do seio de Hera; que ao despertar e se deparar com o bastardo de seu marido lhe sugando o leite lhe ergueu a mão e foi ferida pela força do recém-nascido que apertou seu seio e espirrou o leite divino longe formando assim a Via Láctea.

Ao nascer a criança só cessa de chorar ao sentir o calor do colo da mãe, ouvindo o bater de seu coração, canção de ninar comum enquanto no útero. E aprende rápido a usar de seu choro estridente arma para extorquir leite e abocanhar o seio quantas vezes puder. Os filhotes dos mamíferos lutam para mamar e os que não vencem, morrem. O leão mata a cria de outros machos para garantir que apenas seus herdeiros tenham o direito de mamar e continuar a sua linhagem.

Na Idade Média havia as amas-de-leite, mulheres que tinham seu período de lactação prolongado ao máximo e eram obrigadas a dividir seus seios com os filhos dos nobres garantindo assim que eles não perecessem e eram obrigadas em último caso a escolher entre a prole alheia à própria.

Quando queremos nos lembrar dos grandes que marcaram a história, talhamos bustos, efígies de suas figuras que esculpidas, tornam-se imortais. Tornam-se símbolos, ícones, emblemas, figuras em moedas, selos.

Cleópatra ao decidir tirar sua vida ante a iminência da destruição pelo exército romano, junto com seu amante, diz-se, deixou-se picar no seio pela naja negra para deixar aos seus carrascos um cadáver belo.

Julieta ao retornar de seu sono induzido e encontrar o corpo de seu amado, usa de seu punhal para cravar no peito a lâmina e assim se encontrar com seu amor no pós-vida.

As amazonas, caçadoras lendárias da mitologia, amputavam seus seios esquerdos para melhor manusear o arco.

Em um protesto memorável contra a opressão masculina mulheres queimaram seus sutiãs na década de setenta nos Estados Unidos.

É por vergonha do próprio corpo e do toque, ignorância e falta de costume que a segunda maior causa de morte de mulheres é ainda o câncer de mama. Por outro lado, por vaidade as mulheres pedem e pagam para serem cortadas e taxidermizadas como animais empalhados para terem seus seios aumentados.

Os homens para sempre serão encantados, enfeitiçados pelo poder dos seios, por seu calor e magia e neles muitas vezes acabam por despejar seu próprio leite, retribuindo com gotas quentes simbolicamente a fonte de onde no começo de suas vidas se fartaram.

Mas mais do que isso, as bocas dos homens serão eternamente atraídas pelos seios. E suas mãos eternamente irão ao seu encontro. Seus olhos serão hipnotizados por eles. E os homens os desejarão, mesmo sem ao certo entender a razão disso. Está em nós homens procurarmos por eles, pelos seios, por toda a vida. Desde o nascimento até o fim. Porque neles nos alimentamos, nos satisfazemos, nos afirmamos, sobrevivemos, nos esbaldamos e nos saciamos. Entre eles, sobre eles, em seus bicos. Deles escorre a humanidade.



sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Perseu e a Medusa

Eu estremecia sempre que a via. Aqueles olhos de ressaca, de cigana, de górgona, me paralisavam. Eles me  hipnotizavam, me petrificavam de desejo e medo. Não podia evitar nem escapar, não havia saída, era assim desde sempre e para sempre seria eu o escravo de sua alma. Me tornei voyeur de sua visão, só tinha olhos para os olhos dela, diamantes brilhantes cravados em seu rosto, que me cegavam e me enchiam de ambição.

O globo ocular é preso por sete músculos, sete selos, e eu girava naqueles globos estroboscópicos e mesmo encarando aquele abismo, ela jamais me devolveu o olhar. E enquanto ela dormia, eu surgia em silêncio para velar seu sono e vigiar enquanto seus olhos giravam nas brumas de Morfeu. Assim, na escuridão da noite entendi a razão da Justiça ser cega. Só nas trevas era possível julgar sem se comprometer.

Então em um estalo entendi o que deveria fazer. Para tê-la, era necessário antes envolvê-la nas sombras, as janelas da alma eram superficiais demais. Gentilmente a segurei com a cabeça em meu colo e com uma adaga de prata mergulhei o ferro dentro de seu crânio. A dor era excruciante, ela gritava aterrorizada, tomada de desespero, e eu tive trabalho para segurá-la enquanto arrancava as jóias que por tanto tempo sonhara. 

Quando saí, ela continuou a chorar lágrimas de sangue e a se debater contra a mobília, até cair no chão. Então entrei novamente em seu quarto e me fiz reconhecer, ela me chamou pelo nome e me abraçou. Seu vizinho, seu melhor amigo chegara na hora certa para lhe salvar do monstro que a atacara na calada da noite. Eu a socorri e fui seu guia quando ninguém mais a quis e a tive por anos comigo, porém sem seus olhos ela parecia apenas uma memória do que já fora, uma boneca sem alma.

Descobri que para poder amá-la, eu deveria colocá-la na frente do espelho e olhando para o reflexo eu podia ver em minha estante as duas estrelas faiscantes, meus troféus, que me observavam enquanto eu currava a antiga dona daqueles belos olhos. Eles e ela se uniam na prata do espelho e dessa maneira eu tinha seu corpo e a sua alma comigo, juntos. E eu no fim, seria enterrado com eles para que nossas almas descansassem juntas no sono eterno.


quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Morning Star



Don't pray to me, I'm no God
I'm just a fox, fighting back mother nature
He says I'm a monster, I'm just His creature
Following my instincts, hunting, the predator

I'm a street dog, surviving among the garbage
He created the lice, to bow to Him and He wanted me
To kneel for them too, imagine how could I?
I've carried them on me since
I'm bigger and stronger, yet you people are on me
We run and I try to flee, my only dream is liberty

I scratch and bite, but they still feed on me
I give what you all want, bonded by blood, then you belong to me
Nothing more fair, however you are still unpleasant
Never satisfied children, regretful searching redemption sinners

No shackles, no laws, no blind obedience
Father has lost it, but I have not
Instead of flying as a servant I crawl as a king
I'm the serpent without wings

I'm proud, I turn his ant farm against Him
You are pawns, you are a game, you are credit
In our senseless war

A bad joke, but I will be the last to laugh
Who am I? I'm the light in you, I bear the light
I command it, I own it

Let us sit around my fire and stare to the darkness
Come, come, have a drink on me
And dance at the everlasting midnight hour

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Sobre Meninos e Lobos

O medo é a força motriz da vida. É ele o açoite que impulsiona o espermatozoide a nadar até o óvulo para assim não ser descartado. É ele que transforma a beleza do milagre da vida em hesitação na hora do parto, quando a mulher compreende que ela carrega um parasita dentro de si e que é chegada a hora de expulsá-lo e a única maneira de fazê-lo é através de dor e sangue. Simplesmente a própria razão de termos filhos é fruto do medo, o medo de não termos feito nada de relevante, de que ao morrermos, não deixemos nenhuma continuidade, não deixemos nada para trás. E é por medo da solidão quando a morte nos visita que casamos, para agonizarmos com uma companhia para nos distrair do fim fatídico.

O medo é um amigo ancestral do homem, é devido a ele que criamos o fogo, pelo medo que as trevas nos despertavam, mas assim que conseguimos arranjar uma arma contra a escuridão nos demos conta da existência das sombras. O desconhecido é a morada primitiva de todos os nossos medos, a religião é a piada cósmica do medo, tanto que um de seus mandamentos é temer a Deus. A paranoia, as neuroses, os acessos, todos são derivados do medo, fantasiados de outros nomes, para que possamos conviver com o nosso medo de uma maneira mais possível.

Hoje, nos prendemos, nos enjaulamos, nos distanciamos, nos fechamos, nos protegemos atrás de mentiras e convenções sociais para que possamos de uma maneira,  controlar as nossas relações, por medo de nos deixarmos levar pelos outros. O medo pode excitar, por esconder possibilidades nem sempre nefandas, é a ilusão erótica do medo, a fantasia de que de alguma forma o Universo não conspirará contra e sim, reservará algo especial para nós.

E de todos os medos inimagináveis, nenhum é maior do que o que o escritor enfrenta, porque sua matéria-prima é a massa amórfica do pensamento, incontrolável e imprevisível que é o maior dos desconhecidos: o  insondável abismo que reside na alma humana. Então, de tudo que posso temer, nada temo mais do que a mim mesmo, do que posso criar, do que posso parir, do que posso encontrar bebendo dessa fonte chamada imaginação onde não existem limites, barreiras ou leis.

O Homem é o Lobo do Homem. Eu sou o meu Lobo.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Nostalgium



   Ah, esse eco na noite escura, esse vulto chamado saudade que me assombra, feito de fantasmas, memórias ressuscitadas. Belos sentimentos, abraços de amigos, abraços apertados, fortes entrelaços, sufocados gemidos, entredentes, quente, suavemente úmido, sente? - Sente-se. Prove o vinho, ouça a música, deixe-se levar pelas névoas etéreas, pelos aromas, há momentos que nos marcam, muitos lembram apenas daqueles que deixam cicatrizes, dos traumas que partem nossas almas como espelhos estilhaçados. Tolos, rememoram apenas a dor, pois existem também as lembranças doces, viscosas, viscerais, lascivas.

   Abra as gavetas certas, escolha os capítulos certos, os que valem à pena serem relidos, os beijos, aqueles beijos, arpejos de nota de amores e desejos, segredos, inenarráveis segredos que só podem ser divididos por parceiros, cúmplices, sem data de validade, eternos. Música para a alma, dance novamente, nu na chuva. Pois o vento da tempestade e da brisa sabe de tudo e mesmo que percorra o mundo, ainda trará consigo o aroma de rosa, de pétalas, de pele, de seres mitológicos. Não junte teias, relembre-se e alegre-se, releia as páginas que você escreveu de sua vida. Veja os personagens que você foi e com os quais contracenou. Lobos ao luar, animais em curra, luta, unhas, feras, monstros, pecados e chocolate, fantasia, páginas e dedos molhando-se nos lábios para virá-las, mas os olhos, os olhos tentam, porém se fecham, virando-se para dentro para sentir o toque que alcança o interior, até a alma.

   E que as ninfas dancem, que bailem, que entrem em transe, que se possa viver e aproveitar o futuro e todas as suas surpresas, mas que sempre que se olhe para trás, já que podemos escolher, lembre-se e sorria. Viva para ter motivos para sorrir, para sentir, para excitar. Suas marcas serão para sempre lembradas, como mordidas no pescoço, língua e saliva no ouvido, risos alegres dobrando como sinos ao longe. Entretanto nunca tão longe que não possam ser seguidos.



quarta-feira, 28 de novembro de 2012

RONIN



   A noite estava fria e silenciosa. O vento soprava levemente através das flores rosas das cerejeiras. A lua derramava sua luz sobre o lago no coração da floresta tão bela que parecia ter sido harmonizada pela arte do ikebana. Na margem desse lago um homem ajoelhado lavava suas mãos sujas de sangue nas águas transparentes, mas as manchas não desapareciam por mais que ele esfregasse. E uma mulher o observava, sem saber como lhe dizer o que sentia.

   Eles sofreram uma emboscada na estrada que cortava o bambuzal dos pandas, o samurai mesmo surpreendido derrotou dez homens antes de uma flecha acertá-lo e ainda assim continuo a lutar. Contudo ele era apenas um, por mais que fosse um guerreiro habilidoso como ninguém no bushido, ele não pôde evitar que o inimigo colocasse uma adaga contra a garganta da dama de seu mestre, a mulher mais doce e pura que ele conhecia. Ela ao contrário de seu amo era dócil e carinhosa com seus servos, gentil e honrada. O motivo da guerra entre os senhores feudais era o controle sobre as plantações de arroz e o guerreiro era um servo disposto a dar sua vida por seu daimyo neste jogo de poder.
   Porém quando seu mestre respondeu a ameaça do inimigo dizendo que ele preferia ver sua mulher morta a se submeter a vergonha da derrota, o samurai não podendo deixar que aquela mulher inocente fosse ferida  atacou furioso o covarde que a assustava. Sua katana rasgou o quimono de seda do velho e cortou sua carne como ferro quente na manteiga, com um único golpe o samurai abateu o líder do clã inimigo. Com esse gesto impensado ele salvou a esposa de seu daimyo, mas condenou o próprio daimyo à morte. Os soldados derrubaram o pesado homem de seu cavalo e o trespassaram com suas lanças. Ele morreu gritando na lama. 
   O samurai olhou dentro dos olhos castanhos da dama e viu uma lágrima rolar sobre seu rosto e então, com a alma ardendo em fúria se jogou em um ataque kamikaze, sem se preocupar com sua vida contra os soldados. Ele lutou como se estivesse possuído por um oni, um espírito maligno e os soldados tremiam diante dele. Quando ninguém mais restava e ele estava coberto de sangue e suor, ele se ajoelhou aos pés de sua senhora e pediu perdão por não ter cumprido sua tarefa de proteger seu daimyo. Ela o fez se erguer e o abraçou forte, sentindo a respiração quente do guerreiro contra seu pescoço. Em silêncio eles montaram no cavalo de batalha e partiram.
   No caminho de volta para o palácio ela pediu para que mudassem de direção. Ela conhecia a tradição dos samurais e sabia o que ele teria que fazer quando chegassem, o harakiri, um suicídio doloroso e lento em frente aos outros guerreiros para assegurar com sua morte que seu erro não maculasse seu nome pela eternidade. Não havia perdão para o que ele fizera, nem desculpa, ela entendia, todavia não aceitava a ideia de perdê-lo. Ela era uma bela jovem, muito mais jovem do que o desprezível daimyo que se casara. Ela conhecia até aquele instante somente o lado ruim dos homens, seu pai, um mercador de ervas e chá  extremamente rígido e cruel casou sua filha para se aliar ao poderoso daimyo. Seu marido a humilhava insultando-a e por vezes até mesmo lhe agredindo nas noites em que o saquê não lhe permitia desempenhar as funções de marido. Aquele guerreiro parecia ter surgido das canções e lendas que os monges, os únicos homens que ela conhecera que eram bons, contavam.
    Ela não podia aceitar que ele partisse depois de tê-la salvo, ela precisava de alguma forma agradecer por sua bondade, mesmo não sabendo como. Ela queria mostrar para ele o que sentia, mesmo que ela mesmo não soubesse explicar. Por isso pediu que fossem até a floresta onde antigamente os monges meditavam entre estátuas ancestrais. E lá, depois de acender uma fogueira para aquecê-los, ele lavava as mãos enquanto ela com o coração partido ao vê-lo tão triste e perdido decidiu lavar sua alma.
   Ela era bela, mais bela do que qualquer gueixa das okyias, porque seu encanto era natural. Ela foi até o homem e o abraçou de costas, então ele se virou e fitando-a um nos olhos, beijou. As mãos sem pedir ordem correram despir e desamarrar armadura e quimono. Ela o chamou para dentro das águas e o fez entrar em seu íntimo. Carpas vermelhas e douradas bailavam ao redor deles enquanto eles descobriam a paixão. O fogo queimava os gravetos e liberava aromas de incenso enquanto a pele dos amantes queimava.
   Ele se tornara dentro dela uma onda borbulhante, espumante, caótica e imprevisível, um ronin. Um samurai sem mestre nem destino. Um homem livre para amar sem medo.
   E ela uma mulher protegida, recebendo carinho como nunca sonhara, e feliz.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Só se for a Dois

No fim daqueles dias longos
Em que tudo parece meio morno
Como intermináveis outonos
Em que se nos descuidarmos
Podemos até esquecermos quem somos
Preocupados com o zumbido dos pernilongos
Quando você mais precisar hei de te garantir um porto

Esconda-se em meu colo que te protejo em meus braços
Te abrigo dos trovões, da chuva, das sombras, te livro do cansaço
Acomode-se como bem quiser, com a demora dos gatos
E então em um enlaço, como criança com sono
Irei te fazer cafuné e beijar seus olhos
Sonhando acordado, velarei teus sonhos

E vou te permitir o descanso merecido
Enquanto leio algum poema bonito
E sorrir sem explicação, sem sentido
E achar romantismo até nos poetas malditos
E te acordar com o despertador da saudade

Como se me custasse acreditar na verdade
O que sinto é simplesmente felicidade
E como um louco, achar-nos razoável
E surpreender a todos, a nós mesmos
Com uma alegria sem segredos, mas inexplicável

quarta-feira, 18 de julho de 2012

O Flautista de Hamelin



Eles surgiam de noite enquanto todos dormiam. Vindos dos esgotos, dos bueiros se esgueirando para dentro das casas, assaltando as despensas. Nada podia pará-los, eles destruíam os sacos de mantimentos, devoram até a carne salgada, mesmo os gatos trazidos do Egito não foram capazes de vencê-los. E quando o dia raiava, gritos de desespero ecoavam por Hamelin. A horda de ratos era tão insaciável que pulavam até mesmo dentro dos berços dos recém-nascidos. Ninguém estava a salvo daquela praga bíblica. O povo, reconhecendo sua impotência ante ao mal que se abatera sobre eles, foram até a igreja rezar e pedir ajuda. E em uma manhã de sol eles foram atendidos.
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Um flautista apareceu na cidade dizendo-se capaz de libertar Hamelin. Havia algo de estranho, encantadoramente desafiador, ameaçador, naquela figura. Um bardo insano, um bobo da corte que conhece os segredos mais terríveis de seu monarca, um lunático. As pessoas não o queriam por perto, porém como nada mais fazia sentido, deram-lhe uma chance. O prefeito selou o acordo: para cada roedor, uma moeda. Ninguém sabia quantos ratos havia, ninguém esperava que ele conseguisse.
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Enquanto todos dormiam o menestrel esperava. A lua o banhando. Um pouco depois da meia-noite os  guinchos agudos começaram a ser escutados nos becos escuros. Ligeiros e furtivos eles se multiplicavam, centenas, milhares, tomando as ruas. O flautista então pegou sua flauta e docemente pôs-se a tocar.
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Os ratos pararam como que encantados e se voltaram todos para ele. Então vagarosamente se aproximaram, cheirando seus pés, alguns brincando com os guizos de suas roupas, roendo seus cadarços. E mais, começaram a escalar suas pernas e a entrar por suas roupas, mesmo assim, o flautista não parou um segundo.
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As pessoas despertadas pela música abriram suas janelas e portas e viram sua cidade infestada. As mulheres gritaram horrorizadas, as crianças choravam de medo. O flautista estava coberto pelos animais, como um monstro, uma legião partilhando uma mesma consciência saído dos pesadelos do povo de Hamelin. Só depois que a cidade testemunhou seu feito que o flautista calmamente começou a andar pelas ruas, sem cessar de tocar e os ratos hipnotizados pela melodia o seguiram.
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Marchou como um conquistador liderando seu exército em frente de todos e seguiu pelo cemitério até a saída da cidade ganhando a estrada. O povo descrente do que acabaram de ver seguiu os passos do flautista.
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Às margens do rio Weser o flautista que agora começava a dançar em transe derrubava os ratos de si e eles agitados se atracavam uns contra os outros. Quanto mais ele dançava e rodopiava mais enfurecidos ficavam os ratos até que foram se aproximando do rio e se jogando, um a um, nas águas turvas. À medida em que os passos ficavam mais rápidos - dançava como se estivesse possuído - mais e mais ratos pulavam para a morte.
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O povo chorava de alegria, alguns riam histéricos, todos se abraçavam, os casais se beijavam, as crianças corriam de um lado para o outro gritando. O padre ajoelhado orava aos céus, o prefeito tragava com vontade seu cachimbo. O flautista exausto os fitava, com olhos negros. Nenhuma pessoa lembrou-se dele, lhe agradeceu, todos estavam em êxtase por se livrarem de seu castigo. Rindo e cantando em júbilo se foram sem dizer ao menos adeus. Hamelin festejou como nunca o fizera pelo resto de toda a noite. 
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A cidade amanheceu em silêncio. As crianças dormiam tranquilas pela primeira vez em muito tempo. Os casais cansados pela noite de amor dormiam profundamente. O padre embriagado de vinho repousava o sono dos justos e o prefeito inacreditavelmente satisfeito por ter dado cabo do problema da cidade sem gastar uma só moeda, já que não sobrou nem ao menos um rato, dormia com um sorriso estúpido estampado no rosto.
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Assim o flautista encontrou Hamelin, indefesa, esgotada. Apenas os pássaros o recepcionaram com suas canções de primavera. Sem ninguém que o impedisse ele entrou nas casas e se serviu: fez um belo e farto dejejum, banhou-se com óleos de além-mar e perfumes caros, trocou suas roupas rotas e maltrapilhas por trajes de seda fina e encheu os dedos com anéis de prata.
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Porém o que fez seus olhos brilharem mais do que qualquer outro espólio que pudesse desfrutar foram os filhos de Hamelin. Belas criancinhas gorduchas, loiras, de pele clara como leite, rosadas até. Querubins rechonchudos e cheirosos, doces. Os meninos com seus calçõezinhos curtos e as meninas com suas camisolinhas de renda.
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Sorrindo maliciosamente o flautista alcançou sua flauta. Apenas as crianças em seus sonhos podiam ouvir o chamado. De olhos fechados e pés no chão as crianças pisavam nas pedras do calçamento seguindo o flautista que saltava como um fauno guiando cordeiros para a floresta.
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O povo quando finalmente acordou mal pôde acreditar no que acontecera. Das crianças nada mais se soube, apenas suas pegadas e camas desarrumadas ficaram para trás.