segunda-feira, 16 de julho de 2012

Sonífera Ilha


 Viciadas em morfina, adoradoras de Morfeu, Belas Adormecidas sonhando em camas solitárias. Muito ópio, ébrias, oníricas, porém nada como dar a cara à tapa. Antes isso a nada. Segurança demais, torres altas, Rapunzéis escovando seus cabelos, envelhecendo, juntando poeira, crescendo pelos. Princesas a salvo e com medo. Brancas de Neve enrugadas.

 Aprendam, coloquem suas capas, vistam-se de vermelho e vão à caça. Perambulem pelo Jardim do Éden, brinquem com a serpente, comam, mordam, engulam, experimentem. Percam-se na floresta.

 Os lobos lhes esperam do lado de fora para esquentar-lhes, devorar-lhes, mas vocês preferem passar frio dentro de casa. E ainda reclamam de tédio nos contos de fadas...

quarta-feira, 6 de junho de 2012

A Outra Face


Você pode me torturar, me crucificar, me culpar e me responsabilizar por sua desgraça e salvação, não fará diferença. Ainda assim a sua condenação permanece, você é livre. Livre para viver a vida que quiser, para escolher seu caminho, para plantar e colher o que bem entender.
Mas se você continuar a me responsabilizar por tudo, continuar a ser covarde, a dizer que não sabe o que faz e que merece ser perdoado por cada bobagem que fizer, hei de te mostrar a minha outra face. E saiba, você não vai gostar do que verá.


sexta-feira, 1 de junho de 2012

Coup D'état

Silenciosamente na calada da noite em adegas, tavernas, calabouços, nos esgotos, porões e em terríveis esconderijos nos reuniremos. Sem armas, mas ideias e lembranças, um ninho de serpentes e desejos. Revolta e sonhos. Ali, traçados os planos maquiavélicos de liberdade, iremos vandalizar suas estátuas e monumentos, destruir  e incendiar suas torres de orgulho e preconceito. Como sombras ganharemos as avenidas e querubins serão os arautos do seu pesadelo.
Tomar seus prédios e parlamento, desfazer suas leis e mandamentos. Sabotar o esquema e o sistema em que te fizeste eleito para deitar em seu leito. Jamais de direito. Em assalto lhe envenenaremos e tomaremos o que sempre fora nosso, o lugar de onde nunca sairemos. E picharemos teu nome e jogaremos lama em sua reputação e escancararemos teus segredos espalhando-os como tripas jogadas pelas ruas. Todos os seus defeitos. Se vencemos antes, se não o matarmos, destronaremos. Ao menos.
Pois nada escapa, nada se apaga, nada se desfaz. Tudo se transforma e a hora é agora. Nunca antes, para trás. Seu estado será roubado, seus tesouros pilhados e o caos imperará, com lascívia iremos festejar durante cem anos em lençol de cetim. Aguarde, aguarde, nos ouça na calada da noite, a horda, espere e verá.

O que foi é o que será.

Coup D'état

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Satisfação


Primeiro foram os mosquitos. Seres abjetos que infestavam sua casa a cada refeição e a cada fornada de bolo. Descobriu então um veneno maravilhoso que misturado ao açúcar acabava com a praga. Eles eram atraídos pelo açúcar e tinham uma doce morte. Ela assistia pelas tardes os vôos rasantes e os espasmos das perninhas intoxicadas agonizando lentamente.
.
Depois vieram as formigas, ligeiras operárias do asco que percorriam em silêncio, furtando e saqueando as migalhas do chão. Para elas a mesma solução. Doce morte. Porém não havia o prazer de ver seu sofrimento, elas levavam o açúcar até o recôndito de seu império e envenenavam sua rainha.
.
Vencidos os inimigos que aplacavam seu tédio, a viúva começou a procurar outros até que encontrou um bom desafio. A árvore do vizinho ao lado. Ela jamais gostara daquela árvore que atrapalhava a passagem e tinha um galho baixo que acertava a cabeça dos desavisados. Fora suas folhas que caíam o ano inteiro se amontoando em sua calçada.
.
Pensou cuidadosamente e decidiu como um relógio, todos os dias, de manhã e de tarde, regar a bela árvore. Era bonito de ver, todos achavam que ela estava a cuidar da última árvore da rua. Entretanto ela estava mesmo era a regar uma morte líquida nas raízes da planta. Inclusive, quando ninguém a via, ela fazia cortes no tronco para a madeira absorver através das feridas o veneno em seu interior.
.
Demorou meses, quase um ano. Mas ao fim, em uma chuva forte, a árvore foi derrubada destruindo o carro do vizinho no processo. Sua alegria fora imensa e ela já não sabia como parar. Sua necessidade aumentava. Ninguém jamais desconfiou ou descobriu seus atos.
.
Pôs a mesma água da árvore para os passarinhos beberem e os assistia como as moscas de antes, eles se debaterem em seu quintal. Ria como uma criança queimando insetos com uma lupa, sádica e maníaca. Tudo isso contudo, não a satisfazia de todo, faltava algo mais.
.
Em uma bela tarde de domingo no parque ela estava a jogar pipoca com a morte doce para os pombos, observando como os jovens se assemelhavam às pestes que ela exterminava. Como a vida deixara através dos anos de fazer sentido e como o mundo havia se tornado alienígena e imbecil.
.
Perdida em seus próprios pensamentos não notou umas criancinhas vindo ao seu encontro, atraídas pela pipoca tão displicentemente doada aos pássaros. Elas, com o brilho nos olhos que só os inocentes possuem, claro, pediram um pouco.
.
Com um sorriso diabólico a senhora entregou para cada um, um bocado de pipoca. As crianças festejaram e engoliram rapidamente aquele primeiro bocado, a velha bruxa, ardilosa, cedeu mais e elas saíram de perto, saltitantes.
.
De longe ela assistiu os pirralhos comerem e brincarem. Aos poucos eles foram parando, cansados, com dificuldade para respirar. Depois, desesperados pela asfixia, tremiam. As pessoas começaram a se aproximar para ver o que acontecia enquanto os meninos espumavam pela boca.
.
Todavia o melhor foram os gritos de terror dos curiosos ao ver que eles haviam parado de respirar. Nunca a viúva tinha se sentido tão feliz em sua vida, nem mesmo nos braços do seu saudoso amor.
.
Pela primeira vez em anos ela voltou para casa cantarolando como fazia quando moça. Passou o resto da noite ouvindo os velhos discos de bolero dos bailes de antigamente. 

Agora sim, feliz, satisfeita.

terça-feira, 3 de abril de 2012

Sudário


Sinto- me como um médium
A dor, o sangue derramado
Choro por feridas em mim jamais provocadas
Um mártir coberto de estigmas
No deserto em meio ao nada

Vejo cego a morte
Sinto com uma sensibilidade dolorosa
A paixão rasgar o peito e odiosa
Instalar, incubar ovos e larvas
Na alma que se acostumava
A ser mal-tratada

Escravo assisto a chibata
Lamber a pele, beijar a carne
E sem querer sorrio ao sentir apenas
Porque parece-me que em um mundo
De estátuas, no jardim do Éden
Fui escolhido para saborear a última lágrima

E eis que a dor se torna uma benção
E me encho de raiva

Um cínico modesto


Sou escuridão e mágoa, medo, fraqueza, desespero e lástima
Me envolvo na lama e me cubro de sujeira, me escondo na última trincheira
Do abismo, eu vi no olho do obelisco o meu signo
De má sorte, de azar, de dor
Porque tudo vira poeira, tudo vira pó
Minhas mãos tocam as ruínas e estou sempre só
Abraço minha sombra, estou contra
A vida, a vida, a vida que não me traz
Nada de bom, nenhuma paz
Me contorço e me deixo levar
Pela esperança de me entregar
Em me tornar aquilo que detesto
Um cínico modesto.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

O Dia do Caçador


Me lembro aos dez anos, mais ou menos, de ver meu pai sair de casa bem cedo. Sempre que eu o via pegar o rifle e o facão, mesmo correndo risco de apanhar pedia para ir junto. Não era sua companhia que desejava, as armas era o que me atraía. Minha vida se resumia em passar os dias ajudando minha mãe com os afazeres da casa, foi com ela que aprendi a quebrar o pescoço das galinhas e a furar os porcos para fazê-los sangrar rapidamente. Nessa última lição, demorei a me aprimorar, por alguma razão me divertia errar e vê-los se debatendo e gritando esvaindo-se em sangue.
Não me lembro bem quando foi, mas um dia meu pai farto dos meus pedidos e mais bêbado do que o de costume me deu um canivete e um vira-lata para que eu cuidasse. Ele prometeu que quando o cachorro estivesse grande e forte eu poderia acompanhá-lo.
Cuidei do cachorro o melhor que pude. Minha mãe não gostava de tê-lo por perto e meu pai sempre o chutava quando passava por ele. Em pouco tempo o cachorro estava enorme, forte. Sempre tentava me defender de meu pai o que o deixava furioso. Esse cão foi o mais próximo de um amigo que tive e eu sabia que logo meu pai teria de cumprir sua promessa. E de repente em uma manhã, com poucas palavras ele me chamou. Fomos os três: ele, eu e o cão. Ordenou que eu não esquecesse o canivete.
Caminhamos por um bom tempo até uma clareira grande com um tronco no meio. Meu pai então me pediu que amarrasse o cachorro ao tronco. Enquanto eu fazia isso ele começou a explicar que para aprender a caçar eu precisava antes aprender a ser forte, entender o que significava tirar uma vida. Estremeci de pânico quando entendi o que meu pai queria que eu fizesse. Tive ódio de mim mesmo por ter pedido para acompanhá-lo e quis desistir, porém o tapa que ele me deu no rosto me fez perceber que eu não tinha escolha.

Passei a tarde inteira enfrentando aquele que foi o único que me fizera sentir amado. A cada mordida e a cada golpe de canivete gemidos e ganidos desesperados escapavam de nós. Só com o canivete eu o enfrentei, ele me amava, mas sabia que tinha que se defender porque eu iria matá-lo. E eu sabia que se não conseguisse vencer, meu pai não iria me salvar dos dentes que procuravam rasgar minha garganta.
Não sei quantas horas aquilo levou. Eu todo machucado o furava cada vez que ele se aproximava. Anos mais tarde me peguei chorando ao assistir uma tourada pela tv, meu cachorro agonizara exatamente como o touro que depois de ser cravado de lanças começa a sangrar pela boca e cambalear. Finalmente tudo terminou quando cortei sua garganta. O abracei forte para não deixá-lo fugir e em silêncio, enquanto ele se debatia e seu coração pulsava cada vez mais fraco, me despedi.
Meu pai orgulhoso das minhas feridas me obrigou a cavar com as mãos, no escuro, uma cova para minha primeira presa. Para dificultar ainda mais a situação uma chuva desabou sobre nós misturando o sangue à sujeira. A tempestade disfarçou minhas lágrimas. Voltamos tarde da noite, minha mãe se assustou ao me ver todo machucado, sujo e tremendo de frio, contudo não questionou meu pai. Eu estava exausto, ferido, triste, mas era enfim um homem. Sabia o que significava tirar uma vida e estava pronto para caçar.
Esperei até a baixa estação, não queria correr o risco de encontrar alguém. Lembro que fazia muito frio, as folhas úmidas calavam nossos passos. Passamos o dia seguindo rastros, checando armadilhas. Conseguimos muito pouco, as trilhas se desfaziam com facilidade. O humor do meu pai após a morte de minha mãe tinha ficado pior, insuportável. Então a alça do rifle arrebentou e ele foi obrigado a me dar a arma já que precisava das mãos livres para abrir a mata com o facão. Isso o deixou no limite, ele nunca me deixava carregar o rifle, não confiava em mim.
Então meu pai encontrou algumas pegadas frescas na lama. Seguimos com cuidado por um tempo até que avistamos um cervo bebendo água em um fio d’água abaixo de nós. Meu pai fez sinal para que eu esperasse e ele foi devagar se aproximando de nossa presa. Ele estava concentrado procurando uma posição de vantagem onde as árvores não atrapalhassem a visão. A ideia que me perseguia desde a minha iniciação também me mantinha focado, a respiração lenta, os olhos cerrados no alvo. Um suor frio escorria do meu rosto, minhas mãos firmes no aço sentiam o peso do rifle. Lentamente dobrei o joelho e me coloquei em posição, a arma encostada no ombro, o coração acelerado.
Um pouco antes de apertar o gatilho meu pai se voltou para trás para pedir a arma com um sorriso de satisfação por ter encontrado o ponto perfeito para disparar. Ao me ver seu semblante mudou subitamente – seu olhar espantado me encarou – e eu mirando em sua testa, puxei o gatilho.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

O Fim do Mundo



Um dia as bandeiras sumirão do céu e as fronteiras se dissiparão porque simplesmente perceberemos que nunca existiram. Quem é que diz onde acaba o meu mundo e começa o seu? E entenderemos que o valor não se conta em cédulas nem se guarda em bancos. O que te faz pensar que é isso que te torna melhor?
.
O nosso ódio contra raças, origens, pele, sexualidade que carregamos será extinto, porque enxergaremos o óbvio - isso jamais fez diferença, a atitude é que faz. A sua, a minha.
E nos daremos conta de que mais importante do que acreditar em Deus é acreditar em nós mesmos. A maior batalha não é pelo paraíso, mas pela vida. Por todos nós.
.
E nos envergonharemos por tratar doentes como criminosos e criminosos como animais e animais como brinquedos e aqueles que deveriam brincar como produtos descartáveis. Descobriremos que há escolhas que todos devemos fazer e há escolhas que só os envolvidos podem tomar e não escolheremos pelas mulheres o que acontecerá no seu mais íntimo ou a uma pessoa no fim de seu corpo se ela pode partir ou não. E aprenderemos com os nossos erros e não os repetiremos por tradição e não seremos como os nossos pais, mas sempre, ao menos, um pouco melhores.
.
Reconheceremos que precisamos aprender a viver sem nos deixar consumir em mesquinhez e sem tornar entretenimento em fuga.
.
Um dia desses, um dia qualquer.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

"Homens" por Fernanda Montenegro


Tive apenas 1 exemplar em casa, que mantive com muito zelo e dedicação num casamento que durou 56 anos de muito amor e companheirismo, (1952-2008) mas, na verdade acredito que era ele quem também me mantinha firme no relacionamento. Portanto, por uma questão de auto-sobrevivência, lanço a campanha ‘Salvem os Homens!’ Tomem aqui os meus poucos conhecimentos em fisiologia da masculinidade a fim de que preservemos os raros e preciosos exemplares que ainda restam:

1. Habitat

Homem não pode ser mantido em cativeiro. Se for engaiolado, fugirá ou morrerá por dentro.

Não há corrente que os prenda e os que se submetem à jaula perdem o seu DNA. Você jamais terá a posse ou a propriedade de um homem, o que vai prendê-lo a você é uma linha frágil que precisa ser reforçada diariamente, com dedicação, atenção, carinho e amor.

2. Alimentação correta

Ninguém vive de vento. Homem vive de carinho, comida e bebida. Dê-lhe em abundância. É coisa de homem, sim, e se ele não receber de você vai pegar de outra. Beijos matinais e um ‘eu te amo’ no café da manhã os mantém viçosos, felizes e realizados durante todo o dia.

Um abraço diário é como a água para as samambaias. Não o deixe desidratar. Pelo menos uma vez por mês é necessário, senão obrigatório, servir um prato especial. Portanto não se faça de dondoca preguiçosa e fresca. Homem não gosta disso. Ele precisa de companheira autêntica, forte e resolutiva.


3. Carinho

Também faz parte de seu cardápio – homem mal tratado fica vulnerável a rapidamente interessar-se na rua por quem o trata melhor.

Se você quer ter a fidelidade e dedicação de um companheiro completo, trate-o muito bem, caso contrário outra o fará e você só saberá quando não houver mais volta.

4. Respeite a natureza

Você não suporta trabalho em casa? Cerveja? Futebol? Pescaria? Amigos? Liberdade? Carros? Case-se com uma Mulher.

Homens são folgados. Desarrumam tudo. São durões. Não gostam de telefones. Odeiam discutir a relação. Odeiam shoppings. Enfim, se quiser viver com um homem, prepare-se para isso.

5. Não anule sua origem

O homem sempre foi o macho provedor da família, portanto é típico valorizar negócios, trabalho, dinheiro, finanças, investimentos, empreendimentos. Entenda tudo isso e apoie.

6. Cérebro masculino não é um mito

Por insegurança, a maioria dos homens prefere não acreditar na existência do cérebro feminino.

Por isso, procuram aquelas que fingem não possuí-lo (e algumas realmente não possuem! Também, 7 bilhões de neurónios a menos). Então, aguente mais essa: mulher sem cérebro não é mulher, mas um mero objecto de decoração. Se você se cansou de coleccionar amigos gays e homossexuais delicados, tente se relacionar com um homem de verdade. Alguns vão lhe mostrar que têm mais massa cinzenta do que você. Não fuja desses, aprenda com eles e cresça.

E não se preocupe, ao contrário do que ocorre com as mulheres, a inteligência não funciona como repelente para os homens. Não faça sombra sobre ele…

Se você quiser ser uma grande mulher tenha um grande homem ao seu lado, nunca atrás. Assim, quando ele brilhar, você vai pegar um bronzeado. Porém, se ele estiver atrás, você vai levar um pé-na-bunda.

Aceite: homens também têm luz própria e não dependem de nós para brilhar. A mulher sábia alimenta os potenciais do parceiro e os utiliza para motivar os próprios. Ela sabe que, preservando e cultivando o seu homem, ela estará salvando a si mesma. E minha Amiga, se Você acha que Homem dá muito trabalho, case-se com uma Mulher e aí você vai ver o que é mau humor!

Só tem homem bom quem sabe fazê-lo ser bom! Eu fiz a minha parte, por isso meu casamento foi muito bom e consegui fazer o Fernando muito feliz até o último momento de um enfisema que o levou de mim. Eu fui uma grande mulher ao lado dele, sempre.

Com carinho,
Fernanda Montenegro