O Mal...existia antes do mundo; [...] Consequentemente, existirá depois das criaturas que povoam esse mundo.
Marquês de Sade
O mundo não é um lugar perfeito. A natureza como essência não é sagrada nem benigna, nada similar a mãe que provê alimento e abrigo. O homem nunca foi e nunca será um reflexo divino de tendências justas. As florestas são recantos de monstros, onde se escondem os nossos pesadelos, não santuários de uma obra de amor.
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Não somos virtuosos, nem preocupados com o próximo antes de nós mesmos sem que isso seja nos ensinado, cobrado e se não cumprido, punido. Não respeitamos a liberdade, a opinião, a vida alheia antes da nossa e não dividimos o que é nosso se alguém não nos ameaçar. A civilização é a coleira do ser humano. Tire-a e terá o caos, bestas primitivas. Citando Dostoievéski, "se Deus não existe tudo é permitido". O Homo Sapiens não é mais evoluído que seus antepassados, apenas melhor adestrado.
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Ou seja, a Criação, se existiu alguma, não foi feita por mãos iluminadas, bem-intencionadas.
Um mundo melhor é um sonho de poucos, a maioria quer apenas um mundo em que a coleira aperte menos.
Noite fria, mas era preciso trabalhar. Afinal a época era ótima. O Natal talvez não tornasse as pessoas melhores, mas fazia com que elas gastassem mais. Por isso as caçambas de lixo tornavam-se minas de ouro para quem sabia procurar. E enquanto estava imerso no lixo como um porco chafurdando na lama ouviu um choro estridente. Surpreso, procurou a origem do som, deduzindo ser alguma boneca jogada fora por alguma menina rica e mal-agradecida. Mas nunca poderia imaginar o que encontraria. Uma criança recém-nascida enrolada em um roto cobertor dentro de uma caixa de sapato suja de sangue. . O fedor era terrível e sem conseguir se segurar o morador de rua despejou na rua em espumantes golfadas a cachaça que bebera anteriormente. Enquanto se recompunha viu as sirenes de uma viatura aproximando-se em alta velocidade. Com medo de ser encontrado com aquele bebê pôs sua mão imunda sobre a boca da criança que chorava alto. Quando se deu conta a criança havia parado de respirar. Desesperado soprou com seu bafo podre para dentro dos pulmões do nenê devolvendo o choro ao pequeno. . Pulou da caçamba e com a criança no colo fugiu pelas ruas correndo rápido. Deixou para trás muitas latinhas que poderiam ser recicladas rendendo um bom dinheiro. O suficiente até para umas duas refeições mais uma garrafa de pinga. Quando encontrou um beco seguro, acomodou-se com algumas folhas de jornais sujas e úmidas e cobriu-se . Viu correr uma ratazana de um bueiro próximo onde fervilhavam baratas e riu-se ao ver seu companheiro, Rex, traçar uma cadelinha sarnenta e ficar engatado nela. Cansado pegou o resto da marmita que encontrara no saco de lixo do restaurante que sempre roubava e deu um resto de caldo oleoso de feijão para o menino que se regalou com cada gota. . De manhã acordou com o som de um carro parando no beco. A criança toda suja chorava alto e sem parar o que atraiu a atenção dos transeuntes e estes com medo do mendigo chamaram a polícia. O novato puxou a arma mesmo antes de dar as ordens para o pobre diabo mostrar as mãos e quando ele o fez puxou o gatilho temendo que o hippie fosse machucar o bebê que estava em seu colo. O sangue quente escorreu sobre o menininho o batizando.
Na mesma semana que o mendigo foi morto jovens de classe média-alta atearam fogo a um outro morador de rua que dormia em um banco de praça. O menino achado no lixo foi levado a um orfanato e recebeu o nome de Jesus.
Insaciável, animalesca, cruel, sempre faminta consome a tudo e a todos sem se entregar jamais. Irracional segue a natureza da repetição, da soma de corpos, como em uma guerra, empilhando em sua cama vítimas e as usando sem piedade. Febril na pele e gélida no coração, uma chama que queima sem arder. Mecânica e impiedosamente previsível. Um jogo marcado, uma dança de engrenagens, óleo, encaixes e combustão. Quente e efêmera. Um pecado por simplesmente ser infantil, pequena, um caminho fácil, uma recreação que ao se tornar séria, mostra a covardia dos que se entregam a ela. Porque o sexo vai além dos sexos, os corpos são mais do que carne. . A Luxúria não pode dominar, mas sim ser dominada, usada. Devemos pisoteá-la e fazê-la de ponte para através do corpo, excitarmos a alma.
A Condessa estava ansiosa por reencontrar seu marido que finalmente retornava para Sardar. Com a Hungria em guerra contra os turcos, o senhor de Erzsébet era essencial para a vitória, portanto sua esposa ficava longos períodos sozinha no castelo. Durante as ausências do Conde era a Condessa Bathory quem governava os empregados pelo extenso domínio dos Nadasdy.
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Ao saber do regresso de Ferenc, Bathory ordenou às suas criadas que lhe preparassem um banho perfumado. Enquanto uma das servas banhava seu corpo sinuoso, outra cuidava de suas unhas e outra ainda estava encarregada de penteá-la. Todas pareciam extremamente nervosas e desconfortáveis perante a nobre, mas a mais apavorada era a jovem que estava a pentear a cabeleira de Erzsébet. Seu pânico era tão grande que suas mãos tremiam e em um gesto descuidado a pobre acabou por puxar o cabelo da Condessa.
Bathory deu um grito de dor e tomada pela ira virou-se para trás fitando com fúria a criada. A moça desesperada começou a chorar implorando perdão o que fez só despertar ainda mais desprezo por parte de Bathory que lhe arrancou a escova das mãos e com um gesto rápido golpeou o rosto da serva. Seu golpe abriu um corte no rosto da jovem, segurando-a pelos cabelos Erzsébet não contente começou a bater a cabeça da serviçal contra a borda da banheira insultando-a, dizendo que ela deveria ter deixado os soldados de seu marido terem a violado ao contrário de protegê-la. Porque no fundo ela só servia para ser currada já que não passava de uma cadela sem aptidão para nada. Bateu repetidas vezes até que a criada parasse de respirar. Seu sangue jorrava quente escorrendo para dentro da banheira cobrindo a pele alva de Bathory.
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Ao se dar conta do que havia feito a Condessa largou a mulher que tombou sem vida. As duas outras criadas estavam aterrorizadas no canto do quarto, petrificadas por testemunhar tamanha brutalidade. Embaraçada por se entregar ao impulso de violência Erzsébet começou a rir das mulheres chamando-as com maliciosa doçura para perto de si, para que continuassem de onde haviam parado. Ambas hesitantes acabaram por se deixar levar por sua mestra e voltaram para a banheira. Erzsébet sentia-se estranhamente bem, excitada com o ocorrido. Sentia-se renascida em estar mergulhada no sangue virgem de sua empregada, parecia-lhe até mesmo que estava mais bela, mais viva, mais jovem. E a imagem dos soldados privados por meses de fêmeas violando uma jovem não saía de sua mente.
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O toque das mãos macias da criada que lhe lavava as pernas lhe arrepiava e com carinho guiou tais mãos delicadas para o meio de suas pernas. Trouxe para perto a outra que cuidava de suas unhas e lhe desamarrou o avental, deixando amostra os seios rosados e pequenos que ela começou a lamber e sugar. Puxou a criada que lhe masturbava para dentro da banheira com sangue e a beijou com sofreguidão enquanto ordenou para que a outra se despisse e se tocasse enquanto as assistia.
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Quando o Conde Ferenc Nadasdy chegou Bathory estava pronta, com uma pele de seda, vívida e deslumbrante como jamais estivera. A Condessa pediu ao seu marido que lhe trouxesse os dois mais bravos soldados de seu exército para receberem uma recompensa. Então adentraram as duas criadas que ajudaram Erzsébet com o banho e aos soldados elas foram concedidas. Bathory não satisfeita ordenou que eles as tomassem em sua frente e na de seu marido, estava curiosa para ver a ferocidade dos soldados. E eles não decepcionaram seus senhores. Pareciam bárbaros selvagens atacando as mulheres dos inimigos.
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Com palavras de desafio ela e Ferenc incitaram os dois brutos a estuprarem espancando e açoitando as duas mulheres, com a ajuda de instrumentos de tortura o prazer do casal em assistir o sofrimento alheio foi prolongado por horas até as mulheres cessarem de se mover. E enquanto os soldados abusavam das duas inocentes que sangravam mutiladas, Ferenc e Bathory riram-se, amaram-se e cuspiram no rosto estampado de dor e humilhação daquelas almas desafortunadas.
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Esse ritual acabou por se tornar tradição e antes e depois de qualquer campanha militar Bathory e seu marido brindavam e festejavam com seus soldados mais cruéis lhes presenteando com virgens para serem violadas e mortas. Os criados tremiam porque se algo não estivesse de acordo com a vontade da Condessa eles eram levados para serem torturados e seu sangue servia para banhá-la enquanto sofriam as mais inimagináveis atrocidades.
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Assim nascia uma parceria de amor e crueldade lendária que fez o nome da Condessa de Sangue ecoar pelos séculos, maior do que todas as conquistas de seu marido, sua maldade e libido impressionaram e impressionam por corar, despertar asco e desejo até hoje.
O noviço quem preparava tudo para o dia seguinte. Por fim se dirigia ao aposento do padre para despedir-se e lhe beijava a mão. Ioseph respondia o gesto com um sorriso. Seu corpo não permitia mais os hábitos de antigamente. O velho antes de dormir ferrava a porta e se deliciava recordando ao olhar as fotos antigas escondidas na mala com segredo que ele guardava debaixo da cama.
Aquela noite como todas as outras sonhou com o passado, com o coral. O coral era uma paixão particular que ele sentia muita falta. Aquelas crianças cantando e exaltando a Deus, todos tão inocentes e puros como anjos, adoráveis, lindos, principalmente os meninos. E dentre todos, ele, Abby, o mais belo e o com a voz mais angelical... - jamais se perdoaria pelo que acontecera àquele pobre jovem. Um pecado.
Durante seu sonhar pareceu perceber uma presença ao seu lado, junto de seu leito e no delírio do sono pediu perdão a Abby, imaginando que ele tivesse vindo lhe fazer uma visita como no passado.
_Perdão Abby, por favor, me perdoe. Mas eu não podia evitar, você era tão lindo e eu, eu... te amava...
Uma voz sinistra sussurrou em seu ouvido antes de sufocá-lo:
_Eu te perdôo padre, mas vamos ver se Eleonore irá fazer o mesmo...
Eleonore soube da notícia por um telefonema, seu filho de treze anos havia pulado da ponte para a morte. Ninguém soube dizer a causa de seu suicídio, ele era inteligente e amado pelos colegas na escola e era a revelação no coral da igreja, sua mãe mesmo não tendo muitos recursos nunca deixara lhe faltar nada.
A notícia do desaparecimento do padre veio pela TV, uma notícia urgente mostrando uma foto do padre e fazendo uma revelação inimaginável. A polícia dizia ter encontrado junto dos pertences pessoais do padre indícios de pornografia infantil.
O telefone tocou, Eleonore ainda em choque atendeu. Uma voz grossa e rouca ordenou secamente:
_Vá até o túmulo de Abby e veja as fotos que separei da polícia para você. Seja rápida e não conte a ninguém. Tenho uma proposta para fazer.
Ela caiu de joelhos com lágrimas quentes queimando seu rosto sem controle, tremendo. Desacreditada quanto ao que acabara de se passar ela vasculhou a memória e lembrou-se dos sorrisos estranhos que o padre dirigia a Abel. De repente levantou-se, pegou a bolsa e partiu.
O velho acordou e a primeira coisa que se deu conta foi o fato de estar nu, preso a uma cadeira e com um saco cobrindo seu rosto.
_Olá padre... Seja bem-vindo, espero que não esteja confortável.
Confuso e assustado o padre começou a pedir que o soltasse, ele rogava tão frágil que mesmo o criminoso mais vil seria capaz de se compadecer de seu estado.
_Isso mesmo, vamos jogar seu jogo Ioseph. Mas sou eu quem dita as regras. Entenda, não estou condenando seus atos, pelo contrário, sou um admirador do seu trabalho. Todos que passaram por suas mãos deram belos frutos.
Aquela voz maníaca parecia a de um demônio, porém o que mais assustava Ioseph era o fato do desconhecido parecer conhecer seus segredos mais obscuros. Sempre temera ser descoberto e jurara a si mesmo que tiraria a própria vida antes de ser julgado pela justiça dos homens. Somente Deus poderia fazê-lo.
_Você é louco, não faço idéia do que está falando. Eu sempre trabalhei humildemente servindo ao Senhor e fiz o que pude para fazer a diferença junto ao meu rebanho.
_Ah Ioseph, por favor. Eu vi as fotos, eu sei de tudo. Inclusive guardei as de Abby de recordação, sei que elas são muito preciosas para você. É exatamente pelo fato de você ter escolhido abusar dos indefesos que o faz tão importante. Você arruinou muitas vidas que acabaram por arruinar outras vidas mais. Percebe a beleza disso tudo? A sequência de destruição e desgraça que você iniciou ao levar aqueles meninos para seu quarto? Você faz idéia do que eles se tornaram? Você ficaria tão orgulhoso se soubesse o que eles se tornaram graças a você.
Ioseph escutava a tudo sem responder nada, jamais lhe passara pela cabeça que ao ceder à tentação de amar poderia resultar em destruição e desgraça.
Sem misericórdia, como se lhe causasse prazer o remorso do padre o homem continuou a falar.
_Porém Abby não rendeu frutos, deu cabo de sua vida e essa perda fez você parar. Sua mãe não se revoltou. Ela está presa pelo luto, pela dor. E é aí que você entra Ioseph, com a sua ajuda nós vamos mudar isso. Vamos libertar a ira que ela guardou por todos esses anos. Você sabe o quão bom é se entregar a tentação, vamos ver se Eleonore irá sentir o mesmo. Estou apostando que sim.
_Quem é você, Lúcifer? Como sabe de tudo isso, como pode saber? E o que você quer de mim, seu louco!
_Eu, Lúcifer? Quem dera, não adianta me bajular Ioseph. Somente cuido para que seu jardim esteja sempre belo. Nós nascemos maus Ioseph e se Deus não existe, tudo é permitido. A natureza humana é essencialmente maligna. Nós vamos fazer com que Eleonore experimente um pouco do que nós dois conhecemos muito bem. A semente da vingança está plantada há muito em Eleonore e até então ela não tinha um rosto para poder se voltar contra. Hoje ela vai florescer.
Horas mais tarde o homem retornou, o padre reconheceu seus passos pesados. O que o encheu de pavor foi perceber que o “jardineiro” não estava sozinho. Alguém se sentou a sua frente, a respiração ofegante, nervosa. Finalmente o silêncio foi quebrado:
_Perdoe-me padre, porque vou pecar. Vou tirar a vida de um homem e não me arrependo nem um pouco. Pelo contrário, estou com medo de que não possa me segurar e acabe indo rápido demais, que eu não faça você sofrer o suficiente. Perdoe-me padre, se puder, porque eu não te perdôo. Nunca perdoarei
Prefiro brincar com fogo e correr o risco de me queimar a morrer congelado. Baixar a guarda e talvez ser alvejado no peito a me blindar em uma armadura de insensibilidade. Abrir a porta no meio da noite e ser furtado a viver em um castelo com lembranças do passado. Quero mergulhar fundo, não a segurança do raso, do superficial, do descaso. Ser bicho, ser lobo e não um brinquedo, um passatempo, mais um corpo sem alma, sem rosto, sem gosto. Viver mais do que o hoje e sonhar com um futuro gozoso glorioso.
Viver dez anos a mil, ontem, hoje e sempre acreditando.
Nada pode ser mais miserável do que a memória das putas tristes. Se como no romance de García Márquez até um nonagenário pode descobrir o amor, não vejo vantagem para quem se castra da pior maneira, matando o coração. Nem todos tem a sorte de viver até os noventa.
Nevava, Matilde estava nua em seu apartamento minúsculo. O último cliente do dia acabara de partir e ela aproveitava para relaxar. Estava cansada, a pele quente lavada de suor e esperma, mas feliz. Era véspera de Natal e Matilde sempre acreditou que as pessoas se tornavam melhores nessa época. Por exemplo, o último cliente em questão havia deixado uma maço de cigarros caro de presente para ela. Isso tinha que significar alguma coisa, não? . Começou a recordar de quando foi violada por seu pai, de quando apanhou de sua mãe quando ela soube, e da inveja dela ao saber que a filha dava mais prazer ao marido que ela mesma. Rememorou orgulho que sentiu ao se tornar a puta mais procurada da rua e de receber até mesmo seus primos que há muito fantasiavam com seu corpo. E relembrou a amarga decepção ao procurar ajuda na fé e perceber que o padre, que deveria guiá-la pelo caminho espiritual, se masturbava enquanto ela confessava com detalhes o que fizera com cada cliente do dia. . No entanto tudo aquilo era passado, os anos ensinaram Matilde. E ela ensinou os clientes a respeitá-la, ninguém mais tentou sair sem pagar ou quebrar a sua cara. Seu amigo, que por muito tempo ela dividiu um quarto na pensão da Salomé, lhe ensinou a usar a navalha e ela brandia a lâmina como ninguém. Ela em contrapartida o maquiava e o deixava lindo, o transformando em uma linda rapariga que fazia o que os homens quisessem, era menino e menina e cobrava caro. Matilde sentia falta daquele rapazote, ele era muito engraçado, pena que foi embora tão cedo devido à "maldita". . Matilde esteve com ele nos seus últimos dias, o confortou como pode das dores da enfermidade que se abatera sobre seu corpo e o assistiu dar o seu último suspiro, com lágrimas nos olhos. E ele deixou para ela suas economias de sua breve e intensa vida. Foi com esse dinheiro que Matilde conseguiu comprar o apartamento que agora vive, simples, mas belo. Como o próprio amigo.
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Se fosse para ela se apaixonar por alguém, pensava ele sobre essas bobagens, teria sido por aquele rapaz lindo com rosto de boneca. Porém Matilde sabia que nenhum homem poderia de fato amar uma mulher como ela, e seu amigo, mesmo se estivesse vivo, não poderia satisfazê-la como ela desejava. No mais todos os homens aparentavam agir apenas como animais e procuravam apenas se saciar. Não tinha ninguém com quem contar. Só havia um ser a quem ela poderia se entregar sem medo e se sentir tocada. . Pegou então o crucifixo roubado de uma tumba enfeitada no cemitério e enquanto tragava o cigarro deixado pelo cliente, abriu as pernas deixando o santo amor invadi-la. Apenas Ele sabia o que era amor e Matilde orou por horas, engolindo à sua maneira o corpo de Cristo, em comunhão com o seu próprio, até desmaiar em êxtase.
Que as chamas devorem os fracos, incendeiem as almas, queimem as feridas, incinerem o passado e das cinzas renasça mais forte o desejo. Ardente, flamejante, em beijos inflamáveis e pele febril, corpos suados e noites infernais. Pois o futuro será ígneo, vulcânico, quente e úmido, forte, lento e fundo. Regado a gasolina, traga um fósforo para brincarmos com fogo. Combustão de prazer, carbonizando fantasias, o combustível é a saliva. E lancemos nessa pira os lencóis sujos e deitemos sobre o carvão faiscante, salamandras insinuantes, bailando, dragões e diabos ao redor de nossa consumação piromaníaca. Labaredas lambendo a pele, as paredes, os sexos. Derretendo velas e estátuas de cera, anjos escorrendo, o prazer manchando a pele, sangue pulsando rápido e fervente. Sentidos em ebulição, gritando em vapores abafados a liberdade e a solidão, a pequena morte.
Que tua boca me beije, me engula, me sugue, me lamba, me morda E tuas mãos me abracem e teus dedos me arranhem e me acariciem Como os meus hão de te penetrar e tocá-la por dentro Fazendo-te tremer, gemer, contorcer-se, implorar
Invadindo-te por inteira O meu corpo te violará com força e violência Como gostamos, como animais E me desfazerei dentro de ti, em flama líquida E você verterá ondas, espuma e paz
Sem nunca dizer - "Eu te amo" - jamais
Na saúde e na indecência Até que o desejo se acabe
Carlos Drummond de Andrade Trad: Silva Bélkior . Et quid nunc, Ioseph? Festum est finitum, lumen est exstinctum, cuncta evanuit turba, nox est frigefacta, et quid nunc, Ioseph? et quid nunc, et tu? Qui nomen non habes, qui alios derides, qui versus componis, qui amas, reclamas? et quid nunc, Ioseph? . Femina non tibi verbum neque tibi nec blanditiae tibi, bibere non vales, fumum nec spirare, nec sputare quidem, nox est frigefacta, dies tuus non venit, currus tuus non venit, risus tuus non venit, utopia non venit, omnia et sunt finita, omnia et vanuere omnia et mucuere,et quid nunc, Ioseph? . Et quid nunc, Ioseph? tuus sermo dulcis, tuae febris hora, tua gula et ieiunium, tua bibliotheca, tua auri fodina, tua vestis vitrea, tua contradictio,tuum odium — et quid nunc? . Clavi manu arrepta, vis ut pateat ianua, non est tamen ianua vis in mari mori mare est tamen siccum; vis in Minas ire, Minas non est amplius. Ioseph, et quid nunc? . Tu si vocitares, tu si gemeres, tu si personares Vindobonae melos, tu si obdormires, tu si fessus fieres, tu si mortem obires... Sed non moreris, tu es durus, Ioseph! . Solus in caligine velut bellua in silva, sine theogonia, nudo sine muro tete cui fulcires, sine equo nigro qui quam citior fugiat, tu incedis, Ioseph! Ioseph, quonam gentium?