quarta-feira, 26 de novembro de 2014

O Testemunho de um Maldito


  Os antigos incas ao contrário da maioria de nós olhavam os céus e não se encantavam com o brilho das estrelas, mas temiam a escuridão profunda entre elas. Eu era assim,  como eles: o céu, o espaço, o universo sempre me encantaram e me despertaram um temor inexplicável. Dediquei minha vida a compreender as teorias, filosofias e equações que poderiam explicar o inexplicável. Descobri que mais de três quartos do que compõe o nosso Universo é algo que não fazemos ideia do que seja: o "nada primordial". Um nada que é na verdade algo tão minúsculo e poderoso que comporia uma quarta dimensão na estrutura da Física, algo que iria além da nossa percepção e a partir desse ponto poderíamos supor que haveria não apenas novas dimensões no sentido de espaço/tempo, mas novos mundos, galáxias, universos. A questão é muito maior do que haver ou não vida fora do nosso planeta, a questão é compreender quantos Big Bangs poderiam ter existido e dado vida a universos inteiros como o nosso, só que diferentes e independentes. Algo que meus colegas e eu chamamos de "Multiverso". Contudo, tudo isso, todos esses mistérios se perderam no dia em que eu morri. Me perdoem, mas como estou prestes a ter a minha existência definitivamente extinta, estes sonhos e paixões que fizeram eu ser quem eu fui em vida ainda me movem, mesmo que eu seja apenas uma sombra do cientista e estudioso que viveu.

  A morte deveria ser o nosso verdadeiro foco penso eu agora, afinal, se não temos capacidade, tecnologia ou se simplesmente a natureza nos impede de descobrirmos todos os segredos do cosmos ao menos podemos compreender o mistério que envolve a todos nós. A nossa finalidade no sentido de fim e significado. Eu procurei por tanto tempo, com tamanha dedicação e obsessão diria até, as respostas para as perguntas da ciência sobre o Universo que quando me deparei me afogando com o meu próprio sangue caído na sarjeta após um assalto não pude aceitar que aquele seria o meu fim. O meu medíocre e banal fim violento que acabaria apenas como mais uma mera e desimportante estatística. Este meu rancor, minha incapacidade de aceitar o inevitável me fez despertar dentro de outra dimensão, aquilo tudo que eu queria saber sobre um mundo ao redor do nosso estava finalmente ao meu alcance. E era tudo um pesadelo sem fim.

  Tentei ao máximo me manter concentrado em explicações lógicas e racionais, entretanto quando você está a um passo do mundo que nós conhecemos, testemunhando a sua família envelhecer e superar a sua perda, sua mulher passar do luto a um novo casamento, seus filhos terem seus filhos e não lembrarem de como você os tratava para fazerem o mesmo com os filhos deles a lógica e a sua sanidade se desfazem. Eu estava no Purgatório. O lugar descrito por Dante Alighieri onde as almas ficavam presas no pós-vida para pagar por seus pecados na esperança de ascender ao Paraíso. Ao menos era essa a única absurda explicação que eu me recordava para aceitar o meu destino. E eu não era o único a jazer naquele lugar. Almas de pessoas esquecidas vagam sem rumo neste mundo de ruínas, dor e memórias e dentro deste reino cinzento uma nova sociedade se erguera em uma nova ordem mundial avassaladora. Tudo do outro lado do Véu é feito da mesma matéria, talvez, a tal matéria escura que comporia o "nada primordial". Nós, almas perdidas e tudo ao nosso redor é um pálido rascunho do mundo que existe e somos todos constituídos da mesma coisa: ectoplasma. Uma matéria viscosa e ao mesmo tempo gasosa que está em toda parte e em parte alguma simultaneamente. E esta cruel verdade nos transforma em moedas de trocas. Escravidão e tortura são realidades no reino das sombras e almas são rasgadas, aquecidas em fornos que ardem usando como combustível outras almas e despedaçadas para serem moldadas em criaturas bizarras, monstros, armas, moedas e até mesmo trens. Trens onde se levam mais almas para se construir mais de tudo, há mesmos cidades inteiras construídas desde tempos remotos com as almas humanas que não conseguem deixar suas existências para trás.

  E os anciões, aqueles que temem tanto o próprio fim, almas seculares, são os senhores destas terras. - os seus Lordes. Poucos duram nesta existência porque os anciões não querem que novas almas ganhem a experiência e a sabedoria que eles conquistaram através do tempo e da angústia. E além disso, todos nós partilhamos uma outra singularidade: somos todos tentados por nossas "sombras" a desistir e se entregar para o vácuo e assim desaparecer. A mais forte das consciências se enfraquece e se torna frágil quanto a de um suicida desequilibrado quando os anos mostram o quão insignificante fomos e somos e vemos tudo aquilo que perdemos se repetir em rostos diferentes que amam, gozam e desfrutam de prazeres que cada vez mais nos parecem distantes e ao mesmo tempo atraentes.

  Eu consegui ganhar espaço nesta nova sociedade porque havia ali um desespero tão colossal que todos, não apenas a mim, anseavam por algum tipo de resposta, de conforto. Alguma coisa que nos fizesse acreditar que existiria uma forma de ultrapassar todo aquele suplício. Eu, um homem da ciência, me tornei um líder religioso. Não como os pastores que exorcizam e praticam milagres na TV, eu acabei me tornando primeiramente para me confortar uma pessoa espiritualizada e repeti tantas vezes para mim que aquela dimensão mórbida era a prova definitiva de que havia uma força superior acima de todos nós que nos encurralara entre os mundos dos vivos e dos mortos que outras almas começaram a me ouvir. E a me seguir.

  Experimentei então o gosto de algo que jamais havia sentido antes: o sabor do poder. Eles me seguiam e me compreendiam e queriam acreditar em mim porque não havia nenhuma escolha. E logo, claro, os anciões souberam do que se passava e começaram a nos caçar. Eu me tornei uma ameaça e usei os meus fiéis como ovelhas para fugir dos lobos. Contudo eles eram incansáveis, possuíam a eternidade para me caçar e mais e mais eu era seduzido por minha própria ideia de grandeza. Me entregar ao poder maior, a Deus e me deixar levar pela entropia. Me desfazer em escuridão. A única coisa que me impedia de desistir era o desafio de sobreviver aos meus inimigos. Nesta luta me tornei novamente outra coisa: um guerreiro estrategista. 

  Perdi a noção do tempo, porque para nós o tempo se arrasta com uma monotonia opressora e temos os nossos grilhões pesados como âncoras que nos prendem aos nossos medos que nos deixam lentos. Destruí e ataquei muitos dos postos e batalhões inimigos. Sacrifiquei e distorci almas para me tornar perigoso e temível como aqueles que tentavam me vencer. Me tornei um monstro como eles. Na verdade - possivelmente sinto uma fagulha do que eu conhecia como orgulho - eu me tornei um monstro pior do que eles.

  Nem razão ou fé me salvaram de mim mesmo. E a minha arrogância e pretensão me levaram a minha derrocada. Quando enfim me colocaram de joelhos na sala mais escura da capital dos mortos, Estígia, no coração do Limbo ante aos pés do maior dos Lordes eu não sentia mais nada. Perdido entre tantas vidas sem vida, sem significado, abracei o meu fim. Os senhores dos mortos entenderam que eu queria ser derrotado e não me atiraram na Tempestade. Eles encontraram uma saída melhor. Eu hoje sou o relógio dos mortos que em gritos anuncia a passagem do tempo. Minhas engrenagens foram feitas a partir das minhas tripas ectoplasmáticas e eu fiquei desfigurado e a minha dor é infinitesimal. Agora não posso mais crer em deus algum, não acredito mais na ciência dos homens, não acredito mais em mim. Só o Tempo poderá me libertar da minha prisão incrustada e fabricada de mim mesmo. Aguardo a hora quando a Tempestade engolir a tudo e me tirar da eternidade onde me coloquei.

  Eu sou um aviso ambulante do que acontece para quem desafiar as leis dos mortos. Nada pode vencer a Morte. Eu sou Sísifo rolando a rocha morro acima e sendo esmagado por ela. Este é o meu testemunho antes de ser transformado em uma coisa que jamais deveria existir. Uma aberração em um mundo de espelhos enferrujados. 

  Ai de mim. Ai de quem não abraçar a morte e lamber os seus lábios gélidos em um beijo na derradeira hora. Ai das almas que se apegam àquilo que não mais lhes pertence. O Limbo os devorará por dentro, somos todos malditos.

Escutai mortais, esta é a minha sina e será a vossa se não me escutares.

E ninguém jamais me escutou.
   

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

A Semente da Mudança



A casa de cada homem é o seu castelo. Mas nem todos tem casas.

O coração de cada pessoa é o bastante para formar laços. Mas nem todos reconhecem tais alianças.

O corpo de cada mulher é sua propriedade. Mas nem todos respeitam a santidade da escolha.

Cada um escolhe como abraçar a morte. Mas nem todos aceitam os vícios alheios.

Todos somos iguais em nossas diferenças. Mas nem todos permitem que as diferenças façam diferença.

Juntos somos mais fortes e por isso mesmo é nosso dever dar às minorias o que pra nós já é direito. Mas nem todos se sentem fortes ao defender o outro.

Todos queremos mudanças. Mas nem sempre discutimos formas de melhorar e sim discordamos simplesmente para provar que o outro está errado.

As coisas estão mudando, mudar é reconhecer a Vida. Só não muda aquilo que está morto. Que a Semente da Mudança encontre em você solo fértil para termos um mundo melhor.

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

O Universo Particular

Nós e tudo no Universo somos feitos da mesma coisa. Poeira primordial da qual surgiram estrelas, galáxias, planetas, sóis, luas, eu, você. Nossas vidas não são nada se comparadas aos milhares de milhões da anos dos seres celestiais, mesmo assim a cada dia uma estrela pode ter nascido ou desaparecido, um buraco negro pode ter engolido misteriosamente tudo a sua volta, planetas podem ter sido atingidos por meteoros ou colidido com outros planetas.

A dança do Universo é inexorável, incessante, assim como o tempo sobre nós. Os ponteiros não param mesmo que às vezes eles pareçam rápidos de mais nos momentos bons e lentos de mais para os menos importantes. Assim como a Terra nós vivemos em rotação, vivendo ao redor de nós mesmos e dos detalhes desimportantes da rotina, somos afogados por coisas ordinárias, entorpecidos e anestesiados pelo comum. Para muitos este é o resumo de suas vidas, as preocupações banais, porém para realmente existir precisamos ter as nossas translações, as nossas voltas que nos fazem conhecer e sentir a luz de experiências únicas, de situações especiais, de momentos inesquecíveis. São eles que guardamos na memória e não as neuroses com contas e prazos. 

A cada ano um ciclo se fecha para se reiniciar, para algo novo nascer e então contamos quantas transliterações tivemos. E nos perguntamos quantas deixamos de ter devido as nossas rotações. Somos apenas peões rodando para divertir os outros como as crianças de antigamente que se divertiam rodando esses brinquedos ou nos divertimos e criamos lembranças como as do tempo de criança ao brincar de peão? A idade tende a nos tornar mais filosóficos, ou meramente mais desconfiados. Pesamos nossas escolhas e reavaliamos a nossa vida, há sempre tempo de mudar, repensar, escolher outros caminhos. Ao menos nos convencemos que sim e deixamos para amanhã a transliteração dos sonhos enquanto cumprimos as rotações diárias. 

Estou feliz com a dança do Universo, sou um mundo repleto de imagens e sons próprios, de vida. E há ainda muito para se desvendar, descobrir. Mas ao passar do tempo compreendemos que não teremos tempo para revelarmos o maior dos mistérios: a nós mesmos. De tudo que somos capazes, do que poderíamos ser. Aprender a conviver com isso é um desafio que urge sem deixar de acreditar que ainda há muito a ser contado, vivido, translado.

O meu Universo Particular está dançando e eu não quero só rodar na ponta do pé como um bailarino, quero me lançar como uma estrela cadente e cair sem abrir os olhos no desconhecido, bailar de mãos dadas com o destino e gozar a vida enquanto há possuo. E que assim seja. 

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

A ERA DAS LOLITAS


  Ela era como a representação de um conto de fada, branca como a neve, linda, aterradora e provocante como uma nevasca e todos os espelhos respondiam que não havia ninguém como ela. Seus olhos amendoados brilhantes e inocentes continham um brilho felino, como um filhote de tigre siberiano que poderia brincar ou retalhar seus dedos. Sua boca, pequena, vermelha e carnuda parecia uma armadilha para engolir a alma humana fraca e seduzível, de milhares de homens sem esboçar pena num sorriso frágil de menina má.

  E sem saber ao certo o que fazer com os seus encantos mágicos, seus dotes, como um capricho da natureza que embelezou uma criatura sem dá-la condição de se conhecer ou de saber de seu real poder ela vivia respirando e anseando por um príncipe que violasse sua torre e a tomasse. Algo mais terrível do que resgatar uma princesa de um dragão é não se deixar cair pelas garras de uma donzela, em seus truques, curvas e promessas vãs de paraíso perdido.

  Por isso ela era como o Narciso, amava-se e ao notar que outros lhe percebiam, amava-se mais ainda. Cobria-se com pinturas como um Dorian Gray megalomaníaco, sonhava com a grandeza de ser desejada na pequenice de seus sonhos febris, místicos e absurdamente tolos. Uma aberração para a sociedade moderna, a ruína dos homens, pois nós por mais racionais que sejamos não deixamos de ser feras e de desejar cobrir as jovens fêmeas.

  Esta é uma era de Lolitas imbecis que não servem para nada porque sonham em servir, por capricho de seduzir e de ultrajar os pais. Mal sabem elas que seus pais sonham com suas amigas e que suas mães as invejam por terem o frescor do leite colhido de manhã enquanto elas ganham nata e se transformam em queijos bolorentos.

  O feminismo esbarra na vaidade, na superficialidade, na quantidade de admiradores e de gracejos, se antes os homens atiravam flores hoje cobrem os perfis de juras de amor e cantadas baratas, apelativas, para enaltecer egos e inflá-los até se tornarem gigantes e mesmo assim, continuarem cada vez mais vazios. Para preencher esse abismo na alma procuramos incessantemente preencher os orifícios do corpo e saciar os prazeres da carne e ao nos servimos sentimos mais fome.

  Porque o mundo está no cardápio para quem quiser e puder agir sem temer as consequências, as sereias ninfetas pulam para dentro do aquário pelo prazer de ver os homens salivando por devorá-las como lagostas em um restaurante de frutos do mar. 

  Na vida os seios e o pênis crescem mais rápidos do que a mente e assim a biologia entrega a crianças quase adultas armas de destruição em massa, capaz de fazê-las se multiplicar e de gerar novas almas. Hormônios e feromônios, cio interminável e jogo de poder, é uma caça, uma corte, uma dança, um sofrimento e um inferno. Porque não devemos tocar o fruto proibido, apenas aqueles incapazes de saboreá-lo devidamente podem fazê-lo e é exatamente por isso que ele nos parece tão doce.

  A maldição dos homens é essa: desejar sem possuir, das mulheres é deixarem de serem possuídas mesmo desejando o serem.

terça-feira, 5 de agosto de 2014

A Foda FODA


"Tudo no mundo é sobre sexo exceto o sexo. O sexo é sobre poder."
Oscar Wilde

Já usei esta frase antes em um post antigo , mas a citação vale à pena ser lembrada.

Há na relação sexual uma disputa de poder, de controle, de dominação, mesmo na mais tenra e carinhosa reciprocidade alguém está na posição de comando e alguém se submete ao outro. Saber ceder e performar em ambas as posições é uma arte, existe quem se sinta satisfeito ou seguro em uma ou outra posição, de dominador ou de dominante, contudo entender a necessidade do outro e dar espaço para que o seu cúmplice possa atuar sendo ativo ou passivo é uma das maiores formas de cumplicidade que um casal pode atingir. 

O sadismo e o masoquismo levam este conceito a outro nível e não é todo mundo que está pronto para adentrar este mundo de fetiche, couro, chicotes e nós. O bondage é uma arte para poucos, por certo, que vai muito mais longe que cinquenta tons de cinza. A palheta de cores deste universo é incontável e os quadros são a pele de quem ousar se arriscar a provar. Não há regras fora as que as próprias pessoas se impuserem.

Mesmo assim, o conceito vale para todos, o de que a força de quem está no comando provém da submissão do outro, ao compreender isso, que tudo se relaciona ao desejo e confiança de entrega, os limites do prazer são levados até o inimaginável.

Alguém tem que ceder o que não é deixar de ganhar, de se satisfazer, pelo contrário. É entregar as rédeas para aproveitar a paisagem da viagem. As sensações do orgasmo, cada arrepio e reação que para quem não é suficientemente seguro, pode parecer constrangedor, porém para quem se ama e não possui trincheiras entre si, é algo sublime.

Encontrei uma definição desta ideia em um dos filmes mais polêmicos e chocantes já feitos, "A Serbian Film - Terror sem Limites", um filme que eu não recomendo a ninguém a assistir porque é o mais pesado que já assisti e definitivamente pouquíssimas pessoas vão conseguir compreendê-lo. O filme se passa dentro do submundo dos vídeos snuff e envolve estupro e pedofilia, medonho, porém é possível compreender que ele usa da metalinguagem para criticar o próprio gênero que não traz nada de artístico e sim de monstruoso e que simplesmente explora a violência gratuita sem qualquer talento ou outro motivo envolvido se não o lucro da parafilia e do crime.

Entretanto há em uma fala entre os personagens logo no início do filme uma interpretação muito sincera do que estou discorrendo que não está ligada ao enredo principal:

"Seu senso de manipular uma mulher, o seu ritmo para esgotá-la, para humilhá-la, e então quando ela é reduzida a uma cadela, para reconquistá-la. E o seu amor por isso, isso é arte."

Esta é a definição do trabalho de Milos, o personagem principal do longa, considerado o maior ator pornô do mundo no filme e o único capaz de trazer beleza e arte para aquele mundo de entretenimento barato. Uma descrição vulgar de uma fonte de péssimo gosto, para dizer o mínimo, a maioria pode dizer - e não estará errada.

Por que então buscar esse tipo de citação quando a princípio tivemos Oscar Wilde?

Porque o sexo é em essência primitivo, um dos instintos básicos do ser humano, uma ligação direta com o seu lado mais animal, assim como a violência também é um dos nossos instintos mais vitais e é impossível negarmos tal fato. Por isso o sexo é um assunto tão difícil de ser discutido e ao mesmo tempo tão explorado, ele traz à tona um lado bestial  de cada cidadão que não cabe na sociedade a não ser na cama. 

"(...) O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera."
Augusto dos Anjos

Este trecho do poema "Versos Íntimos" de Augusto dos Anjos traduz de forma espetacular o que exemplifiquei anteriormente, é inerente ao homem ser fera e se tornar uma entre os outros homens-fera. Isso no contexto sexual é latente e vergonhosamente óbvio. A mulher pode amar e adorar ser bem tratada, idolatrada, contudo no ato sexual ela precisa descer do pedestal e sentir-se fêmea e a verdade de sua natureza surge, contrariando todo o feminismo e luta de igualdade de gêneros. Porque não estamos falando de racionalidade, mas de ferocidade, mesmo que haja uma breve luta por controle, de quem ficará por cima, por exemplo, alguém está sofrendo a violência da penetração e alguém a está praticando. A biologia é simples. Isso não é machismo, a natureza nos fez assim e se dentro da sociedade cada um deve e merece receber tratamento igual, do ponto de vista biológico isso é inconcebível. 

Por isso, por mais que tentemos nos esconder e negar os nossos tabus atrás de romances açucarados e contos infantis com moral, precisamos entender que o sexo não é imoral e sim amoral, não existe como racionalizarmos ele e sim, simplesmente, praticá-lo. E embora esta verdade possa chocar todas as moças inocentes, no fim, todas sonharão e desejarão o Lobo Mau quando estiverem a sós com um homem e desprezarão o Príncipe Encantado e sua etiqueta real.

Uma pena que por recalque da sociedade a maioria não saiba como lidar com o Lobo Mau quando encontre um e sofra por isso. O mundo poderia ser muito mais livre se nos aceitássemos como animais que vivem em um cio eterno em que alguém sempre estará fodendo alguém e que ser fodido não é desvantagem.

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Quero que haja sempre uma cerveja em sua mão e que esteja ao seu lado seu grande amor



Às vezes no final da noite sinto muito sua falta. Queria ter você aqui comigo agora. E às vezes no fim da noite sinto uma vontade enorme de tomar um gole de alguma cerveja amarga importada. E ao constatar no fim do meu dia quando deito para descansar que os meus desejos são esses, você e cerveja, não consigo imaginar uma prova de amor maior que essa. Obviamente para quem está de fora pode soar como uma forma estranha de amar, do meu jeito, sempre diferente de fazer as coisas.

Sei que isso não é o que esperam a maioria das mulheres, costumo dizer que para as mulheres serem amadas como sonham, elas devem amar outras mulheres e terem sorte, torcer, para encontrar alguém que possa ser tão carente quanto elas para serem correspondidas da mesma maneira. Os homens são menos glamorosos que as mulheres, amamos sem floreios, somos menos espetáculo. O nosso amor é mais direto, simples, como um leão no circo rugindo contra o chicote do adestrador, não somos o número de mágica, somos feras enjauladas. Mas nem por isso somos menos profundos, amamos menos. Ao menos eu sou assim, já que não posso afirmar sobre todos os homens, falo sobre o homem que sou.

Como uma tempestade de areia que atinge todos os sentidos e arrebata exércitos, não como um jardim secreto escondido onde a Árvore do Segredo da Vida descansa. E ao me deparar que não é apenas por desejo, companhia ou intimidade que sinto sua falta, me surpreendo. Porque sentir isso é irracional. Sinto como se tivesse descoberto uma falha nas leis do Universo, como se tivesse descoberto um segredo da natureza por ninguém ainda revelado. Como se descobrisse que a gravidade não é universal ou uma maneira de enganar a morte. Mas no fundo, para nós humanos, não há nada mais natural do que o amor.

Somos treinados pela biologia para amar. A arma secreta da reprodução - o amor. E treinados para não acharmos que ele é algo natural, mas sim sobrenatural, especial, nos enganamos e nos perdemos. E assim encontramos o paradoxo de loucura do amor, entre o saber e o sentir. A dosagem desequilibrada dessa droga entorpecente engana sentidos e razão. Somos bombardeados pelos nervos super estimulados, glândulas que soltam e produzem substâncias para confundir o nosso cérebro, se espalham e queimam na veia e nos faz ter febre, para interromper as conexões dos nossos neurônios e nos tornar viciados.

A sensação de amar é semelhante a se drogar, produz os mesmos efeitos que saboreamos ao nos embebedarmos. Por isso, quando digo que sinto sua falta de noite, no fim do dia quando a verdade se revela e quando digo que também sinto vontade de tomar um gole gelado de alguma cerveja amarga importada me alegro e ao mesmo tempo me pasmo. Isso, no meu mundo, é realmente amor. Com espuma e malte, ou trigo, em suma: cevada e saudade. E a vontade de brindar a tudo isso é o que me fará acordar de manhã, amanhã e depois.

sexta-feira, 18 de julho de 2014

CURRA


A minha língua abre a pele como navalha na carne que se abre como uma ferida, revelando o interior, músculos, nervos e sangue. Alma escorrendo, transbordando, saliva é veneno adentrando ao buraco aberto como o de um tiro à queima roupa que escorre e contamina o seu sistema, queima dentro da sua veia como ácido.

Cuspe que cai com a força de quem o cospe do terraço de um arranha-céu e te atinge no coração, te trespassa, te viola, te empala. Projétil que estilhaça a sua resistência, abre caminho através da sua armadura, verga a sua vontade, humilha o seu orgulho e te agrilhoa, ajoelhando-te. 

Você perde os sentidos, a visão, a fala e ao mesmo tempo se torna sensível como nunca, aflorando lugares que jamais você supôs existir, possuir, pensamentos, desejos, emoções - sujos, violentos, vis. Deliciosos. 

Sem força para resistir e tenaz para trair os seus ensinamentos, quebrando o tabu e caindo de boca como um bêbado que só depois que sente o chão, a lona contra o rosto, coloca as mãos a frente do corpo para se proteger.

Indefesa você se entrega não por não poder lutar, mas por não querer resistir. Vítima da síndrome de Estocolmo você espera nunca ser encontrada, nunca ser descoberta, renascer comigo e deixar sua vida para trás.

O cárcere é o seu lar, as algemas as mais caras joias que você jamais ostentou e as cicatrizes provas de amor. Você chafurda no chiqueiro e o ama, lavando sua alma com imundície o seu corpo se torna o templo da violência.

E então você anseia, baba como uma cadela com raiva, no cio, ansiosa, viciada, aguardando como o leproso pela cura, a próxima curra. 

Adaptação do texto de Bukowski "Como Ser Um Grande Escritor"


terça-feira, 1 de julho de 2014

EMANCIPAÇÃO

EMANCIPAÇÃO



O sol se escondia no horizonte trazendo uma noite fria em 1901 quando a carta enviada pelo chefe de polícia de São Paulo chegou às mãos do delegado do município de Itararé. Ao receber a correspondência do mensageiro o delegado estava trancando a porta de seu gabinete e ao ler o nome do remetente soube imediatamente que aquilo não eram boas novas. Afinal se tratava de nada menos que Pedro Antônio de Oliveira Ribeiro - o chefe de polícia de São Paulo - figura famosa do alto escalão do governo. Reacendendo o lampião novamente em sua sala o delegado confirmou que o conteúdo tratava de um assunto realmente complicado: o Cônsul da França pedia através do chefe de polícia informações com urgência do paradeiro de Lucien e Marie Foiz, um casal de argelinos que se suspeitava desde 1893 estivessem locados na região. Notícia peculiar e suspeita que arrancou um suspiro de desconsolo do representante da lei, ele teria uma longa noite.

Uma carta de São Paulo do Senhor Pedro Antônio já era ruim, um pedido urgente do Cônsul francês então era com certeza algo que não podia ser ignorado. Uma notícia daquelas precisava ser dada o quanto antes ao intragável Intendente Belarmino Pinheiro de Carvalho e lá se foi o delegado bater em sua porta.

Belarmino adorava o poder e o prestígio de sua posição, mas odiava as responsabilidades de seu cargo - equivalente a prefeito na época. O comerciante rude fora colocado pela aristocracia no poder para trazer para perto da elite os pequenos burgueses em um falso gesto de união e respeito a eles. Belarmino era uma marionete que adorava receber o seu salário e gastá-lo nos botequins, mas detestava ter de se apresentar ao Paço para assinar decretos que sequer lia.

Ao ouvir as novidades ordenou que o delegado averiguasse o caso na mesma hora temendo que qualquer demora em atender o pedido pudesse irritar os políticos da capital e manchasse o nome de seus mestres. Fazer o delegado revirar a cidade noite adentro para encontrar aqueles estrangeiros não era nada se comparado com a garantia de uma boa relação com os poderosos.

O delegado concordou com a cabeça e partiu rumo a igreja, qualquer coisa era melhor do que ouvir aquele desgraçado. E além do mais ele sabia que se aquela cidade que era um ninho de serpentes tinha algo a esconder, mais cedo ou mais tarde eles chegariam aos ouvidos do padre.

O pároco era de idade e não ouvia muito bem, principalmente quando não era de seu interesse, porém depois de o delegado quase pôr a porta da sacristia abaixo ele o recebeu. Se fingindo de senil o velho ao ser indagado evitava comentar sobre o assunto até que a menção sobre os rumores que tanto circulavam às más línguas do velho cristão levando muito à sério a frase “Vinde a mim as criancinhas” o fez mudar de atitude. Ele se fez de rogado e relembrou a sua influência junto às quatro famílias fundadoras da cidade e ameaçou dizendo que eles não admitiriam qualquer injúria contra ele, pois eram “católicos exemplares que não deixariam impune qualquer calúnia contra um homem de Deus”.

Ao menos o velho mostrara as garras pensou o delegado, então tratou de esclarecer que só queria fazer seu trabalho e que se o padre tivesse algo a dizer que o fizesse de uma vez para que ambos pudessem seguir suas vidas.

Sorrindo maliciosamente o velho se aproximou do ouvido do delegado e em um tom confessional sussurrou:

“...eu nunca pergunto a um homem qual é o seu negócio, o que eu pergunto são os seus pensamentos e sonhos. E Lucien sonha coisas que nenhum homem deveria sonhar, sonhos que só monstros e deuses são capazes. Ele e sua mulher acreditam que podem tornar o sonho deles realidade aqui.”


E continuou: “Eles eram simples, mas muito instruídos. Viajaram incógnitos pelo Atlântico junto dos ciganos infiéis que os esconderam mediante pagamento. Lucien procurava o lugar onde o rio escavara a pedra que os franceses Debret e Saint-Hilaire mencionaram em correspondências entre si quase um século antes.”

Aquela história toda de estrangeiros procurando a gruta do Rio Itararé e mistério o incomodava, sua intuição lhe alertava que alguma coisa estava muito errada naquilo tudo, que seria melhor ele se afastar. E este pensamento perturbador o instigava a saber mais, o medo alimentava a sua curiosidade. Mais do que a superstição de um velho sacerdote, ele sentia que realmente estava prestes a desvendar verdades terríveis e ele faria o que fosse preciso para espiar os segredos obscuros daqueles forasteiros.

O delegado era um homem parrudo e corajoso, combatente formidável da Guerra Civil da Revolução Federalista “da degola” onde dez mil homens tombaram na tentativa sulista de dar um golpe por não aprovar o presidente Floriano Peixoto. As memórias dos combates selvagens nos rincões do Paraná chacinando os inimigos sem qualquer misericórdia atormentavam seus sonhos, os feitos cruéis que renderam-lhe seu atual posto surgiam em sua mente cada vez que fechava os olhos. Ele não temia o combate, entretanto o que não podia ser enfrentado com os punhos, adaga e pólvora começava a devorar-lhe por dentro.

A noite escureceu ainda mais enquanto o delegado cavalgava estrada a fora rumo ao Paraná. Ao ganhar as trilhas abandonou o cavalo por não poder enxergar direito o terreno irregular e temer que o animal pudesse quebrar uma perna e prosseguiu empunhando o seu lampião. Ele caminhou no ermo até que começou a ouvir o barulho das águas turbulentas contra as muralhas de pedra. Até que enfim chegou descendo um pouco as pedras com cuidado para não escorregar, sozinho, à entrada da gruta.

 O som das águas ecoava na caverna aumentando a sua força, o delegado mesmo conhecendo a gruta sentiu que encarava a entrada do inferno. O ar era gélido, úmido e trazia em si o cheiro dos segredos da terra. Desceu até o interior tateando com cuidado e segurando o lampião até que chegou no coração do Rio Itararé.

Era como pisar em um templo esquecido, uma aura de grandiosidade e pavor emanava de todos os cantos, mas o mais aterrorizante era uma grande mancha no chão que se assemelhava demasiadamente a sangue seco.

O delegado se aproximou e se ajoelhou para verificar de perto e quando tocou a mancha algo além dos limites de sua compreensão aconteceu.

Ele testemunhou o que se passara ali na gruta oito anos antes, em 1893, quando Lucien com uma faca estripou a sua esposa que o acompanha grávida para retirar a criança de seu ventre. O sofrimento de ter seu filho arrancado de suas entranhas a fazia gritar e a caverna multiplicava o seu desespero ao infinito amplificando a sua dor até alcançar as estrelas. No entanto quando finalmente a criança chorou ela sorriu e se alegrou, não pela vida que concebera, mas por poder continuar com o plano doente de seu marido.

Lucien sem ao menos limpar o sangue sobre a sua filha a enrolou em trapos com símbolos mágicos e entoando cânticos profanos ofereceu aos “deuses que dormem” aquela alma prometendo que a partir daquele sacrifício a gruta se tornaria um lugar de adoração e que mesmo sem entender a mensagem, quem pisasse naquele solo sentiria o poder que irradiava da estrelas. Então ele encheu o pano no qual enrolara a criança de pedras para quando atirasse o recém-nascido dentro das águas ela não corresse o risco de não afundar. Chorando alto ele arremessou a menina que desapareceu nas profundezas do rio. Segundos depois surgiram boiando dezenas de peixes mortos, um sinal de que a oferenda fora aceita.

Lucien abraçou sua mulher e alegres, rindo e chorando permaneceram juntos até ela morrer.

Já era dia quando o delegado recobrou a consciência e para sua desgraça aquele sonho alucinado ainda estava gravado em sua mente, porém desconexo, uma cicatriz em sua alma que jamais se curaria. A mancha de sangue havia desaparecido, os pássaros saudavam o sol e tudo parecia ter sido apenas um pesadelo. Entretanto o delegado sabia, no fundo, que aquilo acontecera e não teria como provar nada.

O Intendente o chamou de incompetente e ameaçou tirá-lo do cargo por não conseguir nenhuma pista do paradeiro dos estrangeiros, mas depois do ataque de raiva, voltou atrás. Óbvio que o delegado não disse uma palavra sobre o que a revelação que tivera e mesmo com a chance de manter o seu cargo desistiu de seu posto e partiu da cidade, era impossível para ele continuar a conviver tão perto da insanidade que ele começava a recordar.

Ele precisava de respostas para as questões que rondavam sua cabeça como moscas atraídas pelas memórias podres que ele guardava gravadas a ferro e fogo em seu cérebro. Por que eles fizeram aquilo com a própria filha? Como um homem e uma mulher poderiam fazer aquilo com uma criança? Que credo doente e monstruoso obrigaria seus seguidores a cometerem tamanha atrocidade?

De noite, na estrada, o perturbado delegado se deparou com uma caravana de ciganos e para seu azar seus desejos foram enfim atendidos. Lucien estava com eles e lhe revelou a verdade do Universo.


O delegado morreu em uma casa para doentes mentais gritando para quem quisesse ouvir que os Deuses Antigos estavam despertando e que Itararé era a porta para o inferno por onde eles voltariam para destruir o mundo. Enterrado como indigente seu nome foi apagado da história e seus avisos nunca foram levados a sério.