sexta-feira, 29 de agosto de 2008

domingo, 17 de agosto de 2008

Jabor


Texto do Arnaldo Jabor
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Na hora de cantar todo mundo enche o peito nas boates, nos bares, levanta os braços, sorri e dispara: "eu sou de ninguém, eu sou de todo mundo e todo mundo é meu também". No entanto, passado o efeito do uísque com energético e dos beijos descompromissados, os adeptos da geração "tribalista" se dirigem aos consultórios terapêuticos, ou alugam os ouvidos do amigo mais próximo e reclamam de solidão, ausência de interesse das pessoas, descaso e rejeição. A maioria não quer ser de ninguém, mas quer que alguém seja seu. Não dá, infelizmente, para ficar somente com a cereja do bolo - beijar de língua, namorar e não ser de ninguém. Para comer a cereja é preciso comer o bolo todo e nele, os ingredientes vão além do descompromisso, como: não receber o famoso telefonema no dia seguinte, não saber se está namorando mesmo depois de sair um mês com a mesma pessoa, não se importar se o outro estiver beijando outra, etc, etc, etc. Desconhece a delícia de assistir a um filme debaixo das cobertas num dia chuvoso comendo pipoca com chocolate quente, o prazer de dormir junto abraçado, roçando os pés sob as cobertas e a troca de cumplicidade, carinho e amor. Namorar é algo que vai muito além das cobranças. É cuidar do outro e ser cuidado por ele, é telefonar só para dizer bom dia, ter uma boa companhia para ir ao cinema de mãos dadas, transar por amor, ter alguém para fazer e receber cafuné, um colo para chorar, uma mão para enxugar lágrimas, enfim, é ter "alguém para amar". Somos livres para optarmos! E ser livre não é beijar na boca e não ser de ninguém. É ter coragem, ser autêntico e se permitir viver um sentimento.
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Arnaldo Jabor para as mulheres com mais de 30
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Isto é para as mulheres de 30 anos pra cima. E para todas aquelas que estão entrando nos 30, e para todas aquelas que estão com medo de entrar nos 30. E para homens que têm medo de meninas com mais de 30!!! A medida que envelheço, e convivo com outras, valorizo mais as mulheres que estão acima dos 30. Estas são algumas razões do porquê: - Uma mulher de 30 nunca o acordará no meio da noite para perguntar: “O que você está pensando?” Ela não se importa com o que você pensa, mas se dispõe de coração se você tiver intenção de conversar. Se a mulher de 30 não quer assistir ao jogo, ela não fica à sua volta resmungando. Ela faz alguma coisa que queira fazer. E, geralmente é alguma coisa bem mais interessante. Uma mulher de 30 se conhece o suficiente para saber quem é, o que quer e quem quer. Poucas mulheres de 30 se incomodam com o que você pensa dela ou sobre o que ela esta fazendo. Mulheres dos 30 são honradas. Elas raramente brigam aos gritos com você durante a ópera ou no meio de um restaurante caro. É claro, que se você merecer, elas não hesitarão em atirar em você, mas só se ainda assim elas acharem que poderão se safar impunes. Uma mulher de 30 tem total confiança em si para apresentar-te para suas melhores amigas. Uma mulher mais nova com um homem tende a ignorar mesmo sua melhor amiga porque ela não confia no cara com outra mulher. E falo por experiência própria. Não se fica com quem não confia, vivendo e aprendendo né??? Mulheres se tornam psicanalistas quando envelhecem. Você nunca precisa confessar seus pecados para uma mulher de 30. Elas sempre sabem… Uma mulher com mais de 30 fica linda usando batom vermelho. O mesmo não ocorre com mulheres mais jovens. Mulheres mais velhas são diretas e honestas. Elas te dirão na cara se você for um idiota, se você estiver agindo como um! Você nunca precisa se preocupar onde se encaixa na vida dela. Basta agir como homem, e o resto deixe que ela faça. Sim, nós admiramos as mulheres com mais de 30 por um “sem” números de razões. Infelizmente, isso não é recíproco. Para cada mulher de mais de 30, estonteante, inteligente, bem apanhada e sexy, existe um careca, velho, pançudo em calças amarelas bancando o bobo para uma garçonete de 22 anos. Senhoras, EU PEÇO DESCULPAS: Para todos os homens que dizem, “porque comprar uma vaca se você pode beber o leite de graça?”, aqui está a novidade para vocês: Hoje em dia 80% das mulheres são contra o casamento, sabe por quê? Porque as mulheres perceberam que não vale a pena comprar um porco inteiro só para ter uma lingüiça. Nada mais justo.”
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Viva às Balzaquianas!

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

MASQUERADE



MASQUERADE
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Uma caleidoscópica multidão colorida e sem face fervilhava pelas ruas, envolta em confetes e purpurina num pandemônio de alegria vulgar, até a hora mais negra que antecedia a aurora. Então, todos se iam, como uma legião de vampiros anônimos a fugir do sol. Os que restavam, impossibilitados de se lembrarem de onde pertenciam, eram o retrato trágico da solidão e do excesso. Atrás de suas máscaras, homens e mulheres se escondiam e mostravam o que verdadeiramente possuíam dentro de suas almas. Alegria regada a vinho, nos cantos mais escuros das ruelas e becos se tornava perversa e excitante, e a carne convenientemente mais fraca. Anjos, demônios, gênios, clowns, piratas, mandarins, sultões, odaliscas, magos, bruxas, reis, princesas, samurais, gueixas, gregos, romanos, ninfas, melindrosas, bailarinas, ciganas, cleópatras. Cada ser do imaginário da humanidade desfilava languidamente pelo luar, provocando com sua exposição dos corpos e seu ocultamento de identidade; sem contar as caricaturas das figuras mortais pervertidas em erotismo como os padres, monges e freiras, aos beijos com o bestiário profano. Se deus não existe, tudo é permitido, assim era o carnaval.
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Em meio ao mar onírico, uma figura que trazia consigo a insolência da beleza despudorada, a ousadia da alegria insensata, o suspiro da leveza inquietante valsava sem querer valsar com sapatilhas herméticas através da horda bizarra. Ela deslizava misturando em seus movimentos a malícia de serpente e a vaidade felina, o aroma fresco da brisa primaveril era visível no róseo pálido de sua pele e os que sentiam seu caminhar próximo eram tomados momentaneamente pelo delírio de se sentirem vizinhos do paraíso. Acompanhando a inesquecível figura, orbitando em sua volta e sendo ignorado por ela, um fantasma ebúrneo de olhos negros murmurava choramingos poéticos apaixonados, cultuando sua pequena deusa inacessível e pretensiosa. Mesmo sendo patético, algo perturbador nesse servo afastava quaisquer outros pretendentes, seu sofrimento é o que fabricava o ódio em seu íntimo, transformando sua derrota em uma pérola de puro terror. A fada do desejo alimentava seu guardião com desdém, assim ela podia escolher alguém igual a ela, tão insano, febril e etéreo sem ser importunada pela malta em massa.
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Passeando a esmo, chegaram a uma praça antiga com estátuas de conquistadores esquecidos e monumentos ignorados, onde o violino, a flauta, os pandeiros, os tambores e a mágica circense faziam da turba, títeres dançantes quais macacos adestrados. Cuspidores de fogo imitavam dragões fantásticos enquanto engolidores de espadas saboreavam Excalibur, palhaços se esbofeteavam em algazarra tola na fonte de pedra, enquanto no alto das pernas-de-pau, acima dos demais, os malabares incandescentes confundiam o bobo-da-corte com um anjo de luz. O coração de passarinho se encantou imediatamente pelo gigante vagabundo, que em um salto e uma cambalhota desceu de seu andor para cumprimentar a donzela de cristal. Os olhos se cruzaram, uma vertigem tomou a moça que perdeu o rumo nos losangos negros e vermelhos do traje da estranha deidade. Tão insólita quanto ela, talvez. Se o dueto silencioso de encanto do casal recém-descoberto não fosse tão ensurdecedor, eles poderiam ouvir o coração do espectro se partindo enquanto desaparecia com uma única lágrima a rolar por seu rosto e os punhos cerrados lutando contra uma tempestade n’alma.
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A princesinha acostumada a ter homens que apenas beijavam seus pés, de repente encontrou um que não só lhe empregava os lábios de lábia em sua mão, como a enfrentava de frente, encarando seus olhos com a certeza de enxergar sua alma. E ela creu nessa ilusão, vendo na fanfarronice, realeza. Apaixonara-se pela megalomania do dançarino mascarado com o cetro de madeira, ele sorriu ao ver tamanha bobagem inocente em tão fácil presa, e tocou as notas certas para levá-la onde ele desejava. Escapulindo da feira, ele a levou por escadarias e ruas estranhas e cada vez mais escuras e vazias até chegar a um beco onde um coche abandonado escondia um portão de ferro. O cavalariço enigmático, por uma algibeira de moedas, entregou a chave da entrada para o bufão que convenceu a musa dos ais a acompanhá-lo para tomar o melhor vinho que ela já provara. Uma sombra seguia as fitas esvoaçantes e o tilintar dos guizos, escondida por entre os ossuários de uma família poderosa que se desfez pelas gerações, tendo suas catacumbas funerárias transformadas em adega.
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Enfim encontraram uma parede com dois enormes barris, a ingênua menina ainda tentou entender o que estava errado, quando o diabrete louco mostrou suas garras agarrando-a, rasgando suas fitas, o cetim e a seda. Seus gritos foram calados por beijos soluçantes, até a pausa surpresa. O coringa se afastou com nojo, salivando como quem está prestes a vomitar, a sua Colombina, tão delicada e bonita era um homem! Cambaleando, o Arlequin fugiu aos tropeços do rapaz divino e andrógino que chorava tanto pela recusa, como pela estupidez de se deixar enganar. Apenas nas efêmeras noites de carnaval é que o jovem podia ser livre e desejado. Poderia seguir por anos assim, respirando sonhos nas noites carnavalescas, desde que se controlasse e não se deixasse levar para não ter a sua fantasia descoberta. Agora tudo estava acabado.
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Da escuridão surgiu Pierrot e ajoelhando-se, beijou os pequeninos pés de Colombina, subindo por suas pernas e coxas, lavando a pele maltratada com suas lágrimas e com o seu hálito quente até encontrar a língua quente e seu pequeno milagre. Finalmente feliz.