segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

ANGELUS ERRARE - O Sexo dos Anjos Caídos


As garras presas nos cachos revoltosos como as serpentes da Górgona, a puxavam com violência para trás. Como um cavaleiro esporando sua montaria ele se enterrava nela a empalando. Sua boca espumante blasfemava e a engolia, cravando os dentes e arrancando sangue a cada mordida. Ele a possuía como um animal selvagem, arranhando, mordendo, machucando, cobrindo-a com a ferocidade de um leão e com o desejo dos cães. Segurava seu pescoço para subjugá-la, a surrava enquanto a currava, a punia quando ela ousava se virar para vê-lo, mesmo assim ela o enfrentava. Os corpos lutavam enquanto os sexos se fundiam, com força.
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Ela tentava se livrar dele para cavalgá-lo por cima, prendendo-o sob seus quadris, dominando os movimentos. Suas unhas afiadas de harpia retalhariam seu peito em busca do seu coração pulsante e ela morderia seu rosto como uma cadela. Nenhum dos dois conseguia manter preso por muito tempo o outro, não estavam dispostos a ceder. E a batalha ao passo que os exauria, também os excitava.
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Rolavam na cama como cachorros, uivavam e gemiam doloridos e enlouquecidos de prazer, suados e molhados pelos humores que brotavam de seus sexos inflamados. Ares e Afrodite travavam uma guerra na qual a arma era o prazer, vencer era causar o orgasmo, a morte. E a única regra era de não parar, até o fim. Ele começou a latejar e pulsar, sabia que o gozo vinha tão quente e rápido quanto o sangue que corria em suas veias. Ela sentia que um mar preparava-se para se esvair por entre suas pernas, um calor intenso em seu ventre a prevenia que estava prestes a ser aniquilada. Ele por cima, olhando-a nos olhos, segurando seus braços e com o rosto longe de seus dentes a prendia contra a cama, jogando seu peso sobre ela e cravando-se em seu útero.
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Assim podiam assistir a derrota um do outro. As feições animalescas e demoníacas de seres consumidos pela volúpia e violência se transformavam em semblantes de sofrimento e êxtase, nenhum podia usufruir do perder-se do seu inimigo porque enquanto viam a vinda da explosão, também sentiam em si mesmos a marcha do sexo chegando ao fim. O gozo misturou-se dentro dela em um calor infernal que molhou as coxas dele. Eles tremiam como se transpassados por uma espada, agonizantes, as unhas dentro da carne.
Exaustos, desmaiaram.
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Ele por cima dela, dormindo, parecia tão inocente quanto uma criança dormindo com a boca aberta, Eros repousando sobre o seio de sua mãe. Ela estava plena, ruborizada, sibilando leve, abraçada a ele. Adormecera com uma das mãos emaranhada em seus cabelos, como se ao invés de querer tirá-lo de cima puxando-o pela cabeça, estivesse-lhe fazendo cafuné.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Mozart - Requiem em Ré Menor



Requiem
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I. Introitus
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Requiem aeternam dona eis, Domine,
Repouso eterno dá-lhes, Senhor,
Et lux perpetua luceat eis.
E luz perpétua os ilumine.
Te decet hymnus, Deus, in Sion,
Tu és digno de hinos, ó Deus, em Sião,
et tibi reddetur votum in Jerusalem:
e a ti rendemos homenagens em Jerusalém:
Exaudi orationem meam,
Ouve a minha oração,
ad te omnis caro veniet.
diante de Ti toda carne comparecerá.
Requiem aeternam dona eis, Domine,
Repouso eterno dá-lhes, Senhor,
Et lux perpetua luceat eis.
E luz perpétua os ilumine.
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II. Kyrie
*
Kyrie eleison.
Senhor, tem piedade.
Christe eleison.
Cristo, tem piedade.
Kyrie eleison.
Senhor, tem piedade.
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III. Sequentia
*
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1 - Dies irae
...
Dies irae, dies illa
Dia de ira, aquele dia
solvet saeclum in favilla
no qual os séculos se desfarão em cinzas
teste David cum Sibylla.
assim testificam Davi e Sibila.
Quantus tremor est futurus,
Quanto temor haverá então,
Quando judex est venturus,
Quando o Juiz vier,
Cuncta stricte discussurus.
Para julgar com rigor todas as coisas.
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2 - Tuba mirum
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Tuba mirum spargens sonum
A trombeta poderosa espalha seu som
per sepulcra regionum,
pela região dos sepulcros,
coget omnes ante thronum.
para juntar a todos diante do trono.
-
Mors stupebit et natura
A morte e a natureza se espantarão
cum resurget creatura,
com as criaturas que ressurgem,
judicanti responsura.
para responderem ao juízo.
-
Liber scriptus proferetur,
Um livro será trazido,
in quo totum continetur,
no qual tudo está contido,
unde mundus judicetur.
pelo qual o mundo será julgado.
-
Judex ergo cum sedebit,
Logo que o juiz se assente,
quidquid latet apparebit:
tudo o que está oculto, aparecerá:
nil inultum remanebit.
nada ficará impune.
-
Quid sum miser tunc dicturus?
O que eu, miserável, poderei dizer?
Quem patronum rogaturus,
A que patrono recorrerei,
cum vix justus sit seccurus?
quando apenas o justo estará seguro?
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3 - Rex tremendae
...
Rex tremendae majestatis,
Ó Rei, de tremenda majestade,
qui salvandos salvas gratis,
que ao salvar, salva gratuitamente,
salva me, fons pietatis.
salva a mim, ó fonte de piedade.
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4 - Recordare
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Recordare, Jesu pie,
Lembra-te, ó Jesus piedoso,
quod sum causa tuae viae,
que fui a causa de tua peregrinação,
ne me perdas illa die.
não me perca naquele dia.
-
Quaerens me, sedisti lassus
Procurando-me, ficaste exausto
redemisti crucem passus
me redimiste morrendo na cruz
tantus labor non sit cassus.
que tanto trabalho não seja em vão.
-
Juste judex ultionis,
Juiz de justo castigo,
donum fac remissionis
dai-me o dom da remissão
ante diem rationis
diante do dia da razão
-
Ingemisco tamquam reus
Choro e gemo como um réu
culpa rubet vultus meus
a culpa enrubesce meu semblante
supplicanti parce, Deus.
a este suplicante poupai, ó Deus.
-
Qui Mariam absolvisti,
Tu, que absolveste a Maria,
et latronem exaudisti
e ao ladrão ouviste
mihi quoque spem dedisti.
a mim também deste esperança.
-
Preces meae non sunt dignae
Minhas preces não são dignas
sed tu bonus fac benigne,
sê bondoso e faça misericórdia,
ne perenni cremer igne.
que eu não queime no fogo eterno.
-
Inter oves locum praesta
Dai-me lugar entre as ovelhas
et ab haedis me sequestra
e afastai-me dos bodes
statuens in parte dextra.
que eu me assente à Tua direita.
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5 - Confutatis
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Confutatis maledictis
Condenados os malditos
flammis acribus addictis
e lançados às chamas devoradoras
voca me cum benedictis.
chama-me junto aos benditos.
-
Oro supplex et acclinis
Oro, suplicante e prostrado
cor contritum quasi cinis
o coração contrito, quase em cinzas
gere curam mei finis.
tomai conta do meu fim.
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6 - Lacrimosa
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Lacrimosa dies illa
Dia de lágrimas será aquele
qua resurget ex favilla
no qual os ressurgidos das cinzas
judicandus homo reus.
serão julgados como réus.
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Huic ergo parce, Deus
A este poupa, ó Deus
pie Jesu Domine
piedoso Senhor Jesus
Dona eis requiem, Amen.
Dá-lhes repouso. Amém.
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IV. Offertorium
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1 - Domine Jesu Christe
Domine Jesu Christe, Rex gloriae,
Senhor Jesus Cristo, Rei da Glória,
libera animas omnium fidelium defunctorum
liberta as almas de todos os que morreram fiéis
de poenis inferni et de profundo lacu:
das penas do inferno e do lago profundo:
Libera eas de ore leonis,
Libertai-as da boca do leão
Ne absorbeat eas tatarus, ne cadant in obscurum:
Que não sejam absorvidas no inferno, nem caiam na escuridão:
Sed signifer sanctus Michael repraesentet eas in lucem sanctam:
Mas que o santo arcanjo Miguel as introduza na luz santa:
Quam olim Abrahae promisiti et semini ejus.
Conforme prometeste a Abraão e à sua descendência.
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2 - Hostias
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Hostias et preces tibi, Domine, laudis offerimus:
Sacrifícios e preces a Ti, Senhor, oferecemos com louvores:
Tu suscipe pro animabus illis,
Recebe-os em favor daquelas almas,
quarum hodie memoriam facimus:
Das quais hoje nos lembramos:
Fac eas, Domine, de morte transire ad vitam.
Fazei-as, Senhor, da morte passarem para a vida.
Quam olim Abrahae promisisti et semini ejus.
Conforme prometeste a Abraão e à sua descendência.
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V. Sanctus
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Sanctus, Sanctus, Sanctus Dominus, Deus Sabaoth.
Santo, Santo, Santo, Senhor Deus dos Exércitos.
Pleni sunt coeli et terra gloria tua.
Cheios estão os céus e a terra da Tua glória.
Hosanna in excelsis.
Hosana nas alturas.
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VI. Benedictus
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Benedictus, qui venit in nomine Domini
Bendito o que vem em nome do Senhor
Hosanna in excelsis.
Hosana nas alturas.
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VII. Agnus Dei
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Agnus Dei, qui tollis peccata mundi: donna eis requiem.
Cordeiro de Deus que tira os pecados do mundo: dai-lhes o repouso.
Agnus Dei, qui tollis peccata mundi: donna eis requiem sempiternam.
Cordeiro de Deus que tira os pecados do mundo: dai-lhes o repouso eterno.
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VIII. Communio
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Lux aeterna luceat eis, Domine:
Que a luz eterna os ilumine, Senhor:
Cum Sanctis tuis in aeternum: quia pius es.
Com os teus santos pela eternidade: pois és piedoso.
Requiem aeternam dona eis, Domine:
Repouso eterno dá-lhes, Senhor:
Et lux perpetua luceat eis.
E que a luz perpétua os ilumine.
Cum Sanctis tuis in aeternum: quia pius es.
Com os teus santos pela eternidade: pois és piedoso.
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terça-feira, 11 de novembro de 2008

Pulso


Quando você se ajoelha, servil e solene, ante a mim com os olhos rasgados
Que sorriem maliciosos pelos lábios que me beijam onde sou mais fraco
Suas pequeninas e leves mãos tocando-me com a delicadeza e dedicação
De um gentil e diabólico querubim pornográfico
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Meus dedos se agarram trêmulos às selvagens cascatas de cachos carmim
Você então, me aninha carinhosamente em seu colo, entre seus seios fartos
Para que eu possa sentir o bater profano de seu sagrado coração apaixonado
E responder em pulsar crescente e espumante meu veneno, flecha de Eros alvejado
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O ritmo do sangue em nossas veias, fogo líquido correndo feroz e rápido
A tortura cuidadosa de seu corpo, templo, altar, venerando-me o falo
Ninando meu desejo lascivo, servindo é que você me faz de escravo
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Inocentemente, com a candura maléfica de um anjo caído, você continua
Parecendo não ouvir meu sofrimento, meus júbilos, suplicantes gemidos
Até eu romper incendiando seu busto e rosto, me desfazendo em gozo e gritos
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quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Folhas ao Vento: antologia de contos e microcontos (Andross Editora)


Jogada de mestre
Edweine Loureiro da Silva
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DIABO (beijando e lançando três dados): Seis... seis... e seis
DEUS (incrédulo): Maldito!... Ganhaste outra vez!...
DIABO: E agora, o que me dás em pagamento?...
DEUS: (?) ...
DIABO: (?) ...
DEUS: Toma, leva este planeta azul...
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00013
Dácio Eduardo Fernandes
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Nunca acreditei em videntes ou ciganas, mas quando aquela mulher pegou a palma de minha mão, vaticinou:
_É muito curta tua linha da prosperidade e da vida!!
Não me cobrou nada, simplesmente virou-me as costas e se foi. Não tive dúvidas: ao chegar em casa, peguei uma faca e procurei dar formas mais favoráveis ao meu destino.
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Folga
Mainene
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Em plena terça-feira: Manhã na piscina do clube. Tarde no salão de cabeleireiro, após um cineminha.
À noite, paquera e chope no shopping. Que vida boa!!!
Preciso agendar. Quem da família ainda não enterrei?
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Respiração
Rodrigo Dall'alba
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Às vezes, quando estou com ela, sinto-me como se estivesse em um filme de terror.
Matei mesmo! Não consigo dormir com alguém respirando ao meu lado...
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Passional
Fábio Fabrício Fabretti
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Achava lindo morrer por amor
e se matava a cada dia.
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História de amor eterno
Alanna Matos
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Ela queria sentir amada para sempre. Ligou o rádio, pôs uma canção de amor e imaginou que era cantada para ela. Pegou o pequeno frasco em cima do criado mudo, tomou o líquido sem sabor e deitou-se na cama. Antes que a canção tivesse fim, já estava morta. Ela morreu achando que era amada... E seria amada para sempre.
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Passando a marcha
Mariana Barbosa Ferraz Gominho
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Virou à esquerda. Passou em frente à casa dela. Não parou: passou a marcha, fez o sinal da cruz e acelerou em direção ao poste mais próximo. Concreto, ferro, sangue e gasolina.

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Ninguém mais - Cassiano Ricardo

Ninguém mais
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Quando pergunto alguma coisa ao silêncio da hora triste,
não sei de onde uma voz me responde
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Quando olho no espelho do rio,
no azul sem mágoa da planície da água,
vejo alguém que me espia longamente
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Quando vou pela estrada que serpeia o oceano de areia
sob a lua que me ilumina o passo incerto,
noto que um vulto,
alguma sombra estranha,
pelo caminho que me acompanha...
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Só tenho três amigos:
meu eco,
minha imagem, minha sombra
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Cassiano Ricardo

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

POESIA ERÓTICA - tradução de José Paulo Paes


Algumas pérolas do presente que ganhei, POESIA ERÓTICA tradução de José Paulo Paes, no meu aniversário da minha mulher.
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Fragmento de Os amores de Ovídio
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Era intenso o calor, passava do meio-dia;
Estava eu em minha cama repousando.
[...] Eis que vem Corina numa túnica ligeira,
Os cabelos lhe ocultando o alvo pescoço;
Assim entrava na alcova a formosa Semíramis,
Dizem, e Laís que amaram tantos homens.
Tirei-lhe a túnica; de tão tênue mal contava:
Ela lutou todavia para cobrir-se
Com a túnica, mas sem empenho de vencer:
Venceu-a, sem mágoa, a traição.
Ficou em pé, sem roupa, ali diante dos meus olhos.
Em seu corpo não havia um só defeito.
Que ombros e que braços me foi dado ver, tocar!
Os belos seios, que doce comprimi-los!
Que ventre mais polido logo abaixo do peito!
Que primor de ancas, que juvenil a coxa!
Por que pormenorizar? Nada vi tão louvável,
E lhe estreitei a nudez contra o meu corpo.
O resto, quem não sabe? Exaustos, repousamos.
Que outros meios-dias me sejam tão prósperos!
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Da Priapéia
LXVI
Príapo a certa pudica
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Para não veres meu emblema viril,
apartas a vista, como o pudor exige:
sem dúvida porque o temes olhar,
anseias por recebê-lo em tuas entranhas.
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Do século de ouro espanhol
SOLTA
Idem, V
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Vinte e dois anos tenho, mãe, para casar-me
pois me doem os dedos de tanto purgar-me.
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Régnier
EPIGRAMA
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A língua ontem me atraiçoou.
Conversando com Antonieta,
Disse eu "Que foda!" e ela, faceta,
Fez cara de quem não gostou.
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Muito embora comprometido,
Vi, pelo rubor de seu rosto,
Que o que eu disse dava-lhe gosto,
Mas noutro lugar, não no ouvido.
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La Fontaine
EPIGRAMA
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Amar, foder: uma união
De prazeres que não separo.
A volúpia e os desejos são
O que a alma possui de mais raro.
Caralho, cona e corações
Juntam-se em doces efusões
Que os crentes censuram, os loucos.
Reflete nisto, oh minha amada:
Amar sem foder é bem pouco,
Foder sem amar não é nada.
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Goethe
DOS EPIGRAMAS VENEZIANOS
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Quanto tempo procurei uma mulher; só achava putas.
Finalmente te apanhei, putinha: aí tive uma mulher.
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Não vos irrite, mulheres, admirarmos as moças:
Gozais de noite o que elas de dia excitam.
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Não te queres deitar nua ao meu lado, bem-amada;
Por vergonha te escondes de mim em tuas vestes.
Diz-me, o que cobiço? A tua roupa ou o teu corpo?
Vergonha: uma roupa que os amantes jogam fora.
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Joyce Mansour
GRITOS
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Me deixa te amar
Amo o gosto do teu sangue espesso
Por longo tempo o conservo em minha boca sem dentes
Seu ardor me incendeia a garganta
Amo o teu suor
Amo acariciar as tuas axilas
Banhadas de alegria
Me deixa te amar
Me deixa lamber os teus olhos fechados
Me deixa furá-los com a minha língua pontuda
E lhes encher as órbitas com a minha saliva
Me deixa te cegar
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Queres o meu ventre para te nutrires
Queres meus cabelos para te fartares
Queres meus rins meus seios minha cabeça raspada
Queres que eu morra lentamente lentamente
Que eu murmure morrendo palavras de criança
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Quero me mostrar nua aos teus olhos cantantes
Que me vejas gritando de prazer
Que meus membros dobrados sou um excesso de peso
Te levem a atos ímpios
Que os cabelos lisos de minha cabeça oferta
Se embaracem nas tuas unhas recurvas de furor
Que permaneças de pé enceguecido e crente
A contemplar lá de cima o meu corpo depenado
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sábado, 27 de setembro de 2008

Sozinho no Escuro


SOZINHO NO ESCURO
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Ele estava distraído, assistindo através da mortalha o agonizar dela. Mesmo à beira da passagem, ela era tão bela, ele, no entanto podia ver a marca da morte em seu rosto, o sinal inclemente maculando-a. Ela não resistiria, não havia nada que pudesse fazer. Contudo, o que o perturbava era a ausência de medo, sua paz, ela não possuía nada que a prendesse, como ele a possuía. Pois ele sabia, estava agrilhoado naquela existência negra por causa dela, era ela o que o mantinha longe da destruição. Ou de ser salvo. Se ela partisse, livre, fosse para ser engolida pelo vácuo, fosse para atravessá-lo e encontrar a verdade que ele temia, ele sabia que não sobreviveria sem seu grilhão para protegê-lo de si mesmo. Estava exausto, usara toda sua força para adentrar a carne de sua amada e espiar seus pensamentos, ver e sentir sua alma. Talvez tenha sido isso, seu cansaço, as grades que o protegiam de sua sombra, de seu semelhante das trevas estavam fragilizadas. Seu descuido custaria caro.

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Não percebeu as rachaduras se transformarem em veias negras, pulsando entropia, aumentando de ritmo e se tornando maiores, tomando as paredes. Um coração vazio seguia ao ritmo da rebentação do mar de atormentados. A sua sombra interior conjurou a nulidade para arrebatá-lo em seu momento de fraqueza. Ela aprendera que a sutilidade era melhor do que a luta, para vencê-lo deveria enganá-lo, aproveitar seus vícios e desespero. Ninguém conhece melhor do que a sombra de cada um o meio mais eficaz de se atingir as feridas mais profundas.

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Os cantos do quarto eram aberturas para o abismo que ecoava ainda distante o som do flagelo dos que orbitam o Limbo. Sua mente estava ocupada chorando pela perda que se seguiria e por seu destino incerto. Ver a aceitação e o cumprimento do destino de sua mulher o fazia refletir sobre sua própria negação e covardia. Estava envergonhado por sua miséria, era fácil descobrir o que estava além do mundo cinzento de pesadelo que ele habitava por escolha própria. Só precisava se jogar contra o núcleo negro da Tempestade. Submeter-se ao julgamento incompreensível da transcendência era um caminho sem volta, para qualquer lugar que seu tormento o levasse ele nunca mais poderia tê-la.

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Sempre acreditou que quando chegasse a hora dela, quando finalmente ela estivesse pronta, eles iriam se reencontrar e a ferida que o corroia desapareceria. A ilusão estava se desfazendo e com ela, ele próprio. Não havia mais razão para lutar, ele não a veria mais, e sem ela, não existia mais nenhum motivo para permanecer naquele reino intermediário de dor e anestesia auto-infligida. Tanto tempo perdido vigiando e planejando um futuro impossível, se enganando e mentindo. Repetindo até ficar surdo de que tudo acabaria bem. Das janelas, na distância, rostos e braços agitados se arrastavam esfomeados para despedaçá-lo, mais e mais se aproximavam sem que ele se desse conta. Trovões explodiam ao redor, se ele não gostasse tanto do som de sua voz e de sentir pena de si mesmo, ele poderia ouvir a marcha da maré crescendo para buscá-lo. E o riso maligno e sombrio da sua parte mais obscura, antecipando o fim que tanto almejava.

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Ela expiava depressa, o coração batia suave, a respiração era uma brisa praticamente imperceptível. Os olhos perdiam o brilho de vida e se tornavam vítreos e opacos. Seria a qualquer momento. Todo trabalho em vão, o arrependimento era tão insuportável que ele teve que se entreter com alguma outra coisa e foi então que ele percebeu a armadilha em que estava. As janelas mostravam as entranhas do Limbo, garras e dentes se esticavam dos cantos e buracos das paredes para agarrá-lo, uma legião de monstros que só os mais insanos podem vislumbrar estava pronta para fazer dele mais um dos que desistem. Eles o queriam para alimentar o nada.

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Investiu contra a onda de corpos que começava a ser vomitada pelas paredes para dentro do quarto, mas de nada adiantava. Eram muitos, machucá-los só os deixava mais irritados e ansiosos por devorá-lo. Olhou uma última vez para o rosto da única pessoa que ele teria vendido a alma para ter consigo, viu que ela não estava mais tão calma como antes, e percebeu que se ela viesse para o mundo dos mortos seria tragada assim como ele para a destruição. Ele não poderia permitir isso, ela precisava de uma chance, ela era mais forte do que ele. Quem sabe ela fosse capaz de desvendar seus mistérios interiores para alcançar as praias distantes de que todos somente ouviram falar. Aquele oceano de terror não iria embora sem arrastar algo junto, ele de braços abertos se entregou para o redemoinho sem enfrentá-lo. Era seu fim e ele o aceitava, toda dor e abandono estavam esquecidos e aceitos, já não importavam mais.

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Sua travessia para fora da estagnação se iniciou com o seu primeiro ato de coragem, ele precisou viver e morrer para poder tomar essa decisão. No momento em que os tentáculos o carregavam ela acordou sozinha no quarto cinzento. Sua jornada acabava de começar e ela teria que percorrê-la sozinha pelo vale das sombras. Todos nascem sozinhos, todos morrem sozinhos. Temos somente nossa sombra como companhia eterna.

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Óbolo


Óbolo

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O som agudo e ritmado, repetitivo, foi se perdendo, distanciando-se e diminuindo até restar somente uma nota fina contínua, como o zumbido silencioso que penetra profundamente na mente quando nos deitamos para dormir. Depois, tudo ficou confuso. Sombras, vultos desfocados e silhuetas estranhas, tudo em incontáveis tons de cinza, borrado. Barulhos indefiníveis chegavam devagar, como se passassem por uma barreira líquida, murmúrios e sussurros misturados com ruídos de coisas que não estavam por perto, era quase um sonho. Se a sensação de perda irreversível, terrível, se o abatimento do ânimo e das forças não despertasse a consciência de que algo estava extremamente errado, seria fácil se convencer de que se tratava de um delírio, uma ilusão, um pesadelo.
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Seres esguios de trajes esbranquiçados, que lembravam vagamente a imagem dos médicos e enfermeiros de um hospital, estavam em volta dele, que permanecia deitado. Eles o observavam com suas feições monstruosas escondidas por trás das máscaras, seus olhos opacos revelavam desconsolo. Conversavam entre si, no entanto, era impossível entender o que diziam. A urgência de escapar tornava o desespero de não conseguir se mexer mais horrível, o corpo não respondia a sua vontade. Deixaram a sala, mas ele tinha certeza que não podia continuar ali quando eles voltassem. Era como se não pudessem, mesmo ao encará-lo, ver que ele estava consciente. Sirenes, sinos, rebentação, trovões ecoavam na distância acompanhados por gritos de dor e sibilos secretos; e incontáveis correntes ensurdecedoras sendo arrastadas por todos os cantos, se aproximando. O ar trazia consigo um peso estagnado, misturado a um miasma insuportável. Ele sentia que uma tempestade se aproximava trazendo destruição, era preciso fugir.
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Sentiu entre os dedos uma moeda, a examinando através do tato, reconheceu a familiaridade de sua superfície e lembrou-se de quando ganhara aquela moeda de seu pai, no funeral de sua mãe. A voz calma e triste de seu pai, de joelhos, com as mãos sobre seus ombros o encarando nos olhos, explicando que antigamente, quando alguém falecia, era costume deixar uma moeda com o corpo da pessoa para pagar a sua passagem para um lugar melhor. Que aquela moeda era para ele dar para a sua mãe, para mostrar a ela que sempre iria amá-la, não importava para onde ela fosse. A lembrança súbita reavivou a vergonha infantil e a culpa de ter escondido a moeda que o pai havia lhe dado e de não ter cumprido a promessa de entregar para sua mãe o pagamento de sua passagem para o céu. Ele a queria com ele, não queria perdê-la, por isso guardou para si a moeda e manteve segredo. Quando seu pai morreu anos mais tarde, ele pensou em devolver a seu pai a moeda, para que ele pedisse desculpa a sua mãe por ele, porém não conseguiu se desfazer daquela lembrança e novamente perdeu a chance de fazer a coisa certa. O que significaria aquela moeda em sua mão agora? Em um descuido, a moeda escapou de seus dedos e caiu no chão causando um estrondo ensurdecedor. A frustração foi tão exagerada que ele por pouco não rompeu em choro, descontrolado.
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A necessidade de lembrar mais o fez lutar contra a sua inércia e descobriu-se coberto por pesadas correntes que ao se mexer, ele derrubava da maca. Sem controle de seus movimentos desengonçados, acabou caindo da cama, foi tudo tão rápido que ele teve a impressão de ter atravessado a maca. A dor de cair contra o azulejo frio o trouxe de volta para a realidade. O chão estava sujo de sangue escuro, as correntes que derrubara haviam sumido. Ele rastejando conseguiu recuperar sua moeda. Estava exausto pelo esforço que aquilo custara, entretanto sentia-se feliz por poder contar com algo que o fizesse pensar em outra coisa além daquela situação insustentável. Virou-se de costas para o chão e fitando o teto, começou a tentar estimular a memória. Pôs as mãos sobre o peito e tocando a moeda com os dedos, fechou os olhos, concentrado. Ouviu o tilintar de ferro contra ferro e abriu os olhos para ver o que era. Uma coisa, uma figura manchada começou a se formar no teto e rapidamente foi se assemelhando mais e mais a um homem maltrapilho, coberto por um capote, com botas e uma máscara de oxigênio sobre o rosto. Ele caminhava pela parede e vinha devagar em sua direção, parecia não só ser capaz de vê-lo, como se aproximava com uma atitude hostil, carregando um grilhão com algemas.
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A fadiga o impossibilitava de fugir, nem mesmo gritar, nem um só fiapo de voz saía de sua garganta. Segurou a moeda consigo forte, consumido pelo pavor ao ver as garras daquele ser medonho puxar algo que estava sobre seus olhos e que ele não se dera conta. A substância viscosa e grudenta depois que fora arrancada de sobre sua face, devolveu sua visão e audição, todavia antes ele não tivesse visto a criatura o pregar em ferrolhos, fazendo-o de escravo, dizendo com sua voz tuberculosa e de uma ironia maléfica:
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“_Bem-vindo ao outro lado, inquieto. Você agora me pertence, veremos se você vai fazer jus à chance de poder me servir, ou se vai ser mais útil servindo como distração para os terrores do Limbo, enquanto eu fujo da Tempestade.”

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

domingo, 17 de agosto de 2008

Jabor


Texto do Arnaldo Jabor
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Na hora de cantar todo mundo enche o peito nas boates, nos bares, levanta os braços, sorri e dispara: "eu sou de ninguém, eu sou de todo mundo e todo mundo é meu também". No entanto, passado o efeito do uísque com energético e dos beijos descompromissados, os adeptos da geração "tribalista" se dirigem aos consultórios terapêuticos, ou alugam os ouvidos do amigo mais próximo e reclamam de solidão, ausência de interesse das pessoas, descaso e rejeição. A maioria não quer ser de ninguém, mas quer que alguém seja seu. Não dá, infelizmente, para ficar somente com a cereja do bolo - beijar de língua, namorar e não ser de ninguém. Para comer a cereja é preciso comer o bolo todo e nele, os ingredientes vão além do descompromisso, como: não receber o famoso telefonema no dia seguinte, não saber se está namorando mesmo depois de sair um mês com a mesma pessoa, não se importar se o outro estiver beijando outra, etc, etc, etc. Desconhece a delícia de assistir a um filme debaixo das cobertas num dia chuvoso comendo pipoca com chocolate quente, o prazer de dormir junto abraçado, roçando os pés sob as cobertas e a troca de cumplicidade, carinho e amor. Namorar é algo que vai muito além das cobranças. É cuidar do outro e ser cuidado por ele, é telefonar só para dizer bom dia, ter uma boa companhia para ir ao cinema de mãos dadas, transar por amor, ter alguém para fazer e receber cafuné, um colo para chorar, uma mão para enxugar lágrimas, enfim, é ter "alguém para amar". Somos livres para optarmos! E ser livre não é beijar na boca e não ser de ninguém. É ter coragem, ser autêntico e se permitir viver um sentimento.
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Arnaldo Jabor para as mulheres com mais de 30
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Isto é para as mulheres de 30 anos pra cima. E para todas aquelas que estão entrando nos 30, e para todas aquelas que estão com medo de entrar nos 30. E para homens que têm medo de meninas com mais de 30!!! A medida que envelheço, e convivo com outras, valorizo mais as mulheres que estão acima dos 30. Estas são algumas razões do porquê: - Uma mulher de 30 nunca o acordará no meio da noite para perguntar: “O que você está pensando?” Ela não se importa com o que você pensa, mas se dispõe de coração se você tiver intenção de conversar. Se a mulher de 30 não quer assistir ao jogo, ela não fica à sua volta resmungando. Ela faz alguma coisa que queira fazer. E, geralmente é alguma coisa bem mais interessante. Uma mulher de 30 se conhece o suficiente para saber quem é, o que quer e quem quer. Poucas mulheres de 30 se incomodam com o que você pensa dela ou sobre o que ela esta fazendo. Mulheres dos 30 são honradas. Elas raramente brigam aos gritos com você durante a ópera ou no meio de um restaurante caro. É claro, que se você merecer, elas não hesitarão em atirar em você, mas só se ainda assim elas acharem que poderão se safar impunes. Uma mulher de 30 tem total confiança em si para apresentar-te para suas melhores amigas. Uma mulher mais nova com um homem tende a ignorar mesmo sua melhor amiga porque ela não confia no cara com outra mulher. E falo por experiência própria. Não se fica com quem não confia, vivendo e aprendendo né??? Mulheres se tornam psicanalistas quando envelhecem. Você nunca precisa confessar seus pecados para uma mulher de 30. Elas sempre sabem… Uma mulher com mais de 30 fica linda usando batom vermelho. O mesmo não ocorre com mulheres mais jovens. Mulheres mais velhas são diretas e honestas. Elas te dirão na cara se você for um idiota, se você estiver agindo como um! Você nunca precisa se preocupar onde se encaixa na vida dela. Basta agir como homem, e o resto deixe que ela faça. Sim, nós admiramos as mulheres com mais de 30 por um “sem” números de razões. Infelizmente, isso não é recíproco. Para cada mulher de mais de 30, estonteante, inteligente, bem apanhada e sexy, existe um careca, velho, pançudo em calças amarelas bancando o bobo para uma garçonete de 22 anos. Senhoras, EU PEÇO DESCULPAS: Para todos os homens que dizem, “porque comprar uma vaca se você pode beber o leite de graça?”, aqui está a novidade para vocês: Hoje em dia 80% das mulheres são contra o casamento, sabe por quê? Porque as mulheres perceberam que não vale a pena comprar um porco inteiro só para ter uma lingüiça. Nada mais justo.”
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Viva às Balzaquianas!

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

MASQUERADE



MASQUERADE
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Uma caleidoscópica multidão colorida e sem face fervilhava pelas ruas, envolta em confetes e purpurina num pandemônio de alegria vulgar, até a hora mais negra que antecedia a aurora. Então, todos se iam, como uma legião de vampiros anônimos a fugir do sol. Os que restavam, impossibilitados de se lembrarem de onde pertenciam, eram o retrato trágico da solidão e do excesso. Atrás de suas máscaras, homens e mulheres se escondiam e mostravam o que verdadeiramente possuíam dentro de suas almas. Alegria regada a vinho, nos cantos mais escuros das ruelas e becos se tornava perversa e excitante, e a carne convenientemente mais fraca. Anjos, demônios, gênios, clowns, piratas, mandarins, sultões, odaliscas, magos, bruxas, reis, princesas, samurais, gueixas, gregos, romanos, ninfas, melindrosas, bailarinas, ciganas, cleópatras. Cada ser do imaginário da humanidade desfilava languidamente pelo luar, provocando com sua exposição dos corpos e seu ocultamento de identidade; sem contar as caricaturas das figuras mortais pervertidas em erotismo como os padres, monges e freiras, aos beijos com o bestiário profano. Se deus não existe, tudo é permitido, assim era o carnaval.
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Em meio ao mar onírico, uma figura que trazia consigo a insolência da beleza despudorada, a ousadia da alegria insensata, o suspiro da leveza inquietante valsava sem querer valsar com sapatilhas herméticas através da horda bizarra. Ela deslizava misturando em seus movimentos a malícia de serpente e a vaidade felina, o aroma fresco da brisa primaveril era visível no róseo pálido de sua pele e os que sentiam seu caminhar próximo eram tomados momentaneamente pelo delírio de se sentirem vizinhos do paraíso. Acompanhando a inesquecível figura, orbitando em sua volta e sendo ignorado por ela, um fantasma ebúrneo de olhos negros murmurava choramingos poéticos apaixonados, cultuando sua pequena deusa inacessível e pretensiosa. Mesmo sendo patético, algo perturbador nesse servo afastava quaisquer outros pretendentes, seu sofrimento é o que fabricava o ódio em seu íntimo, transformando sua derrota em uma pérola de puro terror. A fada do desejo alimentava seu guardião com desdém, assim ela podia escolher alguém igual a ela, tão insano, febril e etéreo sem ser importunada pela malta em massa.
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Passeando a esmo, chegaram a uma praça antiga com estátuas de conquistadores esquecidos e monumentos ignorados, onde o violino, a flauta, os pandeiros, os tambores e a mágica circense faziam da turba, títeres dançantes quais macacos adestrados. Cuspidores de fogo imitavam dragões fantásticos enquanto engolidores de espadas saboreavam Excalibur, palhaços se esbofeteavam em algazarra tola na fonte de pedra, enquanto no alto das pernas-de-pau, acima dos demais, os malabares incandescentes confundiam o bobo-da-corte com um anjo de luz. O coração de passarinho se encantou imediatamente pelo gigante vagabundo, que em um salto e uma cambalhota desceu de seu andor para cumprimentar a donzela de cristal. Os olhos se cruzaram, uma vertigem tomou a moça que perdeu o rumo nos losangos negros e vermelhos do traje da estranha deidade. Tão insólita quanto ela, talvez. Se o dueto silencioso de encanto do casal recém-descoberto não fosse tão ensurdecedor, eles poderiam ouvir o coração do espectro se partindo enquanto desaparecia com uma única lágrima a rolar por seu rosto e os punhos cerrados lutando contra uma tempestade n’alma.
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A princesinha acostumada a ter homens que apenas beijavam seus pés, de repente encontrou um que não só lhe empregava os lábios de lábia em sua mão, como a enfrentava de frente, encarando seus olhos com a certeza de enxergar sua alma. E ela creu nessa ilusão, vendo na fanfarronice, realeza. Apaixonara-se pela megalomania do dançarino mascarado com o cetro de madeira, ele sorriu ao ver tamanha bobagem inocente em tão fácil presa, e tocou as notas certas para levá-la onde ele desejava. Escapulindo da feira, ele a levou por escadarias e ruas estranhas e cada vez mais escuras e vazias até chegar a um beco onde um coche abandonado escondia um portão de ferro. O cavalariço enigmático, por uma algibeira de moedas, entregou a chave da entrada para o bufão que convenceu a musa dos ais a acompanhá-lo para tomar o melhor vinho que ela já provara. Uma sombra seguia as fitas esvoaçantes e o tilintar dos guizos, escondida por entre os ossuários de uma família poderosa que se desfez pelas gerações, tendo suas catacumbas funerárias transformadas em adega.
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Enfim encontraram uma parede com dois enormes barris, a ingênua menina ainda tentou entender o que estava errado, quando o diabrete louco mostrou suas garras agarrando-a, rasgando suas fitas, o cetim e a seda. Seus gritos foram calados por beijos soluçantes, até a pausa surpresa. O coringa se afastou com nojo, salivando como quem está prestes a vomitar, a sua Colombina, tão delicada e bonita era um homem! Cambaleando, o Arlequin fugiu aos tropeços do rapaz divino e andrógino que chorava tanto pela recusa, como pela estupidez de se deixar enganar. Apenas nas efêmeras noites de carnaval é que o jovem podia ser livre e desejado. Poderia seguir por anos assim, respirando sonhos nas noites carnavalescas, desde que se controlasse e não se deixasse levar para não ter a sua fantasia descoberta. Agora tudo estava acabado.
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Da escuridão surgiu Pierrot e ajoelhando-se, beijou os pequeninos pés de Colombina, subindo por suas pernas e coxas, lavando a pele maltratada com suas lágrimas e com o seu hálito quente até encontrar a língua quente e seu pequeno milagre. Finalmente feliz.


domingo, 13 de julho de 2008

O Jardineiro


“Porque tu és pó, e em pó hás de tornar”
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Gênesis, cap 3, ver 19
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A perdição da humanidade começou com um fruto, o fruto proibido da consciência do Bem e do Mal que a serpente ofereceu a Eva. Assim ao menos, ensinam os padres. Mas antes de ser fruto, ele haveria de ter sido flor, a mais bela de todas, do mesmo modo como o fruto proibido era o mais suculento dos frutos de todo o paraíso. Uma flor não precisa de engodo para que alguém queira colhê-la, sua beleza é suficiente por si só. A flor foi feita para chamar a atenção, órgão sexual das plantas, arma de sedução da natureza. E se ao invés do fruto, Eva tivesse colhido a flor da Árvore do Conhecimento? Teria Deus a condenado? Deus me condenará por trazer os homens ao pó, se nessa terra amaldiçoada eles agem como se já estivessem no inferno? Eu acho que não. Apenas destruo as ervas daninhas do Jardim do Éden, para que o perfume, as cores e a beleza das flores não se percam em meio à hera.
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O Jardineiro
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Em uma brincadeira há algum tempo atrás, eu ganhei um apelido de "Jardineiro Psicopata" por agir de uma forma, como alguns diriam, ciumenta. E, pensando a respeito, eu comecei a imaginar como seria uma figura assim, que combinasse tanta delicadeza e crueldade em um único indivíduo. Até que finalmente, algo começa a fazer sentido. Um novo personagem está para nascer, talvez demore um pouco, mas a idéia está bem clara. Eu sempre gostei de filmes com histórias policiais e de suspense, como Se7en, e de personagens psicopatas como Hannibal, da sequência de filmes que começou com o Silêncio dos Inocentes. Jack Nicholson interpretando o escritor enlouquecido no filme Iluminado, perambulando pelo labirinto com um machado, é também uma imagem que nunca esqueci. Agora quero tentar criar o meu próprio monstro e me arriscar a me colocar no lugar de uma mente perturbada como a desses ícones da literatura e cinema. Que me perdoem os leitores, pois estou prestes a dar vida a um assassino.

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Valdecir Ravazi


Nosso amor morreu
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Ela disse:
“Mal o nosso amor morreu, e seu coração já arrumou outros!”
Então respondi:
Meu coração não arrumou nada.
Estes amores aqui, apenas vieram para o enterro,
Daquele que morreu.
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Os Amantes
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Eles chegaram de mãos dadas,
sem identidade e com um destino certo.
Por alguns instantes ela foi à musa e ele o poeta
Naquele divã um sonho se efetivou e
seus papeis foram bem interpretados.
Eles se esqueceram do passado e da nova vida
que iria começar, só pensaram no presente.
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Abraçaram-se sentindo o calor um do outro.
Ele a tocou, deixando-a afoita.
Os carinhos nasceram e aos poucos aumentaram.
Colheram flores e as beijaram.
Bem me quer e mal não quer,
enunciaram seus lábios encostando-se.
Despiram-se.
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E a lua recatou-se,
fechou os olhos para não ver o que estava acontecendo.
Os namorados, no estremecer dos corpos,
mataram o desejo dos corações apaixonados.
E no cair daquela noite silenciosa,
os gemidos e os sussurros acabaram surgindo.
O amor aconteceu naturalmente.
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As pessoas que por ali passaram se horrorizaram,
mas os amantes riram com tal presente magnífico.
A ninfa virou uma deusa e a paz reinou no colo amado.
O suor molhou seus corpos quentes
e no calor daquela noite cega eles descansaram.
O nu foi coberto pelos abraços.
A vida veio trilhar de novo e o destino se cumpriu.
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Como havia pouca luz eles não me viram.
Só viram um céu sem estrelas, pedras removidas da calçada e a fonte,
que também estava descansando.
Os amantes foram embora e o palco das emoções ficou solitário.
O fantástico acabou e os montes sumiram na escuridão
Só ficaram o perfume das flores vivas no jardim e
o choro das flores esmagadas no chão.
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Esses são dois poemas de Valdecir Ravazi, escritor de Tupã que assim como Duran, conheci através do Mapa Cultural. Contista e poeta, Valdecir tem um olhar muito agradável ao escrever e falar sobre o cotidiano, com a perspicácia de um cronista. Sua poesia vai além e mostra uma delicadeza e sensibilidade agudas, um ar de riso e de lirismo invade os versos e marca os poemas, tanto quanto a sua visão singular transparece na prosa. Escritor e amigo com seu jeito próprio, que eu tenho imenso prazer em apresentar para aqueles que se aventuram a ler o que aqui posto. O Valdecir ainda vai ser visto mais vezes por aqui, com certeza.

terça-feira, 17 de junho de 2008

SONATA


Sonata
...baseado em fantasias reais...
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Prelúdio
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Ela, sem objeção alguma, sem perguntas, permitiu ser vendada por ele. E carinhosamente ele cobriu aqueles belos olhos rasgados com uma venda de seda negra. Os olhos que apenas em fitá-lo excitavam-lhe porque traduziam, sem a necessidade de palavras, quando ela estava molhada de tesão, esperando por ele. E que o olhavam pedindo por ele nas situações mais improváveis, o que o surpreendia e encantava. Ele encontrara a mulher perfeita, uma cadela de cio interminável que o satisfazia à exaustão. Rodaram pela noite fria, pelas ruas e avenidas labirínticas até ela perder o sentido de tempo e direção. Não perguntou nada durante o trajeto, obedientemente rebelde. Uma oportunidade dela para mostrar quem estava no controle. Seu silêncio o incomodaria mais; ela não vestia qualquer personagem para agradá-lo, porque o que ele mais gostava nela era seu tom desafiador, subversivo e indecente de ser. E ela gostava de se comportar assim, para ao mesmo tempo desafiá-lo a domá-la e para dizer que só ele era capaz disso. Enfim estacionaram. Silêncio absoluto. Nem parecia que ainda estavam na cidade. Não havia nada que pudesse denunciar sua localização ou o que ele pretendia. Sempre sendo conduzida pelas mãos, ela sentia o frio e a umidade da noite tocando sua pele, arrepiando os pêlos. Ele a encostou contra a parede e começou a acariciar seu sexo. Deveriam estar em algum beco, em algum canto escuro e esquecido. Beijava-a com sede enquanto seus dedos, por baixo do vestido que ela usava sem calcinha, a pedido dele, se escondiam dentro do calor do seu corpo. Suas intenções eram as piores possíveis e ela gostava disso. Excitava-se ao correr riscos. Ao sentir os dedos molharem, ele parou abruptamente; ela sabia que ele sorria aquele sorriso perverso. Ao menos ele permitiu a ela a oportunidade de experimentar a própria libido que começava a escorrer por entre as coxas. Ela não deixou por menos e, aceitando o convite para o jogo de sedução, lambeu languidamente os dedos dele, gemendo baixo. A língua viva e quente o incitava a deixá-la experimentar algo mais que seus dedos. Eles adoravam se provocar. Principalmente quando havia alguma chance de serem surpreendidos no meio das carícias. Mas não estavam ali para isso e ele não lhe daria esse gosto. Não ainda.
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O Teatro
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Saíram de onde estavam e entraram por uma pesada porta enferrujada fechada à corrente, que ele abriu com o cuidado de um invasor. Seguiram e de repente, uma breve pausa na caminhada ligeira; ele pediu a ela, sussurrando em seu ouvido, que o acompanhasse mais furtivamente dali em diante. Retirou o par de saltos dela e continuaram. Os pés sentiram o carpete macio.
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“Onde ele estaria me levando?”
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Abafado pelas paredes e passagens das coxias e camarins, uma música ganhava forma na melodia delicada que se insinuava à medida que eles se aproximavam, até que ela não sentiu mais a proximidade das paredes ao seu redor. A acústica do teatro reverberava cada nota tocada pelos dedos hábeis, distribuindo a sinfonia igualmente por todos os cantos. Ela imediatamente parou, hipnotizada. Ora cristalinos, ora graves, os sons compunham uma dança de luz e trevas que a entorpecera. Ela poderia ficar ali, eternamente, embalada pela música do piano, sem ver, somente sendo alimentada pelos ouvidos, sem coragem de se aproximar, sem coragem de se afastar. Ele, que não contava com essa reação, a tirou do transe com um sacudir brusco. Por um instante, todo o trabalho que ele teve para satisfazê-la foi ameaçado por uma ação impensada. Não havia como disfarçar a raiva momentânea que se apoderou dela, por ele tê-la privado do êxtase que experimentava. E o ódio da ameaça de ter seu plano desfeito por uma armadilha da sensibilidade feminina, também o irritou, quase o cegando. Sem precisar de explicação, como verdadeiros cúmplices, ele não precisou dizer que não poderiam discutir ou denunciar sua presença: eram intrusos e não podiam ser expostos. Porém ele sabia como desfazer o embaraço, e com um beijo profundo e longo, resgatou a verdade deles, de estarem juntos, da paixão que os transformava em animais. Ela tremia em seus braços, pois por mais que conhecesse seu homem, sabia que ele havia preparado algo realmente grande dessa vez, e a expectativa a deixava nervosa e ansiosa. A espontaneidade inata dele, escondia sua capacidade maquiavélica de planejar. Aliando seu comportamento com sua ousadia, podia-se dizer que ele era capaz de tudo.
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O Pianista
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Salvos de si mesmos, ele a conduziu por entre as sombras das poltronas da platéia, ela sempre vendada, a luz opaca mais próxima. O piano soava mais perto, capaz de dominar tanto quanto a flauta de um encantador de serpentes. Quando estavam ao lado do palco, somente um holofote de luz baixa iluminava o homem de óculos escuros e fraque. Os dedos interromperam o balé sobre o marfim e o ônix. A respiração ficou suspensa. O pianista suspirou, como se recobrasse as forças para concluir uma tarefa incômoda e penosa, afugentando fantasmas. Apagou o cigarro no cinzeiro de prata acima do piano e acendeu outro. Tateou com a mão direita ao lado de sua banqueta, procurando uma garrafa de vinho tinto já pela metade e se serviu dele. A música voltou a falar por ele. Por um segundo, ela pensou que seriam pegos, que finalmente a brincadeira de se exibir iria deixar de ser divertida para tornar-se um pesadelo. Ela, então, entendeu de uma só vez o que ele pretendia. Na intimidade da cama, certa vez confessou que tinha a fantasia de ser currada sobre um piano, ao som de alguma bela sonata, para convulsionar de orgasmo no ápice da composição, tendo os gritos abafados por beijos esfomeados, que mastigam os lábios e misturam o sangue à saliva. Entretanto, ela nunca imaginou que pudesse realizar esse sonho. Revelou o segredo porque sabia que isso o excitaria. Seu fetiche com o piano de cauda devia-se a seu primeiro namorado e primeiro homem, que tocava piano e que com ela estreou o gozo. Toda fantasia corre o risco de deixar de ser lírica, ao passar do onírico ao real. A tragédia de qualquer utopia. Quanto mais as sexuais.
Aquele medo contemplativo de antes, retornou mais profundo e sólido, misturado com uma sensação absurda de prazer que a tomou sem pedir permissão. Ela percebeu que não havia como voltar atrás. Estavam a ponto de tentar a maior ousadia que já foram capazes; todos têm limites e os de ambos seriam testados aquela noite. O que sobrasse após, estava fadado a ser sublime ou uma ruína. E sem alternativa, ela se entregou aos instintos, em febre, calando a razão e o medo.
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Interlúdio
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Ele deu-lhe a mão para ela beijar e os dedos para sugar, para calá-la, para silenciar os murmúrios de sofrimento da tortura que ele estava prestes a aplicar. Ele a deitou e mergulhou o rosto nas pernas trêmulas, sua língua a abrir caminho pelas pétalas rubras, em fogo. Ela sempre se molhava facilmente, assim como bastava um olhar ou mesmo uma brisa que convidasse os cachos vermelhos dela para dançar, para fazê-lo perder a cabeça. Porém, os dois estavam perplexos de como a situação os estimulava. Um dedo, procurando o calor e a umidade para acariciá-la onde ela era mais sensível, dois, três dedos e a língua, todos a serviço da mais cruel das torturas. Ela cravava os dentes na mão dele, para afogar os soluços que brotavam do seu ventre e respondiam pela garganta se espalhando pelo corpo inteiro, implorando pelo outro corpo para alimentar a sua necessidade de sexo. As unhas afiadas, aceradas e vermelhas como seus cabelos, seguravam firmes os cabelos dele; uma forma de tentar retribuir e controlar o tesão, o gozo, o orgasmo. Tantos tentaram fazê-la gozar sem invadi-la, sem sucesso, impacientes amantes que apenas queriam foder e voltar sozinhos para casa, mais leves. Até ele se arriscar. Sem pressa, ele descobriu onde e como ela gostava mais, e ao invés de se impacientar com a escalada da progressão do orgasmo, ele se excitava exatamente com a demora. Com o poder de torturá-la longamente, prolongando o quanto pudesse o tempo que ela precisava para o rio de fogo que escorria por suas pernas abrir-se e inundar sua boca, seu rosto, sua barba. O cheiro do sexo excitado, vermelho e ferido pela barba, era uma fragrância afrodisíaca que os enlouquecia. Entretanto, como não teriam tempo para se devorar pela noite adentro, ele a deixou a beira do precipício de aniquilação e parou. Ela, espumante, pedia clemência, seu rosto contorcido como uma viciada que rasteja por mais um pouco de sua droga. Ela avançou em um bote rápido procurando livrar a roupa que separava o membro dele da boca dela. Ele não poderia se defender do beijo, paraíso osculante que só ela sabia dar. Por isso antes que ela alcançasse o que desejava, ele segurou suas mãos com força e a ajudou a levantar-se dizendo no fundo do seu ouvido:
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“_A gente só termina isso se for no piano, como você disse que queria.”
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Ao Piano
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Acobertados pela música que crescia em sua magnitude e potência, puderam, ele e ela, subir os degraus e se aproximarem no escuro até o piano e seu pianista. E ela se viu livre subitamente de sua venda e entre a luz e a escuridão, contemplou a figura solitária sentada à frente do piano de cauda negro e lustroso. Seu rosto era o de alguém que sofre em silêncio, angustiado, sutil e sereno. Como quem espera algo especial que o distraia de seu próprio enfado do talento, degustando alguma ferida antiga. Não se podia ler em sua expressão nenhum resquício que revelasse o que se passava em seus pensamentos, um enigma. As janelas de sua alma estavam hermeticamente fechadas. O cabelo desalinhado contrastava com a bela indumentária; o vaidoso músico, mesmo ensaiando sozinho no teatro antigo em reforma, gostava de ostentar boa aparência. E os ignorava, cego. Ela percebeu a ardilosa artimanha do seu homem para conseguir realizar a sua fantasia. Ele havia se superado, sem sombra de dúvida. Ele a beijou e a colocou inclinada na borda da cauda do piano e levantou o seu vestido. Suas mãos firmes agarraram seu quadril, fazendo com que ficasse totalmente empinada. Gostava de vê-la sem o olhar pernicioso de quem está no controle da situação. Ela, sem emitir som, pronunciou para ele ler em seus lábios o pedido:
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“_Me fode...”
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Ele lhe deu um tapa no rosto, de leve, e fez da venda uma mordaça para ela. Entrou com gosto, fundo, dentro dela, que gemeu de satisfação. Mesmo com a mordaça, um vestígio de gemido escapou e se misturou à música. Como era belo o seu rosto ao ser comida: em seu semblante mil mulheres se mostravam. Desde a puta que gostava de levar tapas e provocar, à menina-mulher que sofria, como sofreu desde o primeiro instante com o pianista, de prazer. Nenhum homem ficaria imune à visão dela, fêmea bela e profana, sofrendo a delícia indecente de se mostrar e amar, em conluio corajoso e sem-vergonha. Sem culpa de ser boa.
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Revelação
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Quando a cavalgada se encaminhava para o fim que toda cavalgada como aquela termina, de orgasmo, júbilo e derrota, ele vacilou. Afastou-se, como se tivesse asco, como se não suportasse mais. Ela não entendeu, até mirar o pianista. A música, que no calor dos movimentos ela não reparava mais, estava mais simples, ainda extremamente bela, mas sua composição havia se tornado tão minimalista que só se o músico estivesse tocando com uma mão apenas ele conseguiria aquele efeito. E seu rosto, retraído, como quem sofre de uma angústia enorme, respondeu o porquê seu homem hesitara: a sua armadilha lhe enganara, o pianista não era cego. Ela percebeu no rosto do seu amante que ele sabia e que firmara um acordo para colocá-la naquela situação para realizar sua fantasia, para vencer esse desafio e chegar ao limite do exibicionismo. Ela jamais aceitaria se ele tivesse proposto antes que se mostrarem para um voyeur, pensava ele. Então, ele tentou realizar a fantasia dele, sob o pretexto de realizar a dela, e agora que havia ultrapassado o limite, via que não seria capaz de realizar seus intentos. Qual não foi a decepção dele ao perceber que ainda havia convenções em seu coração até então despudorado. Convenção não, ciúme. O pianista, por sua vez, também foi surpreendido. O que ele queria era estar ali e ser completamente ignorado. Esse era o trato: deveria enredá-los em sua música sem interromper ou se intrometer. Assistiria a sua música personificada na paixão do casal à sua frente. Testemunhar, esse era o seu papel a que tinha direito. Nem mais nem menos. Mas resistir àquela mulher era impossível. O namorado desviou o olhar, não podendo encarar a própria mulher. O pianista fez menção de fugir. E ela, brasa ardente, sedenta e esfomeada, provocantemente provocada, indecentemente deliciosa, ainda esperava para ser satisfeita. Ela estava tomada por uma súcubo que queria ser possuída. Sentia-se traída e irada pela desconfiança e por ter sido subestimada pelo próprio companheiro. Mal sabia ele que ela era mais desavergonhada do que ele sequer poderia imaginar. E ela faria com que ele aprendesse isso, da pior forma possível.
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Vingança
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Servir a dois homens, para a mulher, é ser escrava erótica. Diferentemente da supremacia da fantasia masculina de ter duas mulheres para satisfazê-los. O anseio de quebrar todas as correntes e afogar aqueles dois homens no fundo do poço, que em segredo a enganaram para satisfazer suas taras secretas, era maior do que o seu amor-próprio. Levada pelo instinto de vingança de mulher magoada, ela deu início ao ménage à trois. Sem permitir que o pianista fugisse, o hipnotizando com os seus olhos de feitiço serpentário, da mesma forma que a música a hipnotizara, ela se aproximou dele, apagou o cigarro e o beijou longamente, dando-lhe um banho de saliva. Ajoelhou-se a sua frente, bebeu o resto do vinho para não hesitar e fervorosa em sua prece, engoliu o pianista que, desacreditado, experimentava o desgosto de estar em uma situação que ele não esperava e não queria, e a surpresa de estar adorando isso.
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“_Vladimir, meu nome é Vladimir...”
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Ela não se conteve ao ver aquele sacana tão vulnerável, ela não perguntara nem queria saber o nome dele. Eles nunca teriam intimidade, esperava nunca mais vê-lo depois de terminar o que precisava ser terminado. Talvez tenha sido o sorriso de vitória sedutora em dominar os dominadores, de puta mesmo, que ela fazia nessas situações. O que importa é que, subitamente, ao ver aquela cena, o namorado que deveria achá-la grotesca, excitou-se de forma bizarra. Descobriu-se mais excitado do que outrora, o que parecia impossível. Lembrou-se de onde foi buscar o comparsa, o tarado para realizar seu exibicionismo imbecil; dos comentários doentios de seus amigos ao indicarem-no; de todo o trabalho e espera para poder ser visto fodendo a sua linda mulher, despertando desejo de um desconhecido. A sensação infantil de fazer com a sua mulher o que outro nunca poderia, de jogar na cara do desconhecido o quanto se amavam e como trepavam gostoso. Sentiu nojo de si mesmo, e masturbando-se, aproximou-se mendigando atenção à própria mulher. Ao ver o namorado derrotado, vencido e humilhado pelo desejo que com certeza ele execrava estar sentindo, ela sentiu-se vingada, embora o seu sucesso tivesse um terrível amargor. Sádica, libertou Vladimir de seu beijo para sentar em seu colo, sentindo-o enterrando-se ao máximo em seu corpo. Pegou suas mãos e as colocou em seu quadril para agarrá-la firme e forte, como o seu namorado gostava de fazer. Vestiu a máscara dominadora, embora quisesse mesmo era chorar. Os três estavam excitados e frustrados, porque haviam perdido o controle e sabiam que assim que acabassem e o frenesi terminasse, se sentiriam culpados por só terem gozado pela necessidade de se humilharem mutuamente. Rebolando em cima do pianista e chupando o namorado, eles ficaram, gemendo, se envenenando, sem coragem de sequer trocar um só olhar. Reféns dos seus corpos, até todos, ao ritmo que ela comandava, se destruírem no maior orgasmo de suas vidas.
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Último Ato
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Quais as palavras para se dizer quando se cai do paraíso para as profundezas do inferno? O pianista se encostou ao piano, com os cotovelos sobre as teclas provocando um barulho quase insuportável. O silêncio quebrado, todavia, era ainda mais insuportável. Ela se limpou rapidamente e sem dizer uma palavra, apenas com um único olhar de adeus para o seu homem, que não era mais seu, despediu-se e foi correndo para fora, lembrando de como chegara até ali. Assim que alcançou a rua, pegou um táxi e voltou para o seu apartamento, chorando copiosamente. O namorado, sem ter coragem para impedi-la, vestiu-se e, deixado a sós com Vladimir, sentiu toda a culpa, raiva, nojo, vergonha, remorso e ódio personificados naquela figura patética que precisava da paixão alheia para conspurcá-la e desse modo, satisfazer-se. Vendo a reação do homem à sua frente, Vladimir ainda tentou se explicar, mas antes que pudesse dizer qualquer coisa, o outro pegou a garrafa de vinho e a arrebentou contra a sua cabeça e, sem defesa, desmaiou esvaindo-se em sangue. Com as pontas afiadas da garrafa quebrada, perfurou várias vezes Vladimir, como que se com cada punhalada, ele pudesse ferir um inimigo que na verdade era ele próprio. Passado o instante de fúria, sem saber o que fazer, vendo as manchas de porra no maldito piano, abriu-o e jogou o seu pianista para o útero de seu instrumento. Seriam um na morte; orgulhou-se da poesia que estava para realizar, fazendo do piano o esquife para o pianista. Empurrou o piano que caiu do palco com a sua tampa da caixa acústica selada contra o chão. Com o isqueiro de Vladimir, acendeu a pira que consumiria o instrumento e seu mestre, desaparecendo nas ruas com o seu carro logo em seguida.
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Ela chegou em casa, nauseada. Despiu-se com nojo do corpo e tomou um banho demorado. Dormiu na banheira, parcialmente imersa na água quente, quando as lágrimas secaram. Acordou no meio da noite, com ânsia, vomitando. Pesadelos acordados e sonhando.
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Ele saiu com o carro, no meio da chuva que começou a cair e entre tentar ligar para o telefone do apartamento dela que ela deixara fora do gancho, do celular, e dirigir, atingiu em cheio o concreto do viaduto caindo com o automóvel de ponta-cabeça na rua abaixo. Preso pelo cinto, desacordado, não conseguiu sair a tempo do meio das ferragens, sendo carbonizado vivo.
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O incêndio criminoso que cremou o pianista vivo foi vencido pela tempestade, sem maiores danos ao teatro. Três meses depois, a orquestra da cidade fez uma bela apresentação com o repertório do músico, em homenagem.
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POSTADO POR E AGORA JOSÉ?

terça-feira, 27 de maio de 2008

O Diabo Visita o Bar do Santo


O DIABO VISITA O BAR DO SANTO
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A consciência tropeçava nos degraus da escada ascendente em espiral entre o sono profundo e o despertar, ao sabor dos sacolejos do ônibus que ganhava a rua principal de paralelepípedos. A claridade amarelada dos postes ia devagar, incômoda, jogando feixes de luz nos porões escuros de sua alma através dos olhos que reviravam. E pouco antes de vir à tona, ele viu de relance no calabouço da memória o segredo há muito esquecido, que ele esperava nunca mais ter que encarar. Olhou para o outro lado, instintivamente, tentando esconder o rosto nas sombras, e viu à esquerda, a Igreja de São Pedro, com suas torres azul-celeste e seu relógio parado, prédio típico dos templos provincianos de São Paulo. Aquele relógio, onde os ponteiros se amavam, um sobre o outro, denunciava que Deus há muito se esquecera daquela cidadezinha. Em Itararé sempre é meia-noite. Na praça, em frente à igreja, jovens tocavam violão e bebiam cachaça com refrigerante barato, cantando Legião Urbana e Raul Seixas. Enfim, o carro parou em frente a um bar, numa freada que fez o estômago do único passageiro dar voltas. Da janela via-se no letreiro o nome do estabelecimento: Bar Tropical. Uma súbita sede nervosa acompanhada de um pigarro enervante fez sua garganta arranhar; se não fosse isso, o nome nada condizente com o aspecto do ponto, decrépito, ao menos assim parecia aos olhos do recém-chegado, provavelmente desenharia um esboço de um sorriso malicioso no rosto transformado em carranca, disforme, daquele homem. Sua boca era uma caverna desértica onde um verme desidratado se debatia em meio a dentes afiados. Ressuscitar da letargia imposta pelos remédios se fazia necessário e praticamente impossível. Qualquer lugar serve para quem não sabe aonde ir, pensou. A passagem era para adiante, o mais longe possível, mas assim como não queria se lembrar de onde viera, tão pouco o destino lhe interessava. Tirando força das pernas dormentes, ergueu-se, apoiando-se nos bancos, caminhando cambaleante, exausto, para fora. Cada degrau para descer provocava vertigem, sentia que poderia desmaiar a qualquer momento. A dor é universal.
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Na esquina um grupo de rapazes bebia debaixo do luminoso de uma ótica, jogados pela calçada. Eles queriam esquecer o que viam, ou ver além da sarjeta através da revelação do álcool. A Praça São Pedro e os arredores formavam o coração pulsante e agonizante da cidade, onde bares amontoavam-se nas esquinas; pequenos refúgios para mascarar o tédio de se viver em meio ao nada.
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“Sorvetes, Massa, Picolé, Moreninha” - eis a recepção que o forasteiro teve, de uma placa simpático-patética, com letras coloridas quase circenses, que anunciavam as delícias geladas em frente a um freezer. A náusea repentina o obrigou a procurar sustento no poste, pintado de branco da base até a mais ou menos um terço de sua altura. O gosto azedo do vômito subiu para a boca, mas ele conseguiu engolir seu veneno a tempo.
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“_O que diabos seria Moreninha?” A curiosidade infantil revolveu as cinzas de seus sentimentos sem lhe pedir permissão.
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Sua aparência era horrível, seu rosto transparecia doença, descuido, desgraça. O ar noturno trazia em si o frio de uma garoa que aspergia sobre as ruas delicada umidade, perfeita para provocar os pulmões frágeis que quase imediatamente se fecharam, implorando à alma que levasse o corpo para algum abrigo do sereno. Se ao menos o toldo marrom-poeira estivesse aberto, ele não seria obrigado a entrar. Do lado do bar, uma retrosaria¹ com fachada de vidro e marquise que se transformava em varanda para o andar acima, refletia a calçada praticamente inteira ocupada por jovens, quase todos com um copo descartável na mão. Sem escolha, ele avançou bar adentro sob o olhar curioso dos senhores que se acomodavam em um pequeno banco de madeira ao lado da entrada, fingindo não se surpreenderem pela figura triste e maliciosa que cruzava por eles.
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No exato instante em que seus pés tocaram o piso escuro e sujo de bitucas de cigarro e outras raspas e restos dos freqüentadores, ele percebeu que havia alguma coisa diferente naquele lugar; por sorte, no canto esquerdo, logo após a entrada, um banco de ferro desocupado parecia esperar-lhe, como que reservado pela divina providência, em frente ao balcão de cor creme. Escondido e em paz, dali ele poderia observar sem dar na vista, o ambiente que o acaso havia preparado para ser o cenário de sua auto-piedade e flagelação mental. A sua última fuga antes do fim, quando sua alma estaria de vez além de qualquer intervenção.
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As paredes eram de um tablado antigo envernizado, que davam um ar de taverna ao boteco, um charme singular, que mesmo aquele homem ressentido com a vida teve que reconhecer. Acima desse tablado, uma pintura descorada de um verde-claro, desbotado pelo tempo, manchado, recobria a argamassa até o teto alto, cinzento. O proprietário do bar quis tornar a bodega algo mais do que um santuário profano dos infelizes e dos ébrios, dar-lhe um clima familiar, com sorvetes e esperança. Tentativa obviamente frustrada, mas sem deixar de ser surpreendente e hilária. Essa conclusão inesperada ante a análise do interior do tal “Bar Tropical” fez o estranho sorrir, sua resistência ao humor adquirida pela mágoa reunida anos a fio não conseguiu impedir que esse sorriso se abrisse em seu rosto de barba por fazer. E ele saiu menos malicioso do que ele supôs anteriormente quando avistou a entrada ainda de dentro do ônibus. De fato, aquele não era um bar comum.
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A televisão fixada em um suporte exatamente sobre o canto em que o pobre sentara dizia: “Fala que eu te escuto”, em um tom de cumplicidade forçada. Com certeza, assistir àquela programação não era uma escolha da clientela, que ignorava por completo a pregação, e sim uma imposição do dono do estabelecimento, que tinha por religião crer em Cristo através do poder de Satanás. Deus e o diabo se confundiam; no fundo do poço pode haver salvação? A dúvida que destrói a fé do fanático também abala o frio ceticismo do ateu. Dúvida é o que nos une, a dor e a dúvida.
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A velha guarda boemia ficava na frente, sentados ou escorados, olhando o movimento da rua, os passantes, transeuntes e meninas novas. Velhos meninos que brincavam - engraçado como aquele bar misturava várias gerações que geralmente permanecem em extremos opostos e que se chocam uma contra a outra quando confrontadas - todos a procurar um vestígio de felicidade que não encontraram em nenhum outro lugar de suas vidas. O homem podia sentir que aquele bar era uma espécie de abrigo para todas aquelas pessoas.
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¹ - Loja de retroseiro; armarinho.
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Um senhor calvo com uma aparência que fez o homem sentir-se embaraçado, algo nele lembrava um monge franciscano, embora essa lembrança não justificasse seu embaraço; entrou da porta do fundo do bar e antes de atendê-lo, foi parado por dois rapazes que queriam comprar pinga e refrigerante. Um olhar penetrante analisou os dois rapidamente e então, o senhor que era chamado pelos dois, ora vejam, pela alcunha de “santo”, pediu para conferir a identidade deles. Tudo, de uma maneira bem-humorada e ao mesmo tempo inexpugnável, caricata e inquisitiva. Constrangidos, os meninos surpresos desistiram. Atravessando a rua, eles não encontrariam o mesmo embaraço para comprar bebida ilegalmente.
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Quem sabe o que é possível encontrar no fundo do poço? A luz, ao meio-dia, ou à meia-noite, é perfeita para alcançar as profundezas que ficam praticamente eternamente imersas nas trevas. Assim que os dois alcoólatras precoces saíram, Santo se aproximou do estranho observador para atendê-lo. Ele precisava pensar rápido, a sede ainda reclamava clemência, podia simplesmente despistar a atenção pedindo um copo d’água, estava na frente da pia, ou poderia também pedir uma dose de alguma coisa. Espiou de soslaio as estantes espelhadas abarrotadas de garrafas de bebida - dinheiro não era problema e ele não precisava se preocupar com sua saúde: o que não tem remédio remediado está. O que ele queria evitar era ver seu reflexo. Encarar-se era dar ao que ele dava por perdido, a si próprio, uma nova chance. Mas não, a proximidade com alguém, quando tudo o que ele desejava era solidão, o incitou a fugir. Perguntou bruscamente onde era o banheiro, e Santo indicou a porta ao fundo, à esquerda. O olhar do misteriosamente santificado dono do bar recaía sobre os ombros do homem que caminhava com dificuldade por entre os pequenos grupos que conversavam e bebiam cerveja. Encostadas na parede à direita, quatro mesas comportavam três casais distintos e amigos em comum. Um pequeno biombo separava as mesas de uma outra área onde ficava a mesa de sinuca com sua dupla de jogadores e respectivos espectadores que palpitavam animados as jogadas. Passar pelo espaço entre a mesa e as paredes sem se aproximar dos jogadores era difícil. O sujeito começava a entrar em pânico, a vergonha e o asco das pessoas fora o conhecimento irritante de que aquele senhor provavelmente estava a lhe fitar, com os mesmos olhos que ele dirigira aos meninos um pouco antes, tirava-lhe o controle.
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Esbarrou em sua fuga em um rapaz baixo, de cabelos encaracolados e olhar ferino que estava concentrado mirando sua tacada, quando cruzou a porta pesada de madeira que dava para fora. A garoa e a noite o cumprimentaram como se ele fosse o filho pródigo a retornar. Deixou que as lágrimas rompessem e para sufocar os soluços, mordeu raivosamente o lábio inferior. Olhou para a direita e viu um tanque de lavar roupa, abriu a torneira, molhou o rosto, a nuca. A água gelada acalmava, não obstante ela não era capaz de lavar toda a sujeira de suas mãos, de limpar-lhe a lama da alma, de salvá-lo. Somente ele poderia fazer isso por si. Recuperado, ele entrou no banheiro, e a aproximação de passos preocupados do outro lado da porta, vindos do bar, o alertaram a tempo de se esconder. Uma parada hesitante e a abertura da porta que se comunicava com uma segunda porta em frente, que pelos sons de gavetas de talheres e o forte cheiro de fritura deveria ser a cozinha, provaram que quem havia vindo atrás dele era mesmo o Santo, e ele não tinha certeza se o turco monge franciscano estava o perseguindo ou apenas querendo algo na despensa.
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O banheiro tinha um azul da cor dos quartos de bebê, e era tão negligenciado que uma infiltração no teto fez com que uma goteira que ficava perto do encanamento da descarga se tornasse uma pequenina estalactite. Obviamente, não é necessário dizer que papel higiênico não havia, assim como que a sensação da relação do ambiente de trabalho do seu dono e de sua sovinaria também mostravam que nunca houve e que nunca haveria uma preocupação acerca do mínimo bem-estar dos clientes. A serpente que estava enfraquecendo o aperto no coração do mortal, enrolada, asfixiando-o, recuperou suas forças, como um predador excitado que se depara com a presa indefesa e saboreia o momento. A esperança se desfez tal sorvete que derrete quando é abandonado. Ser santo não significa não sucumbir ao pecado, provavelmente esse estado de graça está mais relacionado com o êxtase da aceitação de seus limites. Como um banqueiro judeu.
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Ali, escondido no banheiro, um animal acuado e desesperado, pronto para atacar seu inimigo e morrer na tentativa de sobrevivência, ele se entregou ao vício que corrompera o seu corpo e destruíra a força de vontade de sua alma. Ele era escravo de sua covardia e medo. Essa situação, no íntimo, lhe causava certo prazer. Poder lentamente se matar e alimentar a piedade e o ódio contra seu estado lhe agradava. O sangue queimava nas veias azuis da pele pálida e ao se espalhar; uma risada insana galgou sua garganta e cresceu em volume e descontrole até o obrigar a sair do seu esconderijo e encarar o céu acima do pequeno espaço onde se encontravam as portas para a cozinha e para o bar. As nuvens negras que derrubavam garoa se abriram como as asas de um arcanjo noturno dando passagem para a lua brilhar, revelando uma sombra que a tomava internamente e a consumia. Olhando para o céu, de joelhos, o luar libertou da memória o segredo desgastado e as sombras do eclipse na prata o fizeram ver-se em seu fim. Destruído, eclipsado. A culpa daquela morte o perseguiria até que ele morresse. E ele soube naquele instante, antes do Santo abrir a porta da cozinha assustado pelos risos enlouquecidos; que não veria novamente a luz do dia. Nunca mais.
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Ele se levantou e sorrindo olhou para os olhos caramelados do Santo, se um homem pode se tornar santo sem deixar de ser homem, um diabo pode retroceder e voltar a ser homem. O abraçou, comovido, por ter lhe proporcionado com seu esforço silencioso, de transformar seu bar em um lugar além do que sua função exigia, a luz que ele precisava para se rever e reconhecer pacificamente sua fraqueza, derrota, pecados e covardia. Fez-se visível seu calabouço secreto graças ao Bar Tropical. Caminhou sem pressa, cumprimentando todos pelo caminho de volta. Chegou à rua e foi até os portões da igreja. Sentou-se nos degraus feito um anjo caído que volta a sentir-se querubim. A garoa se transformou em tempestade até restar somente um corpo para alimentar as notas da imprensa local de Itararé. O homem que se tornara diabo e retornara, em sua hora final, a ser homem foi enterrado sem nome, como nascem todos. Esquecido por seus inimigos. De seus amigos ele se afastara há muito tempo, por seus próprios motivos. Deus perdoa os homens, santos e demônios, ninguém sabe, inclusive Ele, o que faz.

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Marina Colasanti, again

Para sentir seu leve peso

Guardava o rouxinol numa caixinha. Tudo o que queria era andar com o rouxinol empoleirado no dedo. Mas, se abrisse a caixinha, ah! certamente fugiria.

Então amorosamente cortou o dedo. E, através de uma mínima fresta, o enfiou na caixinha.

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O passarinho

Começou dizendo que tinha um passarinho na cabeça. Queixava-se.

O passarinho batia as asas, a cabeça doía. Ninguém lhe deu atenção.

Parou até de se queixar. Gemia, conversava com o passarinho que a habitava. Morreu sufocada, o nariz entupido de alpiste.

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A busca da razão

Sofreu muito com a adolescência.

Jovem, ainda se queixava.

Depois, todos os dias, subia numa cadeira, agarrava uma argola presa no teto e, pendurado, deixava-se ficar.

Até a tarde em que se desprendeu esborrachando-se no chão; estava maduro.

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Na estréia

I

Na noite de estréia o leão tremia tanto de emoção que, num bater de dentes, acabou decepando a cabeça do domador.

II

Na noite de estréia, ao serrar sua mulher em duas, o mágico percebeu que só gostava da parte de cima.

III

Na noite de estréia, depois que todos se foram e as luzes se apagaram, a bailarina deitou-se no fio e adormeceu.

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A paixão da sua vida

Amava a morte. Mas não era correspondido.

Tomou venveno. Atirou-se de pontes. Aspirou gás. Sempre ela o rejeitava, recusando-lhe o abraço.

Quando finalmente desistiu da paixão entregando-se à vida, a morte, enciumada, estourou-lhe o coração.

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Semelhança

I

Vivia dizendo que eu parecia uma pantera. Que o andar, que os olhos. Eu deitava a cabeça no ombro dele e miava baixinho.

II

Vivia dizendo que eu parecia uma pantera. Que o andar, que os olhos. E eu me apanterava toda para agradá-lo.

III

Vivia dizendo. Mas só acreditei no dia em que, saltando do ármario, cravei-lhe os dentes na carne e o devorei.

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Uma engrenagem

Desmontou a cabeça, peça por peça. Azeitou, poliu, limpou com flanelas. Depois começou a montar. Pronta, viu que uma engrenagem tinha ficado na mesa. Pensou em recomeçar. Tentou. Não conseguiu. Faltava, para saber desmontar, aquela engrenagem principal.

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Mais da Marina Colasanti pra vocês.