quarta-feira, 26 de novembro de 2014

O Testemunho de um Maldito


  Os antigos incas ao contrário da maioria de nós olhavam os céus e não se encantavam com o brilho das estrelas, mas temiam a escuridão profunda entre elas. Eu era assim,  como eles: o céu, o espaço, o universo sempre me encantaram e me despertaram um temor inexplicável. Dediquei minha vida a compreender as teorias, filosofias e equações que poderiam explicar o inexplicável. Descobri que mais de três quartos do que compõe o nosso Universo é algo que não fazemos ideia do que seja: o "nada primordial". Um nada que é na verdade algo tão minúsculo e poderoso que comporia uma quarta dimensão na estrutura da Física, algo que iria além da nossa percepção e a partir desse ponto poderíamos supor que haveria não apenas novas dimensões no sentido de espaço/tempo, mas novos mundos, galáxias, universos. A questão é muito maior do que haver ou não vida fora do nosso planeta, a questão é compreender quantos Big Bangs poderiam ter existido e dado vida a universos inteiros como o nosso, só que diferentes e independentes. Algo que meus colegas e eu chamamos de "Multiverso". Contudo, tudo isso, todos esses mistérios se perderam no dia em que eu morri. Me perdoem, mas como estou prestes a ter a minha existência definitivamente extinta, estes sonhos e paixões que fizeram eu ser quem eu fui em vida ainda me movem, mesmo que eu seja apenas uma sombra do cientista e estudioso que viveu.

  A morte deveria ser o nosso verdadeiro foco penso eu agora, afinal, se não temos capacidade, tecnologia ou se simplesmente a natureza nos impede de descobrirmos todos os segredos do cosmos ao menos podemos compreender o mistério que envolve a todos nós. A nossa finalidade no sentido de fim e significado. Eu procurei por tanto tempo, com tamanha dedicação e obsessão diria até, as respostas para as perguntas da ciência sobre o Universo que quando me deparei me afogando com o meu próprio sangue caído na sarjeta após um assalto não pude aceitar que aquele seria o meu fim. O meu medíocre e banal fim violento que acabaria apenas como mais uma mera e desimportante estatística. Este meu rancor, minha incapacidade de aceitar o inevitável me fez despertar dentro de outra dimensão, aquilo tudo que eu queria saber sobre um mundo ao redor do nosso estava finalmente ao meu alcance. E era tudo um pesadelo sem fim.

  Tentei ao máximo me manter concentrado em explicações lógicas e racionais, entretanto quando você está a um passo do mundo que nós conhecemos, testemunhando a sua família envelhecer e superar a sua perda, sua mulher passar do luto a um novo casamento, seus filhos terem seus filhos e não lembrarem de como você os tratava para fazerem o mesmo com os filhos deles a lógica e a sua sanidade se desfazem. Eu estava no Purgatório. O lugar descrito por Dante Alighieri onde as almas ficavam presas no pós-vida para pagar por seus pecados na esperança de ascender ao Paraíso. Ao menos era essa a única absurda explicação que eu me recordava para aceitar o meu destino. E eu não era o único a jazer naquele lugar. Almas de pessoas esquecidas vagam sem rumo neste mundo de ruínas, dor e memórias e dentro deste reino cinzento uma nova sociedade se erguera em uma nova ordem mundial avassaladora. Tudo do outro lado do Véu é feito da mesma matéria, talvez, a tal matéria escura que comporia o "nada primordial". Nós, almas perdidas e tudo ao nosso redor é um pálido rascunho do mundo que existe e somos todos constituídos da mesma coisa: ectoplasma. Uma matéria viscosa e ao mesmo tempo gasosa que está em toda parte e em parte alguma simultaneamente. E esta cruel verdade nos transforma em moedas de trocas. Escravidão e tortura são realidades no reino das sombras e almas são rasgadas, aquecidas em fornos que ardem usando como combustível outras almas e despedaçadas para serem moldadas em criaturas bizarras, monstros, armas, moedas e até mesmo trens. Trens onde se levam mais almas para se construir mais de tudo, há mesmos cidades inteiras construídas desde tempos remotos com as almas humanas que não conseguem deixar suas existências para trás.

  E os anciões, aqueles que temem tanto o próprio fim, almas seculares, são os senhores destas terras. - os seus Lordes. Poucos duram nesta existência porque os anciões não querem que novas almas ganhem a experiência e a sabedoria que eles conquistaram através do tempo e da angústia. E além disso, todos nós partilhamos uma outra singularidade: somos todos tentados por nossas "sombras" a desistir e se entregar para o vácuo e assim desaparecer. A mais forte das consciências se enfraquece e se torna frágil quanto a de um suicida desequilibrado quando os anos mostram o quão insignificante fomos e somos e vemos tudo aquilo que perdemos se repetir em rostos diferentes que amam, gozam e desfrutam de prazeres que cada vez mais nos parecem distantes e ao mesmo tempo atraentes.

  Eu consegui ganhar espaço nesta nova sociedade porque havia ali um desespero tão colossal que todos, não apenas a mim, anseavam por algum tipo de resposta, de conforto. Alguma coisa que nos fizesse acreditar que existiria uma forma de ultrapassar todo aquele suplício. Eu, um homem da ciência, me tornei um líder religioso. Não como os pastores que exorcizam e praticam milagres na TV, eu acabei me tornando primeiramente para me confortar uma pessoa espiritualizada e repeti tantas vezes para mim que aquela dimensão mórbida era a prova definitiva de que havia uma força superior acima de todos nós que nos encurralara entre os mundos dos vivos e dos mortos que outras almas começaram a me ouvir. E a me seguir.

  Experimentei então o gosto de algo que jamais havia sentido antes: o sabor do poder. Eles me seguiam e me compreendiam e queriam acreditar em mim porque não havia nenhuma escolha. E logo, claro, os anciões souberam do que se passava e começaram a nos caçar. Eu me tornei uma ameaça e usei os meus fiéis como ovelhas para fugir dos lobos. Contudo eles eram incansáveis, possuíam a eternidade para me caçar e mais e mais eu era seduzido por minha própria ideia de grandeza. Me entregar ao poder maior, a Deus e me deixar levar pela entropia. Me desfazer em escuridão. A única coisa que me impedia de desistir era o desafio de sobreviver aos meus inimigos. Nesta luta me tornei novamente outra coisa: um guerreiro estrategista. 

  Perdi a noção do tempo, porque para nós o tempo se arrasta com uma monotonia opressora e temos os nossos grilhões pesados como âncoras que nos prendem aos nossos medos que nos deixam lentos. Destruí e ataquei muitos dos postos e batalhões inimigos. Sacrifiquei e distorci almas para me tornar perigoso e temível como aqueles que tentavam me vencer. Me tornei um monstro como eles. Na verdade - possivelmente sinto uma fagulha do que eu conhecia como orgulho - eu me tornei um monstro pior do que eles.

  Nem razão ou fé me salvaram de mim mesmo. E a minha arrogância e pretensão me levaram a minha derrocada. Quando enfim me colocaram de joelhos na sala mais escura da capital dos mortos, Estígia, no coração do Limbo ante aos pés do maior dos Lordes eu não sentia mais nada. Perdido entre tantas vidas sem vida, sem significado, abracei o meu fim. Os senhores dos mortos entenderam que eu queria ser derrotado e não me atiraram na Tempestade. Eles encontraram uma saída melhor. Eu hoje sou o relógio dos mortos que em gritos anuncia a passagem do tempo. Minhas engrenagens foram feitas a partir das minhas tripas ectoplasmáticas e eu fiquei desfigurado e a minha dor é infinitesimal. Agora não posso mais crer em deus algum, não acredito mais na ciência dos homens, não acredito mais em mim. Só o Tempo poderá me libertar da minha prisão incrustada e fabricada de mim mesmo. Aguardo a hora quando a Tempestade engolir a tudo e me tirar da eternidade onde me coloquei.

  Eu sou um aviso ambulante do que acontece para quem desafiar as leis dos mortos. Nada pode vencer a Morte. Eu sou Sísifo rolando a rocha morro acima e sendo esmagado por ela. Este é o meu testemunho antes de ser transformado em uma coisa que jamais deveria existir. Uma aberração em um mundo de espelhos enferrujados. 

  Ai de mim. Ai de quem não abraçar a morte e lamber os seus lábios gélidos em um beijo na derradeira hora. Ai das almas que se apegam àquilo que não mais lhes pertence. O Limbo os devorará por dentro, somos todos malditos.

Escutai mortais, esta é a minha sina e será a vossa se não me escutares.

E ninguém jamais me escutou.
   

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

A Semente da Mudança



A casa de cada homem é o seu castelo. Mas nem todos tem casas.

O coração de cada pessoa é o bastante para formar laços. Mas nem todos reconhecem tais alianças.

O corpo de cada mulher é sua propriedade. Mas nem todos respeitam a santidade da escolha.

Cada um escolhe como abraçar a morte. Mas nem todos aceitam os vícios alheios.

Todos somos iguais em nossas diferenças. Mas nem todos permitem que as diferenças façam diferença.

Juntos somos mais fortes e por isso mesmo é nosso dever dar às minorias o que pra nós já é direito. Mas nem todos se sentem fortes ao defender o outro.

Todos queremos mudanças. Mas nem sempre discutimos formas de melhorar e sim discordamos simplesmente para provar que o outro está errado.

As coisas estão mudando, mudar é reconhecer a Vida. Só não muda aquilo que está morto. Que a Semente da Mudança encontre em você solo fértil para termos um mundo melhor.

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

O Universo Particular

Nós e tudo no Universo somos feitos da mesma coisa. Poeira primordial da qual surgiram estrelas, galáxias, planetas, sóis, luas, eu, você. Nossas vidas não são nada se comparadas aos milhares de milhões da anos dos seres celestiais, mesmo assim a cada dia uma estrela pode ter nascido ou desaparecido, um buraco negro pode ter engolido misteriosamente tudo a sua volta, planetas podem ter sido atingidos por meteoros ou colidido com outros planetas.

A dança do Universo é inexorável, incessante, assim como o tempo sobre nós. Os ponteiros não param mesmo que às vezes eles pareçam rápidos de mais nos momentos bons e lentos de mais para os menos importantes. Assim como a Terra nós vivemos em rotação, vivendo ao redor de nós mesmos e dos detalhes desimportantes da rotina, somos afogados por coisas ordinárias, entorpecidos e anestesiados pelo comum. Para muitos este é o resumo de suas vidas, as preocupações banais, porém para realmente existir precisamos ter as nossas translações, as nossas voltas que nos fazem conhecer e sentir a luz de experiências únicas, de situações especiais, de momentos inesquecíveis. São eles que guardamos na memória e não as neuroses com contas e prazos. 

A cada ano um ciclo se fecha para se reiniciar, para algo novo nascer e então contamos quantas transliterações tivemos. E nos perguntamos quantas deixamos de ter devido as nossas rotações. Somos apenas peões rodando para divertir os outros como as crianças de antigamente que se divertiam rodando esses brinquedos ou nos divertimos e criamos lembranças como as do tempo de criança ao brincar de peão? A idade tende a nos tornar mais filosóficos, ou meramente mais desconfiados. Pesamos nossas escolhas e reavaliamos a nossa vida, há sempre tempo de mudar, repensar, escolher outros caminhos. Ao menos nos convencemos que sim e deixamos para amanhã a transliteração dos sonhos enquanto cumprimos as rotações diárias. 

Estou feliz com a dança do Universo, sou um mundo repleto de imagens e sons próprios, de vida. E há ainda muito para se desvendar, descobrir. Mas ao passar do tempo compreendemos que não teremos tempo para revelarmos o maior dos mistérios: a nós mesmos. De tudo que somos capazes, do que poderíamos ser. Aprender a conviver com isso é um desafio que urge sem deixar de acreditar que ainda há muito a ser contado, vivido, translado.

O meu Universo Particular está dançando e eu não quero só rodar na ponta do pé como um bailarino, quero me lançar como uma estrela cadente e cair sem abrir os olhos no desconhecido, bailar de mãos dadas com o destino e gozar a vida enquanto há possuo. E que assim seja. 

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

A ERA DAS LOLITAS


  Ela era como a representação de um conto de fada, branca como a neve, linda, aterradora e provocante como uma nevasca e todos os espelhos respondiam que não havia ninguém como ela. Seus olhos amendoados brilhantes e inocentes continham um brilho felino, como um filhote de tigre siberiano que poderia brincar ou retalhar seus dedos. Sua boca, pequena, vermelha e carnuda parecia uma armadilha para engolir a alma humana fraca e seduzível, de milhares de homens sem esboçar pena num sorriso frágil de menina má.

  E sem saber ao certo o que fazer com os seus encantos mágicos, seus dotes, como um capricho da natureza que embelezou uma criatura sem dá-la condição de se conhecer ou de saber de seu real poder ela vivia respirando e anseando por um príncipe que violasse sua torre e a tomasse. Algo mais terrível do que resgatar uma princesa de um dragão é não se deixar cair pelas garras de uma donzela, em seus truques, curvas e promessas vãs de paraíso perdido.

  Por isso ela era como o Narciso, amava-se e ao notar que outros lhe percebiam, amava-se mais ainda. Cobria-se com pinturas como um Dorian Gray megalomaníaco, sonhava com a grandeza de ser desejada na pequenice de seus sonhos febris, místicos e absurdamente tolos. Uma aberração para a sociedade moderna, a ruína dos homens, pois nós por mais racionais que sejamos não deixamos de ser feras e de desejar cobrir as jovens fêmeas.

  Esta é uma era de Lolitas imbecis que não servem para nada porque sonham em servir, por capricho de seduzir e de ultrajar os pais. Mal sabem elas que seus pais sonham com suas amigas e que suas mães as invejam por terem o frescor do leite colhido de manhã enquanto elas ganham nata e se transformam em queijos bolorentos.

  O feminismo esbarra na vaidade, na superficialidade, na quantidade de admiradores e de gracejos, se antes os homens atiravam flores hoje cobrem os perfis de juras de amor e cantadas baratas, apelativas, para enaltecer egos e inflá-los até se tornarem gigantes e mesmo assim, continuarem cada vez mais vazios. Para preencher esse abismo na alma procuramos incessantemente preencher os orifícios do corpo e saciar os prazeres da carne e ao nos servimos sentimos mais fome.

  Porque o mundo está no cardápio para quem quiser e puder agir sem temer as consequências, as sereias ninfetas pulam para dentro do aquário pelo prazer de ver os homens salivando por devorá-las como lagostas em um restaurante de frutos do mar. 

  Na vida os seios e o pênis crescem mais rápidos do que a mente e assim a biologia entrega a crianças quase adultas armas de destruição em massa, capaz de fazê-las se multiplicar e de gerar novas almas. Hormônios e feromônios, cio interminável e jogo de poder, é uma caça, uma corte, uma dança, um sofrimento e um inferno. Porque não devemos tocar o fruto proibido, apenas aqueles incapazes de saboreá-lo devidamente podem fazê-lo e é exatamente por isso que ele nos parece tão doce.

  A maldição dos homens é essa: desejar sem possuir, das mulheres é deixarem de serem possuídas mesmo desejando o serem.

terça-feira, 5 de agosto de 2014

A Foda FODA


"Tudo no mundo é sobre sexo exceto o sexo. O sexo é sobre poder."
Oscar Wilde

Já usei esta frase antes em um post antigo , mas a citação vale à pena ser lembrada.

Há na relação sexual uma disputa de poder, de controle, de dominação, mesmo na mais tenra e carinhosa reciprocidade alguém está na posição de comando e alguém se submete ao outro. Saber ceder e performar em ambas as posições é uma arte, existe quem se sinta satisfeito ou seguro em uma ou outra posição, de dominador ou de dominante, contudo entender a necessidade do outro e dar espaço para que o seu cúmplice possa atuar sendo ativo ou passivo é uma das maiores formas de cumplicidade que um casal pode atingir. 

O sadismo e o masoquismo levam este conceito a outro nível e não é todo mundo que está pronto para adentrar este mundo de fetiche, couro, chicotes e nós. O bondage é uma arte para poucos, por certo, que vai muito mais longe que cinquenta tons de cinza. A palheta de cores deste universo é incontável e os quadros são a pele de quem ousar se arriscar a provar. Não há regras fora as que as próprias pessoas se impuserem.

Mesmo assim, o conceito vale para todos, o de que a força de quem está no comando provém da submissão do outro, ao compreender isso, que tudo se relaciona ao desejo e confiança de entrega, os limites do prazer são levados até o inimaginável.

Alguém tem que ceder o que não é deixar de ganhar, de se satisfazer, pelo contrário. É entregar as rédeas para aproveitar a paisagem da viagem. As sensações do orgasmo, cada arrepio e reação que para quem não é suficientemente seguro, pode parecer constrangedor, porém para quem se ama e não possui trincheiras entre si, é algo sublime.

Encontrei uma definição desta ideia em um dos filmes mais polêmicos e chocantes já feitos, "A Serbian Film - Terror sem Limites", um filme que eu não recomendo a ninguém a assistir porque é o mais pesado que já assisti e definitivamente pouquíssimas pessoas vão conseguir compreendê-lo. O filme se passa dentro do submundo dos vídeos snuff e envolve estupro e pedofilia, medonho, porém é possível compreender que ele usa da metalinguagem para criticar o próprio gênero que não traz nada de artístico e sim de monstruoso e que simplesmente explora a violência gratuita sem qualquer talento ou outro motivo envolvido se não o lucro da parafilia e do crime.

Entretanto há em uma fala entre os personagens logo no início do filme uma interpretação muito sincera do que estou discorrendo que não está ligada ao enredo principal:

"Seu senso de manipular uma mulher, o seu ritmo para esgotá-la, para humilhá-la, e então quando ela é reduzida a uma cadela, para reconquistá-la. E o seu amor por isso, isso é arte."

Esta é a definição do trabalho de Milos, o personagem principal do longa, considerado o maior ator pornô do mundo no filme e o único capaz de trazer beleza e arte para aquele mundo de entretenimento barato. Uma descrição vulgar de uma fonte de péssimo gosto, para dizer o mínimo, a maioria pode dizer - e não estará errada.

Por que então buscar esse tipo de citação quando a princípio tivemos Oscar Wilde?

Porque o sexo é em essência primitivo, um dos instintos básicos do ser humano, uma ligação direta com o seu lado mais animal, assim como a violência também é um dos nossos instintos mais vitais e é impossível negarmos tal fato. Por isso o sexo é um assunto tão difícil de ser discutido e ao mesmo tempo tão explorado, ele traz à tona um lado bestial  de cada cidadão que não cabe na sociedade a não ser na cama. 

"(...) O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera."
Augusto dos Anjos

Este trecho do poema "Versos Íntimos" de Augusto dos Anjos traduz de forma espetacular o que exemplifiquei anteriormente, é inerente ao homem ser fera e se tornar uma entre os outros homens-fera. Isso no contexto sexual é latente e vergonhosamente óbvio. A mulher pode amar e adorar ser bem tratada, idolatrada, contudo no ato sexual ela precisa descer do pedestal e sentir-se fêmea e a verdade de sua natureza surge, contrariando todo o feminismo e luta de igualdade de gêneros. Porque não estamos falando de racionalidade, mas de ferocidade, mesmo que haja uma breve luta por controle, de quem ficará por cima, por exemplo, alguém está sofrendo a violência da penetração e alguém a está praticando. A biologia é simples. Isso não é machismo, a natureza nos fez assim e se dentro da sociedade cada um deve e merece receber tratamento igual, do ponto de vista biológico isso é inconcebível. 

Por isso, por mais que tentemos nos esconder e negar os nossos tabus atrás de romances açucarados e contos infantis com moral, precisamos entender que o sexo não é imoral e sim amoral, não existe como racionalizarmos ele e sim, simplesmente, praticá-lo. E embora esta verdade possa chocar todas as moças inocentes, no fim, todas sonharão e desejarão o Lobo Mau quando estiverem a sós com um homem e desprezarão o Príncipe Encantado e sua etiqueta real.

Uma pena que por recalque da sociedade a maioria não saiba como lidar com o Lobo Mau quando encontre um e sofra por isso. O mundo poderia ser muito mais livre se nos aceitássemos como animais que vivem em um cio eterno em que alguém sempre estará fodendo alguém e que ser fodido não é desvantagem.

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Quero que haja sempre uma cerveja em sua mão e que esteja ao seu lado seu grande amor



Às vezes no final da noite sinto muito sua falta. Queria ter você aqui comigo agora. E às vezes no fim da noite sinto uma vontade enorme de tomar um gole de alguma cerveja amarga importada. E ao constatar no fim do meu dia quando deito para descansar que os meus desejos são esses, você e cerveja, não consigo imaginar uma prova de amor maior que essa. Obviamente para quem está de fora pode soar como uma forma estranha de amar, do meu jeito, sempre diferente de fazer as coisas.

Sei que isso não é o que esperam a maioria das mulheres, costumo dizer que para as mulheres serem amadas como sonham, elas devem amar outras mulheres e terem sorte, torcer, para encontrar alguém que possa ser tão carente quanto elas para serem correspondidas da mesma maneira. Os homens são menos glamorosos que as mulheres, amamos sem floreios, somos menos espetáculo. O nosso amor é mais direto, simples, como um leão no circo rugindo contra o chicote do adestrador, não somos o número de mágica, somos feras enjauladas. Mas nem por isso somos menos profundos, amamos menos. Ao menos eu sou assim, já que não posso afirmar sobre todos os homens, falo sobre o homem que sou.

Como uma tempestade de areia que atinge todos os sentidos e arrebata exércitos, não como um jardim secreto escondido onde a Árvore do Segredo da Vida descansa. E ao me deparar que não é apenas por desejo, companhia ou intimidade que sinto sua falta, me surpreendo. Porque sentir isso é irracional. Sinto como se tivesse descoberto uma falha nas leis do Universo, como se tivesse descoberto um segredo da natureza por ninguém ainda revelado. Como se descobrisse que a gravidade não é universal ou uma maneira de enganar a morte. Mas no fundo, para nós humanos, não há nada mais natural do que o amor.

Somos treinados pela biologia para amar. A arma secreta da reprodução - o amor. E treinados para não acharmos que ele é algo natural, mas sim sobrenatural, especial, nos enganamos e nos perdemos. E assim encontramos o paradoxo de loucura do amor, entre o saber e o sentir. A dosagem desequilibrada dessa droga entorpecente engana sentidos e razão. Somos bombardeados pelos nervos super estimulados, glândulas que soltam e produzem substâncias para confundir o nosso cérebro, se espalham e queimam na veia e nos faz ter febre, para interromper as conexões dos nossos neurônios e nos tornar viciados.

A sensação de amar é semelhante a se drogar, produz os mesmos efeitos que saboreamos ao nos embebedarmos. Por isso, quando digo que sinto sua falta de noite, no fim do dia quando a verdade se revela e quando digo que também sinto vontade de tomar um gole gelado de alguma cerveja amarga importada me alegro e ao mesmo tempo me pasmo. Isso, no meu mundo, é realmente amor. Com espuma e malte, ou trigo, em suma: cevada e saudade. E a vontade de brindar a tudo isso é o que me fará acordar de manhã, amanhã e depois.

sexta-feira, 18 de julho de 2014

CURRA


A minha língua abre a pele como navalha na carne que se abre como uma ferida, revelando o interior, músculos, nervos e sangue. Alma escorrendo, transbordando, saliva é veneno adentrando ao buraco aberto como o de um tiro à queima roupa que escorre e contamina o seu sistema, queima dentro da sua veia como ácido.

Cuspe que cai com a força de quem o cospe do terraço de um arranha-céu e te atinge no coração, te trespassa, te viola, te empala. Projétil que estilhaça a sua resistência, abre caminho através da sua armadura, verga a sua vontade, humilha o seu orgulho e te agrilhoa, ajoelhando-te. 

Você perde os sentidos, a visão, a fala e ao mesmo tempo se torna sensível como nunca, aflorando lugares que jamais você supôs existir, possuir, pensamentos, desejos, emoções - sujos, violentos, vis. Deliciosos. 

Sem força para resistir e tenaz para trair os seus ensinamentos, quebrando o tabu e caindo de boca como um bêbado que só depois que sente o chão, a lona contra o rosto, coloca as mãos a frente do corpo para se proteger.

Indefesa você se entrega não por não poder lutar, mas por não querer resistir. Vítima da síndrome de Estocolmo você espera nunca ser encontrada, nunca ser descoberta, renascer comigo e deixar sua vida para trás.

O cárcere é o seu lar, as algemas as mais caras joias que você jamais ostentou e as cicatrizes provas de amor. Você chafurda no chiqueiro e o ama, lavando sua alma com imundície o seu corpo se torna o templo da violência.

E então você anseia, baba como uma cadela com raiva, no cio, ansiosa, viciada, aguardando como o leproso pela cura, a próxima curra. 

Adaptação do texto de Bukowski "Como Ser Um Grande Escritor"


terça-feira, 1 de julho de 2014

Mitologia Itararéense

PESTE, A TRIBO e EMANCIPAÇÃO são três contos que contam a história da minha cidade, Itararé, a partir da ótica do horror inspirada claramente nas obras de Lovecraft.

A minha terra natal é cantada por muitos como um lugar bucólico, um paraíso secreto, então quis dar a minha versão dela seguindo pelo viés oposto, tornando a lenda que dá origem ao seu nome, seu rio e a própria cidade em si um personagem, um vilão que cresce a cada conto em poder e fascínio.

Cada conto é independente e pode ser lido sem problemas, mas para quem tiver curiosidade de seguir um a um vai ver que faço em capítulos a construção histórica da cidade pervertendo pontos importantes e de orgulho transformando-os em vergonha e pecados absurdos.

Esta ideia é antiga e há anos trabalho nesses contos, já postei versões anteriores deles aqui, porém acredito que eles estão mais maduros e prontos para serem lidos, se alguém se interessar.


EMANCIPAÇÃO

EMANCIPAÇÃO



O sol se escondia no horizonte trazendo uma noite fria em 1901 quando a carta enviada pelo chefe de polícia de São Paulo chegou às mãos do delegado do município de Itararé. Ao receber a correspondência do mensageiro o delegado estava trancando a porta de seu gabinete e ao ler o nome do remetente soube imediatamente que aquilo não eram boas novas. Afinal se tratava de nada menos que Pedro Antônio de Oliveira Ribeiro - o chefe de polícia de São Paulo - figura famosa do alto escalão do governo. Reacendendo o lampião novamente em sua sala o delegado confirmou que o conteúdo tratava de um assunto realmente complicado: o Cônsul da França pedia através do chefe de polícia informações com urgência do paradeiro de Lucien e Marie Foiz, um casal de argelinos que se suspeitava desde 1893 estivessem locados na região. Notícia peculiar e suspeita que arrancou um suspiro de desconsolo do representante da lei, ele teria uma longa noite.

Uma carta de São Paulo do Senhor Pedro Antônio já era ruim, um pedido urgente do Cônsul francês então era com certeza algo que não podia ser ignorado. Uma notícia daquelas precisava ser dada o quanto antes ao intragável Intendente Belarmino Pinheiro de Carvalho e lá se foi o delegado bater em sua porta.

Belarmino adorava o poder e o prestígio de sua posição, mas odiava as responsabilidades de seu cargo - equivalente a prefeito na época. O comerciante rude fora colocado pela aristocracia no poder para trazer para perto da elite os pequenos burgueses em um falso gesto de união e respeito a eles. Belarmino era uma marionete que adorava receber o seu salário e gastá-lo nos botequins, mas detestava ter de se apresentar ao Paço para assinar decretos que sequer lia.

Ao ouvir as novidades ordenou que o delegado averiguasse o caso na mesma hora temendo que qualquer demora em atender o pedido pudesse irritar os políticos da capital e manchasse o nome de seus mestres. Fazer o delegado revirar a cidade noite adentro para encontrar aqueles estrangeiros não era nada se comparado com a garantia de uma boa relação com os poderosos.

O delegado concordou com a cabeça e partiu rumo a igreja, qualquer coisa era melhor do que ouvir aquele desgraçado. E além do mais ele sabia que se aquela cidade que era um ninho de serpentes tinha algo a esconder, mais cedo ou mais tarde eles chegariam aos ouvidos do padre.

O pároco era de idade e não ouvia muito bem, principalmente quando não era de seu interesse, porém depois de o delegado quase pôr a porta da sacristia abaixo ele o recebeu. Se fingindo de senil o velho ao ser indagado evitava comentar sobre o assunto até que a menção sobre os rumores que tanto circulavam às más línguas do velho cristão levando muito à sério a frase “Vinde a mim as criancinhas” o fez mudar de atitude. Ele se fez de rogado e relembrou a sua influência junto às quatro famílias fundadoras da cidade e ameaçou dizendo que eles não admitiriam qualquer injúria contra ele, pois eram “católicos exemplares que não deixariam impune qualquer calúnia contra um homem de Deus”.

Ao menos o velho mostrara as garras pensou o delegado, então tratou de esclarecer que só queria fazer seu trabalho e que se o padre tivesse algo a dizer que o fizesse de uma vez para que ambos pudessem seguir suas vidas.

Sorrindo maliciosamente o velho se aproximou do ouvido do delegado e em um tom confessional sussurrou:

“...eu nunca pergunto a um homem qual é o seu negócio, o que eu pergunto são os seus pensamentos e sonhos. E Lucien sonha coisas que nenhum homem deveria sonhar, sonhos que só monstros e deuses são capazes. Ele e sua mulher acreditam que podem tornar o sonho deles realidade aqui.”


E continuou: “Eles eram simples, mas muito instruídos. Viajaram incógnitos pelo Atlântico junto dos ciganos infiéis que os esconderam mediante pagamento. Lucien procurava o lugar onde o rio escavara a pedra que os franceses Debret e Saint-Hilaire mencionaram em correspondências entre si quase um século antes.”

Aquela história toda de estrangeiros procurando a gruta do Rio Itararé e mistério o incomodava, sua intuição lhe alertava que alguma coisa estava muito errada naquilo tudo, que seria melhor ele se afastar. E este pensamento perturbador o instigava a saber mais, o medo alimentava a sua curiosidade. Mais do que a superstição de um velho sacerdote, ele sentia que realmente estava prestes a desvendar verdades terríveis e ele faria o que fosse preciso para espiar os segredos obscuros daqueles forasteiros.

O delegado era um homem parrudo e corajoso, combatente formidável da Guerra Civil da Revolução Federalista “da degola” onde dez mil homens tombaram na tentativa sulista de dar um golpe por não aprovar o presidente Floriano Peixoto. As memórias dos combates selvagens nos rincões do Paraná chacinando os inimigos sem qualquer misericórdia atormentavam seus sonhos, os feitos cruéis que renderam-lhe seu atual posto surgiam em sua mente cada vez que fechava os olhos. Ele não temia o combate, entretanto o que não podia ser enfrentado com os punhos, adaga e pólvora começava a devorar-lhe por dentro.

A noite escureceu ainda mais enquanto o delegado cavalgava estrada a fora rumo ao Paraná. Ao ganhar as trilhas abandonou o cavalo por não poder enxergar direito o terreno irregular e temer que o animal pudesse quebrar uma perna e prosseguiu empunhando o seu lampião. Ele caminhou no ermo até que começou a ouvir o barulho das águas turbulentas contra as muralhas de pedra. Até que enfim chegou descendo um pouco as pedras com cuidado para não escorregar, sozinho, à entrada da gruta.

 O som das águas ecoava na caverna aumentando a sua força, o delegado mesmo conhecendo a gruta sentiu que encarava a entrada do inferno. O ar era gélido, úmido e trazia em si o cheiro dos segredos da terra. Desceu até o interior tateando com cuidado e segurando o lampião até que chegou no coração do Rio Itararé.

Era como pisar em um templo esquecido, uma aura de grandiosidade e pavor emanava de todos os cantos, mas o mais aterrorizante era uma grande mancha no chão que se assemelhava demasiadamente a sangue seco.

O delegado se aproximou e se ajoelhou para verificar de perto e quando tocou a mancha algo além dos limites de sua compreensão aconteceu.

Ele testemunhou o que se passara ali na gruta oito anos antes, em 1893, quando Lucien com uma faca estripou a sua esposa que o acompanha grávida para retirar a criança de seu ventre. O sofrimento de ter seu filho arrancado de suas entranhas a fazia gritar e a caverna multiplicava o seu desespero ao infinito amplificando a sua dor até alcançar as estrelas. No entanto quando finalmente a criança chorou ela sorriu e se alegrou, não pela vida que concebera, mas por poder continuar com o plano doente de seu marido.

Lucien sem ao menos limpar o sangue sobre a sua filha a enrolou em trapos com símbolos mágicos e entoando cânticos profanos ofereceu aos “deuses que dormem” aquela alma prometendo que a partir daquele sacrifício a gruta se tornaria um lugar de adoração e que mesmo sem entender a mensagem, quem pisasse naquele solo sentiria o poder que irradiava da estrelas. Então ele encheu o pano no qual enrolara a criança de pedras para quando atirasse o recém-nascido dentro das águas ela não corresse o risco de não afundar. Chorando alto ele arremessou a menina que desapareceu nas profundezas do rio. Segundos depois surgiram boiando dezenas de peixes mortos, um sinal de que a oferenda fora aceita.

Lucien abraçou sua mulher e alegres, rindo e chorando permaneceram juntos até ela morrer.

Já era dia quando o delegado recobrou a consciência e para sua desgraça aquele sonho alucinado ainda estava gravado em sua mente, porém desconexo, uma cicatriz em sua alma que jamais se curaria. A mancha de sangue havia desaparecido, os pássaros saudavam o sol e tudo parecia ter sido apenas um pesadelo. Entretanto o delegado sabia, no fundo, que aquilo acontecera e não teria como provar nada.

O Intendente o chamou de incompetente e ameaçou tirá-lo do cargo por não conseguir nenhuma pista do paradeiro dos estrangeiros, mas depois do ataque de raiva, voltou atrás. Óbvio que o delegado não disse uma palavra sobre o que a revelação que tivera e mesmo com a chance de manter o seu cargo desistiu de seu posto e partiu da cidade, era impossível para ele continuar a conviver tão perto da insanidade que ele começava a recordar.

Ele precisava de respostas para as questões que rondavam sua cabeça como moscas atraídas pelas memórias podres que ele guardava gravadas a ferro e fogo em seu cérebro. Por que eles fizeram aquilo com a própria filha? Como um homem e uma mulher poderiam fazer aquilo com uma criança? Que credo doente e monstruoso obrigaria seus seguidores a cometerem tamanha atrocidade?

De noite, na estrada, o perturbado delegado se deparou com uma caravana de ciganos e para seu azar seus desejos foram enfim atendidos. Lucien estava com eles e lhe revelou a verdade do Universo.


O delegado morreu em uma casa para doentes mentais gritando para quem quisesse ouvir que os Deuses Antigos estavam despertando e que Itararé era a porta para o inferno por onde eles voltariam para destruir o mundo. Enterrado como indigente seu nome foi apagado da história e seus avisos nunca foram levados a sério. 

A TRIBO

A TRIBO



Debret enfrentando a árdua estrada, exposto aos dissabores das intempéries acompanhado por várias bestas de carga e peões com muito esforço alcançou o selvagem rio Itararé.

Ao se deparar com o desafio natural que os paredões de granito propunham, improvisaram uma ponte com tábuas para vencer o desfiladeiro. As bestas eram guiadas uma a uma e somente um homem e um animal podia passar por vez até o outro lado. Nesse trabalho um meninote que servia como batedor da expedição errou o passo e de repente escorregou gritando sem que ninguém pudesse evitar desaparecendo nas águas famintas. Aquilo mexeu com o ânimo de todos, ele era muito querido pela companhia. Continuaram a travessia cabisbaixos, cautelosos e em silêncio, até os cães e os burros pareciam enlutados.

Os homens então ao cruzar o penhasco pediram para seu patrão uma parada, Debret assentiu em respeito à morte do moleque em montar acampamento. Apearam em uma planície próxima ao desfiladeiro, contudo, dormir propriamente dito poucos conseguiram e muito mal. Além de ter que aproveitar a longa parada para evitar outras no futuro da viagem, colhendo lenha, enchendo os cantis, os cães pareciam farejar algo de ruim e não se calavam nem por um segundo, logo que roíam os ossos chupados que os homens atiravam a eles voltavam a ladrar agitados, impossibilitando a qualquer um o descanso merecido.

O violeiro da companhia percebendo que não iria adiantar continuar a tentar pregar os olhos foi se inspirando para cantar e contar histórias. Estava sentado junto ao fogo e as mariposas que o rodeavam lembravam fadas sombrias a lhe sussurrar cantigas de magia e mistério ao pé do ouvido. Coincidentemente ou não essas suas canções ora e meia se remetiam ao mote da meninice perdida, falando nostalgicamente sobre os tempos de infância e começo da vida adulta que se escorrem por nossos dedos quando menos percebemos. Reanimados pela música os homens cantavam e batucavam. Debret também vendo o quão inútil seria desperdiçar seu tempo tentando dormir, quase tranquilo pela calmaria do local, decidiu aguçar o olhar e se munir da paleta e pincéis para registrar o momento. Ao preparar suas tintas lembrou-se das pinturas milenares que descobriu nos paredões do Jaguaricatu onde homens primatas reverenciavam um sol negro e inspirou-se para como seus ancestrais pintar os costumes de seus contemporâneos e pintou com detalhes um perseverante e exausto carregador, o único, babando debaixo do chapéu. Registrou também a maneira de prender as bagagens nos animais de carga e a vista bucólica, triste e perene sob o céu claro e onírico de Itararé.

Talvez fosse a estafa ou a energia estranha que pairava, impossível dizer por certo a origem da visão que acometeu Debret. A brisa sussurrante o incomodava, quase podia ouvir vozes nela. Das sombras e trevas sentia um calafrio como se algo o rodeasse espreitando em silêncio. Invejava a ignorância dos peões que celebravam o momento, solenes pela perda recente, mas encantados por terem a oportunidade de descansar e se lembrar do amigo. Ao observá-los viu uma pequena coruja cinzenta cruzar o acampamento e levado por seu trajeto fitou para dentro da mata adiante onde vaga-lumes fosforescentes iluminavam precariamente uma sombra. O vulto possuía uma aura verde-feérica. Foi tudo muito rápido, somente um breve e efêmero instante, contudo o suficiente para que o olhar recriminador de angústia e dor da figura perturbasse Debret ao ver o novamente rapaz morto afogado há pouco.

Tremia em espasmos involuntários, suas mãos não detinham mais a suavidade e a maestria adquirida por toda uma vida dedicada à arte de pintar. Suava frio, embora sua pele ardesse, o coração parecia querer romper seu peito. Sentiu dedos leves passeando por sua nuca e o hálito quente do rapaz a lhe acusar ao ouvido de tê-lo abandonado. Veio a dor, mais terrível que qualquer coisa que o francês já tivesse sentido antes. Podia ouvir a respiração ofegante do rapaz em desespero enquanto tentava em vão lutar contra a morte.

Em febre, não mais podendo sustentar o corpo caiu em convulsões ouvindo o lamento dos mortos. No chão, sentia a terra pulsar como se abaixo do acampamento, enterrado no inferno, um gigantesco coração estivesse batendo, lento, despertando enquanto o seu próprio diminuía o ritmo. Vozes e som de águas batendo contra galerias subterrâneas enchiam os ouvidos de Debret que estava no limite de sua sanidade. Rapidamente os homens vieram ajudar, mas não havia nada que pudessem fazer. Os homens se agruparam ao seu redor sem saber o que fazer para ajudar o patrão.

Ao abrir os olhos lá estavam as constelações no céu escuro, porém o que Debret percebia era a imensidão das trevas entre os pontos brilhantes e não mais a beleza das estrelas. Com dificuldade levantou-se e descobriu-se sozinho, não havia sinal do acampamento ou de sua companhia. Um vento frio soprava e nele ele ouviu vozes, ao longe. Cânticos e gritos, encantamentos, reza, não sabia ao certo como chamar aquilo, só sabia que aquilo lhe perturbava.

Sem escolha resolveu seguir as vozes que o atraíram para a margem do rio que anteriormente cruzara. Porém o terreno estava diferente, as águas não corriam entre os paredões de pedra e sim sobre a planície brilhando como se fossem feitas de escamas reluzentes. E próximo ao rio fogueiras ardiam, enormes e em seu redor sombras dançavam em transe, enlouquecidas entoando palavras que Debret não compreendia, mas temia. Ele se esgueirou entre as pedras até mais perto e avistou uma linda mulher nativa que chorava e gritava raivosamente com o corpo de um guerreiro nos braços. Ela o cobria de beijos como uma amante e cuspia em direção ao rio.

Ouviu então o berro de animais, eram cabras selvagens que os homens daquela tribo bizarra sacrificavam sem escrúpulos. Eles se banhavam com o sangue dos animais e vestiam a carcaça deles e assim começavam a agir como bestas, urrando e se debatendo como feras raivosas. Debret não entendia o que via, sabia contudo que corria perigo e que deveria partir, mas não conseguia sair do lugar.

O chão estremeceu com um abalo sísmico como se algo tivesse implodido sob a terra. Então a poeira se ergueu e a terra começou a se rasgar no meio abrindo-se em um abismo. O rio despencara para dentro daquela escuridão jorrando água para o alto. Os índios gritavam e se jogavam contra o chão, corriam alucinados e rogavam aos céus gritando: Itararé, Itararé!

Debret com muito esforço conseguiu se afastar daquilo que ele descreveu para Saint-Hilaire como uma cena dantesca - os índios em desespero pararam de dançar e começaram um suicídio coletivo. Eles cortavam as próprias gargantas como haviam com os animais e manchavam o solo de vermelho, tombando às dezenas.

Quando chegou a uma distância que considerou segura olhou para trás e viu algo ainda mais aterrador. Os céus se abriam e tentáculos colossais se agitavam daquela ferida, ele não podia acreditar no que via. Choviam brasas incandescentes carbonizando tudo que estava por perto, incendiando a mata e toda a tribo. Ventos tão fortes quanto os de um furacão espalhavam a fumaça e as cinzas. Debret só conseguia ouvia os gritos de dor e as palavras sendo repetidas incessantemente: “Itararé, Itararé” quando o som de algo caindo e explodindo no chão o acordou.

Quando Debret despertou sua companhia desacreditou ao vê-lo vivo e bem. Ele estava desnorteado e não sabia explicar o que tinha se passado, os homens diziam sentir a presença do mal com as garras fincadas em Debret.

Seguiram depois para a aldeia de Itararé e lá Debret aprendeu que não fora o primeiro francês a visitar aquelas paragens e que assim como ele, o botânico Saint-Hilaire também havia contraído uma curiosidade inconveniente sobre o rio. Debret desistira das incursões pelo interior do Brasil logo depois, cada vez que fechava os olhos via a imagem da destruição da tribo e rememorava o terror que ainda carregava consigo na memória.

Ao retornar à França enviou cartas para Saint-Hilaire perguntando o que ele descobrira no Brasil, na pequena aldeia próxima ao rio Itararé. Debret precisava de um cúmplice para poder dividir suas experiências e entender melhor o que havia se passado e o que Saint-Hilaire lhe revelou foi a história por trás da visão – a lenda do rio Itararé.

Os dois acabaram por se tornar amigos e trocaram várias cartas em segredo, até a morte de Saint-Hilaire. Debret sentiu muito a perda do amigo, principalmente porque Hilaire confessou-lhe que via além do véu que cobria seus olhos ao se aproximar da morte e sabia que o demônio que descansava abaixo do rio maldito o esperava e que Debret seria o próximo.

O “Caos Rastejante” nos aguarda, escreveu em sua última carta. Debret pouco antes de falecer pediu que queimassem todas as cartas, queria esquecer aquela história e partir em paz, mas seu criado não o obedeceu e guardou para si as correspondências visando vendê-las e obter algum lucro.


PESTE

PESTE



Depois de estudar as sementes, flores, animais e as curiosas pinturas rupestres de mais de dez mil anos atrás na região do rio Jaguaricatu em vinte e cinco de janeiro do ano de mil oitocentos e vinte chegou à aldeia de Itararé o botânico francês Auguste de Saint-Hilaire. Sempre acompanhado por um índio botocudo, seu fiel companheiro que lhe servia como guia, tradutor, mercenário e conselheiro, Saint-Hilaire ficou por algumas semanas nas três sesmarias aproveitando a hospitalidade daquele chão antes de seguir para Itapeva da Faxina. Seus cadernos continham anotações esmiuçadas da cultura e costumes e desenhos em mínimos detalhes, Hilaire anexava aos herbários esses documentos e diários que de tempos em tempos eram despachados para além-mar.

Porém quando Saint-Hilaire finalmente estava pronto para partir seu companheiro caiu de cama subitamente. O índio tinha febre alta e delirava aterrorizado balbuciando sobre o inferno e repetia incessantemente um nome: “Uariri”. Seu semblante forte tornara-se rapidamente decrépito, doentio, a peste que lhe acometera era de uma sordidez tamanha que aparentava ser efeito de algum veneno ou de uma mandinga ou macumba pesadas, como diziam os nativos. Os capuchinhos ofereceram ajuda, mas não podiam fazer muito pelo índio, só lhes restava oferecer o favor de lhe encomendar a alma. Desesperado já que o índio por diversas vezes havia lhe salvo a vida, Hilaire sentindo-se obrigado a pagar sua dívida de gratidão recorreu ao povo, já que os religiosos se negavam a falar a respeito na menor menção do nome da mulher misteriosa. Foi ouvindo a população que Hilaire descobriu quem era Uariri.

Uns diziam que ela falava com os espíritos, lia mãos e até adivinhava o futuro. Outros contavam em sussurros, amedrontados, que ela rogava maldições, preparava poções de ervas e dormia com o diabo. O mais velho dos moradores da vila contava que já ouvia falar das histórias do espírito da velha bruxa que morou na gruta do rio Itararé ainda criança. Contava ele que mesmo antes do primeiro tropeiro pisar aqui ela já guardava a caverna. Mesmo temerosos, o povo antigamente, dizia-se, ia até ela muitas vezes na calada da noite para pedir ajuda. As escravas que engravidavam dos seus patrões e temiam por suas vidas por dar a luz aos bastardos levavam as crianças para ela criar “anjinhos”, os batizando nas águas do rio Itararé e nelas os afogando. Ao ouvir esses relatos Hilaire entendeu a razão dos senhores do solar não quererem falar a respeito do assunto, ele sentia que ao mesmo tempo que aquelas histórias causavam pavor, também traziam embaraço por envolver casos vergonhosos da história do vilarejo. Contava a tradição popular que para cada andorinha revoando no crepúsculo procurando abrigo na gruta do rio uma criança havia sido morta pelas mãos da anciã. Hilaire estava aturdido e sem alternativas decidiu ir investigar em segredo a tal gruta onde a bruxa indígena vivera.

Sem avisar ninguém partiu sozinho do solar na hora mais negra da noite no lombo de sua mula. Apeou, amarrou sua montaria a uma árvore retorcida e continuou a pé. Ao galgar aqueles degraus feitos pelo prazer do vento e da água pensou ter ouvido o choro de crianças. Balançou a cabeça, aqueles depoimentos dos simplórios pareciam estar afetando seu julgamento impressionando-o como nada antes o fizera.

Finalmente alcançou o fim daquele declive, uma caverna onde um rio barrento e propositalmente calmo escondia segredos do passado em suas entranhas turbulentas. O luar descia por uma abertura do cimo da gruta iluminando as águas que pareciam chamar por Hilaire. Elas o atraiam, ele encantado e amedrontado caminhava lentamente sem conseguir se conter até a borda da gruta para olhar dentro do rio. E assim, de joelhos, vidrado pelo rio ele viu no espelho d’água um vulto atrás de si, a mulher de que se falava na aldeia, em seu rosto a idade e a loucura estampadas. Em um segundo, sem jamais saber se fora por descuido ou se de fato algo o empurrou, caiu dentro do lago frio da gruta do rio Itararé. Imerso naquelas águas em um batismo forçado, algo parecia lhe puxar para baixo, chegou a imaginar tentáculos lhe puxando, talvez. Em meio aos ruídos ferozes da corrente de água enfurecida contra as rochas uma voz pareceu lhe falar.

Cortava esse chão, como uma serpente d’água, um rio poderoso e cheio de peixes. Neste rio os jovens se banhavam e pescavam, o povo havia conseguido domar o espírito bravio e selvagem daquela víbora e ninguém temia as águas. As coisas das bestas às pedras possuíam espírito próprio e o do rio sibilava quando ninguém podia ouvir, com uma fome que não sabia saciar. O rio apaixonara-se pelo mais belo dos guaianazes, Taiguara, um destemido guerreiro de pele de suçuarana querido por todos, do morubixaba ao pajé.
O rio então moldou em segredo as pedras de seu leito deixando-as pontiagudas como adagas e cantou imitando a voz de seu amor, Uariri, chamando Taiguara. Ele seguiu aquela voz e ao ver o rio, mergulhou nele para não mais voltar. As águas, antes calmas e belas, tornaram-se vermelhas e violentas, o espírito consumira Taiguara e o pervertera, viciando-se na morte. Serpentes agitaram-se de seu interior e vapores funestos se ergueram cobrindo as estrelas. O povo ao perceber o que acontecera chorou e amaldiçoou o rio pedindo para Tupã puni-lo.

O senhor dos céus respondeu fazendo o chão tremer derramando fogo do firmamento. Tupã mandou uma estrela negra que se enterrou na terra. O espírito do rio cavou as terras entrando por dentro das pedras para se esconder, temendo a ira divina, mas a estrela se escondeu abaixo dele. Os índios apavorados gritavam – Itararé, Itararé – avisando Tupã que a serpente já havia se escondido e que de nada adiantaria Tupã liberar sua fúria sobre a terra. O deus então amaldiçoou o povo que se deixara enganar por um espírito tão vulgar e que lhe conjurava quando estava aflito, porém não confiava nele para lhe proteger. Todos os guaianazes foram exterminados pelo fogo e pelo vento, só Uariri fora poupada para velar seu amor, para guardar o rio e para impedir que a semente da estrela brotasse da terra e trouxesse o fim do mundo.

Quando finalmente Hilaire conseguiu voltar para a superfície a sensação era de que havia permanecido uma eternidade submerso. Tossia e chegou a escarrar sangue, engolira muita água do rio, como um feto no ventre da mãe sentia-se conectado de uma forma inexplicável com o passado e o mistério do Itararé. Uariri poderia finalmente descansar porque a sua tarefa fora passada adiante.

A correria dos empregados da casa acordou Saint-Hilaire de seus sonhos. Ao ver o tumulto percebeu que pareciam todos surpresos e temerosos. Rezavam e cochichavam tolices, entreolhando-se abismados. Hilaire seguiu a criadagem e encontrou seu companheiro de pé, como se nunca tivesse caído de cama. O bugre lhe agradeceu pelo favor de joelhos, ele sabia a verdade, o que o francês tinha feito para salvá-lo da influência dos poderes sombrios. O índio nunca mais fora o mesmo, ele desde então e até o fim das expedições se manteve reservado, taciturno sem nunca comentar nada, angustiado por ainda sonhar com o que lhe fora revelado no delírio da febre. Saint-Hilaire não sabia separar o sonho da realidade do que acontecera naquela noite e decidira guardar para si aquela experiência ao mesmo tempo incrível e terrível.

Prosseguindo para a aldeia seguinte, Itapeva da Faxina, uma lenda indígena sobre aquela região de solo irregular e repleta de morros fez Hilaire entender melhor o pesadelo que lhe fora revelado. Os índios acreditavam que abaixo daqueles montes uma serpente gigantesca descansava e moldava as ondulações no terreno e que a cada ato desmedido de um membro da tribo o monstro ficava mais desperto até o momento que despertaria de vez para vir à tona e engolir a tudo e a todos.

Ao ouvir a lenda de uma tribo similar a que habitou as planícies de Itararé tudo fez sentido, em um instante a memória das revelações voltaram de uma só vez fazendo Hilaire desmaiar. Sua consciência subjugou seu corpo, a verdade era terrível demais.

Anos mais tarde nas suas últimas expedições no nordeste, ele aos poucos foi recordando e registrando cada lembrança até montar o quebra-cabeças: as pinturas feitas por homens primatas que viveram há milhares de anos nos paredões do Jaguaricatu de um sol ou algo parecido onde selvagens se curvavam em adoração e temor, a lenda da estrela negra que havia sido mandada em forma de maldição divina pelos deuses e que caíra abaixo do rio Itararé e a lenda da serpente gigante que se escondia abaixo de Itapeva formando os morros do lugar eram todos fragmentos de uma mesma história. Tratava-se de um acontecimento antes do homem moderno, a queda de um objeto cósmico que promoveu uma destruição de proporções épicas, tanto que os povos antigos criaram um mito apocalíptico para explicar o evento sobre uma inteligência perversa de poder incalculável que permanecia enterrada na terra adormecida sonhando com destruição e que se alimentava do sofrimento e da dor dos insignificantes homens que perambulavam sobre a superfície.

Hilaire absorto decidiu quebrar o silêncio que impusera a si mesmo sobre a enfermidade e recuperação inexplicáveis de seu amigo botocudo e pôs-se a escrever obcecado. O índio tentou o impedir, dizendo que a praga que lhe acometera era um aviso sobre o que aconteceria caso a verdade fosse revelada, o rio enganara Hilaire, ele queria ser conhecido e reverenciado e Uariri tentou impedir o estrangeiro de cair nos encantos do mal que habitava Itararé falando com o botocudo em sonhos. Não obstante foi em vão, na primeira chance que teve Hilaire despachou entre os seus cadernos e diários páginas e mais páginas sobre a lenda do Rio Itararé.
Entretanto o navio que singrava o Atlântico rumo à Europa levando a carga de Saint-Hilaire foi pego por uma terrível tempestade. No meio da tormenta, relatou um sobrevivente, um raio atingiu em cheio o mastro da nau provocando um incêndio em alto-mar e o esmagando contra um recife de corais ainda na costa brasileira. Hilaire ao saber do acontecido tremeu dos pés a cabeça, pois nunca conseguira explicar o que acontecera na gruta naquela noite em Itararé e esse naufrágio só vinha a alimentar a sua imaginação de temores insensatos.

Aterrorizado a cada vez que pensava a respeito, decidira não retomar mais o assunto, nunca mais, sua sanidade dependia disso. Temia ter a lógica sobrepujada pela loucura. O botocudo desacreditado por Hilaire não o ouvir abandonou seu mestre que logo encerrou suas viagens. Hilaire aprendera que o silêncio sobre o que não se compreende é a única saída para se resguardar a sanidade e teria se calado até o túmulo se Debret, seu compatriota, não o procurasse em mil oitocentos e trinta e um na volta da Missão Artística para lhe falar sobre a sua passagem por Itararé.


sábado, 10 de maio de 2014

Retribuição


Os homens sempre acreditaram e temeram a punição divina, uma justiça infalível, inexplicável e sem misericórdia, capaz de escutar o apelo e o sofrimento dos oprimidos quando ninguém mais pode ouvir e aplicar penas inimaginavelmente cruéis aos responsáveis.

Em Roma havia as entidades conhecidas como as "Fúrias" - seus nomes descrevem a forma como elas agiam: implacáveis e terríveis.

E mesmo hoje quando alguém comete algum tipo de crime, violência, quebra uma promessa, trai ou pratica o mal contra o seu semelhante há quem creia que tais atos não passam desapercebidos por essas guardiãs da retribuição. Os poucos que ainda lembram do medo estão certos, elas continuam a encaminhar a vingança aos réprobos e pagar com dor a dor causada, porém diz-se que elas o fazem mil vezes pior...

...

Eles trabalhavam duro durante toda a semana em um emprego horrível e não iam mais aos domingos na missa e sim tentavam se lembrar do que haviam feito na noite anterior e melhorar da ressaca. Quando crianças sua mãe os obrigava a todo domingo de manhã ouvir o sermão do velho padre sobre os éditos do Velho Testamento.

Na verdade depois do escândalo do padre envolvendo um dos coroinhas os irmãos perderam o interesse pela missa, porém as palavras duras contra os sodomitas e pederastas ficaram marcadas como ferro em brasa em suas mentes pequenas e vulneráveis. 

E como trabalhavam duro procuravam compensar ao extremo nos finais de semana, os vícios habituais eram acompanhados então dos pecados da carne. As mulheres da cidadezinha falavam muito e não se despiam facilmente por isso eles optavam pelo caminho mais prático, boa parte do suado salário da dupla já tinha um destino sagrado.

Clientes fiéis eles tinham passado por todas as poucas moças da casa, sempre juntos os irmãos se divertiam e se deliciavam alternando as posições nas extremidades das mulheres até finalmente jorrarem alegria e irem embora cambaleando.

Só uma coisa os divertia mais do que as amantes remuneradas e isso era surrar os rapazes do bar gay da cidade vizinha. Eles espreitavam na sua caminhonete e quando um casal aparecia eles os seguiam até um beco e os cobriam de socos, chutes e tacadas de beisebol.

Certa vez um dos irmãos teve a ideia genial de após bater nos pobres coitados urinar em cima deles para expor todo o desprezo que sentia pelo que eles eram, contudo ele não conseguira finalizar sua ideia. Aquilo talvez os excitasse mais do que as mulheres, no momento em questão o gênio não percebera, mas não era vontade de urinar que o tinha deixado duro daquela maneira.

Eles procuravam cometer seus ataques de tempos em tempos para não correr muito risco, embora todos soubessem o que eles faziam a polícia não podia fazer nada já que as vítimas não tinham coragem de denunciá-los. Uma vez um tentou dizer a verdade e nunca mais foi visto.

Havia um certo tempo desde a última vez o que os deixava ainda mais ávidos e ao descer e disparar de punhos cerrados em direção ao casal no beco eles foram surpreendidos por um outro casal trocando carícias contra a parede úmida, o que não era nada estranho a não ser o fato de ao invés de serem dois homens, serem duas belíssimas mulheres que obviamente não eram dali. 

O mais extraordinário foi que ao avistá-los elas em vez de se assustarem, pareciam ter se alegrado como se os esperassem e foram de encontro a eles e sem dizer uma palavra começaram a beijá-los e a puxá-los para a escuridão do beco. Os dois rapazes que eles caçavam estavam a salvo, por hora.

Sem falar as duas beldades foram tirando a roupa dos irmãos e os cobrindo de beijo como eles jamais haviam sido beijados, da maneira que só uma mulher apaixonada beija um homem.

Entregues, indefesos eles se deixaram levar e uma delas começou a acariciá-los ao mesmo tempo como se soubesse que eles gostassem de compartilhar aqueles momentos íntimos juntos, boa parte porque eles gostavam de ver a figura um do outro excitado até gozar. 

Enquanto ela os fazia esquecer de seus problemas a outra se despia de costas e ao se virar eles tomaram um susto enorme. Ela não só empunhava uma arma e algemas como também tinha um sexo maior do que o deles, tão grande quanto o membro de Príapo da mitologia.

Vulneráveis eles ainda tentaram se desvencilhar das mãos e boca da mulher que os prendia para fugir da outra que os tinha na mira, porém com três disparos para cima ela se fez entender que não hesitaria em tirar-lhes a vida. Aquela situação faria qualquer homem perder a virilidade, entretanto a primeira mulher era tão hábil na arte do prazer que mesmo assim eles não conseguiam deixar de permanecer em prontidão.

Então um deles foi algemado em um poste enquanto o outro penetrava a mulher e era penetrado, a arma pressionada contra a sua nuca. Elas gemiam e se contorciam provocando-os e em pouco tempo, mesmo com dor o primeiro irmão não se conteve e se derramou dentro da mulher enquanto a outra se desfez dentro dele.

O outro irmão que testemunhava aquele pesadelo não podia acreditar no que via, e o mais aterrador era que aquela cena grotesca para ele parecia excitá-lo porque ele estava tão duro quanto quando tentou urinar nos rapazes naquele mesmo beco tempos atrás e não conseguira.

Sua vez chegara e enquanto a primeira mulher lhe engolia a outra mesmo após chegar ao êxtase não parecia estar saciada e começou a violá-lo sem piedade. Não demorou muito e ele gozou forte na garganta serpenteante enquanto tinha todo o membro da mulher dentro de si. 

Por fim, humilhados, machucados, sangrando e sujos do próprio esperma eles foram abandonados nus, algemados no beco.

No dia seguinte eles foram encontrados sem qualquer lembrança do que acontecera e se tornaram notícia dos jornais de todo o Estado como os irmãos depravados sodomitas e masoquistas que foram enganados por seus parceiros no beco de uma cidade com um histórico preocupante de violência contra homossexuais. 

Desde então a polícia começou a patrulhar a área para evitar casos semelhantes e a segurança dos casais gays foi garantida graças aos irmãos que se tornaram seus heróis.


sexta-feira, 11 de abril de 2014

Soneto à Saudade


Como soldados se despedindo sem certeza de voltar
Como marinheiros com lágrimas nos olhos adoçando o mar
Como crianças sem conseguir segurar a emoção
Como mães horrorizadas tapando o grito com as mãos

Como os orgulhosos sensíveis sem olhar pra trás
Como as mulheres que todos os dias sonham com o reencontro no cais
Como os cães que se lembram mesmo que ninguém mais
Como o abraço guardado que nunca será esquecido jamais

Há quem consiga lembrar e sorrir e entender que nada é para sempre
Há quem apenas veja a presença da ausência, fazendo-lhe companhia
Há quem não queira encarar que o que foi não é mais, de frente

Há quem possa enlouquecer em angústia
Há quem deixe de acreditar em milagres
E há quem sangre por letras