quarta-feira, 15 de março de 2017

Contos de Fadas Fodas

Não espere a agulha da roca cumprir a maldição. Nem que alguma profecia venha selar o seu destino em vão. Há torres de castelos onde você poderia ser presa, caixões de vidro para expor a beleza da princesa mesmo depois de sua queda - quem foi jamais deixa de ser realeza - ao menos sete likes você garante para saciar a fama que você almeja. Até onde você iria pela vaidade que te ensinaram a perseguir? Seja quem você quiser, uma gata borralheira se lhe convier, não corte, não alise se não for pra ser feliz sendo você mesma.

Bonecas para donzelas aprenderem como se comportar em suas douradas celas, marionetes para crianças ingênuas, quem decide quem vence o dragão? É melhor ser vítima ou o conquistador do reino? Há quem diga que é possível fazer os dois, ser queimada sem queimar e ainda lutar pelo trono além mar. Só é fantasia se você não acreditar que é capaz. Não é preciso temer a moça, rapaz. 

Joanas D'Arcs modernas que não se sujeitam a se encaixar nos moldes, como os sapatos da Cinderela. Rapunzéis que deixam seus pelos crescerem onde e o quanto quiserem, sem amarras, ainda assim igualmente belas. 

Não ature as Feras que não sabem lhes tratar, fujam com o Lobo Mau que desde o princípio foi muito claro sobre o queria... e não era se casar. Despachem os Príncipes Encantados que afobados te estupram com os lábios enquanto você dorme, te abusam e querem um final feliz onde eles ordenam e vocês sempre dizem sim, por medo, belas, recatadas e do lar, obrigadas a dizer: "obrigado" e a nunca negar.

Sejam livres, sejam Valentes, sejam felizes e sejam irmãs. Sejam damas e vagabundas sem julgar nem condenar a decisão umas das outras. Deslumbrantes bruxas ligadas pela amizade como um talismã. Pois só se unindo vocês irão vencer este mundo onde em cada esquina, em cada família há um vilão querendo manter a tradição de diminuir a mulher para fazê-la acreditar que ela deve se respeitar e ser tratada como uma princesa: uma princesa que obedece aos outros, porém nunca se liberta da sua fraqueza.

As coisas estão mudando, com certeza. Quem diria, até nos comerciais de cerveja. 

Mas não é por isso que temos de diminuir a luta.
Que cada vez mais haja quem queira participar desta causa.
E a moral de respeitar o próximo seja o legado desta história.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

A Mordaça da Educação


Antes de falar, nós cantávamos. Cantávamos imitando o som da natureza, dos animais, da chuva, do trovão, encantados e envolvidos pela magia do mundo. Nas religiões foi apenas através do comando da palavra que foi possível Deus criar o universo e que o homem pode criar-se a si próprio ao ponto de criar um Deus para si que pudesse explicar através de evangelhos os ensinamentos de geração em geração sobre a sua própria origem. A fé se manifesta através da palavra, as pinturas na caverna são o abecedário da imaginação do homem primitivo. Damos poder aos que falam e o que está escrito torna-se lei. Somos unidos pela língua, podemos travar guerras ou lutar pela paz com a perspicácia da argumentação.

Ao nos apaixonarmos pedimos a mão de alguém, mas é através do som que fazemos isso. Seduzimos, nos apaixonamos, demonstramos os sentimentos: o nosso melhor e o nosso pior. E para que tudo isso ocorra é preciso uma ligação transcendental entre a boca e o ouvido. Não há sentido em falar se não for para ninguém ouvir. E não há alegria maior do que ser compreendido por um próximo que te escuta. Este é o reconhecimento máximo da comunicação.

No entanto cada vez que uma palavra migra de uma boca para um ouvido ao ser replicada por uma nova boca ela é transformada pois é amorfa e flexível para se moldar ao tipo de discurso de cada um. Logo, esperar ou exigir um único discurso das pessoas é censurar toda a humanidade. O meu papel é compreender que o aluno não se expressará como eu me expresso, mas que aquilo que foi dito por mim seja transmitido até ele para que ele possa tomar para si da maneira que ele achar melhor este conhecimento. A liberdade de conhecer é esta: fazemos o que quisermos com o conhecimento porque com ele podemos tudo. Sem ele estamos presos aos grilhões da ignorância. E reconhecer que há momentos que a formalidade exigirá um discurso padronizado não é desmerecer os demais discursos, é oferecer mais uma camada de possibilidade linguística a quem já se comunica.

E esta responsabilidade que é também um fardo que nós professores da língua possuímos é desconhecido dos demais profissionais da educação. Os pais e os que comandam as escolas muitas vezes mal conseguem conversar entre si, mas somos nós quem somos os condenados quando um aluno não se sente confortável em se abrir; já que temos a obrigação não só de passarmos o bastão do conhecimento da língua como também estabelecer um elo que faça o aluno ser capaz de se expressar e que ele seja confiante o bastante em si mesmo para não temer qualquer desafio e encare o mundo com sua voz desenvolvida. E dentro do possível conseguimos isso, mesmo que raramente, estabelecer uma conexão onde a língua se torna uma forma de se comunicar, trocar informações e manter um respeito mútuo - mesmo que para outros isto pareça o contrário.

A escola é um antro de pensamentos atrasados perpetuado pela tradição de subestimar os alunos, esta atitude que é partilhada muitas vezes pelos pais. Ninguém acredita que o aluno seja de fato capaz, porém querem que os enganemos para que eles pensem que são. Este é o paradoxo cruel da nossa profissão. A educação tradicional olha os alunos de cima, nós temos de olhá-los nos olhos.

Lutar contra uma educação retrógrada, conservadora, elitista e que cada vez mais tenta iludir os alunos com promessas de grandeza e opções de futuro onde só reside o vazio, o sofismo, a retórica barata, é cansativo e frustrante. Muitos são cooptados e acreditem na promessa de que as mudanças são para concretizar a frase que diz que "as crianças são o futuro" - contudo com base no que estamos vendo acontecer o nosso país continuará a ser um país ancorado no passado.

Um lugar onde o aluno vai para a escola porque os pais não podem e nem querem passar o dia com eles, onde o Estado prefere armazenar como gado os jovens para evitar problemas e onde os professores são os bobos da corte que os mantêm distraídos enquanto eles envelhecem o suficiente para trabalhar e pagar impostos. E os que quiserem honrar o seu diploma e realmente desejarem trabalhar serão aconselhados a repensar sua conduta já que não devemos mostrar os erros e a ruína da aprendizagem dos alunos e da degradação da relação entre pais e filhos.

Os professores são o band-aid que seguram a ferida exposta que é a educação no Brasil e nunca são ouvidos quando o assunto é melhorar a educação. Há algo muito errado nisso e uma hora não haverá mais como estancar essa chaga. A mordaça vai cair e a verdade virá à tona. 

sábado, 18 de fevereiro de 2017

A Pena É Mais Forte Que A Espada


Nós nascemos derramando sangue
Abrindo caminho como um caranguejo saído do mangue
Do lodo nós viemos projetados para sofrer
Andando sempre para trás somos o retrocesso da evolução
E nos contentamos para sobreviver a
Causar cada vez mais dor ao penetrar
Sangue, a cada mês o casulo da vida
Se perde e se esvai como uma ferida
Uma cicatriz que não se cura
Um coito interrompido, fúria

O irmão mata o irmão
A mãe afoga o embrião
O pai devora o varão
O filho destrona o barão
Na linha de sucessão
Só a violência impera

E temos prazer no sofrimento
Envenenamos o pensamento
Com ódio, rancor, mágoa
A vingança condicionada
Tragédia anunciada a cada alvorada

Recorrer aos instintos mais básicos
Aos que nascem sem garras cria-se a espada
Eu desafio a todos a realmente serem bravos
E encarar a existência na palavra

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

REVOLUCIONÁRIO


Para aquele que precisa estar sempre no topo do pódio
Do medo e da ignorância se destila o seu extrato de ódio

A ameaça no seu discurso deixa cada vez mais claro
Aquilo que se revela através de seus argumentos falhos
Do saudosismo do terrorismo da tirania do passado
Atravancando o futuro, remoendo o próximo passo
As gerações transformam a realidade impossível
E as mudanças, para os incrédulos, inverossímil
Se concretizam como profecias de pesadelos
Para os que se regozijavam com a injustiça
Agora têm de encarar as crianças quebrando os tabus
E todos os seus medos eles enfrentam
Ao olhar no espelho a ignorância lhes questiona
Onde foi que eles erraram?

Em muito mais do que vocês pensavam
Tudo que está vindo à tona já lhes era conhecido
Vocês apenas estavam conformados
O ópio da fatalidade, do intransponível lhes limitara
O óbvio ululante deixou de ser um fardo
A verdade é triste, mas a coragem de revelá-la
Veio com as crianças tristes que foram maltratadas
Que receberam surras na tentativa de doutriná-las
Coagi-las a seguirem as tradições inválidas
A perpetuarem os preconceitos cegamente, caladas
Ajustando o cabresto e a mordaça
As algemas, as correntes, as amarras foram despedaçadas

Ninguém nasce sabendo odiar, ninguém derrota o ódio com o ódio
Nós queremos nos permitir amar, a nós mesmos, ao próximo
O mundo não vai se deixar derrotar pelas viúvas e viúvos
Que não conseguem se despedir das trevas
E tentam impedir a alvorada, sentindo-se derrotados

"Num país como o Brasil, manter a esperança viva é em si um ato revolucionário" - Paulo Freire

sábado, 14 de janeiro de 2017

Teoria do Caos


"É impossível" - eles me disseram. Repetidamente, sistematicamente eles tentaram me fazer acreditar, me doutrinar sobre a estabilidade do padrão estabelecido, do sistema vigente, da realidade presente. Não importa o quanto você tente, o quanto se comprometa e quanta força dedique nada é possível de mudar: as coisas são como são. O mundo já estava pronto antes de você nascer e continuará igual após a sua morte. Esta era a mensagem que a escola, que a família, que a religião, que as instituições governamentais e que a elite da sociedade propagavam para a grande massa. A hierarquia estava estabelecida e para manter a pirâmide da injustiça e da desigualdade este discurso, esta lavagem cerebral era passada de geração em geração, um pessimismo tóxico que se espalhava como uma praga, como um vírus. Um fatalismo inerente que sabotava qualquer pensamento de revolta, de diferença, de mudança. Ou quase isso.

Afinal, em qualquer grupo há aqueles que por mais que tentem, não se encaixam. Os marginais, os esquisitos, os indesejáveis. A última ponta de resistência em um mundo rotulado e classificado conforme a vontade e poder dos mais ricos para domar os milhares de milhões mais pobres. Porque o mundo não está pronto, somos jovens e antes de tudo, no início do universo fomos todos poeira estelar. Foi a mudança que é a essência da natureza que transformou este pó em galáxias e sistemas solares, estrelas, até chegar na vida e em nós. A mudança está acontecendo, apenas leva mais tempo do que podemos perceber para notá-la. Contudo há outras formas pelas quais também podemos nos dar conta que tudo está em transformação.

Uma gota é praticamente imperceptível no grande esquema das coisas, mas quando somada a muitas outras pode criar uma tempestade capaz de varrer cidades inteiras do mapa. A força está nos números. Uma manada unida pode repelir o ataque dos predadores já um animal sozinho está fadado a perecer. E é nos pequenos detalhes que esta força se infiltra. É com pequenas rachaduras que se desmorona um forte, um castelo, um palácio, um império. A alquimia da transformação diária e constante, singela, é inexorável. Como o clima que ninguém pode antever não importa quanta tecnologia consigamos criar e desenvolver. O tempo pertence ao desconhecido e assim será. 

Você pode calcular a distância entre astros no vazio do espaço, entretanto não saberá como estará o tempo daqui a alguns dias. Pois isto é imprevisível pois os fatores que o tornam como tal são pequenos, singelos, discretos e delicados e não podem ser medidos por nenhuma máquina. Uma janela aberta que deixe o vento entrar pode contribuir para uma mudança fundamental no clima, uma pipa no céu pode ajudar a reger o amanhã e se ele será ensolarado ou nublado. O bater de asas de uma borboleta pode decidir se existirá um furacão no outro lado do mundo ou não. Esta é a beleza da incerteza da teoria do caos. A única coisa que podemos dizer sobre ela por certo é que a mudança é viva e depende de micro-ações. Se podemos conseguir resultados tão importantes e marcantes com atos tão pequenos por que não poderíamos mudar o mundo, a nossa sociedade, da mesma forma?

A revolução começa internamente, em pequenos e constantes ações. Uma mudança para se tornar uma pessoa melhor torna o mundo melhor. Reconhecer que é preciso mudar a si para mudar o resto não é fácil, pois não fomos ensinados a abrir mão do orgulho e dizer que temos defeitos, que estamos incompletos e vivendo eternamente um processo. Não nascemos prontos e não morreremos prontos. Tudo é mudança e você pode decidir fazer parte dela ou se prender com cadeados invisíveis em correntes ao passado. É impossível impedir o avanço das coisas. Eu escolho mudar, melhorar, sonhar e acreditar que é possível. Se uma borboleta consegue interferir na vida de milhares de pessoas e reinar sobre os céus com suas pequeninas asas eu posso ajudar a melhorar o mundo mesmo sendo igualmente pequeno e fraco. 

Sonho que se sonha só é só um sonho, mas sonho que se sonha junto é realidade. E aos poucos, mesmo que muitos me pressionem para desistir e que tentem me manter no padrão da razão de não me envolver, de permanecer estático e servir de pilar para um mundo que não me aceita e que eu não concordo, aos poucos, eu vou fazendo a diferença. Mesmo que pequena, só o tempo dirá o quão importante ela será. Se não for uma grande diferença para melhorar a minha realidade, mesmo assim estarei satisfeito. Estou pavimentando e construindo a fundação para sonhos mais ousados para os que vierem depois de mim e deixar este legado de possibilidade ao invés da ordem de se castrar por toda uma vida é o melhor que posso fazer.

Obrigado aos que me ajudaram a mudar, aos que acreditam na mudança e aos que compreendem e me aceitam no processo de melhorar. O primeiro passo para isso é deixar de julgar os outros e começar a analisar a si mesmo. Muitos dos erros que você enxerga fora se repetirão em si, já que eles provêm do mesmo lugar: da lição de preconceitos engendrada no núcleo histórico da nossa sociedade. Aprenda a se compreender e se perdoar que isso se estenderá ao seu próximo e tornará a sua vida mais leve, com menos angústia.

Vamos mudar dentro para refletir fora. Com menos condenações precipitadas e mais dúvidas do que certezas sem abrir mão do que é certo, compreendendo que também erramos e precisamos aprender e nos perdoar por isso.
 

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

ROMASANTA




A guerra transformou as cidades em ruínas. A ordem, a lei, foram perdidas. As pessoas se dividiram no caos em ovelhas e lobos. Os primeiros fugiram para a floresta, com medo, tentando se esconder e os lobos seguiram atrás, famintos. Até que finalmente veio o fim das batalhas e a terra desolada voltou a ser reclamada, a sociedade ruída retorna devagar rumo ao controle de outrora, ou ao menos à falsa noção de segurança. As engrenagens da civilização voltam a rodar lentas, mesmo que com dentes desgastados.

Os criminosos que reinaram em meio ao pandemônio sem controle se escondem. Misturados em meio aos perdidos e vitimados, lobos em peles de cordeiro, fogem da punição. Alguns, porém, ainda deslumbrados pelo poder de espalhar o terror desafiam os soldados. Esperando no campo o inverno chegar para selar todas as estradas e sepultar o mundo em um manto de gelo e morte. Estes homens acreditam que só necessitam vencer o inverno e a fome para renascerem como nobres e homens ricos no mundo pós-guerra. 

Eles atacam fazendas vizinhas e emboscam os viajantes nas trilhas. Longe demais das cidades eles se consideram intocáveis, senhores do interior. No entanto os governantes não estão dispostos a relevar seus crimes e desejam fazer deles um exemplo para todos de que ninguém está fora do alcance da justiça. Os soldados recebem ordens para procurá-los assim que a neve começa a derreter.

***

Chovia muito para aquela primavera. Era como se os deuses quisessem lavar todo o sangue derramado nas últimas estações de uma só vez. A mansão abandonada foi encontrada depois de investigar e varrer a área por alguns dias, os relatos das vítimas denunciavam um comportamento violento e cruel. Os soldados se aproximaram prontos para o combate pesado.

No entanto o que encontraram foram corpos mutilados, sangue e tripas espalhados pelos aposentos. Membros roídos até os ossos. Talvez um animal selvagem pudesse ter feito aquilo, um favor da natureza eles consideraram. Entretanto ao ler o diário do líder do bando eles conheceram uma outra história.

Havia um homem acorrentado na adega abandonada. Ninguém sabia dizer ao certo por quanto tempo ele estava daquele jeito ali, trancado, mas assim que o encontraram decidiram libertá-lo. Alguém que estivesse preso daquela forma só podia ser um desajustado como eles e assim, curiosos, libertaram o homem sem se preocupar com as consequências de suas ações.

Sem consciência, em febre, o homem sofria uma dor constante, se contorcendo. Por dias ele permaneceu assim e os bandidos consideraram que ele não iria durar muito mais, mesmo assim cuidaram dele como podiam. Mesmo o coração sádico pode ser simpático quando julga encontrar um igual. A cada dia ele piorava até que finalmente em uma noite ele se calou. Nesta mesma noite, mais tarde, uivos foram ouvidos do lado de fora, lobos espreitavam a casa. Ansiosos por ter carne para comer os homens saíram para tentar acertar a alcateia. Nenhuma prece foi feita para o moribundo sem nome.

O sangue quente das feras fervia sobre a neve derretendo o gelo e a lua brilhava no céu, cheia, derramando seu véu de prata. A morte das criaturas despertou algo no homem, algo de outro mundo. O que saiu da casa para caçá-los no luar não existia neste mundo, ao menos, não deveria existir. Eles tentaram alvejá-lo, mas as balas só pareciam irritá-lo ainda mais. Alguns fugiram para a floresta e o inominável os seguiu. Seus gritos ecoaram pelo vale por toda a noite. Os que ficaram na casa experimentaram o mais puro pavor ao ver na noite seguinte algo se aproximando de volta.

Cercado de lobos o ser que não era nem homem nem lobo os liderava. Eles se esconderam dentro da residência e barraram como podiam as portas e janelas. Mas aquilo conhecia melhor do que qualquer um a mansão e se esgueirou por uma caverna próxima até as paredes rachadas do porão para chegar à adega. Em silêncio, usando as sombras, ele furtivamente abateu um a um. O líder do bando foi o último e em desespero deixou no diário a localização de onde o saque dos roubos que eles haviam cometido estava e com mão trêmula registrou seu pedido de perdão a Deus por todos os seus pecados. O homem acreditava piamente que o que tentava derrubar a porta do seu quarto era um demônio enviado do inferno para fazê-lo pagar por toda a dor e sofrimento que ele causara.

Os restos dos criminosos foram enterrados como indigentes sem direito a qualquer rito ou funeral. Desprezados pela história eles desapareceram dos registros, esquecidos e desimportantes sem deixar saudades para ninguém.

***

Os soldados encontraram as correntes e nada mais sobre o tal homem. O local onde o tal tesouro estava localizado fora escavado e não havia mais nada ali. Os políticos e militares sem saber o que fazer sobre o caso resolveram classificá-lo como sigiloso e nenhuma outra palavra foi dita sobre o assunto. Os locais consideram a mansão e seus arredores amaldiçoados e se recusam a se aproximar.

Após algum tempo um caixeiro-viajante começou a viajar pela região do vale vendendo quinquilharias, entre elas, parte do que poderia ter sido os pertences roubados no saque dos criminosos. Os guardas começaram a investigar e descobriram que onde este tal comerciante passava, pessoas desapareciam somente para serem reencontradas mortas e mutiladas como os corpos dos criminosos. Sem poder ligar o homem aos crimes ele foi liberado, não antes sem ser interrogado e torturado. Romasanta era seu nome e ele riu ao abrirem suas algemas e antes de partir disse para os guardas:

"O homem é o lobo do homem... Quem quer que seja que vocês procuram é alguém muito perturbado, mas apenas um homem. Um homem capaz de entrar em suas casas e degolar sua família inteira sem acordar ninguém, mas ainda somente um homem. Um homem esperto e rápido que não deixa pistas e lembra-se de cada insulto feito, contudo nada mais do que um simples homem. Que Deus esteja com vocês para que os senhores possam encontrá-lo logo, antes que ele os encontrem."

"Uma boa noite e boa sorte."

Uivos ecoaram na noite enquanto ele se distanciava na estrada sumindo nas trevas.

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Prazer, PSOL


"Uma chama contra e escuridão só irá criar grandes sombras" - eles dirão. Mas mesmo assim agora podemos ver mais da verdade ao nosso redor, mesmo que ainda com os olhos embaçados, desacostumados a vislumbrar a verdade.

Nadar contra a corrente, se levantar contra a injustiça, quebrar o silêncio do medo é tido como perseguir um sonho, uma utopia. Algo impossível e tolo.

Querem que nós acreditemos que o mundo e as pessoas são naturalmente ruins, perversos e que nos calemos e fiquemos parados, testemunhando passivos os mais fortes, os mais ricos e com mais poder atacando os mais fracos, os mais pobres e os marginalizados.

Eu me recuso a aceitar esta verdade absoluta imposta para me fazer resignar, esta lição de desistência. E me recuso a acreditar que o que quero é um sonho, uma ilusão. Alguém moldou este mundo para que ele se tornasse o que ele é, para atender aos interesses de poucos ao custo do sofrimento de muitos. Esta não é a ordem natural das coisas. As pessoas não são necessariamente mesquinhas e fazer algo a respeito para mim não é um heroísmo, é obrigação. Pois não me envolver é falhar como ser humano e de todos os erros que podemos cometer este é o mais imperdoável.

Uma chama contra a escuridão multiplicada jamais irá vencer totalmente as trevas. As estrelas no céu não vencem o abismo entre elas. Por isso, não basta que apenas tenhamos a coragem de fazer algo. De se levantar, de se ultrajar com os desmandos, os absurdos que vemos constantemente, que testemunhamos e que a maioria desvia o olhar. Para que as coisas mudem precisamos unir nossas forças. Aceitar que somos imperfeitos e que isolados não trazemos à luz tudo o que precisa ser revelado. Porém se juntos estivermos, brilhando em uma só chama, reconhecendo a nossa fragilidade e a força do nosso irmão e irmã seremos como o sol iluminando o horizonte revelando a verdade e expondo os aproveitadores covardes que usam de seus lugares privilegiados para fazerem o que querem. 

É nisto que eu acredito. Na união dos rebeldes, dos inconformados, dos que querem o melhor para si e para o mundo. Dos que não aceitam que as pessoas sejam tachadas, divididas, incitadas a lutar umas contra as outras, rotuladas e desprezadas. Não importa a sua cor, a sua religião, a sua classe econômica, o seu sexo, só importa você querer participar da mudança. O mundo pode ser melhor, basta que pessoas o suficiente acreditem e queiram trabalhar juntas para fazer isso acontecer.

Apresentar uma maneira de se fazer isso, de pensar primeiramente nas pessoas, nas minorias e ouvir o que todos têm a dizer, de aprender com o outro, isto é o queremos simbolizar com a palavra: "socialismo". A sociedade precisa ser para todos no sentido que devemos garantir as oportunidades mínimas de dignidade e qualidade de vida para toda a população.

E para garantir que todos tenham voz e possam dizer o que pensam, para que aprendamos e troquemos ideias é essencial a liberdade. Com respeito, com ética, todos devem se sentir seguros para
falar e expor os seus problemas porque só assim podemos saber o que enfrentaremos juntos. 

Por isso eu acredito no sol que irá iluminar o Brasil, que já cria uma luz de verdade e justiça que ilumina e desbanca corruptos e parasitas como Cunhas e Temers além de enlouquecer inimigos da liberdade como Bolsonaros e Felicianos. Mas este sol precisa ganhar mais força para espantar os vermes corruptos que saboreiam os seus negócios escusos e se escondem no escuro burocrático das nossas leis criadas por parlamentares duvidosos e egoístas. O sol precisa do povo para crescer. 

O pessoal precisa de um partido honesto para confiar.

Prazer, nós somos o PSOL.

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

PINOCCHIO


Foram anos vasculhando as montanhas de descartados e escolhendo, peneirando peças, sistemas, controles e placas para conseguir finalmente montar a sua obra-prima. Como um dos últimos velhos do planeta, remanescente do mundo anterior a este pesadelo cinzento, chuvoso e tóxico o conhecimento do judeu era algo extraordinário para os padrões do novo mundo. Ele, na juventude um carpinteiro talentoso, se tornara um gênio da robótica e computação e auxiliara várias vezes as corporações com seus droids, robôs, drones e todos os outros modelos de vida inteligente artificial e desenvolvimento de partes mecânicas e próteses. Os humanos estavam obsoletos e ele era uma relíquia que logo deixaria de existir; naquela realidade a poluição dos avanços tecnológicos havia esgotado o mundo e retornado a expectativa de vida aos tempos medievais. As crianças, raras e quase sempre defeituosas, doentes, o olhavam com espanto. As pessoas o fitavam com medo e admiração. Ninguém mais iria durar tanto tempo no mundo das máquinas. Nem velhos nem crianças, a humanidade estava prestes a ser erradicada se afogando na chuva tóxica e corrosiva ou na água radioativa e no ar venenoso. Eles eram os últimos sobreviventes, as últimas baratas covardes demais para aceitar o seu próprio fim. De nada havia adiantado mapear o Genoma humano, o futuro é inox. O derradeiro holocausto chegara para todos.

Por isso o tempo lhe era precioso. Ele corria contra a sua própria existência. Até que finalmente a última peça do seu quebra-cabeça fora encontrada. Conseguida no mercado negro ela valia à pena. De última geração aquele processador era o que faltava para fazer todo o circuito funcionar. Ele, o ancião, lembrava das lendas de seu povo ao finalizar seu trabalho, de uma história em especial, da criatura que os hebreus chamavam de "golem". Um ser criado artificialmente através da argila e da magia que poderia servir ao seu criador. Quem nunca quis brincar de Deus? A literatura estava repleta de romances sobre o tema sendo em sua humilde opinião o mais belo neste sentido "Frankestein" - a abominação científica criada através de um ser retalhado de vários outros pela vaidade do doutor de se tentar romper a barreira da vida e da morte. A própria mitologia com o fogo dos deuses sendo entregue por Prometeu aos homens mostrava que inventar e forjar era desafiar o poder divino. Mas todas essas reflexões, fruto de sua educação clássica, saudosismo e senilidade não traduziam com perfeição seus objetivos. E os destinos do doutor Frankestein e de Prometeu acorrentado não foram dos mais afortunados.

Talvez ele estivesse mais próximo de Michelangelo ao terminar a sua escultura de Moisés que alucinado com a perfeição da estátua lhe perguntou em êxtase: Por que não falas? O velho mantinha em si um bom humor sarcástico e esboçou um sorriso com este pensamento o que levou a uma tosse carregada. Depois de se recompor, continuou preocupado e determinado. Considerou também a possibilidade de ser delatado pelo vendedor que lhe conseguira o processador de uso militar - aquele homem deformado não lhe parecia confiável. Embora o mundo fosse daqueles que detinham riqueza e poder para trocar seus falhos membros e órgãos humanos por partes mecânicas ninguém até então havia de fato conseguido criar um ser artificial que pudesse realmente se desenvolver com uma singularidade, uma alma. E uma boa denúncia dessas renderia ao acusador uma chance de ganhar um braço novo, pulmões resistentes ao ar decrépito, um coração de bateria nuclear... Com certeza aquela aberração poderia ser tentada a dedurá-lo por alguma melhoria dessas.

Ao terminar o seu trabalho depois de horas sem descanso se calou. A chuva lá fora era forte. Os filtros de sua cabana de metal na favela dos descartáveis estavam falhando. Ele sentia o gosto de sangue na boca, suas mãos tremiam ao apertar o botão de iniciar. A formatação era rápida naquele modelo e logo as luzes começaram a piscar até acenderem. Todo o bairro ficou de repente na escuridão. Quem sabe fosse algum raio que atingira as fiações das torres de alta tensão ou alguma outra torre eólica. Ou poderia ter sido um pico de energia necessário para começar a fazer o droid funcionar. Fosse como fosse, a tosse do velho acabara, ele não sentia mais nada. Seus olhos haviam perdido o brilho e ele não respirava mais. O droid ao ver com sua câmera de reconhecimento facial o homem caído no chão com um cabo ligado à nuca se abaixou e com uma voz de criança começou a perguntar sobre seu pai e a choramingar. Depois ele notou com o mapeamento de seu escâner que o cabo se ligava a uma máquina onde um pendrive com uma fita escrito "Gepetto" estava conectado. Ele pegou o pendrive e conectou em si na sua entrada usb e ao abrir os arquivos não se sentiu mais sozinho nem desamparado.

A consciência de seu criador, de seu pai, estava com ele ali. Assim como ele aprendera também ao acessar os dados do dispositivo que a sua própria consciência fora armazenada anos atrás quando o filho do velho morrera devido as novas doenças que surgiram no mundo. Assim ele armazenou a mente de seu filho durante toda a sua vida até conseguir criar uma máquina que pudesse rodá-la o fazendo voltar à vida em uma forma que jamais sucumbiria novamente às pestes. E agora competia a ele, seu filho droid, repetir o feito de seu pai e construir para ele um avatar para assim lhe transmitir a consciência e reencontrá-lo sem os defeitos irreparáveis da carne. 

Como um recém-nascido saindo do útero ele tateou seu caminho para fora da cabana com o corpo de seu pai nos braços e avistou no horizonte a mancha negra nos céus, a metrópole flutuante dos novos humanos e contemplou a vastidão desértica onde os últimos seres humanos nascidos biologicamente definhavam. A tempestade varria os casebres de ferro retorcido da face da Terra e muitos gritavam por socorro enquanto procuravam seus entes soterrados. Naquela loucura o droid percebeu o milagre que seu pai havia feito e do que ele havia lhe protegido e sem remorso largou o corpo para trás e caminhou até a montanha mais alta para adentrar ao reino dos céus.

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

LIBRA


Sofrendo a má influência do zodíaco eu sou o signo do equilíbrio e da justiça, aquele que o cosmos, os astros e estrelas regem como LIBRA. O mais justo e correto das doze casas é a minha fama carregando comigo o símbolo da balança onde se pesa a verdade e os corações, em mim reside a harmonia do ego.

O preço justo na transação mercantil, o julgamento e a salvação da alma dos egípcios, a representação máxima do sistema de leis da sociedade na figura vendada de Têmis, a guardiã dos juramentos. Entretanto esta é apenas parte da verdade da minha existência.

Como trago na balança dois pesos, meço por meio de meu interesse e desejo tudo - há ante a mim sempre duas medidas. Escolherei a que melhor convém dentro das minhas expectativas. Por isso também posso valorizar o ordinário e tornar o comum magnífico confundindo a mente do inimigo e o fazendo confiar em mim com a intimidade da mais profunda amizade, uma serpente hipnotizante é a minha língua de prata mesmerizante. 

Ceder favores prometendo que o fardo da mentira e enganação não será cobrado, adulterar a balança do respeito para que ela penda a meu favor, posso ser o mestre dos espelhos, da ilusão, em um labirinto de argumentos farei você perder a sua razão mesmo quando estiver correto. Um monstro do mais terrível pesadelo que não desaparece quando você desperta.

Eu decido o destino, o instinto, o algoritmo da verdade é meu para me servir como ferramenta e como um sádico déspota distorço a imagem de um anjo facilmente e o transformo em um anjo, mas caído. Todos me são queridos pois todos podem me ser úteis, só me aproximo daqueles que terei algo para extrair, não vejo pessoas, vejo produtos e serviços. 

Semeio a semente da discórdia para forjar acordos e reconstruir os separados unindo-os. A infâmia é a minha espada para lhe fazer ajoelhar, o peso da vergonha é a coroa que coloco em meus discípulos para aprenderem que não há como se rebelarem contra o seu monarca, a justiça não tarda à toa, mas falha quando quer. Sua cegueira é mantida por meu desejo, todos são iguais no desespero.

Então se você é um refém do horóscopo, das artes ocultas, esotéricas e místicas saiba que é preciso me temer. Sou o maior golpista, o usurpador, o vigarista-mor que irá se tornar o tirano perfeito travestindo-se de legalidade para agir como bem entender. Se é que você me entende irei fazê-lo acreditar que não há nada a temer. E farei isso enquanto te privo de seus direitos e condeno seu futuro. Farei isso e tudo mais enquanto te abraço sorrindo. E você, ovelha perdida em superstições irá ainda me defender dos poucos que não forem enganados, vítimas lambendo as botas do seu deus opressivo.

A maior lenda que espalharei é que para tirá-lo da crise de nervos, precisarei te lobotomizar para anular seus efeitos. E você sem realmente compreender irá aceitar se tornar meu boneco, mais um plebeu miserável em meu reino.

terça-feira, 13 de setembro de 2016


"Ai de mim! Ai pobre de mim!
Que pergunto a Deus para entender.
Que crime cometi contra Vós?
Pois se nasci, entendo já o crime que cometi.
Aí está motivo suficiente para Vossa justiça, Vosso rigor.
Pois o crime maior do homem é ter nascido!
Para maiores cuidados, só queria saber que crime cometi contra Vós, além do crime de nascer.
Não nasceram outros também?
Pois se outros nasceram, que privilégios tiveram que eu jamais gozei?
[...] Nasce um peixe, aborto de ovas e lodo, enfeita um barco de escamas sobre as ondas.
Ele gira, gira por toda a parte, exibindo a imensa liberdade que lhe dá um coração frio!
E eu, tendo mais escolha, tenho menos liberdade?"

Monólogo de Segismundo - La vida en sueño, ato I, cena I (Pedro Calderón de la Barca, 1601/1681) 

Mensagem em uma Garrafa

O mar é o berço da vida e também seu cemitério
O navegante que enterra o amigo sabe sobre este mistério
Do porto os amores esperam o retorno dos amados
Todos os rios correm para o mesmo lado

Da espuma nasceu Afrodite, o amor se fez do nado
Das profundezas se escondem segredos nunca antes revelados
Só quem se arrisca a desvendar sabe o que ninguém jamais soube
Cada alma que se aventura pode sofrer um naufrágio

Por isso navego sem remos, sem velas, sem barco
Deixo-me a seu critério, do vento, da tempestade, ao seu sabor
Me entrego como oferenda, me presenteio como uma mensagem

De amor, de entrega, de convite para unirmos nossos oceanos
Nossos mundos são ilhas que formam o nosso continente consciente
Retornamos à Pangéia, nós do Paraíso Perdido, em ti, reencontrado

  Ao reler hoje o trecho do Monólogo de Segismundo creio poder responder ao menos uma pergunta dos inquietantes anseios nele tão poeticamente expostos: escolher não é ter menos liberdade, é ser completamente livre. Um abraço não é uma prisão, é a liberdade plena. Aquele que não está nos braços de alguém é como o peixe, livre e perdido. Já quem escolhe conhece um novo mundo.

  Claro que há quem prefira como Fagner "ser um peixe", mas eu preferi lançar o meu coração e desvendar terras nunca antes conhecidas. E lá fixei morada. Não sou e nem quero ser exemplo para ninguém ou ditar regras. Cada alma que navegue por si, porque eu já encontrei o que procurava.

  E o nome desse alguém é Marjory.

  Muito obrigado por tudo meu amor.

***

  Este monólogo é interpretado por Dan Stulbach no filme Tempos de Paz que é uma adaptação de uma peça de teatro chamada Novas Diretrizes em Tempos de Paz que já foi comentado aqui neste blog há muito tempo atrás. Filme recomendadíssimo.