terça-feira, 13 de setembro de 2016


"Ai de mim! Ai pobre de mim!
Que pergunto a Deus para entender.
Que crime cometi contra Vós?
Pois se nasci, entendo já o crime que cometi.
Aí está motivo suficiente para Vossa justiça, Vosso rigor.
Pois o crime maior do homem é ter nascido!
Para maiores cuidados, só queria saber que crime cometi contra Vós, além do crime de nascer.
Não nasceram outros também?
Pois se outros nasceram, que privilégios tiveram que eu jamais gozei?
[...] Nasce um peixe, aborto de ovas e lodo, enfeita um barco de escamas sobre as ondas.
Ele gira, gira por toda a parte, exibindo a imensa liberdade que lhe dá um coração frio!
E eu, tendo mais escolha, tenho menos liberdade?"

Monólogo de Segismundo - La vida en sueño, ato I, cena I (Pedro Calderón de la Barca, 1601/1681) 

Mensagem em uma Garrafa

O mar é o berço da vida e também seu cemitério
O navegante que enterra o amigo sabe sobre este mistério
Do porto os amores esperam o retorno dos amados
Todos os rios correm para o mesmo lado

Da espuma nasceu Afrodite, o amor se fez do nado
Das profundezas se escondem segredos nunca antes revelados
Só quem se arrisca a desvendar sabe o que ninguém jamais soube
Cada alma que se aventura pode sofrer um naufrágio

Por isso navego sem remos, sem velas, sem barco
Deixo-me a seu critério, do vento, da tempestade, ao seu sabor
Me entrego como oferenda, me presenteio como uma mensagem

De amor, de entrega, de convite para unirmos nossos oceanos
Nossos mundos são ilhas que formam o nosso continente consciente
Retornamos à Pangéia, nós do Paraíso Perdido, em ti, reencontrado

  Ao reler hoje o trecho do Monólogo de Segismundo creio poder responder ao menos uma pergunta dos inquietantes anseios nele tão poeticamente expostos: escolher não é ter menos liberdade, é ser completamente livre. Um abraço não é uma prisão, é a liberdade plena. Aquele que não está nos braços de alguém é como o peixe, livre e perdido. Já quem escolhe conhece um novo mundo.

  Claro que há quem prefira como Fagner "ser um peixe", mas eu preferi lançar o meu coração e desvendar terras nunca antes conhecidas. E lá fixei morada. Não sou e nem quero ser exemplo para ninguém ou ditar regras. Cada alma que navegue por si, porque eu já encontrei o que procurava.

  E o nome desse alguém é Marjory.

  Muito obrigado por tudo meu amor.

***

  Este monólogo é interpretado por Dan Stulbach no filme Tempos de Paz que é uma adaptação de uma peça de teatro chamada Novas Diretrizes em Tempos de Paz que já foi comentado aqui neste blog há muito tempo atrás. Filme recomendadíssimo.

quarta-feira, 27 de julho de 2016

O Banquete de Cronos


O Tempo a tudo devora
Cronos devorou seus filhos
Saturno foi castrado por sua própria foice
Símbolo da morte inegável a todos
Os ponteiros são lâminas
O relógio um presságio
Somos todos cadáveres adiados

Os deuses nos invejam
Morrer é uma dádiva
Ser imortal é uma maldição
Só não muda aquilo que está morto
Mesmo que qualquer mudança seja vã
Ainda assim a centelha efêmera
Torna a chama da esperança acesa

Podemos mudar o mundo
Como Prometeus prometeu?
Ou somos só vermes imundos
Aplacados da dor por Morfeu?

Não somos o centro do Universo
Não somos absolutamente nada
No reflexo do lago nos apaixonamos
Herdeiros de Narciso e das fadas

Acreditamos, temos fé, nos embriagamos
De mentiras nem sempre doces
Como nos bacanais de Dionísio,
Para que doa menos da vida o açoite

A hora de todos irá chegar
O arauto do caixão é o berço
Só nos resta compreender a verdade
E não passar apenas as areias do destino pelos dedos

O mundo já estava aqui quando chegamos
E continuará depois que partirmos
A grande pergunta será
O que fizemos para mudá-lo enquanto vivos?

quinta-feira, 7 de julho de 2016

Refém da América


   Situação de refém. Todas as forças especiais, de sequestro, antiterrorismo e de elite preparados. Mas é em nós que repousa a mínima esperança de que a mulher saia com vida deste pesadelo. Ela é a psicóloga do homem que ameaça a sua vida. Um veterano de guerra. Um atirador de elite condecorado, heroi de guerra e completamente louco. O exército atrai este tipo, pessoas que veem na batalha a oportunidade de derramar sangue sem consequências. E se esforçam ao máximo para conseguir alcançar este objetivo. Poucos sabem verdadeiramente a que custo as medalhas são conquistadas. Não são só inimigos abatidos, mas inocentes, mutilações, desmembramentos. Um atirador de elite é a peça mais covarde no tabuleiro, perde apenas para os políticos que enviam os soldados e criam as guerras em si e assistem de longe o desenrolar de suas escolhas. E claro, se nada der certo, os bombardeios são a nova moda quando o assunto é não saber perder.
   A ideia é a tática de guerrilha. Um tiro que incapacite um combatente da ação sem matá-lo de imediato obriga outros dois oponentes a lhe carregar. Aprendemos esta lição da pior forma possível no Vietnã. Os afegãos tentam repetir a mesma fórmula, porém somos criados para lutar e crescemos caçando, amando as armas e nos preparando para o pior. Quando se trata de guerra nós somos os melhores que a humanidade tem a oferecer para fazer o seu pior: vencer a qualquer custo. Então não são só inimigos que incluímos na equação de guerrilha. Se uma mulher, uma criança também é resgatada quando atingidos nós atiramos neles também para distrair os soldados inimigos. É jogar sujo, eu sei, porém é eficaz. E isso é tudo o que importa.
   Este homem com certeza fez isso e pior enquanto esteve em combate, agora que voltou para a civilização não sabe mais como conviver com as pessoas que não entendem o que é estar viciado no campo de batalha, em derramar sangue. Seus tiros entraram para a história, de quilômetros de distância ele era capaz de atingir seu alvo. Agora ele quer fazer o mesmo, tirar mais uma vida, mas de perto. A arma na cabeça de sua vítima sentindo a pulsação rápida, o tremor de seu corpo, a respiração ofegante, o arrepio de sua pele. O medo é inebriante como uma droga, causá-lo é se tornar um deus. Ele tem o poder da vida e da morte sobre ela e é assim que os negociadores interpretam sua ação. Como um lunático que perdeu a capacidade de se importar com a vida humana e que quer apenas desfrutar do poder de tirá-la. 
   Eles não vão convencê-lo a libertá-la. Mas eu sei o que ele realmente quer. Ele está propondo um desafio. Ele se expôs, o mínimo para ser visto, mas com pontos cegos suficientes para impedir que qualquer atirador possa acertá-lo sem acertar a sua refém no processo. Ele quer saber se alguém poderá atirar sem machucá-la, se alguém o fizer ele terá encontrado alguém páreo para si. Ele anseia pela competição, matar se tornou obsoleto. Ele não acredita que com todas as câmeras e cobertura da mídia alguém irá explodir a cabeça de uma psicóloga revivendo o pesadelo de Kennedy. Ele está errado.
   Os herois da nação são os que estão prontos para pagar com suas vidas pelos erros de todo um povo. Não deveríamos lidar com os veteranos problemáticos que sobrevivem ao inferno que lhes impomos porque não deveriam haver guerras para começo de história. Não temos a mínima capacidade de lidar com as questões seculares que envolvem o Oriente Médio. Não damos a mínima chance para os nossos jovens e por isso eles acham tão atraente a ideia de entrar em uma escola metralhando a todos antes de se suicidar. Eles não deveriam nem ter acesso à armas. Os Estados Unidos nunca conseguiu ser um país, nós somos apenas uma desculpa para que a máquina de matar continue a cumprir sua função. Todos nós somos reféns da América.
   Por isso homens como eu existem. Os bodes expiatórios, aqueles que carregam a culpa solitários para que não seja preciso encarar a origem dos nossos problemas. Eu aceitei pagar este preço há muito tempo. Então eu miro, me concentro, coloco o dedo sobre o gatilho, espero o vento estar ao meu favor e atiro. A bala atravessa o ar e com um zumbido rápido ela destrói o ombro esquerdo da mulher que vê o seu braço se separar do corpo explodindo em sangue. O projétil não para na sua frágil carne e desfaz a cabeça do homem que se arrebenta como uma melancia implodida. Dentes, cabelo, pele, cérebro, sangue, carne; tudo voa pelos ares.
   Ele sabia que seria assim. Só atirei quando ele sorriu para mim ao ver o reflexo da minha luneta. Agora o sniper americano não é mais um símbolo de orgulho patriótico. O meu tiro acabou com tudo que Clint Eastwood criou em seu filme. Me perdoe, mas não há orgulho ou herois quando falamos em guerra. Minha missão está cumprida. Basta esperar para que eles venham me prender, julgar, condenar, me expor como um animal, como uma aberração e se esqueçam da parcela de culpa que carregam por sustentar esta sociedade. A hipocrisia nunca falha e jamais iremos verdadeiramente discutir as questões que precisam ser discutidas. Tudo se resume à insanidade individual, nunca vemos a loucura que é todo um país viciado na violência. Afinal, se as únicas certezas na vida são a morte e os impostos, por que não lucrar com isso?
   Que Deus abençoe a América.  

sexta-feira, 18 de março de 2016

O Sol da Liberdade




Ouço os pastores, as panelas dos ricos, Bolsominions, as viúvas da ditadura, o chamada às armas
Eles têm todo o direito de condenar sem julgamento, mas esquecem que sem da lei o consentimento
Com seu ódio inexpugnável são aberrações, crianças mimadas

Sim, a revolta explode em nosso peito por ter de assistir cada manobra absurda
É Presidente tentando livrar companheiro, é juiz quebrando a lei com escuta
Cada um tentando parecer mais correto, mas todos com a imagem cada vez mais suja

Não iremos lavar à jato o que se sujou com a corrupção de piche
A Petrobras permanece em pé, sangrando, mas vive
Sem nada a Temer, uns anseiam o impeachment para ter poder total
Enquanto no ninho dos tucanos, a merenda roubada engorda aves de rapina adestradas

A urna deve ser respeitada, a lei deve ser respeitada e a ordem deve ser restabelecida
Enquanto nada se prova todos são inocentes, ainda que suas caras lavadas estejam perdendo a tinta
Se existir algo para descobrir, as provas serão encontradas e a Justiça servida
Até lá, não dou as mãos para os radicais, nem para os heróis produzidos de beca pela mídia

Para mim a saída está à esquerda, com um sol menos pedante do que o vermelho dos operários
E mais humano do que o azul dos esqueletos da velha política
Sem compactuar com os vices sanguessugas da república

Lembre-se dos poucos que os nomes não foram citados pela polícia
Se formos realmente contra a corrupção serão eles os próximos a concorrer na fila
Da democracia onde o povo também se responsabiliza pelos políticos que cria

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

João e Maria


Ela despertou vagarosamente... Seus cílios longos se desentrelaçaram e deixaram a luz entrar em sua íris castanha cor de mel. Mas ao abrir os olhos a menina demorou a entender o que estava acontecendo. Era como se sua alma tivesse fugido para um lugar muito longe e ainda não tivesse voltado em tempo de compreender o mundo ao seu redor. Tudo estava escuro e ameaçador como um sonho ainda, um sonho ruim. Assustada ela ouviu o ressonar de seu irmão, aquele barulho que acostumara a ouvir desde o útero de sua mãe e encontrou seu irmão deitado a seu lado, dormindo profundamente, imóvel. Ela engatinha até ele e coloca a cabeça sobre seu peito para ouvir seu coração. Ao fazer isso seus cabelos caem sobre o rosto dele e o cheiro doce dela o acorda com um sorriso. 

Ele a abraça e ela se deita sobre ele, confortável como um passarinho em seu ninho. Ele ri debochando dela. Ela lhe empurra de volta e olha ao redor, emburrada e também assustada. Eles conversam sem precisar falar, são íntimos, são um só.

Ele tenta lembrar o que aconteceu, sua cabeça dói e sua boca tem um gosto ruim. Ela também diz que se sente mal.. Os dois riem, mas não conseguem lembrar de muita coisa, só que eles estavam com seus pais em um piquenique...

Um relâmpago corta o céu e ilumina os dois em meio à clareira da floresta, o trovão faz ela gritar e ele pede para ela fazer silêncio - shhh... Começa a ventar e eles se dão conta que mais importante do que lembrar o que se passou é eles se preparem para o que está vindo. A brisa fria carrega o cheiro de chuva. Ele a abraça, ela treme um pouco pelo frio, um pouco pelo medo e um pouco pelo calor do corpo de seu irmão contra o seu que a faz se sentir melhor e a faz queimar também. Ele sempre foi o seu abrigo, aquele com quem ela sempre pode contar.

De mãos dadas ele a guia mata adentro para tentar encontrar algum lugar para se esconderem. Esta não era a primeira vez que eles ficavam sozinhos na floresta. Eles adoravam dar umas escapadas de tarde enquanto sua mãe estava ocupada com as tarefas de casa e seu pai no campo. Os dois iam até o riacho nadarem nus e comerem maçãs selvagens. Livres e sem pecados como crianças no paraíso. 

Entretanto desta vez era diferente. Eles nunca estiverem fora de casa após o pôr do sol e muito menos estiveram perdidos como agora. Sua mãe sempre ameaçava colocá-los de castigo por essas escapadas; no começo, com medo de não encontrar o caminho de volta, eles fizeram uma trilha com pedaços de pão e ao retornar descobriram que os pássaros tinham comido todos os pedaços e mesmo assim conseguiram encontrar o caminho de volta.

Eles não entendiam a razão de sua mãe ficar tão incomodada com eles por fugirem daquele jeito, mas a cada dia a menina se tornava mais mulher e a juventude nela desabrochava como uma bela flor rara. Até seu marido começava a olhar a menina de uma forma diferente, demorando com o canto dos olhos nas pernas dela, vendo o vento brincar de levantar seu vestido, acostumando-a a sentar no seu colo quando não mais convinha tratá-la como criancinha.

A chuva começava a cair com pingos pesados que estralavam nas folhas, o céu estava prestes a desabar. A roupa molhada colava no corpo e denunciavam as curvas do corpo dela e os músculos do dele. Se abraçaram ainda mais forte e correntes elétricas estalaram quando seus corpos se tocaram, algo dentro deles, uma ansiedade crescia. Quando todas as esperanças pareciam se esgotar eis que eles avistam uma cabana lhes convidando a entrar e se proteger da chuva.

Eles correm para entrar e a porta felizmente estava aberta. O primeiro golpe de sorte desde que acordaram e ali, seguros, começaram a descansar a mente e a se deixar levar pelo calor que crescia sob a pele. Ele ascendeu a lareira com a lenha que havia ali e com um pouco do óleo que restava em um lampião velho. Usando pedras criou faíscas que lamberam o líquido inflamável e consumiram de uma vez a madeira lhes aquecendo. As roupas ensopadas precisavam ser retiradas e deitados, nus, no chão sobre pedaços de couro que ele encontrara ali se abraçaram uma vez mais, mas dessa vez seus corpos não conseguiram impedir o desejo que lhes consumia.

Beijos desesperados, soluços sôfregos, gemidos abafados, a resistência esquálida, abrindo o corpo, entrando, ligando um ao outro, os dois sentiam-se como um só e agora eram, mesmo que ninguém pudesse compreender este sentimento. Suaram enquanto a tempestade do século desabava. Geou e eles ainda estavam ruborizados, cansados, exaustos, satisfeitos. Lambuzados um do outro, gozavam o sono dos justos com um gosto doce do pecado inocente na boca.

E assim, ao menos naquele instante, não importava mais que seus pais tivessem os enganado com um piquenique para abandoná-los. Estavam juntos, eram amados e seus corpos haviam experimentado o êxtase que só a entrega total pode conceber.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

AD AETERNUM


   Sempre me desesperei ao ler os contos bizarros e grotescos de Edgar Allan Poe, acima de todos, o "Barril de Amontillado". Nesta obra excepcional um dos personagens ao final encontra seu fim sendo emparedado vivo na adega de seu companheiro, deixado no escuro para definhar até a morte, sozinho, para o júbilo de seu oponente.

   Afinal, pense comigo, imagine o desespero avassalador da situação: estar preso sem poder fugir e sem qualquer esperança de salvação. Totalmente envolto em trevas e em silêncio, começar a notar os seres decrépitos da noite rondando, vermes, insetos, passeando por seu corpo, aguardando ansiosos para se banquetear com a sua morte inegável. A impotência ante ao destino é o que me aterrorizava, a solidão perversa, o desprezo da humanidade que seguiria sem se ater ao desaparecimento de um dos seus. A importância mínima da vida, da existência, de mim, ao ser preso e esquecido como se nunca tivesse sequer existido. 

   Mas tratava-se apenas de uma obra literária, você pode pensar, nada que pudesse ter reflexo no mundo real. De fato eu também assim raciocinava para me vacinar contra o medo, entretanto, no fundo eu sabia que as coisas não eram tão simples assim. Mesmo naquela época eu já desconfiava que havia mais coisas entre o céu e a terra do que podia imaginar a nossa vã filosofia.

   Com o desenvolvimento da medicina começamos a rondar o reino das patologias e suas peculiaridades e desbravar que o impossível é tão somente a certeza do ignorante. A descoberta da "catalepsia" - uma doença rara que faz com que o enfermo caia em um sono tão profundo que se assemelha à morte, tendo os batimentos cardíacos e a respiração tão letárgicos que havia quem temesse ser enterrado vivo, sendo confundido com um cadáver - causou tanto alarde que houve uma época em que os mortos eram enterrados e preso a um dos seus dedos ficava uma linha esticada até um sino na superfície que deveria ser tocado caso o morto fosse um dos trágicos sofredores de tal mal para ser resgatado.

   No entanto com exames mais específicos e contundentes esta ameaça foi erradicada e os coveiros pararam de ter trabalho nas noites de ventania quando o arrebol da tempestade tocava todos os sinos sobre as covas, colocando uma linha tênue entre a vida e a morte.

   Com mais modernidade veio a necessidade de mais energia e novas formas de obliteração surgiram, como os mineiros presos e isolados em suas minas, sem água ou comida, esperando um salvamento que poderia esmagá-los ao retirar as toneladas de pedra que os separavam da superfície. Por isso jamais cheguei perto de uma mina, sempre cuidei da minha saúde para se caso tivesse algum quadro cataléptico, fosse tratado propriamente e tive enquanto vivo a certeza de que os combustíveis fósseis seriam o fim da Humanidade. Mas nada me salvou ou me preparou para o que estava por vir.

   Não era Edgar Allan Poe que eu deveria temer com seus contos de suspense psicológico, mas sim Bram Stoker era quem selaria o meu infortúnio. Mesmo que o mundo tenha deturpado a imagem ancestral das criaturas imortais, os senhores da noite, elas não deixaram de existir ou de influenciar o mundo escondidas nas sombras. Lendas de criaturas notívagas do além-túmulo existem em todas as culturas e era tão vívida a ameaça do vampirismo que havia séculos atrás quem enterrasse entes familiares com estacas cravadas no coração para prevenir que o parente pudesse ser transformado post-mortem. Descobri tarde demais para a minha sorte que a literatura possui raízes em origens perturbadoramente reais demais para serem aceitas pelos humanos e que os monstros não existem só em nossas cabeças, nos livros ou quando somos crianças.

   Esta revelação se deu da pior forma possível, pois fui transformado sem ter a mínima ideia do que se passava. Testemunhei meus conhecidos e aqueles que amei definharem e perecerem enquanto eu mantive, como um Dorian Gray pós-moderno, minha juventude intocável (a não ser pelo tom pálido e pelo semblante cadavérico). Fui introduzido então para um clube extremamente recluso de criaturas como eu, que temiam serem descobertos e causarem uma Nova Inquisição sendo queimados sem misericórdia pelos inferiores os quais eles predavam também inclementemente, principalmente os inocentes e incautos. E aprendi que a maior de suas regras era o sigilo total sobre nossa condição.

  Eu, contudo, com a minha sede de escrever, não me contive e comecei a descrever minha vida e meus hábitos, tudo de forma aparentemente ficcional, o que me tornou conhecido e visado. Meus hábitos peculiares e minhas aparições somente após o pôr-do-sol apenas serviram para aumentar o toque de excentricidade e aumentar a voracidade dos holofotes. A Camarilla não aprovou minha conduta e fui julgado e condenado pelos anciões, seres tão antigos que não se recordam em nada em como é sentir o calor do sol na pele ou respirar. E imaginem vocês qual foi a pena a mim eleita?

  Sim. Ser trancafiado nos domínios dos poderosos de nossa espécie onde os mortais não poderiam me encontrar e empalado por uma lança de prata que não me matará, mas me deixará em um estado de inanição completa, como um cataléptico. Permanecerei assim até que meu corpo se desfaça e sobre apenas pó o que devido à minha natureza sobrenatural pode levar toda a eternidade.

 Curioso não é mesmo, senhoras e senhores? A ironia cruel, o paradoxo infame que agora compartilho com vocês e que será carregado pelas nuvens de tempestade que tocavam os sinos dos mortos de outrora será o meu testamento para a Humanidade. Na internet residirá a minha obra de arte final que poderá ser encontrada através pelo título emprestado do poema de Augusto dos Anjos: A Psicologia de um Vencido. Eis o poema que descreve o meu fim...

"A PSICOLOGIA DE UM MALDITO"

"Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênese da minha infância,
A influência má dos signos do zodíaco.

Produndissimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância...
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.

Já o verme - este operário das ruínas -
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e que à vida em geral declara guerra,

Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há-de-deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!"

   Por isso, cuidado!

  Nós existimos, somos reais e nos alimentamos de vocês, nós os desprezamos. Vocês são menos do que gado para os malditos. O meu mal foi manter a minha sensibilidade mesmo após o beijo de sangue. Que a minha história possa trazer à tona a verdade para os mortais, a lição da minha existência: 

   "A literatura, a arte, pode matar..."

   "Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico como saudosa lembrança estas memórias póstumas..." - e assim, fazendo de Machado de Assis as minhas palavras, encerro com Lovecraft que insiste em me dar esperança mesmo ante ao abismo.

  "Não está morto o que eternamente jaz inanimado, e em estranhas realidades até a morte pode morrer..."

sábado, 24 de outubro de 2015

Liberdade

Um sorriso atirado em solo fértil, mesmo que por brincadeira inconsequente ainda assim pode germinar. Como na teoria do Caos onde um bater de asas de borboleta em um lado do mundo pode acarretar em um tsunami no outro lado, um sorriso atirado a esmo é tão fatal quanto uma bala perdida.

Por isso decidi fazê-lo, sem medo, sem me preocupar, atirei um ricocheteante sorriso e deixei ela lidar com ele. Na verdade, abusei da sorte e lhe atirei vários, como uma metralhadora automática lhe mostrei os dentes como um animal enraivecido, beijando-lhe em meus sorrisos. Lhe desejando em meus sorrisos. Lhe amando em meus sorrisos.

Ela, acanhada, não sabia o que fazer com eles, com esse ataque, assédio de sorrisos e segundas intenções. Tudo era novo para ela, mas sem querer, ela me sorria de volta. Talvez fosse apenas porque o sorrir é uma das expressões mais humanas e trabalha em um nível subconsciente onde sorrimos para quem quer que seja que sorria para nós. Um condenado no paredão de fuzilamento, até vendado, se sorrir, mesmo sem poder ver saberá que o soldado se pegará sorrindo de volta antes de apertar o gatilho e assim saberá que ele foi perdoado. Talvez fosse só isso, uma ação involuntária como um soluço, como o piscar dos olhos, como o bater do coração. Mas não, pois eu podia perceber quase com certeza absoluta que seu coração acelerava quando eu me aproximava.

Os meus sorrisos chegaram mais longe do que imaginei, nos encantaram, enlaçaram, nos enlouqueceram e nos aproximaram. Eles adentraram sua boca e lhe encheram o corpo de beijos, lhe cobriram de carícias e cafunés. E ela sentiu vontade ao me ver me rabiscar a pele, de fazer o mesmo.

Este ato de rebeldia, esse anseio de liberdade através da tinta foi o que a semente do sorriso germinou, à flor da pele, um desenho para simbolizar o fim das amarras: foi um presente meu a ela. E ela escolheu um dente-de-leão com as sementes voando no vento se transformando em pássaros, um símbolo vivo da natureza e liberdade, a vontade de alçar vôos mais altos e distantes. Uma vez livre ninguém mais consegue voltar para onde antes estava, aprisionado.

Eu lhe dei asas, lhe tirei da gaiola da sua família e lhe aprisionei com uma overdose de liberdade. Ela consertou as minhas asas quebradas de Ícaro que voou perto demais do sol. Assim, vivemos enlaçados e sorridentes, despejando no mundo sorrisos para que haja cada vez mais histórias de amor e menos medo de ser feliz.

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Entre a Foice e o Martelo


Corte a cabeça fora de um Rei
E o veja se transformar em uma Hidra
A liberdade sempre foi fora-da-lei
Mesmo quando democracia

Do Che se venderam  muitas camisas
Mas esqueceu-se que nenhum homem é uma ilha
Ótimos charutos e livre-arbítrio de quinta
Vizinhos de Guantánamo, eles ainda sonham com uma nova Bastilha

Enquanto isso o oriente se desorientou
E tentou vender um negócio da China
Que é mais pirata do que o regime
Que se diz do povo, mas que é o mais capitalista

Sem contar que ao norte da Coréia
Fica o sul do Paraíso
Onde um menino maluquinho
Brinca de ditado sozinho

E ainda há a Primavera Árabe
Linda com flores de pólvora
Ninguém imaginaria que do Facebook
A revolta se transformaria no paraíso militar que é agora

Há quem defenda a estrela vermelha
E voltem seus olhos pra Rússia
Eu prefiro pinga à vodka
Se for pra me vender como na Augusta

Mas não se engane, eu acredito na foice e no martelo
Símbolo do sonho do povo, do trabalhador, do pobre que maneja o rastelo
Só não acredito que até então algum país tenha implantado de fato
Uma sociedade de esquerda, foram apenas regimes baratos

Não dá pra pensar em um sistema onde o homem é mais importante
Algemando quem pensa contrário, talvez o dono do fusca azul
Tenha sido o único a chegar mais próximo deste páreo
Realmente, se pararmos pra pensar, este foi o presidente menos otário

Eu acredito que a democracia é o pior de todos os governos, tal forma
Está à frente, porém, depois de toda as outras, afinal não há sistemas perfeitos
E só nós podemos encontrar as respostas, não temos nada a perder
Porque
já estamos perdendo


sexta-feira, 3 de julho de 2015

Herança


 É estranho reconhecer que com o tempo, o porto de onde você partiu e de onde você encarava o mar de possibilidades do futuro acaba se tornando apenas um farol distante que te atrai te fazendo olhar para trás. Fitar para aquele brilho eterno longínquo na escuridão como uma estrela morta que ainda tem sua luz visível.
  O futuro se torna cada vez mais um terreno estéril enquanto o passado guarda a memória das sementes não plantadas que continham o potencial de germinar todos os sonhos. E começamos a regar mais as memórias do que a nossa esperança. A receita do cinismo cria um gosto amargo na boca, impossível de se evitar, como o gosto de bílis da primeira ressaca. Como o queimar dos pulmões do primeiro trago.
  Entretanto agora nada mais parece novidade, você criou resistência ao álcool, seus dentes amarelaram e o paladar se foi. Você vai se tornando mais insensível, mais previsível, mais fraco e suscetível a se perder completamente. Vagando como um nômade, como um rato de laboratório em uma roda, preso nos cacos dos vitrais quebrados das memórias. Vivendo nas ruínas de seu castelo mágico, como um fantasma, habitando uma casca que lentamente se deteriora. Você não mais vive, apenas assiste e sobrevive os dias, as horas, se passarem arrastando em sua frente até o momento de finalmente ir embora.
  Queria que as coisas tivessem sido diferentes. A culpa é tóxica, inútil, um veneno que mata. Não há mais como voltar atrás, desfazer, refazer, refletir. Queria te dizer que mesmo assim, apesar de compreender hoje os seus erros e jamais ser capaz de aceitá-los, sei que você merecia mais do que teve, mais do que tem. Se eu pudesse, também teria me esforçado mais, mas dói ainda e talvez para sempre pensar em tudo que passou e por isso tenho que me afastar e desejar o melhor enquanto você toma chuva e passa frio.
  Eu, mesmo abrigado me sinto perdido, nenhum filho deveria viver assim com seu pai, nenhum pai deveria viver assim com seu filho. Por isso tento me lembrar das minhas melhores lembranças da triste época de infância e é inevitável: toda vez que olho para uma foto do Chico, vejo um pouco do sonho do homem perdido. E lágrimas me vêm aos olhos com um sorriso.

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Legião - Porque nós somos muitos


  Começou como uma brincadeira praticamente inocente. Uma piada boba de alguém que queria se aparecer e fazer a galera rir. Mas como o alvo da zombaria era o mais tímido menino da sala, o que menos falava e aquele que ninguém queria sentar perto, fazer prova em dupla ou escolher para formar o time na aula de Educação Física, claro que não parou por ali.
  Afinal acreditavam realmente que tirar sarro dele era uma forma de incluí-lo, só brincamos com quem consideramos amigos, certo? Então rapidamente aquela atitude foi se espalhando como um vírus, por todas as salas da escola, no recreio. Ele continuava calado, com medo, se alguém vinha falar com ele, ele reagia como um animal assustado, acuado, nervoso. Os professores notaram, mas havia muito pouco que pudessem fazer. A Diretoria não acreditava na seriedade das reclamações, chamou um ou dois mais bagunceiros que abusavam da paciência de todos para conversar e deu a situação como encerrada. 
  Até mesmo os outros alunos menos queridos das turmas se aproveitaram para se promover na humilhação alheia e conseguiram se tornar mais legais aos olhos do povo do fundo ao tirar uma onda com o rapaz. Logo ele começou a faltar na escola, mentia, dizia que estava doente para sua mãe e ela preocupada, não sabia o que fazer. Atolada em trabalho, responsabilidades, com um filho mais novo que precisava de atenção redobrada, separada, sua mãe era tão frágil quanto ele naquele mundo cruel.
  Mesmo assim ela o levou a vários médicos, tentou conversar, descobrir o que se passava, mas ele se mantinha calado. Não via como sua mãe poderia ajudá-lo, só queria se esconder, só queria que eles parassem. Mas não pararam, óbvio. O seu celular pipocava com mensagens infelizes, agressivas até. Chegaram a criar um fake para falar com ele e fingir que alguém se importava com ele, que poderia se apaixonar por ele. Alguém de longe, inalcançável, e ele, carente e desesperado acreditou naquela farsa teatral que rendera muitas risadas. Ele se abrira para aquela pessoa, aquele amigo virtual que parecia lhe entender, uma válvula de escape do pesadelo que se tornara sua vida.
  Alguns já achavam que aquilo tudo havia ido longe demais e começaram a pedir para que os outros parassem. A maioria se cansou, ficou com pena, perdeu o interesse. Contudo os mais cruéis, os mais sádicos não podiam simplesmente esquecer e deixar para lá. Se empenharam tanto, iludiram tanto que abusando da confiança estabelecida fizeram o pobre menino expor sua intimidade acreditando ter encontrado alguém que o amasse e sentisse o mesmo que ele. 
  Novamente pais foram chamados, conversas sérias foram ditas, entretanto pouco de efetivo foi feito. Os pais dos garotos mais problemáticos não tinham tempo para se preocupar com eles, tão pouco de fato se importavam com os próprios filhos preferindo suprir a sua falta de atenção com presentes que os  entretivessem a realmente dar-lhes atenção. E essa carência gerava uma raiva que era descontada nos demais. Um apelo, um grito por atenção, por preocupação que é uma forma de se mostrar que nos importamos, que amamos. 
  Assim sendo, vendo o quanto a mãe do rapaz havia se desesperado com o caso, ela tinha até ameaçado procurar um advogado para processar os pais dos meninos que tinham feito o que fizeram com seu filho, os filhos que só ganharam tapas e xingamentos dos pais se tornaram ainda mais perversos.
  A vítima não queria mais sair de casa, nem do quarto, não comia, só chorava, pensava que não havia mais saída. Na verdade só uma. E enquanto sua mãe trabalhava e sua vó que fora morar com eles por um tempo para ajudar a cuidar deles dormia, pegou vários remédios dela e tomou-os de uma vez.
  A notícia pegou todos de surpresa. Ninguém mais riu. Ninguém mais achou graça. Pois antes de partir ele escreveu o que sentia em seu diário e descreveu os seus agressores como demônios que lhe infernizavam como os demônios que Jesus exorcizou de um homem e os colocou em porcos, segundo a Bíblia, e eles se jogaram de um penhasco se matando. Ele era religioso porque sua mãe lhe ensinara ao contrário do que muitos diziam, que Deus nos amava como nós somos, independente do que possam dizer padres e pastores e assim como Deus ela o amava como ele era e para ela ele era perfeito. Terminou pedindo perdão a sua mãe pelo que estava prestes a fazer. 
   Todos da escola estavam em seu enterro e os responsáveis por aquela tragédia pareciam chocados, perdidos em seus pensamentos, assustados com o mal que habitava em si. Podiam ouvir o demônio rindo deles enquanto sua inocência era devorada pela culpa. E os pais sentiram a semente do mal que estavam cultivando em seus lares.