segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

"A HECATOMBE ESTELAR" Capítulo - II


A HECATOMBE ESTELAR
Capítulo – II

Debret enfrentando a árdua estrada, exposto aos dissabores das intempéries acompanhado por várias bestas de carga e peões com muito esforço alcançou o selvagem rio Itararé.

Ao se deparar com o desafio natural que os paredões de granito propunham, improvisaram uma ponte com tábuas para vencer o desfiladeiro. As bestas eram guiadas uma a uma e somente um homem e um animal podiam passar por vez até o outro lado. Nesse trabalho um meninote que servia como batedor da expedição errou o passo e de repente escorregou gritando sem que ninguém pudesse evitar sua queda desaparecendo nas águas famintas. Aquilo mexeu com o ânimo de todos, ele era muito querido pela companhia. Continuaram a travessia cabisbaixos, cautelosos e em silêncio, até os cães e os burros pareciam enlutados.

Os homens então ao cruzar o penhasco pediram para seu patrão uma parada, Debret assentiu em respeito à morte do moleque em montar acampamento. Apearam em uma planície próxima ao desfiladeiro, contudo, dormir propriamente dito poucos conseguiram e muito mal. Além de ter que aproveitar a longa parada para evitar outras no futuro da viagem, colhendo lenha, enchendo os cantis, os cães pareciam farejar algo de ruim e não se calavam nem por um segundo, logo que roíam os ossos chupados que os homens atiravam a eles voltavam a ladrar agitados, impossibilitando a qualquer um o descanso merecido.

O violeiro da companhia percebendo que não iria adiantar continuar a tentar pregar os olhos foi se inspirando para cantar e contar histórias. Estava sentado junto ao fogo e as mariposas que o rodeavam lembravam fadas sombrias a lhe sussurrar cantigas de magia e mistério ao pé do ouvido. Coincidentemente ou não essas suas canções ora e meia se remetiam ao mote da meninice perdida, falando nostalgicamente sobre os tempos de infância e começo da vida adulta que se escorrem por nossos dedos quando menos percebemos. Reanimados pela música os homens cantavam e batucavam. Debret também vendo o quão inútil seria desperdiçar seu tempo tentando dormir, quase tranquilo pela calmaria do local, decidiu aguçar o olhar e se munir da paleta e pincéis para registrar o momento. Ao preparar suas tintas lembrou-se das pinturas milenares que descobriu nos paredões do Jaguaricatu onde homens primatas reverenciavam um sol negro e inspirou-se para, como seus ancestrais, pintar os costumes de seus contemporâneos e pintou com detalhes um perseverante e exausto carregador, o único, babando debaixo do chapéu. Registrou também a maneira de prender as bagagens nos animais de carga e a vista bucólica, triste e perene sob o céu claro e onírico de Itararé.

Talvez fosse a estafa ou a energia estranha que pairava, impossível dizer por certo a origem da visão que acometeu Debret. A brisa sussurrante o incomodava, quase podia ouvir vozes nela. Das sombras e trevas sentia um calafrio como se algo o rodeasse espreitando em silêncio. Invejava a ignorância dos peões que celebravam o momento, solenes pela perda recente, mas encantados por terem a oportunidade de descansar e se lembrar do amigo. Ao observá-los viu uma pequena coruja cinzenta cruzar o acampamento e levado por seu trajeto fitou para dentro da mata adiante onde vaga-lumes fosforescentes iluminavam precariamente uma sombra. O vulto possuía uma aura verde-feérica. Foi tudo muito rápido, somente um breve e efêmero instante, contudo o suficiente para que o olhar recriminador de angústia e dor da figura perturbasse Debret ao ver novamente o rapaz morto afogado há pouco.

Tremia em espasmos involuntários, suas mãos não detinham mais a suavidade e a maestria adquirida por toda uma vida dedicada à arte de pintar. Suava frio, embora sua pele ardesse, o coração parecia querer romper seu peito. Sentiu dedos leves passeando por sua nuca e o hálito quente do rapaz a lhe acusar ao ouvido de tê-lo abandonado. Veio a dor, mais terrível que qualquer coisa que o francês já tivesse sentido antes. Podia ouvir a respiração ofegante do rapaz em desespero enquanto tentava em vão lutar contra a morte.

Em febre, não mais podendo sustentar o corpo caiu em convulsões ouvindo o lamento dos mortos. No chão, sentia a terra pulsar como se abaixo do acampamento, enterrado no inferno, um gigantesco coração estivesse batendo, lento, despertando enquanto o seu próprio diminuía o ritmo. Vozes e som de águas batendo contra galerias subterrâneas enchiam os ouvidos de Debret que estava no limite de sua sanidade. Rapidamente os homens vieram ajudar, mas não havia nada que pudessem fazer. Os homens se agruparam ao seu redor sem saber o que fazer para ajudar o patrão.

Ao abrir os olhos lá estavam as constelações no céu escuro, porém o que Debret percebia era a imensidão das trevas entre os pontos brilhantes e não mais a beleza das estrelas. Com dificuldade levantou-se e descobriu-se sozinho, não havia sinal do acampamento ou de sua companhia. Um vento frio soprava e nele ele ouviu vozes, ao longe. Cânticos e gritos, encantamentos, reza, não sabia ao certo como chamar aquilo, só sabia que aquilo lhe perturbava.

Sem escolha resolveu seguir as vozes que o atraíram para a margem do rio que anteriormente cruzara. Porém o terreno estava diferente, as águas não corriam entre os paredões de pedra e sim sobre a planície brilhando como se fossem feitas de escamas reluzentes. E próximo ao rio fogueiras ardiam, enormes e em seu redor sombras dançavam em transe, enlouquecidas entoando palavras que Debret não compreendia, mas temia. Ele se esgueirou entre as pedras até mais perto e avistou uma linda mulher nativa que chorava e gritava raivosamente com o corpo de um guerreiro nos braços. Ela o cobria de beijos como uma amante e cuspia em direção ao rio.

Ouviu então o berro de animais, eram cabras selvagens que os homens daquela tribo bizarra sacrificavam sem escrúpulos. Eles se banhavam com o sangue dos animais e vestiam a carcaça deles e assim começavam a agir como bestas, urrando e se debatendo como feras raivosas. Debret não entendia o que via, sabia contudo que corria perigo e que deveria partir, mas não conseguia sair do lugar.

O chão estremeceu com um abalo sísmico como se algo tivesse implodido sob a terra. Então a poeira se ergueu e a terra começou a se rasgar no meio abrindo-se em um abismo. O rio despencara para dentro daquela escuridão jorrando água para o alto. Os índios gritavam e se jogavam contra o chão, corriam alucinados e rogavam aos céus gritando: Itararé, Itararé!

Debret com muito esforço conseguiu se afastar daquilo que ele descreveu para Saint-Hilaire como uma cena dantesca - os índios em desespero pararam de dançar e começaram um suicídio coletivo. Eles cortavam as próprias gargantas como haviam feito com os animais e manchavam o solo de vermelho tombando às centenas.

Quando chegou a uma distância que considerou segura olhou para trás e viu algo ainda mais aterrador. Os céus se abriam e tentáculos colossais se agitavam daquela ferida, ele não podia acreditar no que via. Choviam brasas incandescentes carbonizando tudo que estava por perto, incendiando a mata e toda a tribo. Ventos tão fortes quanto os de um furacão espalhavam a fumaça e as cinzas. Debret só conseguia ouvir os gritos de dor e as palavras sendo repetidas incessantemente: “Itararé, Itararé” quando o som de algo caindo e explodindo no chão o acordou.

Quando Debret despertou sua companhia desacreditou ao vê-lo vivo e bem. Ele estava desnorteado e não sabia explicar o que tinha se passado, os homens diziam sentir a presença do mal com as garras fincadas em Debret.

Seguiram depois para a aldeia de Itararé e lá Debret aprendeu que não fora o primeiro francês a visitar aquelas paragens e que assim como ele, o botânico Saint-Hilaire também havia contraído uma curiosidade inconveniente sobre o rio. Debret desistira das incursões pelo interior do Brasil logo depois, cada vez que fechava os olhos via a imagem da destruição da tribo e rememorava o terror que ainda carregava consigo na memória.

Ao retornar à França enviou cartas para Saint-Hilaire perguntando o que ele descobrira no Brasil, na pequena aldeia próxima ao rio Itararé. Debret precisava de um cúmplice para poder dividir suas experiências e entender melhor o que havia se passado e o que Saint-Hilaire lhe revelou foi a história por trás da visão – a lenda do rio Itararé.

Os dois acabaram por se tornar amigos e trocaram várias cartas em segredo, até a morte de Saint-Hilaire. Debret sentiu muito a perda do amigo, principalmente porque Hilaire confessou-lhe que via além do véu que cobria seus olhos ao se aproximar da morte e sabia que o demônio que descansava abaixo do rio maldito o esperava e que Debret seria o próximo.


“_O Caos Rastejante nos aguarda” - escreveu em sua última carta. Debret pouco antes de falecer pediu que queimassem todas as cartas, queria esquecer aquela história e partir em paz, mas seu criado não o obedeceu e guardou para si as correspondências visando vendê-las e obter algum lucro em um futuro incerto sem seu senhor.

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

"A ORIGEM DO MAL" Capítulo - I



A ORIGEM DO MAL
Capítulo - I

Depois de estudar as sementes, flores, animais e as curiosas pinturas rupestres de mais de dez mil anos atrás na região do rio Jaguaricatu - em vinte e cinco de janeiro do ano de mil oitocentos e vinte chegou à aldeia de Itararé o botânico francês Auguste de Saint-Hilaire. Sempre acompanhado por um índio botocudo, seu fiel companheiro que lhe servia como guia, tradutor, mercenário e conselheiro, Saint-Hilaire ficou por algumas semanas nas três sesmarias aproveitando a hospitalidade daquele chão antes de seguir para Itapeva da Faxina. Seus cadernos continham anotações esmiuçadas da cultura e costumes e desenhos em mínimos detalhes das plantas, Hilaire anexava aos herbários esses documentos e diários que de tempos em tempos eram despachados para além-mar.

Porém quando Saint-Hilaire finalmente estava pronto para partir seu companheiro caiu de cama subitamente. O índio tinha febre alta e delirava aterrorizado balbuciando sobre o inferno e repetia incessantemente um nome: “Uariri”. Seu semblante forte tornara-se rapidamente decrépito, doentio, a peste que lhe acometera era de uma sordidez tamanha que aparentava ser efeito de algum veneno ou de uma mandinga ou macumba pesadas, como diziam os nativos. Os capuchinhos ofereceram ajuda, mas não podiam fazer muito pelo índio, só lhes restava oferecer o favor de lhe encomendar a alma. Desesperado já que o índio por diversas vezes havia lhe salvo a vida, Hilaire sentindo-se obrigado a pagar sua dívida de gratidão recorreu ao povo, já que os religiosos se negavam a falar a respeito na menor menção do nome da mulher misteriosa. Foi ouvindo a população que Hilaire descobriu quem era Uariri.

Uns diziam que ela falava com os espíritos, lia mãos e até adivinhava o futuro. Outros contavam em sussurros, amedrontados, que ela rogava maldições, preparava poções de ervas e dormia com o diabo. O mais velho dos moradores da vila contava que já ouvia falar das histórias do espírito da velha bruxa que morou na gruta do rio Itararé ainda criança. Contava ele que mesmo antes do primeiro tropeiro pisar aqui ela já guardava a caverna. Mesmo temerosos, o povo antigamente, dizia-se, ia até ela muitas vezes na calada da noite para pedir ajuda. As escravas que engravidavam dos seus patrões e temiam por suas vidas por dar a luz aos bastardos levavam as crianças para ela criar “anjinhos”, os batizando nas águas do rio Itararé e nelas os afogando. Ao ouvir esses relatos Hilaire entendeu a razão dos senhores do solar não quererem falar a respeito do assunto, ele sentia que ao mesmo tempo que aquelas histórias causavam pavor, também traziam embaraço por envolver casos vergonhosos da história do vilarejo. Contava a tradição popular que para cada andorinha revoando no crepúsculo procurando abrigo na gruta do rio uma criança havia sido morta pelas mãos da anciã. Hilaire estava aturdido e sem alternativas decidiu ir investigar em segredo a tal gruta onde a bruxa indígena vivera.

Sem avisar ninguém partiu sozinho do solar na hora mais negra da noite no lombo de sua mula. Apeou, amarrou sua montaria a uma árvore retorcida e continuou a pé. Ao galgar aqueles degraus feitos pelo prazer do vento e da água pensou ter ouvido o choro de crianças. Balançou a cabeça, aqueles depoimentos dos simplórios pareciam estar afetando seu julgamento impressionando-o como nada antes o fizera.

Finalmente alcançou o fim daquele declive, uma caverna onde um rio barrento e propositalmente calmo escondia segredos do passado em suas entranhas turbulentas. O luar descia por uma abertura do cimo da gruta iluminando as águas que pareciam chamar por Hilaire. Elas o atraiam, ele encantado e amedrontado caminhava lentamente sem conseguir se conter até a borda da gruta para olhar dentro do rio. E assim, de joelhos, vidrado pelo rio ele viu no espelho d’água um vulto atrás de si, a mulher de que se falava na aldeia, em seu rosto a idade e a loucura estampadas. Em um segundo, sem jamais saber se fora por descuido ou se de fato algo o empurrou, caiu dentro do lago frio da gruta do rio Itararé. Imerso naquelas águas em um batismo forçado, algo parecia lhe puxar para baixo, chegou a imaginar tentáculos lhe puxando, talvez. Em meio aos ruídos ferozes da corrente de água enfurecida contra as rochas uma voz pareceu lhe falar.

Cortava esse chão, como uma serpente d’água, um rio poderoso e cheio de peixes. Neste rio os jovens se banhavam e pescavam, o povo havia conseguido domar o espírito bravio e selvagem daquela víbora e ninguém temia as águas. As coisas das bestas às pedras possuíam espírito próprio e o do rio sibilava quando ninguém podia ouvir, com uma fome que não sabia saciar. O rio apaixonara-se pelo mais belo dos guaianazes, Taiguara, um destemido guerreiro de pele de suçuarana querido por todos, do morubixaba ao pajé.
O rio então moldou em segredo as pedras de seu leito deixando-as pontiagudas como adagas e cantou imitando a voz de seu amor, Uariri, chamando Taiguara. Ele seguiu aquela voz e ao ver o rio, mergulhou nele para não mais voltar. As águas, antes calmas e belas, tornaram-se vermelhas e violentas, o espírito consumira Taiguara e o pervertera, viciando-se na morte. Serpentes agitaram-se de seu interior e vapores funestos se ergueram cobrindo as estrelas. O povo ao perceber o que acontecera chorou e amaldiçoou o rio pedindo para Tupã puni-lo.

O senhor dos céus respondeu fazendo o chão tremer derramando fogo do firmamento. Tupã mandou uma estrela negra que se enterrou na terra. O espírito do rio cavou as terras entrando por dentro das pedras para se esconder, temendo a ira divina, mas a estrela se escondeu abaixo dele. Os índios apavorados gritavam – Itararé, Itararé – avisando Tupã que a serpente já havia se escondido e que de nada adiantaria Tupã liberar sua fúria sobre a terra. O deus então amaldiçoou o povo que se deixara enganar por um espírito tão vulgar e que lhe conjurava quando estava aflito, porém não confiava nele para lhe proteger. Todos os guaianazes foram exterminados pelo fogo e pelo vento, só Uariri fora poupada para velar seu amor, para guardar o rio e para impedir que a semente da estrela brotasse da terra e trouxesse o fim do mundo.

Quando finalmente Hilaire conseguiu voltar para a superfície a sensação era de que havia permanecido uma eternidade submerso. Tossia e chegou a escarrar sangue, engolira muita água do rio, como um feto no ventre da mãe sentia-se conectado de uma forma inexplicável com o passado e o mistério do Itararé. Uariri poderia finalmente descansar porque a sua tarefa fora passada adiante.

A correria dos empregados da casa acordou Saint-Hilaire de seus sonhos. Ao ver o tumulto percebeu que pareciam todos surpresos e temerosos. Rezavam e cochichavam tolices, entreolhando-se abismados. Hilaire seguiu a criadagem e encontrou seu companheiro de pé, como se nunca tivesse caído de cama. O bugre lhe agradeceu pelo favor de joelhos, ele sabia a verdade, o que o francês tinha feito para salvá-lo da influência dos poderes sombrios. O índio nunca mais fora o mesmo, ele desde então e até o fim das expedições se manteve reservado, taciturno sem nunca comentar nada, angustiado por ainda sonhar com o que lhe fora revelado no delírio da febre. Saint-Hilaire não sabia separar o sonho da realidade do que acontecera naquela noite e decidira guardar para si aquela experiência ao mesmo tempo incrível e terrível.

Prosseguindo para a aldeia seguinte, Itapeva da Faxina, uma lenda indígena sobre aquela região de solo irregular e repleta de morros fez Hilaire entender melhor o pesadelo que lhe fora revelado. Os índios acreditavam que abaixo daqueles montes uma serpente gigantesca descansava e moldava as ondulações no terreno e que a cada ato desmedido de um membro da tribo o monstro ficava mais desperto até o momento que despertaria de vez para vir à tona e engolir a tudo e a todos.

Ao ouvir a lenda de uma tribo similar a que habitou as planícies de Itararé tudo fez sentido. Em um instante a memória das revelações voltaram de uma só vez fazendo Hilaire desmaiar. Sua consciência subjugou seu corpo, a verdade era terrível demais.

Anos mais tarde nas suas últimas expedições no nordeste, ele aos poucos foi recordando e registrando cada lembrança até montar o quebra-cabeças: as pinturas feitas por homens primatas que viveram há milhares de anos nos paredões do Jaguaricatu de um sol ou algo parecido onde selvagens se curvavam em adoração e temor, a lenda da estrela negra que havia sido mandada em forma de maldição divina pelos deuses e que caíra abaixo do rio Itararé e a lenda da serpente gigante que se escondia abaixo de Itapeva formando os morros do lugar eram todos fragmentos de uma mesma história. Tratava-se de um acontecimento antes do homem moderno, a queda de um objeto cósmico que promoveu uma destruição de proporções épicas, tanto que os povos antigos criaram um mito apocalíptico para explicar o evento sobre uma inteligência perversa de poder incalculável que permanecia enterrada na terra adormecida sonhando com destruição e que se alimentava do sofrimento e da dor dos insignificantes homens que perambulavam sobre a superfície.

Hilaire absorto decidiu quebrar o silêncio que impusera a si mesmo sobre a enfermidade e recuperação inexplicáveis de seu amigo botocudo e pôs-se a escrever obcecado. O índio tentou o impedir, dizendo que a praga que lhe acometera era um aviso sobre o que aconteceria caso a verdade fosse revelada, o rio enganara Hilaire, ele queria ser conhecido e reverenciado e Uariri tentou impedir o estrangeiro de cair nos encantos do mal que habitava Itararé falando com o botocudo em sonhos. Não obstante foi em vão, na primeira chance que teve Hilaire despachou entre os seus cadernos e diários páginas e mais páginas sobre a lenda do Rio Itararé.
Entretanto o navio que singrava o Atlântico rumo à Europa levando a carga de Saint-Hilaire foi pego por uma terrível tempestade. No meio da tormenta, relatou um sobrevivente, um raio atingiu em cheio o mastro da nau provocando um incêndio em alto-mar e o esmagando contra um recife de corais ainda na costa brasileira. Hilaire ao saber do acontecido tremeu dos pés a cabeça, pois nunca conseguira explicar o que acontecera na gruta naquela noite em Itararé e esse naufrágio só vinha a alimentar a sua imaginação de temores insensatos.

Aterrorizado a cada vez que pensava a respeito, decidira não retomar mais o assunto, nunca mais, sua sanidade dependia disso. Temia ter a lógica sobrepujada pela loucura. O botocudo desacreditado por Hilaire não abandonou seu mestre que logo encerrou suas viagens. Hilaire aprendera que o silêncio sobre o que não se compreende é a única saída para se resguardar a sanidade e teria se calado até o túmulo se Debret, seu compatriota, não o procurasse em mil oitocentos e trinta e um na volta da Missão Artística para lhe falar sobre a sua passagem por Itararé.


sábado, 13 de janeiro de 2018

"A SEMENTE" - Prelúdio


A SEMENTE
Prelúdio

Ninguém sabe ao certo quando o homem branco descobriu a passagem mais acessível entre os paredões de granito do Rio Itararé que corroeu seu leito transformando seu caminho em um abismo. Os bandeirantes podem ter chegado perto ao explorarem o interior de São Paulo, contudo os indígenas selvagens hostis aos grilhões e à cruz podem ter conseguido em uma primeira tentativa impedir que a semente da civilização fosse plantada naquelas matas virgens. Para muitos esta reação violenta dos guaianazes poderia ser um sinal de defesa de domínio territorial, de preservação de seu espaço, contudo, prova-se através de suas lendas que não fora isso que os motivara. Eles consideravam aquela região amaldiçoada e se comportavam como guardiões do local como sentinelas impedindo que a paz fosse perturbada e o mal despertasse e estavam dispostos a morrer por isso.

Quando os tropeiros chegaram no século XVII criando o Caminho do Viamão a situação era outra. A presença indígena já tinha sido subjugada e a passagem por cima do Itararé já era utilizada ou ao menos de conhecimento dos exploradores que rumavam para Sorocaba. Dificultosa, não raro a travessia cobrava vidas e carga, mas não havia outra forma de transpor o desafio natural. Os primeiros registros de passagem de tropeiros contam a má impressão dos mesmos sobre a “Barreira” por sua sensação de opressão e mal-estar como um ambiente devastador e deprimente. Os jesuítas tentaram mudar esta concepção ao celebrar missas ali, porém a influência da bruxa Uariri que vivia na gruta do rio era mais antiga e mais forte que o deus cristão vindo do além-mar.

A terra das três sesmarias doada em 1725 para povoamento embora fértil traz o sangue do povo que ali viveu por eras cultuando entidades sobrenaturais obscuras e resquícios desta adoração pagã ainda sobrevive em pinturas rupestres em paredões e cavernas e demais lendas de cidades próximas. Toda essa riqueza cultural teve um impacto mesmo que indireto na criação de uma consciência coletiva da população que cresceu descrente de esperança e fadada à aniquilação. Tal profecia quase se concretizou em 1930 e os sobreviventes que ficaram conhecidos como covardes e entraram na história ridicularizados só esperam a sorte mudar e o destino finalmente se cumprir.

Os artistas da cidade são comumente afetados por serem mais sensíveis por essa névoa invisível e sofrem de sonhos febris e visões perturbadoras, pesadelos vívidos e alucinações. Suicídios são comuns na cidade e os que possuem uma chance fogem sem olhar para trás deste ninho envenenado. Entretanto como conta a lenda da “água da Barreira”: “aquele que provar das águas naturais da mina da gruta da Barreira está fadado a retornar”. Então a cidade coleciona aprisionados sem oportunidade de fugir e frustrados que fracassaram na sua tentativa de escapar - O Mito da Caverna de Platão.

A semente de um presságio de mau agouro acompanha cada criança nascida e mesmo em sua inocência o brilho dos seus olhos é embaçado pela sombra das andorinhas que sobrevoam a cidade e ao anoitecer retornam para a gruta em uma queda perigosa para se esconder nas paredes úmidas.

Há quem lembre dos tempos perdidos da cidade como tesouros que jamais serão novamente desfrutados. Há quem cante o paraíso perdido que é esta terra e a saudade por estar longe. Há quem pinte a Via-Crúcis da vivência de envelhecer em Itararé. Mas ainda é preciso escrever sobre as sombras que pairam, sobre as pedras, os paralelepípedos cortados um a um por escravos que frequentemente são cogitados de serem cobertos por asfalto na rua principal. Mas é impossível apagar os espectros do passado: os indígenas massacrados e arrancados de suas terras para dar espaço para um novo país. Os tropeiros com cargas e escravos desfilando pela São Pedro. Os posseiros, os grileiros, os coroneis. Os estrangeiros e pobres que construíram os trilhos do Ramal da Fome. O ditador que foi recebido de braços abertos. Da população que cresce lentamente em número, mas não em oportunidade ou qualidade de vida. Dos loucos que perambulam pelas ruas sendo atazanados por crianças que lhes xingam e eles então os perseguem raivosos. Da pequenez de se estar longe demais das capitais e perto demais do abismo.

Parafraseando Nietzsche: “quando se olha tempo demais para um abismo, o abismo olha de volta para você” - esta é a realidade de todo itarareense. Nós carregamos o abismo na alma, um vazio, um vórtex, um buraco negro que engole a tudo e nos devolve apenas mais vazio. A fome que devora e apenas aumenta.

E é nesse poço espiritual que quero gritar a história que cresce e toma meu cérebro para ouvir o que o eco irá responder. Talvez eu possa ouvir assim os Grandes Antigos...


quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

HAMLET


Acordou com o gosto amargo da ressaca miserável na boca. Antes de sua derrocada até a sarjeta, quando ainda bebia socialmente, ele costumava brincar com seus amigos comparando este gosto ao "gosto de pau de mendigo". Todos costumavam rir de sua engenhosidade perversa em tecer estes tipos de comentários que misturavam originalidade com asco. Hoje, sem teto, ele não acha mais nenhuma graça em si e não mais zomba dos alcoólatras e nem dos que sobrevivem nas ruas. E pensando bem ele jamais bebeu socialmente e tão pouco foi admirado - as pessoas riam era de constrangimento.

E disso ele entendia. De constrangimento. Ele sentia o embaraço que se tornara para si e para os que o cercavam nas festas de aniversário dos filhos, nas reuniões de família, nas convenções sociais em geral. Os olhos da esposa transbordavam com este sentimento, porém o que o amargurava era o silêncio. Ninguém falava nada. Ninguém reclamava. Ele era aquele parente indesejável que era melhor ser ignorado a ser confrontado, tolerado pelo bem dos demais. Ninguém falava nada porque ninguém acreditava que adiantaria. Ele era um caso perdido. E assim, ele se tornou exatamente o que esperavam dele. Se afogou no poço da autopiedade e se livrou de toda esperança, de qualquer sentido na vida. A mulher o abandonou, levou os filhos. A família o renegou completamente. Estava sozinho e perdido e merecia seu destino. Ele trilhava os passos tortuosos de seu pai e apenas a lembrança dos tempos de infância acalentavam seu espírito enquanto seu corpo se acostumava a ser fustigado pelo sol e pela chuva.

Seu pai era do campo e ele crescera do mesmo jeito. Aos nove anos já fumava e bebia, incentivado pelo próprio pai, modelo de homem que ele idolatrava. Ninguém o questionava e mesmo estando errado ninguém o contrariava. Sua mãe o tratava como rei lhe servindo de todas as formas na mais completa submissão. A vida da pobre coitada era para viver em função do marido e assim fora até ela se tornar mãe. Então as consequências dos excessos do marido que ela suportava começaram a ser direcionados ao seu filho. Por mais de uma vez ela se colocou entre o companheiro e o filho e pagou com sangue. O menino que tinha no pai um heroi jamais acreditara que ele fosse capaz de realmente lhe fazer mal e nunca perdoou a mãe por separá-lo dele. Nunca mais vira o pai desde que deixara o campo para vir para a cidade.

Cresceu passando dificuldade, a mãe solteira fazia o que podia para sustentá-los. Ele não ajudava em nada e a culpava. Ela implorou por auxílio com um irmão de seu pai que os acolheu ao procurá-los para dizer que o grande beberrão havia sido encontrado morto no meio do mato, esfaqueado por causa de uma garrafa de pinga. Ao saber do triste fim de seu pai as coisas pioraram, sua mãe agora morava com o tio e se tornara esposa dele se encantando pelo homem que se assemelhava ao antigo marido fisicamente, porém que agia de forma totalmente diferente. Sentia que aquele homem estranho desonrava a memória de seu pai e fugiu muitas vezes de casa. Na última, se casou e jamais voltou a ver a mãe traidora e o tio usurpador.

Agora sozinho por ter esbofeteado a mulher e tentado espancar os filhos como seu pai ele vivia um dia de cada vez para beber e entorpecer os sentidos e recriar em sonhos ébrios seu tempo de criança - a época mais feliz de sua vida. E revivendo o amor que sentia por seu pai, mesmo sabendo que ele jamais o merecera, consciente que sua saúde estava com seus dias contados, decidiu revê-lo uma última vez.

Embora tivesse flertado com a ideia, foi no dia de finados que ele tomou coragem para executar o seu plano. Munido de uma pá de cimento que furtara quando fizera um bico de ajudante de pedreiro ele se infiltrou em meio a massa de familiares saudosos dos seus entes que partiram. Enquanto muitos choravam, acendiam velas, limpavam os túmulos dos falecidos, trocavam as flores dos vasos ele esperou em frente ao túmulo do seu pai e ali lembrou-se de quando testemunhou o coveiro selar seu túmulo. Emocionado conversou com o pai por toda a tarde. Com o movimento enfim diminuindo ele partiu para a ação.

Retirou o cimento de entre os tijolos com o maior cuidado possível para não fazer muito barulho e puxou tijolo a tijolo até chegar no caixão semicorroído. Dentro dele a carcaça de seu pai jazia em paz imperturbada e ele, alucinado pela emoção etílica, entrou dentro do túmulo para conseguir o que queria: o crânio do homem mais poderoso que conhecera, do rei entre todos os outros. Ao pegá-lo nas mãos, estranhou, ele não parecia ser tão pequeno. Aos olhos de menino ele tinha o pai como um gigante invencível e ali encontrara somente um esqueleto sem nada de especial.

De qualquer forma, ciente de que não tinha mais como voltar atrás, escondeu na camisa rota e suja o tesouro e partiu do cemitério. Ao passar pela entrada, leu a mensagem em latim sobre os quatro pilares: "haec itarareentium domus secunda donec tertia" e mesmo sem entender nada sorriu. A satisfação do êxito em cometer tal ato ao mesmo tempo ousado e asqueroso lembrou seus tempos de juventude e de seus comentários. Talvez alguém tenha o admirado em uma dessas frases de efeito nas mesas de bar, com toda certeza, depois daquele dia, todos iriam se lembrar dele.

Para completar e deixar o seu legado ele precisava ser descoberto. Um crime perfeito só vale quando se revela a genialidade (ou loucura) de quem o cometeu. E assim, ele não foi para muito longe e adentrou a Santa Casa de Misericórdia portando entre trapos o crânio de seu pai e conversando com as pessoas apresentando o maior homem que elas conheceriam em suas vidas. O cheiro de morte, urina e bebida emanavam dele como uma peste e a comoção por sua aparência, cheiro e tesouro fora tanta que as pessoas realmente talvez nunca esqueçam o mendigo insano que perturbava a frágil paciência dos pacientes do SUS naquele dia agourento.

A Guarda Municipal foi chamada e o sujeito detido com uma fiança de mil reais. Seu meio-irmão que ao ser contatado respondeu biblicamente repetindo as palavras de Caim para Deus: "Acaso sou guardião do meu irmão?" ao ser indagado se teria o dinheiro para livrá-lo do cárcere deixou claro o seu desprezo. O crânio foi devolvido ao túmulo e este ato de megalomania não surtou o efeito desejado tendo apenas uma nota de rodapé no folhetim mais sensacionalista e ridículo que circula no município.

O homem aguarda seu destino preso, sabendo que aquela talvez seja sua última noite, ele dorme sonhando em rever os braços do pai para fumar um paiero ao seu lado e matar uma garrafa de aguardente. E sente a presença de seu espírito como um fantasma a lhe anunciar o fim. 

"Há mais coisas entre o céu e a terra do que desconfia a nossa vã filosofia" - ele concordaria, com certeza, se conhecesse Shakespeare.

E sem ter tido chance de se questionar sobre "ser ou não ser", ele se foi.

sábado, 24 de junho de 2017

Prefácio

Cuidado caro pobre leitor...

Saiba que tudo que aqui você irá ler de nada foi pensado em você ou para o seu bem. Nada foi feito através das boas e virtuosas intenções modernas de auto-ajuda e de elevação espiritual. Pelo contrário, se pensei em você foi com o intuito de facilitar a sua auto-destruição, a sua queda, a sua morte, o seu fim.

Eis diante de ti a minha Bíblia Negra, o meu Necronomicon, os meus escritos desgraçados, a minha cria demente e pervertida de pensamentos bizarros, doentes e belos. Como um Íncubo, como a Serpente, como uma sereia em uma rocha a beira-mar, como uma ninfa a se banhar em um lago no coração da floresta, como Eva, Pandora; eles (a minha prole mental) te seduzirão para destroçar a sua sanidade e a sua alma. Todos os monstros e demônios somados não se equiparam com o que a minha mente foi capaz de produzir pois nunca tive limites para fantasiar e esta é a minha perdição.

Por isso neste prefácio eu te rogo: desista. Desista inocente que jamais poderá esquecer-se do que aqui foi registrado com sangue. Nem mesmo se arrancar os seus próprios olhos você será capaz de eliminar as imagens oníricas, os paraísos psíquicos que despertarei em sua mente mundana, patética e miserável. Vá de retro curiosas crianças que sem malícia anseiam por percorrer avidamente este bestiário imaginário de contos, poemas, e crônicas malignas e profanas. Nenhum de vocês será o mesmo após esta leitura herege, este ritual de evocação do que há de mais terrível e sedutor no ser humano. A fagulha da criação que permaneceu dentro de nós refletindo como em uma casa de espelhos todas as facetas do mal, da tragédia, da dor, da existência mortal, dos prazeres da carne.

Como Dante outrora avisara nos umbrais que se seguiam ao inferno: "Ó vós que entrais, abandonai toda a esperança..." estejam cientes do que lhes aguarda. Ou como a maldição declarada dos profanadores da pirâmide de Tutankhamon: "A morte virá com asas rápidas para aquele que perturbar a paz do rei" aqui jaz o meu último aviso dos piores augúrios para os que exumarem os meus escritos. Estes que deveriam seguir ao túmulo comigo e nenhum olho humano deveria se debruçar sobre "Nunca mais" - grita o corvo de Poe. Mas a vaidade me vence e não suporto mais manter este pandemônio privado e por isso vencido passo adiante tal praga como uma epidemia literária para que contamine o mundo e todos possam sucumbir comigo.

Boa sorte, pobre leitor, e nunca diga que não fora avisado.

Boa leitura.

Seja bem-vindo ao meu mundo.

JOSÉ RODOLFO KLIMEK DEPETRIS MACHADO

terça-feira, 30 de maio de 2017

A Derrota de Ares


A noite fria arrepiava a pele do lado de fora, mas dentro daquela tentativa de trazer o mítico conforto ébrio da ilha sem serpentes aos trópicos o ar era quente. Ao fantasiar com os pubs do Velho Mundo e dos da terra dos leprechauns alguém se empenhou em evocar este sonho de proporcionar uma tradição antiga de se embriagar começando pela fachada com portas de madeira enegrecida trabalhada. Naturalmente a cor do interior era verde escura como a de um trevo de quatro folhas que cresce sob a sombra, se existissem trevos de quatro folhas. E havia ainda o balcão de madeira, as marcas importadas nas prateleiras, a decoração cheia de coisas do além-mar. Aquele pub representava mais o ideal de um pub do que a grande maioria dos pubs ingleses e escoceses, pocilgas subterrâneas e porões úmidos e fétidos. Os celtas, os vikings, toda a cultura medieval das tabernas ajudaram a criar no imaginário mortal um paraíso de alegria e indulgência que só os bares poderiam proporcionar. Lembrou-se de seu amigo Dionísio e riu, ninguém imaginava o quanto ele se daria bem nos tempos que viriam. Afinal, entre o amor e a guerra todos precisam esquecer seus traumas e dores e nada melhor do que procurar esta trégua com a memória no fundo de uma garrafa. Ele entendia isso agora. Sentia saudades do amigo, mas ele se fora há tanto tempo que quase não sentia remorso pelo que fizera.

Enquanto bebia e ria com os seus mais novos amigos de infância (era incrível como a bebida e os entorpecentes uniam as pessoas e criavam intimidade) a TV mostrava uma luta de UFC onde dois grandes nomes da violência do entretenimento travestida de esporte tinham desistido de se enfrentar. Os gladiadores modernos explicavam diante de flashes e câmeras que simplesmente não viam mais razão em lutar. Entretanto se não bastasse esse registro bizarro, a transmissão foi interrompida por uma notícia histórica: a Coréia do Norte e a Coréia do Sul acabavam de fazer um acordo de paz inédito e abriam suas fronteiras bem como no Oriente Médio as guerras seculares finalmente terminavam com um acordo entre líderes religiosos e políticos de um cessar fogo imediato e perpétuo. 

Todos comemoravam se abraçando e bebendo ainda mais e beijos nasciam desta atração de corpos. Parecia ter em sua companhia não pessoas e sim sátiros e ninfas. A comparação lhe fez rir-se, como seria bom se fosse verdade. Ele estava se divertindo como nunca, quem diria que uma folga seria tão prazerosa? O mundo não iria acabar se ele relaxasse um pouco, aprendera que poderia ceder se fosse por um bom motivo: como cair nos encantos de Afrodite. Jamais ele teria alguém como ela, ele sabia da dura realidade, mas ninguém poderia persuadi-lo de tentar encontrar uma substituta... ou milhares. As chamas da paixão e da batalha queimam insaciáveis e o mundo estava ao seu dispor. E amar uma mulher comprometida só adicionava mais lenha naquela fogueira eterna.

O sino tocara e chegava a hora de fechar as portas. Mas naquela rua ninguém parava se não quisesse e se tivesse como bancar a sua devassidão. Bastava manter-se consciente o bastante para não acabar como o fundador do império romano morto por sua esposa e que nomeava aquela rua embora ninguém soubesse sua história. Contra Cronos ninguém vence e mortais e deuses são engolidos por ele ora ou outra, o grande déspota castrado pelo próprio filho que esquecera o próprio nome e apenas cumpria o seu dever de devorar a tudo e a todos apagado como todas as outras lendas e contos. Não havia ninguém mais da velha guarda. Só ele resistira como tinha que ser. E agora o velho soldado queria descansar e gozar o tempo que ainda lhe restava. Nem mesmo ele, a mais natural das emoções humanas iria sobreviver. O sadismo, o derramamento de sangue estava por acabar. E para comemorar o fim de todas as coisas correu para o templo de Pan, o primeiro a cair, um grande casarão que honrava as prostitutas da antiguidade.

Lá o cheiro de vulgaridade e promiscuidade fez os seus sentidos despertarem. Não havia nada que os mortais pudessem inventar que fosse melhor e mais forte do que o doce gosto do vinho divino, do sangue dos inimigos, do hidromel e do néctar da vulva de uma deusa. Mesmo Héstia, a casta, ao ser estuprada detinha um aroma e um sabor indescritível. Mesmo assim as dançarinas ali poderiam lhe fazer lembrar destas experiências com mais detalhes e só isso justificava sua presença naquele prostíbulo. E o desespero dos homens ao encarar mulheres tão poderosas era incrivelmente afrodisíaco como os náufragos ao se depararem com as belas e terríveis amazonas. E pensar que os descobridores desta terra acharam que a floresta repleta de mosquitos e que nunca deixa de chover seria a terra de tais guerreiras. Tão tolos e tão inocentes. Os mortais eram uma criação absurdamente divertida por nunca deixar de surpreender. Ao pensar nisso quase se arrependeu de ter dado cabo de Prometeu, que roubou o fogo do Olimpo para entregar a estes vermes com vida.

Passeou e conversou com as mulheres ouvindo-as mentir doces mentiras baratas de que ele era o homem mais belo que já conheceram e que estavam loucas para galopá-lo. No entanto aquelas palavras de adoração fajuta fazia o seu ego faiscar, como quando pagavam grandes sacrifícios a sua imagem para garantir sucesso nas batalhas. Ele jamais, contudo, garantiu vitórias. Vitórias eram obtidas através de estratégia e ele não pensava para agir. Simplesmente inspirava o ódio puro e simples no coração dos guerreiros, como nos espartanos e os berserkers. Estratégia era com Atena, a querida Atena, que mesmo com toda a sua sabedoria não pode evitar seu fim ante a espada do deus da guerra. E de ser violada por ele antes de morrer e desaparecer. Ah, lembranças, lembranças tão queridas...

Escolheu as mais belas e depravadas e seguiu para o quarto e lá chafurdou entre os lençóis por horas. Dinheiro não era problema, afinal, para quem possuía a Cornucópia nada era impossível. E enquanto proporcionava os maiores orgasmos daquelas fêmeas quase as fazendo morrer de exaustão e prazer o mundo ia esfriando e deixando de ser o que era. Os predadores do planeta morreram em poucas horas, famintos e incapazes de caçar e atacar os outros animais. As plantas, claro, por um breve tempo floresceriam até a população de herbívoros destruir o ecossistema e tornar o mundo estéril. Até o último instante porém Ares teria a sua aposentadoria fornicando e quando não houvesse mais humanos para usar ele morreria se masturbando e lembrando de toda a sua existência e de todas as vidas que tirou e de todo o prazer que o sexo e a violência lhe garantiram. A paz e a passividade enterrariam a tudo e a todos e condenariam a vida no planeta. Gaia iria dormir o sono sem sonhos.

Antes do apocalipse, todavia, já amanhecia e as padarias abriam. Chegava a hora de comer um pão com manteiga na chapa e tomar um pingado na terra da garoa. Mais um dia de luta surgia para o deus que desistira de lutar contra seu destino. Agora era hora de aproveitar enquanto podia os louros da vitória. Vencera e exterminara todo o panteão e enterrara-os no Olimpo. Viveria como e com os mortais até o fim e não mais lhes invejaria a urgência de viver já que toda criança que nasce sabe que eventualmente morrerá. Agora ele também entende como é conceber o próprio fim e sorri pela oportunidade de conhecer a mortalidade. Depois de garantir que todos os deuses aprendessem essa lição agora era a sua hora de aprender que todos são derrotados e que o que vale é o que fazemos até beijar a lona de vez.
 

quarta-feira, 15 de março de 2017

Contos de Fadas Fodas

Não espere a agulha da roca cumprir a maldição. Nem que alguma profecia venha selar o seu destino em vão. Há torres de castelos onde você poderia ser presa, caixões de vidro para expor a beleza da princesa mesmo depois de sua queda - quem foi jamais deixa de ser realeza - ao menos sete likes você garante para saciar a fama que você almeja. Até onde você iria pela vaidade que te ensinaram a perseguir? Seja quem você quiser, uma gata borralheira se lhe convier, não corte, não alise se não for pra ser feliz sendo você mesma.

Bonecas para donzelas aprenderem como se comportar em suas douradas celas, marionetes para crianças ingênuas, quem decide quem vence o dragão? É melhor ser vítima ou o conquistador do reino? Há quem diga que é possível fazer os dois, ser queimada sem queimar e ainda lutar pelo trono além mar. Só é fantasia se você não acreditar que é capaz. Não é preciso temer a moça, rapaz. 

Joanas D'Arcs modernas que não se sujeitam a se encaixar nos moldes, como os sapatos da Cinderela. Rapunzéis que deixam seus pelos crescerem onde e o quanto quiserem, sem amarras, ainda assim igualmente belas. 

Não ature as Feras que não sabem lhes tratar, fujam com o Lobo Mau que desde o princípio foi muito claro sobre o queria... e não era se casar. Despachem os Príncipes Encantados que afobados te estupram com os lábios enquanto você dorme, te abusam e querem um final feliz onde eles ordenam e vocês sempre dizem sim, por medo, belas, recatadas e do lar, obrigadas a dizer: "obrigado" e a nunca negar.

Sejam livres, sejam Valentes, sejam felizes e sejam irmãs. Sejam damas e vagabundas sem julgar nem condenar a decisão umas das outras. Deslumbrantes bruxas ligadas pela amizade como um talismã. Pois só se unindo vocês irão vencer este mundo onde em cada esquina, em cada família há um vilão querendo manter a tradição de diminuir a mulher para fazê-la acreditar que ela deve se respeitar e ser tratada como uma princesa: uma princesa que obedece aos outros, porém nunca se liberta da sua fraqueza.

As coisas estão mudando, com certeza. Quem diria, até nos comerciais de cerveja. 

Mas não é por isso que temos de diminuir a luta.
Que cada vez mais haja quem queira participar desta causa.
E a moral de respeitar o próximo seja o legado desta história.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

A Mordaça da Educação


Antes de falar, nós cantávamos. Cantávamos imitando o som da natureza, dos animais, da chuva, do trovão, encantados e envolvidos pela magia do mundo. Nas religiões foi apenas através do comando da palavra que foi possível Deus criar o universo e que o homem pode criar-se a si próprio ao ponto de criar um Deus para si que pudesse explicar através de evangelhos os ensinamentos de geração em geração sobre a sua própria origem. A fé se manifesta através da palavra, as pinturas na caverna são o abecedário da imaginação do homem primitivo. Damos poder aos que falam e o que está escrito torna-se lei. Somos unidos pela língua, podemos travar guerras ou lutar pela paz com a perspicácia da argumentação.

Ao nos apaixonarmos pedimos a mão de alguém, mas é através do som que fazemos isso. Seduzimos, nos apaixonamos, demonstramos os sentimentos: o nosso melhor e o nosso pior. E para que tudo isso ocorra é preciso uma ligação transcendental entre a boca e o ouvido. Não há sentido em falar se não for para ninguém ouvir. E não há alegria maior do que ser compreendido por um próximo que te escuta. Este é o reconhecimento máximo da comunicação.

No entanto cada vez que uma palavra migra de uma boca para um ouvido ao ser replicada por uma nova boca ela é transformada pois é amorfa e flexível para se moldar ao tipo de discurso de cada um. Logo, esperar ou exigir um único discurso das pessoas é censurar toda a humanidade. O meu papel é compreender que o aluno não se expressará como eu me expresso, mas que aquilo que foi dito por mim seja transmitido até ele para que ele possa tomar para si da maneira que ele achar melhor este conhecimento. A liberdade de conhecer é esta: fazemos o que quisermos com o conhecimento porque com ele podemos tudo. Sem ele estamos presos aos grilhões da ignorância. E reconhecer que há momentos que a formalidade exigirá um discurso padronizado não é desmerecer os demais discursos, é oferecer mais uma camada de possibilidade linguística a quem já se comunica.

E esta responsabilidade que é também um fardo que nós professores da língua possuímos é desconhecido dos demais profissionais da educação. Os pais e os que comandam as escolas muitas vezes mal conseguem conversar entre si, mas somos nós quem somos os condenados quando um aluno não se sente confortável em se abrir; já que temos a obrigação não só de passarmos o bastão do conhecimento da língua como também estabelecer um elo que faça o aluno ser capaz de se expressar e que ele seja confiante o bastante em si mesmo para não temer qualquer desafio e encare o mundo com sua voz desenvolvida. E dentro do possível conseguimos isso, mesmo que raramente, estabelecer uma conexão onde a língua se torna uma forma de se comunicar, trocar informações e manter um respeito mútuo - mesmo que para outros isto pareça o contrário.

A escola é um antro de pensamentos atrasados perpetuado pela tradição de subestimar os alunos, esta atitude que é partilhada muitas vezes pelos pais. Ninguém acredita que o aluno seja de fato capaz, porém querem que os enganemos para que eles pensem que são. Este é o paradoxo cruel da nossa profissão. A educação tradicional olha os alunos de cima, nós temos de olhá-los nos olhos.

Lutar contra uma educação retrógrada, conservadora, elitista e que cada vez mais tenta iludir os alunos com promessas de grandeza e opções de futuro onde só reside o vazio, o sofismo, a retórica barata, é cansativo e frustrante. Muitos são cooptados e acreditem na promessa de que as mudanças são para concretizar a frase que diz que "as crianças são o futuro" - contudo com base no que estamos vendo acontecer o nosso país continuará a ser um país ancorado no passado.

Um lugar onde o aluno vai para a escola porque os pais não podem e nem querem passar o dia com eles, onde o Estado prefere armazenar como gado os jovens para evitar problemas e onde os professores são os bobos da corte que os mantêm distraídos enquanto eles envelhecem o suficiente para trabalhar e pagar impostos. E os que quiserem honrar o seu diploma e realmente desejarem trabalhar serão aconselhados a repensar sua conduta já que não devemos mostrar os erros e a ruína da aprendizagem dos alunos e da degradação da relação entre pais e filhos.

Os professores são o band-aid que seguram a ferida exposta que é a educação no Brasil e nunca são ouvidos quando o assunto é melhorar a educação. Há algo muito errado nisso e uma hora não haverá mais como estancar essa chaga. A mordaça vai cair e a verdade virá à tona. 

sábado, 18 de fevereiro de 2017

A Pena É Mais Forte Que A Espada


Nós nascemos derramando sangue
Abrindo caminho como um caranguejo saído do mangue
Do lodo nós viemos projetados para sofrer
Andando sempre para trás somos o retrocesso da evolução
E nos contentamos para sobreviver a
Causar cada vez mais dor ao penetrar
Sangue, a cada mês o casulo da vida
Se perde e se esvai como uma ferida
Uma cicatriz que não se cura
Um coito interrompido, fúria

O irmão mata o irmão
A mãe afoga o embrião
O pai devora o varão
O filho destrona o barão
Na linha de sucessão
Só a violência impera

E temos prazer no sofrimento
Envenenamos o pensamento
Com ódio, rancor, mágoa
A vingança condicionada
Tragédia anunciada a cada alvorada

Recorrer aos instintos mais básicos
Aos que nascem sem garras cria-se a espada
Eu desafio a todos a realmente serem bravos
E encarar a existência na palavra

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

REVOLUCIONÁRIO


Para aquele que precisa estar sempre no topo do pódio
Do medo e da ignorância se destila o seu extrato de ódio

A ameaça no seu discurso deixa cada vez mais claro
Aquilo que se revela através de seus argumentos falhos
Do saudosismo do terrorismo da tirania do passado
Atravancando o futuro, remoendo o próximo passo
As gerações transformam a realidade impossível
E as mudanças, para os incrédulos, inverossímil
Se concretizam como profecias de pesadelos
Para os que se regozijavam com a injustiça
Agora têm de encarar as crianças quebrando os tabus
E todos os seus medos eles enfrentam
Ao olhar no espelho a ignorância lhes questiona
Onde foi que eles erraram?

Em muito mais do que vocês pensavam
Tudo que está vindo à tona já lhes era conhecido
Vocês apenas estavam conformados
O ópio da fatalidade, do intransponível lhes limitara
O óbvio ululante deixou de ser um fardo
A verdade é triste, mas a coragem de revelá-la
Veio com as crianças tristes que foram maltratadas
Que receberam surras na tentativa de doutriná-las
Coagi-las a seguirem as tradições inválidas
A perpetuarem os preconceitos cegamente, caladas
Ajustando o cabresto e a mordaça
As algemas, as correntes, as amarras foram despedaçadas

Ninguém nasce sabendo odiar, ninguém derrota o ódio com o ódio
Nós queremos nos permitir amar, a nós mesmos, ao próximo
O mundo não vai se deixar derrotar pelas viúvas e viúvos
Que não conseguem se despedir das trevas
E tentam impedir a alvorada, sentindo-se derrotados

"Num país como o Brasil, manter a esperança viva é em si um ato revolucionário" - Paulo Freire