quinta-feira, 12 de julho de 2018

MORTE BRANCA


O despertar é lento e perigoso. Voltar do limbo dos sonhos sempre resgata memórias antigas de pecados inomináveis, lembranças que ele daria tudo e sacrificou tudo para esquecer e que a cada noite voltam para assombrá-lo, sem falta. Finalmente na segurança da solidão ele se dá conta de onde está. Os dentes cerrados relaxam no maxilar duro como alguém que sofre de bruxismo. A respiração rápida como a de um cão com raiva que baba selvagem e louco se acalma. Os punhos fechados se abrem e a consciência se ergue ante ao caos da confusão: mais um dia começa. 

Não importa se ele vive como um sem-teto, dormindo em um saco de dormir no chão de um lugar abandonado com um barril enferrujado queimando lixo para aquecê-lo do frio noturno capaz de matar. Todos se foram para longe e aquela cidade estava remota, ele tinha aquele lugar todo para si. Durante o inverno ele vivia nas sobras da civilização que fugia das temperaturas congelantes, tal qual o último círculo do inferno ele estava condenado como Lúcifer à desolação. Era o mais próximo da humanidade que ele ousava se aproximar.

Caminhar e procurar sobras de comida para sobreviver a mais um dia naquele cenário fazia-o lembrar de quando assistiu pela TV o desastre de Chernobyl. De como as pessoas tiveram que deixar suas casas para trás e de como a radiação mudou os animais transformando-os em aberrações, em monstros... como ele. Não, não como ele. Nada poderia ser pior do que acontecera consigo, ele de fato era um amaldiçoado. Mesmo assim desejava viver em paz e falhou inúmeras vezes ao tentar tirar a própria vida. Então conseguiu uma maneira de ficar longe dos seus instintos e aprendeu que onde não há ninguém não há como haver morte, exceto a sua. E esta ele aceitava de bom grado desde que não fosse por suas próprias mãos.

A fome não se saciava com os enlatados que encontrava nas despensas, todos saiam e esqueciam coisas e quando voltavam nem se lembravam de como as coisas estavam. Seria um sonho viver ali para sempre, no frio, na luz que ardia os olhos ao se refletir na neve. Pensou inclusive em ir para Norilsk viver meses sem o pesadelo da noite. Porém ele sabia que não podia se sentir confortável demais. Uma hora a noite chega e quando ela vem a Besta iria tentar enganá-lo a se descuidar e liberá-la uma vez mais. E ele havia prometido que isso jamais iria acontecer novamente. Se não pudesse agrilhoar seu demônio interior, dessa vez ele apertaria o gatilho do rifle e daria cabo de sua vida de uma vez por todas. 

A fome não deixa pensar direito. É carne e sangue que ela demanda. Então ele vai checar suas armadilhas. Quem sabe hoje ele não teria sorte? Horas se passam e nada. Os animais pressentem sua presença, seu cheiro, entendem que há um predador na área e fogem. A natureza sente seu rastro que macula o ar gelado, ele, a coisa que não deveria existir. Então, sobra caçar. O rifle está carregado, falta encontrar um bom ponto na floresta onde o vento não o denuncie para finalmente se saciar.

A espera é longa, sem se mexer, aguardando. A cabeça conjecturando possibilidades, considerando hipóteses, memórias de uma vida toda estraçalhada deixada para trás voltando como fantasmas para assombrar. Sem descanso de dia ou de noite ele está sempre a um passo de perder o controle, de enlouquecer. Eles nunca deixam seus pensamentos e ele nunca se perdoará pelo que fez. Mesmo que não tenha sido de fato ele, mas o outro que o habita.

Finalmente um cervo surge e ele camuflado na neve se prepara. Mira sem usar luneta, prende a respiração e atira. Ele se lembra da história do "Morte Branca", o soldado finlandês e maior franco-atirador que já existiu. Como ele, sua habilidade em caçar e matar era lendária, mas não com o rifle. Com as próprias mãos.

Um tiro rasga o ar e acerta em cheio o coração do animal que cai sem entender de onde veio a morte. A presa sangra na neve e ao se aproximar e sentir o cheiro do sangue suas mãos começam a tremer. Ele respira fundo o ar que chega a machucar os pulmões por causa do frio. Controle é tudo, mas a cada noite fica mais difícil. Hoje é um daqueles dias que ele não consegue estar no controle por completo. 

De repente ele se joga no chão e rasteja selvagemente para a carcaça e bebe o sangue ainda quente que escorre por sua garganta e morde a carne crua sentindo a fibra dos músculos se romperem em seus dentes. Um deleite. Nada no mundo será tão bom e tão cruel quanto ceder aos seus instintos mais básicos e selvagens. E é neste momento de fraqueza e loucura que ele escuta com seus sentidos aguçados alguma coisa na floresta. E sua alma toma um choque. 

Ele vê uma criança assustada e suja atrás de uns arbustos logo a frente. Os mesmos olhos grandes como o de seu filho e a lembrança de desmembrá-lo e sentir o gosto de sua carne macia e doce lhe deixa alvoroçado. As grades da prisão interior se rompem e a criatura toma controle. Ele avança em quatro patas rapidamente para um banquete voraz e o horror no rosto inocente ressurge para assombrá-lo mais uma vez. Ele jamais vai ser capaz de se perdoar pelo que fez com seu filho. 

Finalmente acorda. O pesadelo passou. O gosto na sua boca é recente, mas pode ser apenas a lembrança do pecado tentando lhe seduzir. Esta será uma noite de lua cheia e durante as poucas horas do dia ele terá que tomar uma decisão. Será hoje que apertará o gatilho? 

Enquanto não se decide a fome lhe faz começar tudo de novo sem realmente nunca saber o que é realidade e o que é sonho, vontade ou lembrança. 

segunda-feira, 9 de julho de 2018

"A Aparição" - Capítulo IV


A noite veio e com ela a terrível tempestade. As gotas empunhadas pelo vento eram navalhas a cortar a pele. As fardas remendadas grudavam no corpo enquanto as botas afundavam na lama. As mãos tremiam e os dentes batiam sem controle. Os soldados se reuniram lado a lado para se aquecer embaixo de coberturas improvisadas. A água fazia o equipamento pesar ainda mais, cansando o corpo e quebrando o espírito. Enquanto a chuva caísse a batalha teria que esperar.

Os soldados de São Paulo, jovens universitários inspirados pela paixão da luta pela liberdade mal sabiam o que esperar da força sulista. Iludidos sonhavam com vitória.

Mesmo esperando a chegada do trem de Getúlio com o grosso do exército os sulistas já haviam instalado sentinelas e canhões na margem oposta do rio Itararé. Os números eram de três soldados sulitas para um paulista. Os golpistas aguardavam ansiosos uma trégua da tormenta para poderem lançar seu ataque. Eles varreriam aquela cidadezinha do mapa de vez e adicionariam sangue à receita da política Café com Leite que até então vigorava no país.

Assim fora anunciado aquele embate: como a maior batalha das Américas. No entanto a verdade é que se esperava um massacre. São Paulo fora deixado sozinho para enfrentar as forças do sul e só o seu orgulho lhe impedia de desistir. Enquanto isso os civis fugiam com medo. As famílias que não puderam partir se trancavam nas casas. As ruas de terra e paralelepípedos estavam desertas. Não ouvia-se nada na até então agitada estação de trem. Uma tensão invisível era sentida por todos. Tratava-se de um estado de sítio contra um vilarejo que aguardava ser dizimado, destruído, que iria se tornar cinzas como se falava no rádio. Todos sabiam que seu fim estava próximo. A chuva era a única coisa que adiava o inevitável.

Nada era pior entretanto do que a vida nas trincheiras. Lutar-se-ia aos moldes da Primeira Guerra Mundial: cada trincheira era uma cova improvisada para os combatentes que nela aguardavam seu destino. A tática que poderia auxiliar o lado paulista era a mesma dos trezentos de Esparta nas Termópilas que usaram o terreno a seu favor para reduzir a vantagem inimiga em números os forçando a cruzar uma única passagem estreita e encará-los de igual para igual. Existiam poucos acessos através da Barreira – o abismo que divide os Estados de São Paulo e Paraná – e avançar por eles diminuiria  a vantagem dos soldados gaúchos. As águas revoltosas do Rio Itararé seriam o descanso final dos combatentes de ambos os lados. As famílias não reaveriam os corpos de seus filhos, aquela batalha custaria tudo.

Após longas e custosas horas de tempestade os soldados estavam encharcados, exaustos e gélidos. Ao cessar o dilúvio eles se prepararam para iniciar a batalha tão ansiosamente anunciada, derrotados antes mesmo de lutar. O espetáculo não podia parar e o palco estava pronto para o sacrifício em prol do entretenimento midiático.

Contudo ao invés de bonança um véu se ergueu do Itararé cobrindo toda a região. Uma névoa mística que transformava o campo de batalha em uma dimensão paralela, fantasmagórica e sobrenatural criando um novo entrave para o combate direto. As mãos procuravam as armas, os dedos se aproximavam dos gatilhos dos rifles, as baionetas eram mantidas em riste, as adagas preparadas para enfrentar o que quer que surgisse ou saltasse daquela nuvem fria e poderosa que se espalhava das profundezas do leito do rio até o mais alto dos morros do cerrado propiciando camuflagem perfeita para um ataque surpresa. Aquela era uma oportunidade única para os inimigos rastejarem escondidos até as trincheiras do lado paulista e surpreenderem seus inexperientes combatentes os rendendo e fuzilando à queima-roupa. Os estudantes estavam em desvantagem numérica e estratégica e os comandantes sabiam disso. Alguém precisava se certificar que as sentinelas inimigas continuavam imóveis.

 Um soldado das trincheiras mais avançadas foi designado para investigar em meio à escuridão e o vapor a posição inimiga e ele mesmo sabendo que aquilo provavelmente custaria sua vida não se negou em cumprir seu papel para defender o país e a democracia. O patriotismo era o seu coveiro e a ignorância seu escudo. A mensagem dos comandantes era clara e com abraços de admiração dos colegas ele se despediu e pediu para que dissessem à sua mãe que ela se orgulhasse de seu filho e que os conterrâneos lembrassem seu nome. Ali nasceria um mártir da liberdade, um herói nacional.

Sozinho ele adentrou esgueirando-se por entre o arame farpado a terra de ninguém que separava a maior passagem que ligava as margens do Rio Itararé e dividia os Estados do Paraná e São Paulo. Quando ninguém podia mais ver seu rosto ele finalmente se permitiu rolar as lágrimas que até então aprisionara. Como um condenado que sobe para o cadafalso ele caminhava para encarar seu destino final.

Nova espera mais cruel do que a anterior se sucedeu ao aguardar o soldado raso que não retornava com notícias para o front. Nenhum tiro era ouvido para mostrar quantos passos ele teria dado antes de ser abatido. Será que ele teria fugido? Ou pior, será que ele teria sido rendido pelos gaúchos?

Não, ele não era um covarde e jamais cairia sem lutar. A hora mais escura que antecede a alvorada se aproximava quando finalmente o rapaz retornou cambaleando como um regressado dos mortos o que fez os seus colegas quase o alvejarem o confundindo com um inimigo. Seus olhos estavam arregalados e sua boca aberta deixava escorrer saliva em uma expressão patética de pura ausência de consciência. Era como se o seu sistema nervoso devido à exaustão e pressão tivesse simplesmente se fechado deixando apenas as capacidades motoras básicas ativas. Ao ser resgatado ninguém conseguia fazê-lo falar e tão pouco parecia que ele havia feito contato com o inimigo, era mais como se ele tivesse visto algo inexplicável, sobrenatural e tivesse sucumbido ante a presença do que quer que tivesse se apresentado a ele. Adentrara um estado de catatonia quase que absoluta. Estava preso em seu mundo interior, perdido em uma batalha própria de onde nunca mais conseguiria sair o mesmo.

O levaram para longe da área de combate e sem condições para tirá-lo do front até o dia raiar despacharam-no para a gruta para aguardar por ajuda médica. Até então nenhum tiro havia sido dado quando o deitaram aos pés do lago natural da gruta da Barreira sob os olhares das andorinhas escondidas nas reentrâncias das paredes. Havia um religioso na tropa que ficou com ele velando seu corpo porque sua mente estava em algum lugar muito longe dali e era mais do que certo dizer que onde quer que ela percorresse, claramente sofria. Seu semblante agoniado e feições retorcidas denunciavam um suplício absurdo. O que o soldado devoto relatou para as autoridades depois foi totalmente apagado dos registros militares.

O rapaz despertou de seu estado exatamente quando os raios de sol adentraram a abertura do alto da gruta no lago. Ele abriu os olhos lentamente e ao ver tal cena disse avistar naquela luz a imagem de uma mulher e que ela teria lhe revelado em sonho o fim dos tempos. O religioso viu o rapaz começar a falar em várias línguas desconhecidas e reconheceu ao menos entre elas uma, o francês, e percebeu que ele sussurrava implorando para que lhe matassem. Por conhecer a história de Nossa Senhora de Lourdes o religioso relatou que o soldado teria tido uma revelação semelhante à menina francesa interpretando à sua maneira o acontecido. O religioso que depois acabou por se tonar ateu omitiu por conselho dos seus superiores todo o horror que vira estampado nos olhos do jovem que cometeu suicídio no manicômio que fora internado logo depois. A descrição da mulher na luz foi apontada mais tarde pelos arquivistas do processo na ditadura de Getúlio por se assemelhar em muito ao perfil de Marie Foiz, a argelina procurada pelo governo francês que teria fugido na companhia do marido para a gruta no começo do século. Uma coincidência insólita, apenas, concluíram já que ela e o marido tinham sido dados como mortos há anos pelo governo francês que foi devidamente consultado.

A cidade de Itararé no fim foi poupada da batalha e ridicularizada pela História por ser o centro da revolução que se encerrou sem disparar sequer um tiro. São Paulo se rendeu às forças de Getúlio que se tornou Presidente no Brasil ao pisar na estação ferroviária Gare Sorocabana de Itararé.

O boato sobre a visão ocorrida em 1930 durante a tensão das forças nas margens do Rio Itararé foi a semente do tido milagre até hoje repetido e relatado por fiéis da aparição de Nossa Senhora de Lourdes na gruta da Barreira. A história ganhou tamanha proporção que em 1939 uma estátua foi entronada sobre o lago onde na luz que adentra da abertura na cobertura da caverna dizem ser possível ver a tal figura feminina.

Até hoje romeiros visitam e oram para o que quer que habite a gruta reforçando a existência através dos tempos de uma força misteriosa que emana das águas e das profundezas. A presença de algo inexplicável na gruta é inegável e cabe a cada um tirar suas próprias conclusões se é que é possível para nós compreender o que quer que seja que fez daquele lugar sua morada.

quinta-feira, 7 de junho de 2018

A Sabedoria do Perdedor




Beije a lona, lamba as suas feridas
Você sabe que ninguém ganha sempre
Por favor aceite que erros não são pecados
Meu querido, não há vergonha em perder

Vista as suas cicatrizes como medalhas
Falhas são troféus para serem exibidos
Pelo menos você está tentando e lembre-se
A vida é sua para viver do seu jeito

Leva tempo para aprender
Falhando com orgulho você precisa continuar
Eu sei, eu sei que dói
Se não te mata, te deixa mais forte

Aproveite a chance, assuma o risco 
Qualquer consequência é melhor que não viver
Não perca tempo, se arrependa do que você fez
Nunca do que poderia ter sido

Vista as suas cicatrizes como medalhas
Falhas são troféus para serem exibidos
Pelo menos você está tentando e lembre-se
A vida é sua para viver do seu jeito

Leva tempo para aprender
Falhando com orgulho você precisa continuar
Eu sei, eu sei que ainda dói
Se não te mata, te deixa mais forte


segunda-feira, 12 de março de 2018

O CÂNTICO DOS DECAÍDOS

Eu quero me livrar da sua inocência
O Paraíso está perdido e nós também
Desplugar as suas asas com os meus dentes
Eu não vou fazer suavemente ou gentilmente
Aqui na Terra
É assim que os animais amam e vivem...

Mordendo e rosnando, gemendo no escuro
Beijo de cuspe, lambendo, colocando com força
Nós fodemos como cães, então vamos uivar
Não há escapatória da insanidade
Deixe-me te encher de mim

Se nós uma vez voamos
Agora nós rastejamos
Nós não temos mais ninguém
"ELE" só nós deixou cicatrizes
Nós vagamos na sujeira
Com pensamentos mais sujos ainda
É um inferno vivo
Do jeito que nós amamos...

Mordendo e rosnando, gemendo no escuro
Beijo de cuspe, lambendo, colocando com força
Nós fodemos como cães, então vamos uivar
Não há escapatória da insanidade
Deixe-me te encher de mim

terça-feira, 6 de março de 2018

O CONCEITO DE AMOR


O meu país nasceu do estupro
Filhos e filhas de escravos
Descobertos por acidente
Explorados sem vergonha

Nós fomos criados e pilhados e abusados
Até nós chegarmos aqui, então nós não estamos nem um pouco próximos
De entender o conceito de amor
De curar as feridas daqueles
Que machucamos ao longo da estrada

Soldados assediando crianças
A resposta para o cidadão de bem
Nós só entendemos violência
Nós só respeitamos violência
Isso é o que nos foi ensinado
Isso é o que ensinamos
A lição de injustiça se repete

domingo, 25 de fevereiro de 2018

Morra com memórias, não sonhos


Todos nós nascemos sozinhos e morremos sozinhos. E inquestionavelmente essas duas experiências vão envolver de alguma forma, dor. Mas entre estes momentos, embora a dor faça intrinsecamente parte da nossa vida, isso não precisa ser o que nos define. A vida é feita de escolhas e mesmo nós tendo tanto que já nos é imposto desde o começo, ainda assim as escolhas principais residem conosco. Por isso fazer o melhor com o que nos é apresentado é um desafio que cada um enfrenta e errar faz parte do processo. Cair nos ensina a termos força para nos reerguermos.

Eu particularmente tenho orgulho de cada fracasso, cada derrota, cada vez que fui vencido pois realmente sei que tentei. E nada deve ser pior do que sequer tentar. Beijar a lona faz parte da luta, mas para isso é preciso encarar o ringue. Se arriscar e assumir as consequências de suas escolhas. E cada tentativa, independente do erro, envolve o que há de melhor em nós: os nossos sonhos, a nossa esperança.

E embora possamos perder eventuais batalhas, a guerra jamais está perdida enquanto estivermos vivos. Ainda podemos nos transformar em pessoas melhores e refletirmos isso no mundo. O nosso legado é o que passamos para os nossos filhos e a verdade que carregamos dentro de nós. Podemos ser moldados por nosso meio ou usar as barreiras para vermos o quão longe podemos voar. Não é fácil, nada é, e se te disseram isso mentiram para você.

Sou professor e essa é a lição que a vida continua me ensinando: "morra com memórias, não sonhos".  

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

"O VISITANTE" Capítulo - III


O VISITANTE
Capítulo – III

O homem da lei tivera uma vida difícil. Nascera pobre, filho de um pai bêbado que jamais lhe ensinou nada exceto a suportar a dor calado. Sua mãe falecera no parto, sua primeira vítima. O menino jamais chorou ante os espancamentos e aprendeu a cultivar o ódio como uma ostra criando uma pérola através do sofrimento. Este sentimento de rancor e raiva lhe acompanhou desde então e a violência fora uma constante em sua vida. Aprendeu com os tropeiros a rudeza da estrada. A maneira de superar os traumas encontrada pelo menino foi se tornar um homem tão cruel ou mais quanto seu pai corroborando como proferira Nietzsche de que quem luta com monstros deve se precaver para que, no processo, não se transforme também em monstro. O delegado não tivera tanta sorte e se tornara exatamente um monstro como o que lhe moldou. Se tornou então ironicamente defensor da lei e da ordem quando a idade começou a pesar após escrever os capítulos mais sanguinários de sua história suja na Revolta da Degola ele desejava conforto e paz para se aposentar e desfrutar do inverno de sua existência sem preocupações. E assim fugindo da ira dos familiares de suas vítimas no sul refugiou-se atrás do distintivo da primeira cidade do sudoeste.

Em seu novo lar fez questão de honrar seu cargo e se tornou o pesadelo dos bandoleiros, ladrões de gado, ciganos, ex-escravos e índios que se recusavam ainda a acatar a autoridade da civilização e demais indesejáveis que pudessem atrapalhar ou incomodar a visão higienista que vigorava na época. Mendigos, vagabundos e desocupados desapareciam sem deixar vestígios. Bandidos eram soltos nos limites da cidade, mas jamais chegavam às cidades vizinhas. Sozinho ele estabeleceu uma pax romana à região jamais vista. E deu sua contribuição com a agricultura ao abrir muitas covas rasas adubando a terra com os pobres que tinham o azar de cair em suas garras. As famílias dos poderosos latifundiários que garantiram por meios escusos que a cidade fosse municipalizada tinham além do prefeito e o pároco como ferramentas de seu sistema um temível cão de guarda. E durante quase dez anos eles reinaram absolutos prosperando sobre a miséria alheia.

A tragédia deste paraíso maquiavélico se iniciara quando em uma tarde fria de algum dia de outono de 1901 uma carta inesperada chegou às mãos do alcaide. Nela o governo estadual transmitia um pedido feito pela França ao Brasil para investigar e identificar a localização ou qualquer informação sobre o paradeiro de um casal de procurados pela Legião Estrangeira que teria cruzado a fronteira para o Paraná quase dez anos atrás. Os Foiz eram naturais da Argélia e segundo a correspondência teriam praticados crimes hediondos inomináveis vinculados ao ocultismo no seu país de origem e no Velho Mundo. A investigação da gendarmerie alegava que os criminosos teriam partido para o Brasil após terem lido uma suposta troca de cartas secretas entre Saint-Hilaire e Debret onde ambos, botânico e pintor, trocavam confissões sobre as terríveis experiências que tiveram em uma gruta onde um rio havia aberto caminho entre as pedras próxima a um vilarejo no interior de São Paulo. O pedido se encerrava com uma ênfase no caráter urgente da questão ressaltando a exigência de extremo sigilo por se tratar de assunto referente a segredo de Estado. Qualquer menção pública ou atraso seriam punidos com o maior rigor possível e o governador em pessoa assinava dando o peso de sua rubrica à mensagem. Os favores concedidos na municipalização eram agora cobrados ferozmente colocando em risco a boa relação entre a política da elite provinciana e o governo. E pego no fogo cruzado estava o delegado que carregaria o peso de atender aos anseios internacionais e responder a contento sua pátria e livrar seus patronos municipais da fúria de seus superiores estaduais.

Contudo não havia pistas para se seguir nem rastros para encontrar. Os criminosos não sabiam sobre eles, nem os nômades ou os estrangeiros que chegavam para repor a mão de obra barata perdida com o fim da escravidão. O padre vasculhara os pecados mais sombrios de seu rebanho em busca de respostas e nada descobrira sobre os argelinos. Em nenhuma cidade e vilarejo próximo havia quem soubesse alguma informação sobre os Foiz. O delegado usou de todas as suas artimanhas: chantagem, suborno, ameaça e tortura e mesmo assim não conseguiu descobrir coisa alguma. A camarilha instaurada entre os poderosos revirou seus contatos e o grupo dos fundadores do município que agia mais como um culto - um clube de elite com pretensões obscuras que nunca permitiu a admissão do delegado - fez tudo o que podia, consultando forças deste mundo e além e o silêncio continuou o mesmo.

O tempo foi passando descontentando os manipuladores que sentiam a cada dia a pressão aumentar. Mais cartas foram recebidas exigindo um parecer e depois de procurar em todos os lugares possíveis eles responderam a única coisa que puderam: que não era possível afirmar nada sobre a passagem dos Foiz e nenhuma informação sobre o paradeiro dos mesmos pode ser encontrada. Esta derrota caiu como uma praga sobre o delegado que teve o seu nome manchado irreversivelmente por sua incapacidade em cumprir sua missão. Ele perdera o cargo e extraoficialmente estava banido da cidade sob pena de ter um fim tão inconspícuo e não ortodoxo como ele garantira aos criminosos. Mais velho e cansado do que nunca sua velhice lhe mordia os calcanhares e a esperança de gozar de um fim de vida tranquilo fora por água abaixo.

O delegado agora novamente cidadão comum se viu obrigado a fugir das terras da fronteira sem deixar vestígios e segundo contam realmente houve quem o procurou com sede de vingança para lhe pagar a dívida de sangue dos prisioneiros de guerra que ele abandonou no sul, gorgolejando no próprio sangue com as gargantas dilaceradas. Isto corroborava sobre as lendas ao redor do seu nome, de degolador, porém ninguém soube do homem após seu desaparecimento no começo do século XX. Só boatos sobreviveram de seu fim e colecionando hoje informações é que é possível vislumbrar um pouco da verdade. E talvez, na luz de tal conhecimento, o que ficou na escuridão devesse assim continuar. Entretanto os arcanos da Europa não esqueceram sobre Lucien e Marie Foiz e o destino que eles teorizavam sobre o casal envolvia diretamente de forma fatídica o delegado de Itararé.

***

Os Foiz adentraram um mundo muito particular de pessoas que tropeçaram na verdade sobre o universo e que vislumbraram o que há além do véu da ignorância que nos cobre e protege. Para alguns, fora através de livros como o do árabe louco ou a peça de teatro maldita que este conhecimento lhes chegou. Para outros, foi a mais pura sorte e infelicidade. Seja como for para os que encaram tal magnitude de segredos as consequências são sempre profundas. Suicídio e perda da sanidade são as mais comuns. Mas os Foiz não só abraçaram tal verdade como procuraram mergulhar mais no conhecimento tentando se comunicar com as forças além da imaginação que dançam entre dimensões. Os arcanos tentavam impedir que pessoas como Lucien e Marie que se deparam com tais segredos abrissem caminho para estes seres ancestrais. Eles procuravam calar por qualquer meio necessário os mortais para que os deuses não percebessem que sabemos de sua existência e não voltassem sua atenção para nós.

No passado os homens primitivos cultuavam estas divindades, cidades e civilizações inteiras foram aniquiladas ao ousarem se ajoelhar aos Grandes Antigos. Atlântida e a Cidade Perdida de Z são alguns exemplos que sabemos dos que foram punidos por se sujeitarem aos deuses tentando barganhar com seu poder incomensurável. Várias tribos ao redor do mundo relatam em tradição oral e mais eventualmente em pinturas e escritas tais rituais para conjurar os poderes sombrios. Eles atendem aos chamados quando querem e de forma aleatória ou ao menos incompreensível aos nossos padrões e o resultado destes contatos é imprevisível. Para realizar estes rituais é comum o envolvimento de sacrifícios e oferendas e eles precisam ser feitos em lugares específicos, especiais, onde as leis da natureza são mais flexíveis e permitem que a realidade seja levemente alterada como um rasgo nos planos de nossa existência que acessa ao dos monstros desconhecidos. Tais locais são raríssimos e geralmente de difícil acesso rodeados de lendas de mau agouro. A energia transcende nestes santuários perdidos como nas pedras de Stonehenge, ligadas pelas linhas de Ley que os magos ingleses já supunham e que Alfred Watkins viria a descobrir.

Saint-Hilaire e Debret descobriram por acaso a gruta da Barreira, uma greta aberta pela força das águas na fronteira entre os Estados de São Paulo e Paraná próxima a cidade de Itararé. Eles ao retornarem para a França trocaram correspondências sobre suas experiências terríveis e os Foiz acabaram tendo acesso a estes documentos e escaparam para o Brasil fugindo da lei e dos Herméticos que queriam lhes impedir e partindo ao encontro de seu destino.

Navegaram escondidos em navios de carga e viajaram ao lado dos ciganos. Acamparam na gruta e fizeram seus rituais obscenos para nunca mais serem vistos. Este, todavia, não fora o fim dos Foiz e sim o começo de algo muito pior. E neste momento em que o delegado já não mais era delegado fazia anos e se escondia na região de Itararé dentro da mata, vivendo praticamente sem contato com mais ninguém que algo o visitou.

Só sabemos deste acontecimento porque foi encontrado o casebre onde o delegado se escondera no fim da vida e onde morrera e ali ele registrara em um diário o que se passara, pois não havia ninguém para conversar. Neste diário ele promete a si mesmo queimá-lo antes de partir para que a humanidade fosse poupada da revelação que lhe fora feita. Aparentemente para a sorte de estudiosos como eu ele foi incapaz de cumprir tal promessa.

Em uma noite febril, quando uma tempestade de proporções bíblicas fustigava a terra, pesadelos de memórias do passado assombravam a mente por um fio do delegado. Suas vítimas degoladas se aproximavam de sua morada caminhando em meio ao bosque deixando um rastro de sangue prontos para arrastá-lo até o inferno e a cada relâmpago eles que eram invisíveis exceto pelo sangue no chão e movimentação dos galhos surgiam da escuridão. Ele ouve do lado de fora coisas rondando, a agitação de seus poucos animais e os gritos abafados dos mesmos ao serem mortos, degolados, sendo deixados estrebuchando no chão. Até que enfim, algo bate à sua porta. O homem que nunca fora religioso se lembrou do Velho Testamento, das lições da missa quando seu pai o levava para passar as tardes na catequese – seu pai que era o demônio em pessoa e extremamente religioso, uma ironia da qual o delegado sempre se confundia entre rir e se entristecer – quando o anjo da morte visita os primogênitos do Egito para cumprir a ira divina. Outra vez, mais uma batida. E mais uma. Dizem que o diabo só pode adentrar aqueles lugares no qual é convidado. Sem mais esperanças de fugir de sua tragédia particular o homem sonhando com tal visita convida aquilo que lhe perturba a adentrar sua mente.

***

No início tudo era trevas. Até que as estrelas começaram a brilhar uma a uma no céu como furos em um tecido negro deixando passar uma luz doente e distante. A luz de estrelas mortas. Então a brisa tocou seu rosto e a sua consciência retornou lenta. Levantou-se do chão e percebeu onde se encontrava. De alguma forma ele estava na entrada da gruta da Barreira e sabia que tudo o que quis saber sobre o paradeiro do casal argelino e da verdade por trás de todo o mistério que envolvia aquela terra estava prestes a lhe ser revelado. O seu coração batia rápido no velho peito carregado de mágoas e rancor.

Um dos sentimentos que mais inspirou nos outros lhe invadia por completo: o terror. Mas era um terror ainda pior. O total medo do desconhecido. Ao estar prestes a descobrir a verdade é que se percebe a benção da ignorância. Para ele, no entanto, era tarde demais. Caso não entrasse naquela caverna ele sabia que estaria contrariando forças muito além de sua capacidade e a opressão lhe ameaçava até os ossos como se olhos do fundo de um abismo infernal lhe acompanhassem. Sem escolhas entrou para dentro do esconderijo de pedras.

Seus passos ecoavam na catedral da natureza. Do lado de fora as águas rugiam furiosas como bestas apocalípticas. Ali, iluminado por velas, ele reconheceu a figura de Lucien ajoelhado e no chão, Marie. O que até então ninguém sabia sobre o casal é que ela estava grávida e o parto fora feito naquele covil maligno onde olhos brilhantes de andorinhas curiosas escondidas em seus ninhos nas reentrâncias das paredes assistiam o homem trazer ao mundo seu filho das entranhas de sua mulher. Ao menos, foi o que o velho delegado pensou.

Sua presença parecia ser ignorada como se fosse um espírito testemunhando uma lembrança do passado. E o que aquele espírito, o que sua alma vira, nada no mundo poderia lhe fazer esquecer. O que Lucien retirou de dentro de sua mulher preso pelo cordão umbilical não era uma criança. Não há palavras para se descrever o horror que gritava incessante em agonia se debatendo nas mãos daquele homem. Lucien com uma faca cortou o cordão umbilical que ligava a mãe, ou melhor seria dizer: “hospedeira”. Marie parecia exausta, mas satisfeita por ter gerado a monstruosidade. Não obstante o sopro de vida daquela coisa foi breve e ela se silenciou antes que o casal pudesse entoar os cânticos profanos para evocar o Antigo que se enterrara abaixo do rio nas raízes do mundo. Estupefatos e desesperados Lucien atirou o ser nas águas que borbulharam ao tragar tal cadáver e com o próprio cordão umbilical enforcou a esposa que assentiu com um movimento de cabeça o próprio assassinato. Ao apertar o pescoço da mulher ele a encara nos olhos e cantava palavras ininteligíveis que soavam como facas contra os ouvidos.

Quando finalmente Marie perdeu o brilho no olhar depois de um momento que pareceu ter durado uma eternidade Lucien a arrastou até a margem das águas e a jogou sem remorso. Ele sorria em esperança de receber alguma resposta. E as águas se tornaram vermelhas como se o corpo tivesse sido devorado pelas correntes submersas e uma luz no fim da gruta que formava um túnel longo surgiu em um brilho amarelado. O homem estava satisfeito, aquela era a sua resposta. Um convite para conhecer o mundo além dos mundos. O portal estava aberto. A coisa abaixo mesmo inconsciente, estava desperta e havia aceitado o seu presente. Como o Messias nas Escrituras, Lucien caminhou sobre as águas em direção à luz no fim do túnel e antes de desaparecer como o brilho de uma estrela cadente ele olhou para trás e sorriu para o delegado que compreendeu que sua presença não era só sentida como prevista. Ele fazia parte do ritual. A testemunha do poder. Aquele que deveria anunciar para a humanidade que os que estivessem dispostos a se humilhar e comer a poeira e as cinzas de sua mediocridade seriam aceitos para servir ao “Caos Rastejante”. Bastava que profanassem seus filhos e assassinassem os seus amados quebrando todas as regras da natureza, da fé, da moral e da civilização. Eles eram insignificantes e deveriam se portar como tal ante ao desconhecido que brilhava como um Rei de Amarelo.

Tudo isso e muito mais foi registrado no diário pelo delegado assim que despertou em detalhes que são impossíveis de se repetir sem causar o mais profundo asco e repugnância. O delegado não iria jamais passar adiante o que o visitante lhe revelara porque sabia que isso apenas fortaleceria o obscuro ser que orquestrava a humilhação total de tudo. E como ele sabia que sua alma já estava danada, que a de mais ninguém fosse conspurcada por este conhecimento proibido e ignóbil. Se ao menos ele tivesse conseguido cumprir seu desejo de queimar tais páginas sua vontade em encerrar em si aquela história teria tido êxito.

Os mestres das artes ocultas enviaram seus próprios emissários para o nosso país e eles varreram a região até descobrirem o diário e o corpo do delegado e desvendaram o fim dos Foiz através deste documento que foi finalmente incinerado como queria seu autor. Só sabemos dele porque antes de ser entregue aos arcanos europeus os aldeões leram suas páginas malditas e reverberaram em sussurros as loucuras nelas contidas. Se os estudiosos místicos ficaram satisfeitos com a história contada pelo velho ex-delegado ermitão isso não há como saber.

Fora que outra questão permaneceu uma incógnita sobre quem haveria de ter cortado a garganta do homem e causado a sua morte. Concluíram sem muita reflexão que se tratara de um suicídio. Mas a forma escolhida de ceifar a própria vida ser a mesma que diziam ter sido a maneira que ele teria matado os prisioneiros inimigos na esquecida “Revolta da Degola” é um tanto quanto irônica. E a única lâmina encontrada que poderia ter sido usado para causar aquele ferimento fora encontrada longe do corpo, uma adaga com entalhes estranhos semelhantes aos encontrados recentemente em pinturas rupestres na Argélia.



segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

"A HECATOMBE ESTELAR" Capítulo - II


A HECATOMBE ESTELAR
Capítulo – II

Debret enfrentando a árdua estrada, exposto aos dissabores das intempéries acompanhado por várias bestas de carga e peões com muito esforço alcançou o selvagem rio Itararé.

Ao se deparar com o desafio natural que os paredões de granito propunham, improvisaram uma ponte com tábuas para vencer o desfiladeiro. As bestas eram guiadas uma a uma e somente um homem e um animal podiam passar por vez até o outro lado. Nesse trabalho um meninote que servia como batedor da expedição errou o passo e de repente escorregou gritando sem que ninguém pudesse evitar sua queda desaparecendo nas águas famintas. Aquilo mexeu com o ânimo de todos, ele era muito querido pela companhia. Continuaram a travessia cabisbaixos, cautelosos e em silêncio, até os cães e os burros pareciam enlutados.

Os homens então ao cruzar o penhasco pediram para seu patrão uma parada, Debret assentiu em respeito à morte do moleque em montar acampamento. Apearam em uma planície próxima ao desfiladeiro, contudo, dormir propriamente dito poucos conseguiram e muito mal. Além de ter que aproveitar a longa parada para evitar outras no futuro da viagem, colhendo lenha, enchendo os cantis, os cães pareciam farejar algo de ruim e não se calavam nem por um segundo, logo que roíam os ossos chupados que os homens atiravam a eles voltavam a ladrar agitados, impossibilitando a qualquer um o descanso merecido.

O violeiro da companhia percebendo que não iria adiantar continuar a tentar pregar os olhos foi se inspirando para cantar e contar histórias. Estava sentado junto ao fogo e as mariposas que o rodeavam lembravam fadas sombrias a lhe sussurrar cantigas de magia e mistério ao pé do ouvido. Coincidentemente ou não essas suas canções ora e meia se remetiam ao mote da meninice perdida, falando nostalgicamente sobre os tempos de infância e começo da vida adulta que se escorrem por nossos dedos quando menos percebemos. Reanimados pela música os homens cantavam e batucavam. Debret também vendo o quão inútil seria desperdiçar seu tempo tentando dormir, quase tranquilo pela calmaria do local, decidiu aguçar o olhar e se munir da paleta e pincéis para registrar o momento. Ao preparar suas tintas lembrou-se das pinturas milenares que descobriu nos paredões do Jaguaricatu onde homens primatas reverenciavam um sol negro e inspirou-se para, como seus ancestrais, pintar os costumes de seus contemporâneos e pintou com detalhes um perseverante e exausto carregador, o único, babando debaixo do chapéu. Registrou também a maneira de prender as bagagens nos animais de carga e a vista bucólica, triste e perene sob o céu claro e onírico de Itararé.

Talvez fosse a estafa ou a energia estranha que pairava, impossível dizer por certo a origem da visão que acometeu Debret. A brisa sussurrante o incomodava, quase podia ouvir vozes nela. Das sombras e trevas sentia um calafrio como se algo o rodeasse espreitando em silêncio. Invejava a ignorância dos peões que celebravam o momento, solenes pela perda recente, mas encantados por terem a oportunidade de descansar e se lembrar do amigo. Ao observá-los viu uma pequena coruja cinzenta cruzar o acampamento e levado por seu trajeto fitou para dentro da mata adiante onde vaga-lumes fosforescentes iluminavam precariamente uma sombra. O vulto possuía uma aura verde-feérica. Foi tudo muito rápido, somente um breve e efêmero instante, contudo o suficiente para que o olhar recriminador de angústia e dor da figura perturbasse Debret ao ver novamente o rapaz morto afogado há pouco.

Tremia em espasmos involuntários, suas mãos não detinham mais a suavidade e a maestria adquirida por toda uma vida dedicada à arte de pintar. Suava frio, embora sua pele ardesse, o coração parecia querer romper seu peito. Sentiu dedos leves passeando por sua nuca e o hálito quente do rapaz a lhe acusar ao ouvido de tê-lo abandonado. Veio a dor, mais terrível que qualquer coisa que o francês já tivesse sentido antes. Podia ouvir a respiração ofegante do rapaz em desespero enquanto tentava em vão lutar contra a morte.

Em febre, não mais podendo sustentar o corpo caiu em convulsões ouvindo o lamento dos mortos. No chão, sentia a terra pulsar como se abaixo do acampamento, enterrado no inferno, um gigantesco coração estivesse batendo, lento, despertando enquanto o seu próprio diminuía o ritmo. Vozes e som de águas batendo contra galerias subterrâneas enchiam os ouvidos de Debret que estava no limite de sua sanidade. Rapidamente os homens vieram ajudar, mas não havia nada que pudessem fazer. Os homens se agruparam ao seu redor sem saber o que fazer para ajudar o patrão.

Ao abrir os olhos lá estavam as constelações no céu escuro, porém o que Debret percebia era a imensidão das trevas entre os pontos brilhantes e não mais a beleza das estrelas. Com dificuldade levantou-se e descobriu-se sozinho, não havia sinal do acampamento ou de sua companhia. Um vento frio soprava e nele ele ouviu vozes, ao longe. Cânticos e gritos, encantamentos, reza, não sabia ao certo como chamar aquilo, só sabia que aquilo lhe perturbava.

Sem escolha resolveu seguir as vozes que o atraíram para a margem do rio que anteriormente cruzara. Porém o terreno estava diferente, as águas não corriam entre os paredões de pedra e sim sobre a planície brilhando como se fossem feitas de escamas reluzentes. E próximo ao rio fogueiras ardiam, enormes e em seu redor sombras dançavam em transe, enlouquecidas entoando palavras que Debret não compreendia, mas temia. Ele se esgueirou entre as pedras até mais perto e avistou uma linda mulher nativa que chorava e gritava raivosamente com o corpo de um guerreiro nos braços. Ela o cobria de beijos como uma amante e cuspia em direção ao rio.

Ouviu então o berro de animais, eram cabras selvagens que os homens daquela tribo bizarra sacrificavam sem escrúpulos. Eles se banhavam com o sangue dos animais e vestiam a carcaça deles e assim começavam a agir como bestas, urrando e se debatendo como feras raivosas. Debret não entendia o que via, sabia contudo que corria perigo e que deveria partir, mas não conseguia sair do lugar.

O chão estremeceu com um abalo sísmico como se algo tivesse implodido sob a terra. Então a poeira se ergueu e a terra começou a se rasgar no meio abrindo-se em um abismo. O rio despencara para dentro daquela escuridão jorrando água para o alto. Os índios gritavam e se jogavam contra o chão, corriam alucinados e rogavam aos céus gritando: Itararé, Itararé!

Debret com muito esforço conseguiu se afastar daquilo que ele descreveu para Saint-Hilaire como uma cena dantesca - os índios em desespero pararam de dançar e começaram um suicídio coletivo. Eles cortavam as próprias gargantas como haviam feito com os animais e manchavam o solo de vermelho tombando às centenas.

Quando chegou a uma distância que considerou segura olhou para trás e viu algo ainda mais aterrador. Os céus se abriam e tentáculos colossais se agitavam daquela ferida, ele não podia acreditar no que via. Choviam brasas incandescentes carbonizando tudo que estava por perto, incendiando a mata e toda a tribo. Ventos tão fortes quanto os de um furacão espalhavam a fumaça e as cinzas. Debret só conseguia ouvir os gritos de dor e as palavras sendo repetidas incessantemente: “Itararé, Itararé” quando o som de algo caindo e explodindo no chão o acordou.

Quando Debret despertou sua companhia desacreditou ao vê-lo vivo e bem. Ele estava desnorteado e não sabia explicar o que tinha se passado, os homens diziam sentir a presença do mal com as garras fincadas em Debret.

Seguiram depois para a aldeia de Itararé e lá Debret aprendeu que não fora o primeiro francês a visitar aquelas paragens e que assim como ele, o botânico Saint-Hilaire também havia contraído uma curiosidade inconveniente sobre o rio. Debret desistira das incursões pelo interior do Brasil logo depois, cada vez que fechava os olhos via a imagem da destruição da tribo e rememorava o terror que ainda carregava consigo na memória.

Ao retornar à França enviou cartas para Saint-Hilaire perguntando o que ele descobrira no Brasil, na pequena aldeia próxima ao rio Itararé. Debret precisava de um cúmplice para poder dividir suas experiências e entender melhor o que havia se passado e o que Saint-Hilaire lhe revelou foi a história por trás da visão – a lenda do rio Itararé.

Os dois acabaram por se tornar amigos e trocaram várias cartas em segredo, até a morte de Saint-Hilaire. Debret sentiu muito a perda do amigo, principalmente porque Hilaire confessou-lhe que via além do véu que cobria seus olhos ao se aproximar da morte e sabia que o demônio que descansava abaixo do rio maldito o esperava e que Debret seria o próximo.


“_O Caos Rastejante nos aguarda” - escreveu em sua última carta. Debret pouco antes de falecer pediu que queimassem todas as cartas, queria esquecer aquela história e partir em paz, mas seu criado não o obedeceu e guardou para si as correspondências visando vendê-las e obter algum lucro em um futuro incerto sem seu senhor.

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

"A ORIGEM DO MAL" Capítulo - I



A ORIGEM DO MAL
Capítulo - I

Depois de estudar as sementes, flores, animais e as curiosas pinturas rupestres de mais de dez mil anos atrás na região do rio Jaguaricatu - em vinte e cinco de janeiro do ano de mil oitocentos e vinte chegou à aldeia de Itararé o botânico francês Auguste de Saint-Hilaire. Sempre acompanhado por um índio botocudo, seu fiel companheiro que lhe servia como guia, tradutor, mercenário e conselheiro, Saint-Hilaire ficou por algumas semanas nas três sesmarias aproveitando a hospitalidade daquele chão antes de seguir para Itapeva da Faxina. Seus cadernos continham anotações esmiuçadas da cultura e costumes e desenhos em mínimos detalhes das plantas, Hilaire anexava aos herbários esses documentos e diários que de tempos em tempos eram despachados para além-mar.

Porém quando Saint-Hilaire finalmente estava pronto para partir seu companheiro caiu de cama subitamente. O índio tinha febre alta e delirava aterrorizado balbuciando sobre o inferno e repetia incessantemente um nome: “Uariri”. Seu semblante forte tornara-se rapidamente decrépito, doentio, a peste que lhe acometera era de uma sordidez tamanha que aparentava ser efeito de algum veneno ou de uma mandinga ou macumba pesadas, como diziam os nativos. Os capuchinhos ofereceram ajuda, mas não podiam fazer muito pelo índio, só lhes restava oferecer o favor de lhe encomendar a alma. Desesperado já que o índio por diversas vezes havia lhe salvo a vida, Hilaire sentindo-se obrigado a pagar sua dívida de gratidão recorreu ao povo, já que os religiosos se negavam a falar a respeito na menor menção do nome da mulher misteriosa. Foi ouvindo a população que Hilaire descobriu quem era Uariri.

Uns diziam que ela falava com os espíritos, lia mãos e até adivinhava o futuro. Outros contavam em sussurros, amedrontados, que ela rogava maldições, preparava poções de ervas e dormia com o diabo. O mais velho dos moradores da vila contava que já ouvia falar das histórias do espírito da velha bruxa que morou na gruta do rio Itararé ainda criança. Contava ele que mesmo antes do primeiro tropeiro pisar aqui ela já guardava a caverna. Mesmo temerosos, o povo antigamente, dizia-se, ia até ela muitas vezes na calada da noite para pedir ajuda. As escravas que engravidavam dos seus patrões e temiam por suas vidas por dar a luz aos bastardos levavam as crianças para ela criar “anjinhos”, os batizando nas águas do rio Itararé e nelas os afogando. Ao ouvir esses relatos Hilaire entendeu a razão dos senhores do solar não quererem falar a respeito do assunto, ele sentia que ao mesmo tempo que aquelas histórias causavam pavor, também traziam embaraço por envolver casos vergonhosos da história do vilarejo. Contava a tradição popular que para cada andorinha revoando no crepúsculo procurando abrigo na gruta do rio uma criança havia sido morta pelas mãos da anciã. Hilaire estava aturdido e sem alternativas decidiu ir investigar em segredo a tal gruta onde a bruxa indígena vivera.

Sem avisar ninguém partiu sozinho do solar na hora mais negra da noite no lombo de sua mula. Apeou, amarrou sua montaria a uma árvore retorcida e continuou a pé. Ao galgar aqueles degraus feitos pelo prazer do vento e da água pensou ter ouvido o choro de crianças. Balançou a cabeça, aqueles depoimentos dos simplórios pareciam estar afetando seu julgamento impressionando-o como nada antes o fizera.

Finalmente alcançou o fim daquele declive, uma caverna onde um rio barrento e propositalmente calmo escondia segredos do passado em suas entranhas turbulentas. O luar descia por uma abertura do cimo da gruta iluminando as águas que pareciam chamar por Hilaire. Elas o atraiam, ele encantado e amedrontado caminhava lentamente sem conseguir se conter até a borda da gruta para olhar dentro do rio. E assim, de joelhos, vidrado pelo rio ele viu no espelho d’água um vulto atrás de si, a mulher de que se falava na aldeia, em seu rosto a idade e a loucura estampadas. Em um segundo, sem jamais saber se fora por descuido ou se de fato algo o empurrou, caiu dentro do lago frio da gruta do rio Itararé. Imerso naquelas águas em um batismo forçado, algo parecia lhe puxar para baixo, chegou a imaginar tentáculos lhe puxando, talvez. Em meio aos ruídos ferozes da corrente de água enfurecida contra as rochas uma voz pareceu lhe falar.

Cortava esse chão, como uma serpente d’água, um rio poderoso e cheio de peixes. Neste rio os jovens se banhavam e pescavam, o povo havia conseguido domar o espírito bravio e selvagem daquela víbora e ninguém temia as águas. As coisas das bestas às pedras possuíam espírito próprio e o do rio sibilava quando ninguém podia ouvir, com uma fome que não sabia saciar. O rio apaixonara-se pelo mais belo dos guaianazes, Taiguara, um destemido guerreiro de pele de suçuarana querido por todos, do morubixaba ao pajé.
O rio então moldou em segredo as pedras de seu leito deixando-as pontiagudas como adagas e cantou imitando a voz de seu amor, Uariri, chamando Taiguara. Ele seguiu aquela voz e ao ver o rio, mergulhou nele para não mais voltar. As águas, antes calmas e belas, tornaram-se vermelhas e violentas, o espírito consumira Taiguara e o pervertera, viciando-se na morte. Serpentes agitaram-se de seu interior e vapores funestos se ergueram cobrindo as estrelas. O povo ao perceber o que acontecera chorou e amaldiçoou o rio pedindo para Tupã puni-lo.

O senhor dos céus respondeu fazendo o chão tremer derramando fogo do firmamento. Tupã mandou uma estrela negra que se enterrou na terra. O espírito do rio cavou as terras entrando por dentro das pedras para se esconder, temendo a ira divina, mas a estrela se escondeu abaixo dele. Os índios apavorados gritavam – Itararé, Itararé – avisando Tupã que a serpente já havia se escondido e que de nada adiantaria Tupã liberar sua fúria sobre a terra. O deus então amaldiçoou o povo que se deixara enganar por um espírito tão vulgar e que lhe conjurava quando estava aflito, porém não confiava nele para lhe proteger. Todos os guaianazes foram exterminados pelo fogo e pelo vento, só Uariri fora poupada para velar seu amor, para guardar o rio e para impedir que a semente da estrela brotasse da terra e trouxesse o fim do mundo.

Quando finalmente Hilaire conseguiu voltar para a superfície a sensação era de que havia permanecido uma eternidade submerso. Tossia e chegou a escarrar sangue, engolira muita água do rio, como um feto no ventre da mãe sentia-se conectado de uma forma inexplicável com o passado e o mistério do Itararé. Uariri poderia finalmente descansar porque a sua tarefa fora passada adiante.

A correria dos empregados da casa acordou Saint-Hilaire de seus sonhos. Ao ver o tumulto percebeu que pareciam todos surpresos e temerosos. Rezavam e cochichavam tolices, entreolhando-se abismados. Hilaire seguiu a criadagem e encontrou seu companheiro de pé, como se nunca tivesse caído de cama. O bugre lhe agradeceu pelo favor de joelhos, ele sabia a verdade, o que o francês tinha feito para salvá-lo da influência dos poderes sombrios. O índio nunca mais fora o mesmo, ele desde então e até o fim das expedições se manteve reservado, taciturno sem nunca comentar nada, angustiado por ainda sonhar com o que lhe fora revelado no delírio da febre. Saint-Hilaire não sabia separar o sonho da realidade do que acontecera naquela noite e decidira guardar para si aquela experiência ao mesmo tempo incrível e terrível.

Prosseguindo para a aldeia seguinte, Itapeva da Faxina, uma lenda indígena sobre aquela região de solo irregular e repleta de morros fez Hilaire entender melhor o pesadelo que lhe fora revelado. Os índios acreditavam que abaixo daqueles montes uma serpente gigantesca descansava e moldava as ondulações no terreno e que a cada ato desmedido de um membro da tribo o monstro ficava mais desperto até o momento que despertaria de vez para vir à tona e engolir a tudo e a todos.

Ao ouvir a lenda de uma tribo similar a que habitou as planícies de Itararé tudo fez sentido. Em um instante a memória das revelações voltaram de uma só vez fazendo Hilaire desmaiar. Sua consciência subjugou seu corpo, a verdade era terrível demais.

Anos mais tarde nas suas últimas expedições no nordeste, ele aos poucos foi recordando e registrando cada lembrança até montar o quebra-cabeças: as pinturas feitas por homens primatas que viveram há milhares de anos nos paredões do Jaguaricatu de um sol ou algo parecido onde selvagens se curvavam em adoração e temor, a lenda da estrela negra que havia sido mandada em forma de maldição divina pelos deuses e que caíra abaixo do rio Itararé e a lenda da serpente gigante que se escondia abaixo de Itapeva formando os morros do lugar eram todos fragmentos de uma mesma história. Tratava-se de um acontecimento antes do homem moderno, a queda de um objeto cósmico que promoveu uma destruição de proporções épicas, tanto que os povos antigos criaram um mito apocalíptico para explicar o evento sobre uma inteligência perversa de poder incalculável que permanecia enterrada na terra adormecida sonhando com destruição e que se alimentava do sofrimento e da dor dos insignificantes homens que perambulavam sobre a superfície.

Hilaire absorto decidiu quebrar o silêncio que impusera a si mesmo sobre a enfermidade e recuperação inexplicáveis de seu amigo botocudo e pôs-se a escrever obcecado. O índio tentou o impedir, dizendo que a praga que lhe acometera era um aviso sobre o que aconteceria caso a verdade fosse revelada, o rio enganara Hilaire, ele queria ser conhecido e reverenciado e Uariri tentou impedir o estrangeiro de cair nos encantos do mal que habitava Itararé falando com o botocudo em sonhos. Não obstante foi em vão, na primeira chance que teve Hilaire despachou entre os seus cadernos e diários páginas e mais páginas sobre a lenda do Rio Itararé.
Entretanto o navio que singrava o Atlântico rumo à Europa levando a carga de Saint-Hilaire foi pego por uma terrível tempestade. No meio da tormenta, relatou um sobrevivente, um raio atingiu em cheio o mastro da nau provocando um incêndio em alto-mar e o esmagando contra um recife de corais ainda na costa brasileira. Hilaire ao saber do acontecido tremeu dos pés a cabeça, pois nunca conseguira explicar o que acontecera na gruta naquela noite em Itararé e esse naufrágio só vinha a alimentar a sua imaginação de temores insensatos.

Aterrorizado a cada vez que pensava a respeito, decidira não retomar mais o assunto, nunca mais, sua sanidade dependia disso. Temia ter a lógica sobrepujada pela loucura. O botocudo desacreditado por Hilaire não abandonou seu mestre que logo encerrou suas viagens. Hilaire aprendera que o silêncio sobre o que não se compreende é a única saída para se resguardar a sanidade e teria se calado até o túmulo se Debret, seu compatriota, não o procurasse em mil oitocentos e trinta e um na volta da Missão Artística para lhe falar sobre a sua passagem por Itararé.


sábado, 13 de janeiro de 2018

"A SEMENTE" - Prelúdio


A SEMENTE
Prelúdio

Ninguém sabe ao certo quando o homem branco descobriu a passagem mais acessível entre os paredões de granito do Rio Itararé que corroeu seu leito transformando seu caminho em um abismo. Os bandeirantes podem ter chegado perto ao explorarem o interior de São Paulo, contudo os indígenas selvagens hostis aos grilhões e à cruz podem ter conseguido em uma primeira tentativa impedir que a semente da civilização fosse plantada naquelas matas virgens. Para muitos esta reação violenta dos guaianazes poderia ser um sinal de defesa de domínio territorial, de preservação de seu espaço, contudo, prova-se através de suas lendas que não fora isso que os motivara. Eles consideravam aquela região amaldiçoada e se comportavam como guardiões do local como sentinelas impedindo que a paz fosse perturbada e o mal despertasse e estavam dispostos a morrer por isso.

Quando os tropeiros chegaram no século XVII criando o Caminho do Viamão a situação era outra. A presença indígena já tinha sido subjugada e a passagem por cima do Itararé já era utilizada ou ao menos de conhecimento dos exploradores que rumavam para Sorocaba. Dificultosa, não raro a travessia cobrava vidas e carga, mas não havia outra forma de transpor o desafio natural. Os primeiros registros de passagem de tropeiros contam a má impressão dos mesmos sobre a “Barreira” por sua sensação de opressão e mal-estar como um ambiente devastador e deprimente. Os jesuítas tentaram mudar esta concepção ao celebrar missas ali, porém a influência da bruxa Uariri que vivia na gruta do rio era mais antiga e mais forte que o deus cristão vindo do além-mar.

A terra das três sesmarias doada em 1725 para povoamento embora fértil traz o sangue do povo que ali viveu por eras cultuando entidades sobrenaturais obscuras e resquícios desta adoração pagã ainda sobrevive em pinturas rupestres em paredões e cavernas e demais lendas de cidades próximas. Toda essa riqueza cultural teve um impacto mesmo que indireto na criação de uma consciência coletiva da população que cresceu descrente de esperança e fadada à aniquilação. Tal profecia quase se concretizou em 1930 e os sobreviventes que ficaram conhecidos como covardes e entraram na história ridicularizados só esperam a sorte mudar e o destino finalmente se cumprir.

Os artistas da cidade são comumente afetados por serem mais sensíveis por essa névoa invisível e sofrem de sonhos febris e visões perturbadoras, pesadelos vívidos e alucinações. Suicídios são comuns na cidade e os que possuem uma chance fogem sem olhar para trás deste ninho envenenado. Entretanto como conta a lenda da “água da Barreira”: “aquele que provar das águas naturais da mina da gruta da Barreira está fadado a retornar”. Então a cidade coleciona aprisionados sem oportunidade de fugir e frustrados que fracassaram na sua tentativa de escapar - O Mito da Caverna de Platão.

A semente de um presságio de mau agouro acompanha cada criança nascida e mesmo em sua inocência o brilho dos seus olhos é embaçado pela sombra das andorinhas que sobrevoam a cidade e ao anoitecer retornam para a gruta em uma queda perigosa para se esconder nas paredes úmidas.

Há quem lembre dos tempos perdidos da cidade como tesouros que jamais serão novamente desfrutados. Há quem cante o paraíso perdido que é esta terra e a saudade por estar longe. Há quem pinte a Via-Crúcis da vivência de envelhecer em Itararé. Mas ainda é preciso escrever sobre as sombras que pairam, sobre as pedras, os paralelepípedos cortados um a um por escravos que frequentemente são cogitados de serem cobertos por asfalto na rua principal. Mas é impossível apagar os espectros do passado: os indígenas massacrados e arrancados de suas terras para dar espaço para um novo país. Os tropeiros com cargas e escravos desfilando pela São Pedro. Os posseiros, os grileiros, os coroneis. Os estrangeiros e pobres que construíram os trilhos do Ramal da Fome. O ditador que foi recebido de braços abertos. Da população que cresce lentamente em número, mas não em oportunidade ou qualidade de vida. Dos loucos que perambulam pelas ruas sendo atazanados por crianças que lhes xingam e eles então os perseguem raivosos. Da pequenez de se estar longe demais das capitais e perto demais do abismo.

Parafraseando Nietzsche: “quando se olha tempo demais para um abismo, o abismo olha de volta para você” - esta é a realidade de todo itarareense. Nós carregamos o abismo na alma, um vazio, um vórtex, um buraco negro que engole a tudo e nos devolve apenas mais vazio. A fome que devora e apenas aumenta.

E é nesse poço espiritual que quero gritar a história que cresce e toma meu cérebro para ouvir o que o eco irá responder. Talvez eu possa ouvir assim os Grandes Antigos...