quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

Felação

A melhor poesia é aquela
Que masturba a língua
E goza aos olhos

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

Mude!


Eu costumo visitar vários blogs, algumas vezes até posto aqui o que acho que possa interessar, mas há um, que se eu fosse copiar cada tópico, preencheria esse meu blog só com trabalho alheio. É que o blog do Esdson Marques, MUDE, é genial. Nele, pode-se conferir uma visão de mundo totalmente original, passional e interessante. Eis o link para o blog:
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Só para vocês sentirem o gostinho...
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eu
adorava
beijar
essa
flor
que
você tinha
no
vão
das
tuas
pernas

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

NESSA LONGA ESTRADA DA VIDA - Contos da Cavalgada


Gustavo, professor, amante de motos e rock'n'roll. Essa é a imagem que a maioria das pessoas têm do Gustavo, inclusive eu, antes de descobrir os Contos da Cavalgada, livro que pode ser encontrado na Banca da Praça São Pedro e junto ao VICC. Nele, se descobre uma surpresa, um Gustavo escritor e ilustrador, pesquisador do folclore e da cultura caipira, não condizente com a visão restrita que as pessoas têm dele. Em um conversa com muito café em uma padaria e posteriormente no seu belo escritório em sua residência, conversei longamente com o Gustavo, falamos sobre muitas coisas, literatura, música, Itararé... Gustavo é um homem culto, de bom gosto, de conhecimentos que ultrapassam a mesmice, um professor que tem muito a oferecer, que não se limita às áreas que leciona na escola e nem à própria escola. As pessoas que estão dentro do seu círculo social só têm a se beneficiar pela sorte de sua agradável e interessante companhia. E se os contos dos romeiros que enquanto cavalgam para Aparecida do Norte, se entretem repartindo histórias entre si já é um susto para as pessoas, imaginem então se eu lhes dizer que Gustavo, quase que integralmente, se dedica a reflexão filosófica sobre temas universais da natureza humana: Amor, Estética, Ética. Resumidamente, Gustavo é um pensador que faz belos trabalhos quando resolve se dedicar a algo. O seu livro é um produto de seu trabalho e empenho incansáveis, um sobrevivente da cultura de Itararé.

E lembram-se sobre o Gustavo amante do rock'n'roll? Quem disse que isso não é verdade!? Além de conhecer as aventuras literárias de Gustavo, também pude ouvir o som da sua banda em sua mais nova formação, a famosa e lendária LSD. Com doze anos de estrada, o LSD ressurge novamente para criar novas músicas e matar a saudade dos velhos hinos. As letras escritas por Gustavo falam de várias coisas, liberdade, redenção, separação, com poesia e talento. Agora, o grupo está se preparando para encarar o novo campo da internet e estão passando todo o seu acervo de sua longa carreira, gravada em fitas cassete, para o mp3, melhorando a qualidade dos registros.
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Gustavo ainda mantém fôlego para criar projetos audaciosos, de canções mais maduras de um rock'n'roll menos agressivo e mais contemplativo, músicas que nos pegam pela mão e nos levam para viajar por paisagens únicas, em dosagens eqüilibradas entre sentimento e descobrimento. Espero que haja muitas novas oportunidades para que eu volte a falar do Gustavo por aqui, pois é claro que sua mente febril guarda muitas surpresas boas e inéditas que estão apenas aguardando o momento certo de revelar para todos o complexo sujeito que é o Gustavo.

sábado, 17 de novembro de 2007

Maria Apparecida Coquemala, Além dos Sentidos


Bem, já faz algum tempo que eu quero apresentar a vocês, meus leitores, a Maria Apparecida Coquemala; depois de sofrer uma sabotagem do destino (através do meu computador), resolvi não adiar mais esse encontro. Pois então, eu sempre encantado com a produção cultural de nossa cidade, certa vez perguntei para o meu amigo Neves da banca de jornais da Praça São Pedro, sobre os novos livros de autores itarareenses e ele me mostrou uma antologia de contos, Folhas Ao Vento, onde constava um da Maria Apparecida Coquemala, professora, ele me falou. Comprei e o li tomando conhaque no Bar do Santo, ali perto mesmo. A antologia é ótima, feita por uma editora especializada em ajudar a divulgar o trabalho de novos escritores e por essa razão, continha o e-mail para contato dos mesmos. Encantado com o conto À Espera, de Maria, que fala de uma mulher que trabalha em uma padaria e sonha com um cliente que embora, não troque palavras com ela, parece lhe corresponder veladamente o sentimento de carinho e amor. Sendo assim, entrei em contato com a Maria e depois de remarcarmos o dia do nosso encontro, ficou certo para nos encontrarmos em uma tarde de fim de semana. Nesse meio tempo, um novo livro dela, Além dos Sentidos, com contos somente de sua autoria chegou à banca e eu também o devorei, ainda mais perplexo com o talento de Maria.
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Nos encontramos e conversarmos muito, Maria é simpaticíssima, em uma conversa gostosa regada a café, ela me contou sobre a sua vida, sobre suas viagens pelo mundo, seu trabalho e sua carreira literária. Todos os seus contos, mesmo os mais surreais, possuem alguma ponta de ligação com algum fato real, que de alguma forma a inspira a escrever sobre ele. Cada história mais interessante que a outra. Passei toda a tarde e o começo da noite jogando conversa fora, até que me toquei do horário. Na despedida, Maria ainda me presenteou com alguns outros livros que continham contos seus, antologias e seleções de premiações de concursos de literatura, prêmios que ela coleciona aos montes, tanto no Brasil como no exterior. Enfim, uma pessoa adorável, inteligente, bonita e alegre, que encanta. Espero poder retribuir um dia o presente de Maria, com livros de minha autoria. Segue um conto da autora para quem ficou interessado, poder experimentar um pouco do gostinho do trabalho dela. Não preciso dizer que recomendo e admiro grandemente o trabalho da Maria e quem gosta de ler, deve tentar saber mais sobre ela.
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O Prefeito
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Eleito, quis de imediato ouvir o povo em suas mais profundas aspirações, conforme prometido em campanha. Solicitou ao secretário, Prof. Poincaré, amigo e emérito pesquisador de matemática, estreante em cargo político, que convocasse todos os munícipes, sem qualquer restrição. Democracia é participação, daí que todos deveriam participar, ensinava ele. Aquele “todos”, levado ao pé da letra pelo professor Poincaré, profundo conhecedor das ciências exatas, mas desconhecedor da natureza humana em suas complexas manifestações, levou-o a organizar o atendimento começando pelas criancinhas, pois “todos” são todos mesmo, de qualquer idade, inclusive elas. Que encheram a Prefeitura, chilreando seus cândidos pedidos, bolas, sorvetes em milhares de sabores, bicicletas, pipoca, pirulitos, bichinhos, bexigas coloridas, flechas, apitos, peixinhos, gatos e cachorros, patinetes, ruas só com descidas... Sua Excelência coçou a cabeça, difícil descobrir a mágica de ruas só com descidas, subidas nunca, mas haveria de conversar com Poincaré... Quanto ao resto, sempre se poderia dar um jeito...
Mas Poincaré, sempre sério e atencioso, já convocava os adolescentes, fizessem seus pedidos, também faziam parte do “todos”. E a vetusta Prefeitura se encheu de rabos de cavalo e bonés com abas para trás, o que levou o distraído secretário a se perguntar se meninos tinham agora algum problema visual, ou quem sabe? Um novo olho na nuca, havia que protegê-lo... Como quer que fosse, o recinto se encheu de vozes e cores, tênis luminosos, jeans apertadíssimos e camisetas enormes, chicletes e “piersing” nos umbigos e narizes, celulares, radinhos, colares e tatuagens, todos pedindo clubinhos exclusivos, imensas mesadas, liberdade total, com pais e na escola, substituição dos velhos e ranzinzas professores de mais de 25 anos, queima da velharia guardada nas bibliotecas, o mundo exigia idéias novas... Sua Excelência aproveitou a data, dia de S João, fez enorme fogueira com a livraiada, aposentou todos os idosos professores conforme o solicitado, proclamou as liberdades pedidas, uniformes foram também queimados, despertadores agora inúteis foram quebrados em praça pública como símbolo da liberdade conquistada. E pra mostrar modernidade, ele mesmo colocou um “piercing” no nariz. Verdade que ouviu alguns comentários maliciosos, xiiiiiiii, o prefeito pirou... Entre outros de que preferia nem falar... Ser prefeito é ser paciente, filosofava... Então Poincaré convocou os velhinhos, afinal precisavam ser ouvidos antes que morressem. Atendidos, morreriam felizes. Estavam pedindo dentaduras de ouro, pílulas achocolatadas, elixir da juventude, bibliotecas lotadas com antigos e famosos clássicos da Literatura e sábios de todos os tempos, quando foram interrompidos por Sua Excelência que desconhecia a mágica de fazer os livros voltarem das cinzas já espalhadas pelo vento no dia de S. João. No resto, talvez pudesse também dar um jeito. E em sinal de compreensão, passou a usar uma elegante bengala, o que levou alguns cínicos a verem nela um símbolo fálico... Mas Sua Excelência preferiu ignorar as risadinhas à socapa, ser prefeito é engolir sapos sorrindo, continuava ele filosofando...
Mas Poincaré, incansável, já pedia a Sua Excelência que atendesse aos profissionais liberais que entre tantas outras coisas, queriam espaço e liberdade para o exercício da profissão, nada de alvarás e outras exigências burocráticas, emperradoras do progresso. Todos os espaços públicos da cidade foram, pois, liberados, médicos passaram a atender sob os ipês floridos, cachorros farejando sangue rodeavam cirurgiões, exames médicos atraíam platéia de todas a idades, deixando perplexo o sábio Poincaré. Advogados empertigados em ternos e gravatas ouviam clientes nas ruas; dentistas trabalhavam sob as árvores, amálgamas se enriquecendo com o cocô dos passarinhos; arquitetos, paradoxalmente, projetavam mansões de sonho no pó do chão, crianças se deliciavam com os belos desenhos, mas que o vento teimava em desmanchar... E vieram as mães, Poincaré era incansável, mas desesperadas pediam a retirada das criancinhas da rua, estavam se matando em guerras de flechas e pirulitos, fizesse voltarem os adolescentes à escola, ouvir músicas em altíssimo som em casa era desesperador... E era tanta a gritaria que Sua Excelência em sinal de solidariedade colocou uma pleonástica faixa em frente à Prefeitura, “Amo todas as mamães”, alterada à noite por algum engraçadinho, de modo tal que nem se pode contar aqui. O que gerou um clima de risadas gerais na cidade. Então Sua Excelência, cansado de mudanças, incapaz de construir ruas sem subida, só descida, de extrair livros das cinzas; cansado de suspeitas risadinhas e filosofia consolativa, arrancou o “piercing”, jogou para longe a bengala, exonerou Poincaré e contratou um secretário surdo-mudo.

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Álcool na Ferida


Vês? Tu que és a testemunha de minha ruína
O segredo que guardo, a ferida aberta?
Aqui é a catedral onde o tempo corrói minhas lembranças
Das épocas perdidas em que fui criança

Olhe para os vitrais quebrados, o sol já os iluminou um dia
A cor, havia mais cor do que hoje é só cinza
A poeira do esquecimento do que é ter esperança
Não sei mais o que é ser inocente

Agora, Tu há de saber a verdade
Tu fazes parte disto, não se pode negar
E como te sentes?

Duvido que estejas aliviado
Uma única vez, seja sincero
A sentença é clara, e então, te declaras culpado?
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Todos nós carregamos ao longo da vida, nossos erros, nossas experiências, cicatrizes e marcas que colhemos e que em nós são impressas. Nenhuma delas, no entanto, são tão profundas, duradouras do que as da infância. Os tempos mudam, as coisas mudam, mas elas permanecem lá, aquelas feridas. Essa é uma que carrego comigo há muito tempo, sei que muitos amigos e conhecidos passaram ou ainda passam por coisas semelhantes com conhecidos ou na família, embora consigamos sobreviver a isso, rindo da nossa própria dor, o pulso ainda pulsa, a ferida ainda sangra.

Estudo Humano


Ser o que somos
É duvidar, é mudar
É sofrer, nada muda sem dor

Viver é adiar a morte inevitável
É tentar descobrir o que não é vão
Olhar para o futuro aspirando habitá-lo

Ser humano é se auto-domesticar
Muitas vezes, sem sucesso

É ver que além do gozo
Muito pouco importa, mas esse pouco faz toda a diferença

terça-feira, 23 de outubro de 2007

Augusto dos Anjos, o poeta esquecido




PSICOLOGIA DE UM VENCIDO

Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênese da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.

Produndissimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância...
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.

Já o verme -- este operário das ruínas --
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e à vida em geral declara guerra,

Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!
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Trazer a poesia de volta para onde ela pertence, tirá-la das poeirentas prateleiras e fazê-la retornar ao povo, inovar temas, formas. Esse é um grande desafio que os poetas encaram, mas um em especial, o fez com tamanha competência e ousadia que até hoje os críticos não sabem se o amam ou o odeiam. Esse foi Augusto dos Anjos, que com a crueza de um legista, disseca cada verso para mostrar a dor, seja de quem é derrotado na vida, pela vida, ou pela morte. Vocês ainda ouvirão falar mais sobre ele por aqui...

SEIOS - SOLDA



sois
os anseios
de todos
os meus ensaios
sois a ânsia
essência
dos meus sais
sois
todos os sóis
sois
dois seios
nada mais

solda

domingo, 21 de outubro de 2007

Os nomes do Caminho das Pedras


Era um grande nome - ora que dúvida!
Uma verdadeira glória.
Um dia adoeceu, morreu, virou rua…
E continuaram a pisar em cima dele.
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Mário Quintana
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Contribuição do amigo Joly.

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

Diga olá para o Clitóris da Vida


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Estava eu a ler o blog "MUDE" do Edson Marques, quando me deparei com a pergunta. Achei de uma pertinência tremenda, tanto, que agora a passo para vocês.

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

O VÔO DE ÍCARO


O Vôo de Ícaro
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Condenado a vagar perdido
Pelos corredores do indecifrável labirinto
Entre as paredes frias
Tendo a morte como vizinho
A sombra de seu pai, o ofuscando e cobrindo
Ele cresceu, ele era Ícaro
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Um rapaz com alma de anjo
O fogo ardia nele, violentamente, manso
O vento sussurrava
A liberdade do ar etéreo
As asas abertas, os braços abertos, os olhos fechados
Num vôo leve, breve e eterno
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O sol queimava, o sal queimava
Suas asas derreteram, seu corpo engolido pelas águas
Um salto para a luz, uma queda para as trevas
Uma fuga para o céu, um retorno para a terra
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Mais um anjo caído, mais um sonho perdido
Com lágrimas nos olhos, nos lábios um sorriso
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O Destino, o Infinito, o Abismo
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O Vôo de Ícaro
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O Delírio, o Invisível, o Vazio
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O Vôo de Ícaro
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A Estrela Cadente, a Paixão Ardente,
O Impossível...
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O Vôo de Ícaro
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Detalhe interessante. Postei esse poema em uma comunidade no orkut e um membro me disse algo que eu não havia pensado. Os gregos não atentaram para o fato de que quanto mais se sobe, mais frio fica, não o contrário. Por isso, seria impossível que as asas de Ícaro derretessem. Obviamente Ícaro se trata de um mito, no entanto, os gregos apesar de terem sido um dos povos mais avançados filosoficamente e tecnologicamente, não cometeriam essa gafe se soubessem desse detalhe em relação a temperatura e altitude.
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Todavia, Ícaro é uma belíssima história e esse detalhe não tira o brilho de sua essência. Só achei que talvez vocês pudessem gostar, até mais.

domingo, 7 de outubro de 2007

"Experiência é o nome que damos a nossos erros." - WILDE, Aforismos


Anybody can sympathise with the sufferings of a friend, but it requires a very fine nature to sympathise with a friend's success.
OSCAR WILDE
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Qualquer um é capaz de se comover com o sofrimento de um amigo, mas é necessário uma natureza muito boa para se comover com o sucesso de um amigo.
tradução livre
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Essa é apenas uma pequeníssima amostra dos aforismos de Oscar Wilde, simplesmente genial. Não sei como ainda não tinha postado sobre ele, parafraseando uma outra máxima dele, a verdadeira finalidade da arte é se revelar e ocultar o artista, então, seguindo esse preceito, Wilde conseguiu criar Arte, já que muito do que produziu se está inserido na cultura popular, sem que lhe atribuam a autoria merecida.

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

O Caminho das Pedras




Eu canto pelas ruas de pedra, pelo asfalto selvagem
Pelos recantos da noite, sob a lua, dentro de alguma garagem
Eu grito, aos sete ventos, doido varrido
Eu vivo, eu canto, eu grito, eu sangro
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Eu amo
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Todo bairro tem um louco que o bairro gosta
Só falta mais um pouco para que eles aceitem minha proposta
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Eu escrevo, eu sonho, eu invento, eu como
Rei Momo da minha poesia, José Rodolfo
Um estranho no ninho, andorinha e corvo
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Palhaço cômico, um tanto quanto misantropo
Que sofre quase sozinho, que faz sofrer
Acorrentado no íntimo, um lobisomem que sonha além
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Procurando moinhos, mesmo que às vezes me falte ar

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

Só de Sacanagem



autoria de Elisa Lucinda
interpretação de Ana Carolina
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"Só de sacanagem"
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Meu coração está aos pulos!
Quantas vezes minha esperança será posta à prova? Tudo isso que está aí no ar: malas, cuecas que voam entupidas de dinheiro. Do meu dinheiro, do nosso dinheiro, Que reservamos duramente para educar os meninos mais pobres que nós. Para cuidar gratuitamente da saúde deles e dos seus pais. Esse dinheiro viaja na bagagem da impunidade e eu não posso mais.

Quantas vezes minha esperança vai esperar no cais? É certo que tempos difíceis existem para aperfeiçoar o aprendiz. Mas não é certo que a mentira dos maus brasileiros venha quebrar no nosso nariz.

Meu coração tá no escuro. A luz é simples, regada ao conselho simples de meu pai, minha mãe, minha avó E dos justos que os precederam: “Não roubarás”. “Devolva o lápis do coleguinha”. “Esse apontador não é seu, minha filha”.

Pois bem, se mexeram comigo, Com a velha e fiel fé do meu povo sofrido, Então agora eu vou sacanear: Mais honesta ainda vou ficar!

Só de sacanagem! Dirão: “Deixa de ser boba, desde Cabral que aqui todo o mundo rouba” E eu vou dizer: “Não importa, será esse o meu carnaval, vou confiar mais e outra vez”. Eu, meu irmão, meu filho e meus amigos. Vamos pagar limpo a quem a gente deve e receber limpo do nosso freguês.

Com o tempo a gente consegue ser livre, ético e o escambau. Dirão: “É inútil, todo o mundo aqui é corrupto, desde o primeiro homem que veio de Portugal”. E eu direi: “Não admito, minha esperança é imortal”. E eu repito: “Ouviram? IMORTAL!”Sei que não dá para mudar o começo Mas, se a gente quiser, Vai dar para mudar o final!
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Vejam o poema declamado por Ana Carolina no link abaixo:
http://www.youtube.com/watch?v=IhcaD2y0TZ0
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Vi esse poema no Programa do Jô nessa quarta-feira, dia em que as meninas do Jô comentam a política nacional. Independente de quem goste da idéia ou não do programa, achei o poema tão bonito, simples e algo que agrega tudo o que nós queremos dizer, que não pude deixar de fazer uma postagem. Quem sabe no Youtube esteja logo o vídeo da própria autora declamando seu poema, em todo caso, a Ana Carolina fez isso de uma forma tão bem feita, que aconselho quem gostar da poesia que assista o vídeo do link. É isso, até mais.

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

Copiei o Homem que Copiava


Soneto de Shakespeare
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Quando a hora dobra em triste e tardo toque
E em noite horrenda vejo escoar-se o dia,
Quando vejo esvair-se a violeta, ou que
A prata a preta têmpora assedia;

Quando vejo sem folha o tronco antigo
Que ao rebanho estendia a sombra franca
E em feixe atado agora o verde trigo
Seguir o carro, a barba hirsuta e branca;

Sobre tua beleza então questiono
Que há de sofrer do Tempo a dura prova,
Poia as graças do mundo em abandono

Morrem ao ver nascendo a graça nova.
Contra a foice do Tempo é vão combate,
Salvo a prole, que o enfrenta se te abate.
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tradução Ivo Barroso
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Já que estamos falando de Shakespeare, mostrando que além da sua famosa dramaturgia genial, o escritor e o poeta Shakespeare possuem também muito para mostrar. Pensando nisso, me lembrei do filme "O Homem que Copiava" que cita um soneto do bardo inglês, e como também sou um grande admirador do cinema nacional, decidi homenagear ambos aqui. O soneto fala, como vários outros poemas de Shakesperare sobre o tempo, a velhice e a morte, já o filme, trata de vários assuntos, desde a desigualdade social quanto a falta de emprego para os jovens e a globalização de informação fácil e incompleta.
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Para quem quiser conferir, pode entrar no link abaixo e conferir o poema no filme e um breve trailer do mesmo.
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quinta-feira, 30 de agosto de 2007

Sessão: Texto para se pensar - DEPOIS DE ALGUM TEMPO



DEPOIS DE ALGUM TEMPO...
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"Depois de algum tempo você aprende a diferença, a sutil diferença entre dar a mão e acorrentar a alma. E você aprende que amar não significa apoiar-se, e que companhia nem sempre significa segurança. E começa aprender que beijos não são contratos, e que presentes não são promessas. E começa a aceitar suas derrotas com a cabeça erguida e os olhos adiante, com a graça de um adulto e não a tristeza de uma criança. E aprende a construir todas as suas estradas no hoje, porque o terreno do amanhã é incerto demais para os planos, e o futuro tem o costume de cair meio ao vão."
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"Depois de algum tempo, você aprende que o sol queima, se ficar a ele exposto por muito tempo. E aprende que, não importa o quanto você se importe, algumas pessoas simplesmente não se importam... E aceita que, não importa quão boa seja uma pessoa, ela vai feri-lo de vez em quando, e você precisa perdoá-la por isso. Aprende que falar pode aliviar dores emocionais. Descobre que leva-se anos para construir confiança e apenas segundos para destruí-la, e que você pode fazer coisas em um instante, das quais se arrependerá para o resto da vida. Aprende que verdadeiras amizades continuam a crescer, mesmo a longas distâncias. E o que importa não é o que você tem na vida, mas quem você tem na vida. E que bons amigos são a família que nos permitiram escolher. Aprende que não temos que mudar de amigos, se compreendermos que os amigos mudam. Percebe que seu melhor amigo e você podem fazer qualquer coisa, ou nada, e terem bons momentos juntos. Descobre que as pessoas com que você mais se importa na vida são tomadas de você muito depressa, por isso, devemos deixar as pessoas que amamos com palavras amorosas, pode ser a última vez que as vejamos."
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"Aprende que as circunstâncias e os ambientes têm muita influência sobre nós, mas que nós somos responsáveis por nós mesmos. Começa a aprender que não se deve comparar com os outros, mas com o melhor que você pode ser. Descobre que leva muito tempo para se chegar aonde está indo, mas que, se você não sabe para onde está indo, qualquer lugar serve. Aprende que, ou você controla seus atos ou eles o controlarão, e não importa quão delicada e frágil seja uma situação, sempre existem dois lados."
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"Aprende que heróis são pessoas que fizeram o que era necessário fazer, 0enfrentando as conseqüências. Aprende que paciência requer muita prática. Descobre que algumas vezes, a pessoa que você espera que o chute, quando você cai, é uma das poucas pessoas que o ajudam a levantar-se. Aprende que a maturidade tem mais a ver com tipos de experiências que se teve e o que se aprendeu com elas, do que com quantos aniversários você celebrou. Aprende que há mais de seus pais em você do que você supunha. Aprende que nunca se deve dizer a uma criança que sonhos são bobagens, poucas coisas são tão humilhantes, e seria uma tragédia se ela acreditasse nisso. Aprende que quando está com raiva, tem direito de estar com raiva, mas isso não lhe dá o direito de ser cruel. Descobre que só porque alguém não o ama mais do jeito que você quer não significa que esse alguém não o ame com todas as forças, pois existem pessoas que nos amam, mas simplesmente não sabem como demonstrar ou viver isso. Aprende que nem sempre é suficiente ser perdoado por alguém, e que algumas vezes, você tem que aprender a perdoar a si mesmo."
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"E que, com a mesma severidade com que julga, será em algum momento condenado. Aprende que não importa em quantos pedaços seu coração foi partido, o mundo não pára, para que você junte seus cacos. Aprende que o tempo não é algo que se possa voltar para trás. Portanto, plante seu jardim e decore sua alma, ao invés de esperar que alguém lhe traga flores. E você aprende realmente que pode suportar... que realmente é forte, e que pode ir mais longe, depois de pensar que não pode mais. E que realmente a vida tem valor diante da vida !!!"
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Veronica A. Shoffstall
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Enfim, arrumado como deveria ser. Esse texto que é creditado através da internet a Shakespeare, é na verdade da autoria de Veronica A. Shoffstall.

terça-feira, 28 de agosto de 2007

Textos para se pensar: Monólogo das Mãos












Monólogo das Mãos
de Oduvaldo Vianna
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Para que servem as mãos?
As mãos servem para pedir, prometer, chamar, conceder, ameaçar, suplicar, exigir, acariciar, recusar, interrogar, admirar, confessar, calcular, comandar, injuriar, incitar, teimar, encorajar, acusar, condenar, absolver, perdoar, desprezar, desafiar, aplaudir, reger, benzer, humilhar, reconciliar, exaltar, construir, trabalhar, escrever......
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As mãos de Maria Antonieta, ao receber o beijo de Mirabeau, salvou o trono da França e apagou a auréola do famoso revolucionário; Múcio Cévola queimou a mão que, por engano não matou Porcena; foi com as mãos que Jesus amparou Madalena; com as mãos David agitou a funda que matou Golias; as mãos dos Césares romanos decidiam a sorte dos gladiadores vencidos na arena; Pilatos lavou as mãos para limpar a consciência; os anti-semitas marcavam a porta dos judeus com as mãos vermelhas como signo de morte!
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Foi com as mãos que Judas pôs ao pescoço o laço que os outros Judas não encontram. A mão serve para o herói empunhar a espada e o carrasco, a corda; o operário construir e o burguês destruir; o bom amparar e o justo punir; o amante acariciar e o ladrão roubar; o honesto trabalhar e o viciado jogar. Com as mãos atira-se um beijo ou uma pedra, uma flor ou uma granada, uma esmola ou uma bomba! Com as mãos o agricultor semeia e o anarquista incendeia!
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As mãos fazem os salva-vidas e os canhões; os remédios e os venenos; os bálsamos e os instrumentos de tortura, a arma que fere e o bisturi que salva. Com as mãos tapamos os olhos para não ver, e com elas protegemos a vista para ver melhor. Os olhos dos cegos são as mãos. As mãos na agulheta do submarino levam o homem para o fundo como os peixes; no volante da aeronave atiram-nos para as alturas como os pássaros.
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O autor do "Homo Rebus" lembra que a mão foi o primeiro prato para o alimento e o primeiro copo para a bebida; a primeira almofada para repousar a cabeça, a primeira arma e a primeira linguagem. Esfregando dois ramos, conseguiram-se as chamas. A mão aberta, acariciando, mostra a bondade; fechada e levantada mostra a força e o poder; empunha a espada a pena e a cruz!
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Modela os mármores e os bronzes; da cor às telas e concretiza os sonhos do pensamento e da fantasia nas formas eternas da beleza. Humilde e poderosa no trabalho, cria a riqueza; doce e piedosa nos afetos medica as chagas, conforta os aflitos e protege os fracos. O aperto de duas mãos pode ser a mais sincera confissão de amor, o melhor pacto de amizade ou um juramento de felicidade. O noivo para casar-se pede a mão de sua amada; Jesus abençoava com a s mãos; as mães protegem os filhos cobrindo-lhes com as mãos as cabeças inocentes.
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Nas despedidas, a gente parte, mas a mão fica, ainda por muito tempo agitando o lenço no ar. Com as mãos limpamos as nossas lágrimas e as lágrimas alheias. E nos dois extremos da vida, quando abrimos os olhos para o mundo e quando os fechamos para sempre ainda as mãos prevalecem. Quando nascemos, para nos levar a carícia do primeiro beijo, são as mãos maternas que nos seguram o corpo pequenino.
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E no fim da vida, quando os olhos fecham e o coração pára, o corpo gela e os sentidos desaparecem, são as mãos, ainda brancas de cera que continuam na morte as funções da vida.
E as mãos dos amigos nos conduzem...
E as mãos dos coveiros nos enterram!
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Para quem quiser conferir o monólogo declamado.

segunda-feira, 27 de agosto de 2007

Maldição ao Romantismo



















MALDIÇÃO AO ROMANTISMO

Que toquem os menestréis, bardos e trovadores
Cantem, declamem, chorem por seus amores.
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Para a nobreza da corte, durante o dia e a noite
Ou à plebe pobre que só conhece o sabor da foice
Da morte, da peste negra; os cadáveres apodrecem aos montes.
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Alimentam a alma e alimentam a fome dos corpos
A música, a poesia, o poema alegra os povos.
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E os fazem esquecer do suor de seus grandes esforços
Que mantém o luxo dos ricos que se alimentam como corvos
Dos pobres, da carniça, dos mortos.
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Malditos sejam então, os poetas românticos...
Por cegar, pasmar a todos com seus cânticos.
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São piores do que o punhal dos traidores e a adaga dos ladrões
Porque as lâminas ferem apenas a carne; e suas línguas os corações
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Deixem os cavaleiros com suas donzelas e dragões
E não perturbem mais os nossos ouvidos com suas doces canções.
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Esse foi um poema que eu escrevi no 1º ano de Letras. Só coisas leves passavam por minha cabeça na época, mas esperem para ver o que anda ocupando a minha cabeça agora que estamos no fim do curso...

sábado, 18 de agosto de 2007

Sessão: Bons poemas para se pensar um pouco




Mude
Edson Marques
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Mude
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Mas comece devagar, porque a direção é mais importante que a velocidade. Mude de caminho, ande por outras ruas, observando os lugares por onde você passa. Veja o mundo de outras perspectivas. Descubra novos horizontes.
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Não faça do hábito um estilo de vida.
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Ame a novidade. Tente o novo todo dia. O novo lado, o novo método, o novo sabor, o novo jeito, o novo prazer, o novo amor. Busque novos amigos, tente novos amores. Faça novas relações. Experimente a gostosura da surpresa. Troque esse monte de medo por um pouco de vida. Ame muito, cada vez mais, e de modos diferentes. Troque de bolsa, de carteira, de malas, de atitude.
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Mude.
Dê uma chance ao inesperado.
Abrace a gostosura da Surpresa.
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Sonhe só o sonho certo e realize-o todo dia.
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Lembre-se de que a Vida é uma só, e decida-se por arrumar um outro emprego, uma nova ocupação, um trabalho mais prazeroso, mais digno, mais humano.
Abra seu coração de dentro para fora.
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Se você não encontrar razões para ser livre, invente-as.
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Exagere na criatividade.
E aproveite para fazer uma viagem longa, se possível sem destino. Experimente coisas diferentes, troque novamente.
Mude, de novo.
Experimente outra vez.
Você conhecerá coisas melhores e coisas piores, mas não é isso o que importa.
O mais importante é a mudança, o movimento, a energia, o entusiasmo
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Só o que está morto não muda !
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Eu vi o Abujamra declamar o primeiro verso desse poema no programa dele, Provocações, na Cultura certa vez, programa muito bom por sinal. Achei fantástico. E aí, hoje, fazendo mil coisas ao mesmo tempo no computador e com a TV ligada para espantar a solidão, eis que o carinha da Revista de Sábado fala sobre o mesmo poema em uma reportagem. Decidi que tinha que ler o poema por inteiro e gostei bastante.
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Segue um vídeo com um show de slides ilustrando o poema:

sexta-feira, 10 de agosto de 2007

Mitologia para todos de Homero-Machado

ERICSTÃO, O REI
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A fome lhe arrebatava de tal forma
Que mesmo a colheita de todo um ano de seu reino
Não era o suficiente para saciar seus desejos
Pois não se alimentava de banquetes e vinho seu espírito
Mas do poder de, se o quisesse, tê-los

Seu domínio vivia em guerra com seus vizinhos
Afinal sua ambição não tinha fronteiras
Tudo que lhe despertasse beleza
E que de alguma forma ele soubesse que aos outros agradaria
Tomava para si no desespero de manter consigo
Os tesouros de todo uma vida
Em seus cofres mais secretos ele os guardava herméticos
Para que ele somente pudesse apreciá-los
Até o fim de seus dias

E assim sendo, com seu desprezo pelos poderes divinais
Colheu o fruto da árvore proibida de Artémis
A Deusa Amazona da Lua e das terras selvagens
Que furiosa por tal afronta
O amaldiçoou a nunca mais ter paz
Se sua fome de poder era tanta
Nunca de novo se saciaria, jamais

Noites e dias se passaram enquanto a besta dentro dele o consumia voraz
A corte, seus conselheiros e partidários leais caíram diante desse monstro atroz
O sangue se derramaria pelas casas de ricos e pobres
A terra morria por onde ele passava
Os campos, as florestas e todas as matas
Enegreceram e apodreceram
O seu reino virou pó, não sobrou nada

E então, sozinho no deserto estéril que ele criara
Tendo somente o vento e a sombra como companhia
Dentro dele a fera da fome ainda se debatia

Ele levou o braço aos dentes afiados
E cravou-os sentindo o sangue descendo pela garganta

E devorou sua carne com ânsia
Até o último naco de ganância
Desaparecendo dentro das suas frias e escuras entranhas


Esse é um poema meu que fala sobre um mito grego pouco conhecido, o Rei Ericstão. É uma alegoria sobre a ganância sem limites, a ambição sem fronteiras.
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O Poder corrompe.
O Poder absoluto corrompe absolutamente.
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Não lembro quem disse isso, mas é o que o Rei Ericstão representa.

quarta-feira, 1 de agosto de 2007

Mais Leminski pra vocês, todo dia é dia do poeta

dois loucos no bairro

um passa os dias
chutando postes para ver se acendem

o outro as noites
apagando palavras
contra um papel branco

todo bairro tem um louco
que o bairro trata bem
só falta mais um pouco
pra eu ser tratado também

quinta-feira, 19 de julho de 2007

O Bandido que Sabia Latim

O BANDIDO QUE SABIA LATIM: PAULO LEMINSKI

O pauloleminski
é um cachorro louco
que deve ser morto
a pau a pedra
a fogo a pique
senão é bem capaz
o filhodaputa
de fazer chover
em nosso piquenique
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Bom, eu trabalhava na biblioteca de Sengés e sempre via em uma das prateleiras O Bandido Que Sabia Latim. A foto da capa é a mesma que está aí em cima, eu ficava imaginando a razão de um título tão diferente e quem seria o bigodudo da capa. Até que enfim um dia, criei coragem e abri a biografia escrita por Tonino Vaz, um jornalista de primeira linha especializado e famoso por suas biografias, de um tal de Paulo Leminski. Quando dei por mim, já fazia mais de semana que eu lia sem parar o livro, em menos de um mês acabei a leitura totalmente apaixonado pelo maior poeta curitibano e contemporâneo do Brasil. Sua poesia é rebelde e ainda assim, sutil, como um samurai malandro, rápida, como golpes de judô, esporte em que ele foi faixa preta. Sua vida e sua obra são cheias de poesia, ele viveu tão intensamente cada dor, paixão e vício que foi engolido por eles. Mesmo com sua breve passagem de 44 anos entre nós, sua obra é extensa e diversificada. Biografias, músicas, ensaios críticos, O Catatau e muito mais.
Vale ressaltar que um dos parceiros de copo e escrita de Leminski, foi ninguém menos que Solda, já comentado a alguns posts atrás. O humor também é uma marca registrada desses dois poetas, ainda vou mostrar mais dos poemas deles, mas por hoje está de bom tamanho.

sexta-feira, 25 de maio de 2007

Um pouco mais do que estava guardado na gaveta




Réquiem

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Minha lápide será um circulo de menires

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E no centro um obelisco

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Uma estátua de amor em meio aos dolmens

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Fitando o basilisco

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Quero uma efígie da esfinge

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Nos jardins da Górgona, golens e gárgulas enfeitam as ruínas

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Enquanto as Harpias Harpistas tocam a ópera

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Do meu réquiem

POE


Escritor norte-americano, pai dos contos policiais, Poe é um dos maiores contistas e mestre da literatura de suspense e investigação. O terror e o mistério dos seus contos são de cunho psicológico, não surgem de elementos exteriores, mas da mente do leitor e dos personagens, o que também o faz um escritor de vanguarda sob esse aspecto. Nos dois últimos posts há um conto e um poema desse grande escritor, para quem gosta de ler é um prato cheio. Para quem não gosta, é bom de qualquer maneira, os textos são grandes, porém valem o esforço. É isso, até mais.

Animais de Estimação, O GATO PRETO by Edgar Allan Poe


O Gato Preto
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Não espero nem solicito o crédito do leitor para a tão extraordinária e no entanto tão familiar história que vou contar. Louco seria esperá-lo, num caso cuja evidência até os meus próprios sentidos se recusam a aceitar. No entanto não estou louco, e com toda a certeza que não estou a sonhar. Mas porque posso morrer amanhã, quero aliviar hoje o meu espírito. O meu fim imediato é mostrar ao mundo, simples, sucintamente e sem comentários, uma série de meros acontecimentos domésticos.
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Nas suas consequências, estes acontecimentos aterrorizaram-me, torturaram-me, destruíram-me. No entanto, não procurarei esclarecê-los. O sentimento que em mim despertaram foi quase exclusivamente o de terror; a muitos outros parecerão menos terríveis do que extravagantes. Mais tarde, será possível que se encontre uma inteligência qualquer que reduza a minha fantasia a uma banalidade. Qualquer inteligência mais serena, mais lógica e muito menos excitável do que a minha encontrará tão somente nas circunstâncias que relato com terror uma sequência bastante normal de causas e efeitos.
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Já na minha infância era notado pela docilidade e humanidade do meu carácter. Tão nobre era a ternura do meu coração, que eu acabava por tornar-me num joguete dos meus companheiros. Tinha uma especial afeição pelos animais e os meus pais permitiam-me possuir uma grande variedade deles. Com eles passava a maior parte do meu tempo e nunca me sentia tão feliz como quando lhes dava de comer e os acariciava. Esta faceta do meu carácter acentuou-se com os anos, e, quando homem, aí achava uma das minhas principais fontes de prazer. Quanto àqueles que já tiveram uma afeição por um cão fiel e sagaz, escusado será preocupar-me com explicar-lhes a natureza ou a intensidade da compensação que daí se pode tirar. No amor desinteressado de um animal, no sacrifício de si mesmo, alguma coisa há que vai direito ao coração de quem tão frequentemente pôde comprovar a amizade mesquinha e a frágil fidelidade do homem.
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Casei jovem e tive a felicidade de achar na minha mulher uma disposição de espírito que não era contrária à minha. Vendo o meu gosto por animais domésticos, nunca perdia a oportunidade de me proporcionar alguns exemplares das espécies mais agradáveis. Tínhamos pássaros, peixes dourados, um lindo cão, coelhos, um macaquinho, e um gato.
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Este último era um animal notavelmente forte e belo, completamente preto e excepcionalmente esperto. Quando falávamos da sua inteligência, a minha mulher, que não era de todo impermeável à superstição, fazia frequentes alusões à crença popular que considera todos os gatos pretos como feiticeiras disfarçadas. Não quero dizer que falasse deste assunto sempre a sério, e se me refiro agora a isto não é por qualquer motivo especial, mas apenas porque me veio à ideia. Plutão, assim se chamava o gato, era o meu amigo predilecto e companheiro de brincadeiras. Só eu lhe dava de comer e seguia-me por toda a parte, dentro de casa. Era até com dificuldade que conseguia impedir que me seguisse na rua.
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A nossa amizade durou assim vários anos, durante os quais o meu temperamento e o meu carácter sofreram uma alteração radical - envergonho-me de o confessar - para pior, devido ao demónio da intemperança. De dia para dia me tornava mais taciturno, mais irritável, mais indiferente aos sentimentos dos outros. Permitia-me usar de uma linguagem brutal com minha mulher. Com o tempo, cheguei até a usar de violência. Evidentemente que os meus pobres animaizinhos sentiram a transformação do meu carácter. Não só os desprezava como os tratava mal. Por Plutão, porém, ainda nutria uma certa consideração que me não deixava maltratá-lo. Quanto aos outros, não tinha escrúpulos em maltratar os coelhos, o macaco e até o cão, quando por acaso ou por afeição se atravessavam no meu caminho.
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Mas a doença tomava conta de mim - pois que doença se assemelha à do álcool? - e, por fim, até o próprio Plutão, que estava a ficar velho e, por consequência, um tanto impertinente, até o próprio Plutão começou a sentir os efeitos do meu carácter perverso.
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Certa noite, ao regressar a casa, completamente embriagado, de volta de um dos tugúrios da cidade, pareceu-me que o gato evitava a minha presença. Apanhei-o, e ele, horrorizado com a violência do meu gesto, feriu-me ligeiramente na mão com os dentes. Uma fúria dos demónios imediatamente se apossou de mim. Não me reconhecia. Dir-se-ia que a minha alma original se evolara do meu corpo num instante e uma ruindade mais do que demoníaca, saturada de genebra, fazia estremecer cada uma das fibras do meu corpo. Tirei do bolso do colete um canivete, abri-o, agarrei o pobre animal pelo pescoço e, deliberadamente, arranquei-lhe um olho da órbita! Queima-me a vergonha e todo eu estremeço ao escrever esta abominável atrocidade.
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Quando, com a manhã, me voltou a razão, quando se dissiparam os vapores da minha noite de estúrdia, experimentei um sentimento misto de horror e de remorso pelo crime que tinha cometido. Mas era um sentimento frágil e equívoco e o meu espírito continuava insensível. Voltei a mergulhar nos excessos, e depressa afoguei no álcool toda a recordação do acto.
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Entretanto, o gato curou-se lentamente. A órbita agora vazia apresentava, na verdade, um aspecto horroroso, mas o animal não aparentava qualquer sofrimento. Vagueava pela casa como de costume, mas, como seria de esperar, fugia aterrorizado quando eu me aproximava. Porém, restava-me ainda o suficiente do meu velho coração para me sentir agravado por esta evidente antipatia da parte de um animal que outrora tanto gostara de mim. Em breve este sentimento deu lugar à irritação. E para minha queda final e irrevogável, o espírito da PERVERSIDADE fez de seguida a sua aparição. Deste espírito não cura a filosofia. No entanto, não estou mais certo da existência da minha alma do que do facto que a perversidade é um dos impulsos primitivos do coração humano; uma dessas indivisas faculdades primárias, ou sentimentos, que deu uma direcção ao carácter do homem. Quem se não surpreendeu já uma centena de vezes cometendo uma acção néscia ou vil, pela única razão de saber que a não devia cometer? Não temos nós uma inclinação perpétua, pese ao melhor do nosso juízo, para violar aquilo que constitui a Lei, só porque sabemos que o é? E digo que este espírito de perversidade surgiu para minha perda final. Foi este anseio insondável da alma por se atormentar, por oferecer violência à sua própria natureza, por fazer o mal só pelo mal, que me forçou a continuar e, finalmente, a consumar a maldade que infligi ao inofensivo animal. Certa manhã, a sangue-frio, passei-lhe um nó corredio ao pescoço e enforquei-o no ramo de uma árvore; enforquei-o com as lágrimas a saltarem-me dos olhos e com o mais amargo remorso no coração; enforquei-o porque sabia que me tinha tido afeição e porque sabia que não me tinha dado razão para a torpeza; enforquei-o porque sabia que ao fazê-lo estava cometendo um pecado, um pecado mortal que comprometia a minha alma imortal a ponto de a colocar, se tal fosse possível, mesmo para além do alcance da infinita misericórdia do Deus Mais Piedoso e Mais Severo.
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Na noite do próprio dia em que este acto cruel foi perpetrado, fui acordado do sono aos gritos de «Fogo!». As cortinas da minha cama estavam em chamas; toda a casa era um braseiro. Foi com grande dificuldade que minha mulher, uma criada e eu conseguimos escapar do incêndio. A destruição foi completa. Todos os meus bens materiais foram destruídos, e daí em diante mergulhei no desespero.
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Sou superior à fraqueza de procurar estabelecer uma seqüência de causa a efeito entre a atrocidade e o desastre. Limito-me, porém, a narrar uma cadeia de acontecimentos e não quero deixar nem um elo sequer incompleto. Nos dias que se sucederam ao incêndio, visitei as ruínas. As paredes, à exceção de uma, tinham abatido por completo. Esta exceção era constituída por um tabique interior, não muito espesso, que estava sensivelmente a meio da casa, e de encontro ao qual antes ficava a cabeceira da minha cama. O reboco resistira em grande parte à ação do fogo, fato que atribuo a ter sido pouco antes restaurado.
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Próximo desta parede juntara-se uma densa multidão e muitas pessoas pareciam estar a examinar certa zona em particular, com minúcia e grande atenção. A minha curiosidade foi despertada pelas palavras «estranho», «singular» e outras expressões semelhantes. Aproximei-me e vi, como se fora gravado em baixo revelo, sobre a superfície branca, a figura de um gato gigantesco. A imagem estava desenhada com uma precisão realmente espantosa. Em volta do pescoço do animal estava uma corda.
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Mal vi a aparição, pois nem podia pensar que doutra coisa se tratasse, o meu assombro e o meu terror foram imensos. Por fim, a reflexão veio em meu auxílio. Lembrei-me que o gato fora enforcado num jardim junto à casa. Após o alarme de incêndio, O dito jardim fora imediatamente invadido pela multidão e por alguém que deve ter cortado a corda do gato e o deve ter lançado para dentro do meu quarto, por uma janela aberta. Isto deve ter sido feito, provavelmente, com a intenção de me acordar. A queda das outras paredes tinha comprimido a vítima da minha crueldade na substância do reboco recentemente aplicado e cuja cal, combinada com as chamas e o amoníaco do cadáver, tinha produzido a imagem tal como eu a via.
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Tendo assim satisfeito prontamente a minha razão - que não totalmente a minha consciência - sobre o facto extraordinário atrás descrito, não deixou este, no entanto, de causar profunda impressão na minha imaginação. Durante meses não consegui libertar-me do fantasma do gato, e, durante este período, voltou-me ao espírito uma espécie de sentimento que parecia remorso, mas que o não era. Cheguei ao ponto de lamentar a perda do animal e a procurar à minha volta, nos sórdidos tugúrios que agora frequentava com assiduidade, um outro animal da mesma espécie e bastante parecido que preenchesse o seu lugar.
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Uma noite, estava eu sentado meio aturdido num antro mais do que infamante, a minha atenção foi despertada por um objecto preto que repousava no topo de um dos enormes toneis de gin ou de rum que constituíam o principal mobiliário do compartimento. Havia minutos que olhava para a parte superior do tonel, e o que agora me causava surpresa era o facto de não me ter apercebido mais cedo do objecto que estava em cima. Aproximei-me e toquei-lhe com a mão. Era um gato preto, um gato enorme, tão grande como Plutão e semelhante a ele em todos os aspectos menos num. Plutão não tinha sequer um único pêlo branco no corpo, enquanto este gato tinha uma mancha branca, grande mas indefinida, que lhe cobria toda a região do peito.
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Quando lhe toquei, imediatamente se levantou e ronronou com força, roçou-se pela minha mão, e parecia contente por o ter notado. Era este, pois, o animal que eu procurava. Imediatamente propus a compra ao dono, mas este nada tinha a reclamar pelo animal, nada sabia a seu respeito, nunca o tinha visto até então.
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Continuei a acariciá-lo, e quando me preparava para ir para casa, o animal mostrou-se disposto a acompanhar-me. Permiti que o fizesse, inclinando-me de vez em quando para o acariciar enquanto caminhava. Quando chegou a casa, adaptou-se logo e logo se tornou muito amigo da minha mulher.
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Pela minha parte, não tardou em surgir em mim uma antipatia por ele. Era exactamente o reverso do que eu esperava, mas, não sei como nem porquê, a sua evidente ternura por mim desgostava-me e aborrecia-me. Lentamente, a pouco e pouco, esses sentimentos de desgosto e de aborrecimento transformaram-se na amargura do ódio. Evitava o animal; um certo sentimento de vergonha e a lembrança do meu anterior acto de crueldade impediram-me de o maltratar fisicamente. Abstive-me, durante semanas, de o maltratar ou exercer sobre ele qualquer violência, mas, gradualmente, muito gradualmente, cheguei a nutrir por ele um horror indizível e a fugir silenciosamente da sua odiosa presença como do bafo da peste.
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O que aumentou, sem dúvida, o meu ódio pelo animal foi descobrir, na manhã do dia seguinte a tê-lo trazido para casa, que, tal como Plutão, tinha também sido privado de um dos seus olhos. Esta circunstância, contudo, mais afeição despertou na minha mulher, que, como já disse, possuía em alto grau aquele sentimento de humanidade que fora em tempos característica minha e a fonte de muitos dos meus prazeres mais simples e mais puros.
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Com a minha aversão pelo gato parecia crescer nele a sua preferência por mim. Seguia os meus passos com uma pertinácia que seria difícil fazer compreender ao leitor. Sempre que me sentava, enroscava-se debaixo da minha cadeira ou saltava-me para os joelhos, cobrindo-me com as suas repugnantes carícias. Se me levantava para caminhar, metia-se-me entre os pés e quase me fazia cair ou, fincando as suas garras compridas e aguçadas no meu roupão, trepava-me até ao peito. Em tais momentos, embora a minha vontade fosse matá-lo com uma pancada, era impedido de o fazer, em parte pela lembrança do meu crime anterior mas, principalmente, devo desde já confessá-lo, por um verdadeiro medo do animal.
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Este medo não era exactamente o receio de um mal físico; no entanto, é me difícil defini-lo de outro modo. Quase me envergonhava admitir - sim, mesmo aqui, nesta cela de malfeitor, eu me envergonho de admitir - que o terror e o horror que o animal me infundia se viam acrescidos de uma das fantasias mais perfeitas que é possível conceber. Minha mulher tinha-me chamado várias vezes a atenção para o aspecto da mancha de pêlo branco de que já falei, e que era a única diferença aparente entre o estranho animal e aquele que eu tinha eliminado. O leitor lembrar-se-á que esta marca, embora grande, era, originariamente, bastante indefinida, mas, gradualmente, por fases quase imperceptíveis e que durante muito tempo a minha razão lutou por rejeitar como fantasiosas, assumira, finalmente, uma rigorosa nitidez de contornos. Era agora a imagem de um objecto que me repugna mencionar, e por isso eu o odiava e temia acima de tudo, e ter-me-ia visto livre do monstro se o ousasse. Era agora a imagem de uma coisa abominável e sinistra: a imagem da forca!, oh!, lúgubre e terrível máquina de horror e de crime, de agonia e de morte.
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Por essa altura, eu era, na verdade, um miserável maior do que toda a miséria humana. E um bruto animal cujo semelhante eu destruíra com desprezo, um bruto animal a comandar-me, a mim, um homem, feito à imagem do Altíssimo - oh!, desventura insuportável. Ah, nem de dia nem de noite, nunca, oh!, nunca mais, conheci a bênção do repouso! Durante o dia o animal não me deixava um só momento. De noite, a cada hora, quando despertava dos meus sonhos cheios de indefinível angústia, era para sentir o bafo quente daquela coisa sobre o meu rosto e o seu peso enorme, encarnação de um pesadelo que eu não tinha forças para afastar, pesando-me eternamente sobre o coração. Sob a pressão de tormentos como estes, os fracos resquícios do bem que havia em mim desapareceram. Só os pensamentos pecaminosos me eram familiares - os mais sombrios e os mais infames dos pensamentos. A tristeza do meu temperamento aumentou até se tornar em ódio a tudo e à humanidade inteira. Entretanto, a minha dedicada mulher era a vítima mais usual e paciente das súbitas, frequentes e incontroláveis explosões de fúria a que então me abandonava cegamente.
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Um dia acompanhou-me, por qualquer afazer doméstico, à cave do velho edifício onde a nossa pobreza nos forçava a habitar. O gato seguiu-me nas escadas íngremes e quase me derrubou, o que me exasperou até à loucura. Apoderei-me de um machado, e desvanecendo-se na minha fúria o receio infantil que até então tinha detido a minha mão, desferi um golpe sobre o animal, que seria fatal se o tivesse atingido como eu queria. Mas o golpe foi sustido diabólicamente pela mão da minha mulher. Enraivecido pela sua intromissão, libertei o braço da sua mão e enterrei-lhe o machado no crânio. Caiu morta, ali mesmo, sem um queixume.
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Consumado este horrível crime, entreguei-me de seguida, com toda a determinação, à tarefa de esconder o corpo. Sabia que não o podia retirar de casa, quer de dia quer de noite, sem correr o risco de ser visto pelos vizinhos. Muitos projectos se atropelaram no meu cérebro. Em dado momento, cheguei a pensar em cortar o corpo em pequenos pedaços e destruí-los um a um pelo fogo. Noutro, decidi abrir uma cova no chão da cave. Depois pensei deitá-lo ao poço do jardim, ou metê-lo numa caixa como qualquer vulgar mercadoria e arranjar um carregador para o tirar de casa. Por fim, detive-me sobre o que considerei a melhor solução de todas. Decidi emparedá-lo na cave como, segundo as narrativas, faziam os monges da Idade Média às suas vítimas.
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A cave parecia convir perfeitamente aos meus intentos. As paredes não tinham sido feitas com os acabamentos do costume e, recentemente, tinham sido todas rebocadas com uma argamassa grossa que a humidade ambiente não deixara endurecer. Além do mais, numa das paredes havia uma saliência causada por uma chaminé falsa ou por uma lareira que tinha sido entaipada para se assemelhar ao resto da cave. Não duvidei que me seria fácil retirar os tijolos neste ponto, meter lá dentro o cadáver e tornar a pôr a taipa como antes, de modo que ninguém pudesse lobrigar qualquer sinal suspeito.
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Não me enganei nos meus cálculos. Com o auxílio de um pé-de-cabra retirei facilmente os tijolos, e depois de colocar cuidadosamente o corpo de encontro à parede interior, mantive-o naquela posição ao mesmo tempo que, com um certo trabalho, devolvia a toda a estrutura o seu aspecto primitivo.
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Usando de toda a precaução, procurei argamassa, areia e fibras com que preparei um reboco que se não distinguia do antigo e, com o maior cuidado, cobri os tijolos. Quando terminei, vi com satisfação que tudo estava certo. A parede não denunciava o menor sinal de ter sido mexida. Com o maior escrúpulo, apanhei do chão os resíduos. Olhei em volta, triunfante, e disse para comigo: «Aqui, pelo menos, não foi infrutífero o meu trabalho.»
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A seguir procurei o animal que tinha sido a causa de tanta desgraça, pois que, finalmente, tinha resolvido matá-lo. Se o tivesse encontrado naquele momento, era fatal o seu destino. Mas parecia que o astuto animal se alarmara com a violência da minha cólera anterior e evitou aparecer-me na frente, dado o meu estado de espírito. É impossível descrever ou imaginar a intensa e aprazível sensação de alívio que a ausência do detestável animal me trouxe. Não me apareceu durante toda a noite, e deste modo, pelo menos por uma noite, desde que o trouxera para casa, dormi bem e tranquilamente; sim, dormi, mesmo com o crime a pesar-me na consciência.
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Passaram-se o segundo e terceiro dias e o meu verdugo não aparecia. Mais uma vez respirei como um homem livre. O monstro, aterrorizado, tinha abandonado a casa para sempre! Nunca mais voltaria a vê-lo!
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Suprema felicidade a minha! A culpa da acção tenebrosa inquietava-me pouco. Fizeram-se alguns interrogatórios que colheram respostas satisfatórias. Fez-se inclusivamente uma busca, mas, naturalmente, nada se descobriu. Dava como certa a minha felicidade futura. No quarto dia após o crime, surgiu inesperadamente em minha casa um grupo de agentes da Polícia que procederam a uma rigorosa busca. Eu, porém, confiado na impenetrabilidade do esconderijo, não sentia qualquer embaraço. Os agentes quiseram que os acompanhasse na sua busca. Não deixaram o mínimo escaninho por investigar. Por fim, pela terceira ou quarta vez, desceram à cave. Nem um músculo me tremeu. O meu coração batia calmamente como o coração de quem vive na inocência. Percorri a cave de ponta a ponta. De braços cruzados no peito, andava descontraído de um lado para o outro. Os agentes estavam completamente satisfeitos e prontos para partir. O júbilo do meu coração era demasiado intenso para que o pudesse suster. Ansiava por dizer pelo menos uma palavra à guisa de triunfo e para tornar duplamente evidente a sua convicção da minha inocência.
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- Senhores - disse por fim, quando iam a subir os degraus. - Estou satisfeito por ter dissipado as vossas suspeitas. Desejo muita saúde para todos, e um pouco mais de cortesia. A propósito, esta casa está muito bem construída (e no meu furioso desejo de dizer qualquer coisa com à-vontade, mal sabia o que estava a dizer). Direi, até, que é uma casa excelentemente construída. Estas paredes... vão-se já embora, meus senhores?... Estas paredes estão solidamente ligadas. - E neste momento, por uma frenética fanfarronice, bati com força, com uma bengala que tinha na mão, na parede atrás da qual se encontrava o cadáver da minha querida esposa.
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Ah!, que Deus me livre das garras do arquidemónio! Mal tinha o eco das minhas pancadas mergulhado no silêncio, quando uma voz lhes respondeu de dentro do túmulo: um gemido, a princípio abafado e entrecortado como o choro de urna criança, que depois se transformou num prolongado grito sonoro e contínuo, extremamente anormal e inumano. Um bramido, um uivo, misto de horror e de triunfo, tal como só do inferno poderia vir, provindo das gargantas conjuntas dos condenados na sua agonia e dos demónios no gozo da condenação.
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Seria insensato falar dos meus pensamentos. Senti-me desfalecer e encostei-me à parede da frente. Tolhidos pelo terror e pela surpresa, os agentes que subiam a escada detiveram-se por instantes. Logo a seguir, doze braços vigorosos atacavam a parede. Esta caiu de um só golpe. O cadáver, já bastante decomposto e coberto de pastas de sangue, apareceu erecto frente aos circunstantes. Sobre a cabeça, com as vermelhas fauces dilatadas e o olho solitário chispando, estava o odioso gato cuja astúcia me compelira ao crime e cuja voz delatora me entregava ao carrasco. Eu tinha emparedado o monstro no túmulo!
-
por Edgar Allan Poe

Animais de Estimação, O CORVO by Edgar Allan Poe


O CORVO

Tradução Fernando Pessoa

Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,
Vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais,
E já quase adormecia, ouvi o que parecia
O som de algúem que batia levemente a meus umbrais.
"Uma visita", eu me disse, "está batendo a meus umbrais.
É só isto, e nada mais."
-
Ah, que bem disso me lembro! Era no frio dezembro,
E o fogo, morrendo negro, urdia sombras desiguais.
Como eu qu'ria a madrugada, toda a noite aos livros dada
P'ra esquecer (em vão!) a amada, hoje entre hostes celestiais -
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais,
Mas sem nome aqui jamais!
Como, a tremer frio e frouxo, cada reposteiro roxo
Me incutia, urdia estranhos terrores nunca antes tais!
Mas, a mim mesmo infundido força, eu ia repetindo,
"É uma visita pedindo entrada aqui em meus umbrais;
Uma visita tardia pede entrada em meus umbrais.
É só isto, e nada mais".
-
E, mais forte num instante, já nem tardo ou hesitante,
"Senhor", eu disse, "ou senhora, decerto me desculpais;
Mas eu ia adormecendo, quando viestes batendo,
Tão levemente batendo, batendo por meus umbrais,
Que mal ouvi..." E abri largos, franqueando-os, meus umbrais.
Noite, noite e nada mais.
A treva enorme fitando, fiquei perdido receando,
Dúbio e tais sonhos sonhando que os ninguém sonhou iguais.
Mas a noite era infinita, a paz profunda e maldita,
E a única palavra dita foi um nome cheio de ais -
Eu o disse, o nome dela, e o eco disse aos meus ais.
Isso só e nada mais.
-
Para dentro estão volvendo, toda a alma em mim ardendo,
Não tardou que ouvisse novo som batendo mais e mais.
"Por certo", disse eu, "aquela bulha é na minha janela.
Vamos ver o que está nela, e o que são estes sinais."
Meu coração se distraía pesquisando estes sinais.
"É o vento, e nada mais."
-
Abri então a vidraça, e eis que, com muita negaça, Entrou grave e nobre um corvo dos bons
tempos ancestrais.
Não fez nenhum cumprimento, não parou nem um momento,
Mas com ar solene e lento pousou sobre os meus umbrais,
Num alvo busto de Atena que há por sobre meus umbrais,
Foi, pousou, e nada mais.
-
E esta ave estranha e escura fez sorrir minha amargura
Com o solene decoro de seus ares rituais.
"Tens o aspecto tosquiado", disse eu, "mas de nobre e ousado,
Ó velho corvo emigrado lá das trevas infernais!
Dize-me qual o teu nome lá nas trevas infernais."
Disse o corvo, "Nunca mais".
-
Pasmei de ouvir este raro pássaro falar tão claro,
Inda que pouco sentido tivessem palavras tais.
Mas deve ser concedido que ninguém terá havido
Que uma ave tenha tido pousada nos meus umbrais,
Ave ou bicho sobre o busto que há por sobre seus umbrais,
Com o nome "Nunca mais".
-
Mas o corvo, sobre o busto, nada mais dissera, augusto,
Que essa frase, qual se nela a alma lhe ficasse em ais.
Nem mais voz nem movimento fez, e eu, em meu pensamento
Perdido, murmurei lento, "Amigo, sonhos - mortais
Todos - todos já se foram. Amanhão também te vais".
Disse o corvo, "Nunca mais".
-
A alma súbito movida por frase tão bem cabida,
"Por certo", disse eu, "são estas vozes usuais,
Aprendeu-as de algum dono, que a desgraça e o abandono
Seguiram até que o entono da alma se quebrou em ais,
E o bordão de desesp'rança de seu canto cheio de ais
Era este "Nunca mais".
-
Mas, fazendo inda a ave escura sorrir a minha amargura,
Sentei-me defronte dela, do alvo busto e meus umbrais;
E, enterrado na cadeira, pensei de muita maneira
Que qu'ria esta ave agoureia dos maus tempos ancestrais,
Esta ave negra e agoureira dos maus tempos ancestrais,
Com aquele "Nunca mais".
-
Comigo isto discorrendo, mas nem sílaba dizendo
À ave que na minha alma cravava os olhos fatais,
No veludo onde a luz punha vagas sobras desiguais,
Naquele veludo one ela, entre as sobras desiguais,
Reclinar-se-á nunca mais!
-
Fez-se então o ar mais denso, como cheio dum incenso
Que anjos dessem, cujos leves passos soam musicais.
"Maldito!", a mim disse, "deu-te Deus, por anjos concedeu-te
O esquecimento; valeu-te. Toma-o, esquece, com teus ais,
O nome da que não esqueces, e que faz esses teus ais!"
Disse o corvo, "Nunca mais".
-
"Profeta", disse eu, "profeta - ou demônio ou ave preta!
Fosse diabo ou tempestade quem te trouxe a meus umbrais,
A este luto e este degredo, a esta noite e este segredo,
A esta casa de ância e medo, dize a esta alma a quem atrais
Se há um bálsamo longínquo para esta alma a quem atrais!
Disse o corvo, "Nunca mais".
-
"Profeta", disse eu, "profeta - ou demônio ou ave preta!
Pelo Deus ante quem ambos somos fracos e mortais.
Dize a esta alma entristecida se no Édem de outra vida
Verá essa hoje perdida entre hostes celestiais,
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais!"
Disse o corvo, "Nunca mais".
-
"Que esse grito nos aparte, ave ou diabo!", eu disse. "Parte!
Torna à noite e à tempestade! Torna às trevas infernais!
Não deixes pena que ateste a mentira que disseste!
Minha solidão me reste! Tira-te de meus umbrais!
Tira o vulto de meu peito e a sombra de meus umbrais!"
Disse o corvo, "Nunca mais".
-
E o corvo, na noite infinda, está ainda, está ainda
No alvo busto de Atena que há por sobre os meus umbrais.
Seu olhar tem a medonha cor de um demônio que sonha,
E a luz lança-lhe a tristonha sombra no chão há mais e mais,
Libertar-se-á... nunca mais!

sábado, 19 de maio de 2007

Filhotes & Meus Poemas


Prole

Carrego um fardo que nunca se alivia
Como uma cadela de rua preste a dar cria
No ventre das minhas idéias ela nunca cicatriza
Estou engravidado pelo poema, estou gerando uma poesia

Nas dores desse parto eterno me esvaio
Em sangue, palavras e infinito útero vazio
Puxo e faço força, para escrever o que eu sinto
Eis que me vem à tona minhas crianças, meus filhos

Nunca me pertenceram, e jamais me serão
É um vício que sinto mais devasso que a devassidão
De ser promíscuo com a arte e se entregar à emoção

Ao menos entre as linhas tortas, no caos simbólico
Descobrindo a razão na ilusão de viver
Eu encontro refúgio, para o meu amor e meu ódio


Also by me

Poesitas


A Poesia

Versos, são belos
Terríveis beijos
Doses de veneno
Que embelezam o amargo da vida

A poesia é promíscua
É conversa de bêbado
Intelectual, vulgar e sem-vergonha
De tão sincera que não se pode levá-la a sério

Ela é uma madrugada, com incontáveis estrelas
E cada um que a lê cria sua própria constelação
A poesia é uma forma de ilusão
Mais verdadeira que eu já vi


by José Rodolfo

segunda-feira, 14 de maio de 2007

A Arte Colorida do Lixo







Olha só isso galera. Alguém adivinha? Sim, mais um dos nossos. Ed Primo, que hoje vive em SP também saiu daqui, artista das cores e formas, trabalha com material retirado dentre outros lugares, do lixo, não só criando obras-de-arte fabulosas como essas de cima, como reciclando a sujeira alheia. Além das tintas, Ed faz colagens e pinta camisetas ecológicas. Aguardem, logo mais posto novas obras desse rapaz. Pra quem não acredita em mim, confira então as críticas:



"Poética das cores, na dança dos movimentos que em pinceladas tão vigorosas como a força expressiva, fazem pulsar mais forte as ondas de emoção de quem admira e frui a obra deste artista impar, seja pelo virtuosismo de suas preciosas pinceladas que dançam no espaço, seja pelo mergulho em nós mesmos que Ed Primo nos arremessa, rumo, ao infinito onde tudo é Arte Pura..."


Regina Catellani - Escola Recriart - São Paulo, 28 de Agosto de 1997

-


"Cores, vibrações, sentido. Ver o que não está e o que pode estar. Tudo pode ser na pintura de Ed Primo. Expressão de um pequeno espaço, na imensidão do olhar. Assim se insere dentro das miniaturas onde mundos expressos sobre cores e movimentos estão dentro dos seus minúsculos receptáculos de vida."



Yutaka Toyota - Escultor e Artista plástico - São Paulo, 25 de Agosto de 1997

domingo, 13 de maio de 2007

Barão de Itararé



Barão de Itararé, da chacota nasce a nossa assinatura. Mas honremos a homenagem desse gaúcho, bem ou mal, a nossa peteca na arte ainda não caiu, como a batata ainda está assando para quem acredita que vai cair. Itararé tem muitos bons artistas, e até batizou um deles que de Itararé tinha o mais importante, o humor na alma, Aparício Torelly.

Máximas...

. Tempo é dinheiro. Vamos, então, fazer a experiência de pagar as nossas dívidas com o tempo.

A primeira vez...


Olá pessoal, sejam bem-vindos ao meu blog blá blá blá... Vamos começar pelo começo, para que ninguém fique com medo.


ITARARÉ

Água mole
Pedra dura
Tanto bate
Até que fura

A serpente d’água foi amaldiçoada pelo deus-Trovão
A não mais rastejar sob o sol
Na escuridão da gruta
Onde as andorinhas dormem
Correm as águas, se esconde a santa
Túmulo de suicidas, a última Fronteira
A Barreira que não nos protege da nossa maldição

Ah, Itararé
Então, como é que é?
Para onde nos levará essa maré
De peixes podres?

Ainda temos fé
Circo, pão, Festa do Peão
E bares cheios de gente vazia
Os velhos brincam de dia
Na praça, com suas cartas
E os jovens envelhecem nas esquinas
À noite, com seus cigarros e bebidas

Eu vejo Piratas no Rio da Prata
As Batalhas ainda não estão terminadas
Nós vamos terminar o que Getúlio Vargas
começou

Por duas vezes quase desaparecemos
Talvez consigamos dessa vez
Estamos longe demais das capitais
Nem mesmo temos nossos próprios carnavais
Micaritas ilusórias

Por três vezes negaremos a nossa miséria
A nossa derrota

Pérolas aos porcos
Vão-se os anéis, ficam os dedos
O que nos restará, quando chegar a nossa hora
Vamos nos esconder onde?

Sete palmos embaixo da terra...

Água mole
Pedra dura
Tanto bate
Até que fura

E enche o saco


Quem leu leu, quem não leu, comenta antes de dizer adeus