quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Álcool na Ferida


Vês? Tu que és a testemunha de minha ruína
O segredo que guardo, a ferida aberta?
Aqui é a catedral onde o tempo corrói minhas lembranças
Das épocas perdidas em que fui criança

Olhe para os vitrais quebrados, o sol já os iluminou um dia
A cor, havia mais cor do que hoje é só cinza
A poeira do esquecimento do que é ter esperança
Não sei mais o que é ser inocente

Agora, Tu há de saber a verdade
Tu fazes parte disto, não se pode negar
E como te sentes?

Duvido que estejas aliviado
Uma única vez, seja sincero
A sentença é clara, e então, te declaras culpado?
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Todos nós carregamos ao longo da vida, nossos erros, nossas experiências, cicatrizes e marcas que colhemos e que em nós são impressas. Nenhuma delas, no entanto, são tão profundas, duradouras do que as da infância. Os tempos mudam, as coisas mudam, mas elas permanecem lá, aquelas feridas. Essa é uma que carrego comigo há muito tempo, sei que muitos amigos e conhecidos passaram ou ainda passam por coisas semelhantes com conhecidos ou na família, embora consigamos sobreviver a isso, rindo da nossa própria dor, o pulso ainda pulsa, a ferida ainda sangra.

Estudo Humano


Ser o que somos
É duvidar, é mudar
É sofrer, nada muda sem dor

Viver é adiar a morte inevitável
É tentar descobrir o que não é vão
Olhar para o futuro aspirando habitá-lo

Ser humano é se auto-domesticar
Muitas vezes, sem sucesso

É ver que além do gozo
Muito pouco importa, mas esse pouco faz toda a diferença

terça-feira, 23 de outubro de 2007

Augusto dos Anjos, o poeta esquecido




PSICOLOGIA DE UM VENCIDO

Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênese da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.

Produndissimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância...
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.

Já o verme -- este operário das ruínas --
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e à vida em geral declara guerra,

Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!
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Trazer a poesia de volta para onde ela pertence, tirá-la das poeirentas prateleiras e fazê-la retornar ao povo, inovar temas, formas. Esse é um grande desafio que os poetas encaram, mas um em especial, o fez com tamanha competência e ousadia que até hoje os críticos não sabem se o amam ou o odeiam. Esse foi Augusto dos Anjos, que com a crueza de um legista, disseca cada verso para mostrar a dor, seja de quem é derrotado na vida, pela vida, ou pela morte. Vocês ainda ouvirão falar mais sobre ele por aqui...

SEIOS - SOLDA



sois
os anseios
de todos
os meus ensaios
sois a ânsia
essência
dos meus sais
sois
todos os sóis
sois
dois seios
nada mais

solda

domingo, 21 de outubro de 2007

Os nomes do Caminho das Pedras


Era um grande nome - ora que dúvida!
Uma verdadeira glória.
Um dia adoeceu, morreu, virou rua…
E continuaram a pisar em cima dele.
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Mário Quintana
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Contribuição do amigo Joly.

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

Diga olá para o Clitóris da Vida


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Estava eu a ler o blog "MUDE" do Edson Marques, quando me deparei com a pergunta. Achei de uma pertinência tremenda, tanto, que agora a passo para vocês.

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

O VÔO DE ÍCARO


O Vôo de Ícaro
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Condenado a vagar perdido
Pelos corredores do indecifrável labirinto
Entre as paredes frias
Tendo a morte como vizinho
A sombra de seu pai, o ofuscando e cobrindo
Ele cresceu, ele era Ícaro
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Um rapaz com alma de anjo
O fogo ardia nele, violentamente, manso
O vento sussurrava
A liberdade do ar etéreo
As asas abertas, os braços abertos, os olhos fechados
Num vôo leve, breve e eterno
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O sol queimava, o sal queimava
Suas asas derreteram, seu corpo engolido pelas águas
Um salto para a luz, uma queda para as trevas
Uma fuga para o céu, um retorno para a terra
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Mais um anjo caído, mais um sonho perdido
Com lágrimas nos olhos, nos lábios um sorriso
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O Destino, o Infinito, o Abismo
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O Vôo de Ícaro
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O Delírio, o Invisível, o Vazio
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O Vôo de Ícaro
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A Estrela Cadente, a Paixão Ardente,
O Impossível...
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O Vôo de Ícaro
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Detalhe interessante. Postei esse poema em uma comunidade no orkut e um membro me disse algo que eu não havia pensado. Os gregos não atentaram para o fato de que quanto mais se sobe, mais frio fica, não o contrário. Por isso, seria impossível que as asas de Ícaro derretessem. Obviamente Ícaro se trata de um mito, no entanto, os gregos apesar de terem sido um dos povos mais avançados filosoficamente e tecnologicamente, não cometeriam essa gafe se soubessem desse detalhe em relação a temperatura e altitude.
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Todavia, Ícaro é uma belíssima história e esse detalhe não tira o brilho de sua essência. Só achei que talvez vocês pudessem gostar, até mais.

domingo, 7 de outubro de 2007

"Experiência é o nome que damos a nossos erros." - WILDE, Aforismos


Anybody can sympathise with the sufferings of a friend, but it requires a very fine nature to sympathise with a friend's success.
OSCAR WILDE
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Qualquer um é capaz de se comover com o sofrimento de um amigo, mas é necessário uma natureza muito boa para se comover com o sucesso de um amigo.
tradução livre
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Essa é apenas uma pequeníssima amostra dos aforismos de Oscar Wilde, simplesmente genial. Não sei como ainda não tinha postado sobre ele, parafraseando uma outra máxima dele, a verdadeira finalidade da arte é se revelar e ocultar o artista, então, seguindo esse preceito, Wilde conseguiu criar Arte, já que muito do que produziu se está inserido na cultura popular, sem que lhe atribuam a autoria merecida.

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

O Caminho das Pedras




Eu canto pelas ruas de pedra, pelo asfalto selvagem
Pelos recantos da noite, sob a lua, dentro de alguma garagem
Eu grito, aos sete ventos, doido varrido
Eu vivo, eu canto, eu grito, eu sangro
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Eu amo
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Todo bairro tem um louco que o bairro gosta
Só falta mais um pouco para que eles aceitem minha proposta
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Eu escrevo, eu sonho, eu invento, eu como
Rei Momo da minha poesia, José Rodolfo
Um estranho no ninho, andorinha e corvo
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Palhaço cômico, um tanto quanto misantropo
Que sofre quase sozinho, que faz sofrer
Acorrentado no íntimo, um lobisomem que sonha além
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Procurando moinhos, mesmo que às vezes me falte ar