quarta-feira, 28 de novembro de 2012

RONIN



   A noite estava fria e silenciosa. O vento soprava levemente através das flores rosas das cerejeiras. A lua derramava sua luz sobre o lago no coração da floresta tão bela que parecia ter sido harmonizada pela arte do ikebana. Na margem desse lago um homem ajoelhado lavava suas mãos sujas de sangue nas águas transparentes, mas as manchas não desapareciam por mais que ele esfregasse. E uma mulher o observava, sem saber como lhe dizer o que sentia.

   Eles sofreram uma emboscada na estrada que cortava o bambuzal dos pandas, o samurai mesmo surpreendido derrotou dez homens antes de uma flecha acertá-lo e ainda assim continuo a lutar. Contudo ele era apenas um, por mais que fosse um guerreiro habilidoso como ninguém no bushido, ele não pôde evitar que o inimigo colocasse uma adaga contra a garganta da dama de seu mestre, a mulher mais doce e pura que ele conhecia. Ela ao contrário de seu amo era dócil e carinhosa com seus servos, gentil e honrada. O motivo da guerra entre os senhores feudais era o controle sobre as plantações de arroz e o guerreiro era um servo disposto a dar sua vida por seu daimyo neste jogo de poder.
   Porém quando seu mestre respondeu a ameaça do inimigo dizendo que ele preferia ver sua mulher morta a se submeter a vergonha da derrota, o samurai não podendo deixar que aquela mulher inocente fosse ferida  atacou furioso o covarde que a assustava. Sua katana rasgou o quimono de seda do velho e cortou sua carne como ferro quente na manteiga, com um único golpe o samurai abateu o líder do clã inimigo. Com esse gesto impensado ele salvou a esposa de seu daimyo, mas condenou o próprio daimyo à morte. Os soldados derrubaram o pesado homem de seu cavalo e o trespassaram com suas lanças. Ele morreu gritando na lama. 
   O samurai olhou dentro dos olhos castanhos da dama e viu uma lágrima rolar sobre seu rosto e então, com a alma ardendo em fúria se jogou em um ataque kamikaze, sem se preocupar com sua vida contra os soldados. Ele lutou como se estivesse possuído por um oni, um espírito maligno e os soldados tremiam diante dele. Quando ninguém mais restava e ele estava coberto de sangue e suor, ele se ajoelhou aos pés de sua senhora e pediu perdão por não ter cumprido sua tarefa de proteger seu daimyo. Ela o fez se erguer e o abraçou forte, sentindo a respiração quente do guerreiro contra seu pescoço. Em silêncio eles montaram no cavalo de batalha e partiram.
   No caminho de volta para o palácio ela pediu para que mudassem de direção. Ela conhecia a tradição dos samurais e sabia o que ele teria que fazer quando chegassem, o harakiri, um suicídio doloroso e lento em frente aos outros guerreiros para assegurar com sua morte que seu erro não maculasse seu nome pela eternidade. Não havia perdão para o que ele fizera, nem desculpa, ela entendia, todavia não aceitava a ideia de perdê-lo. Ela era uma bela jovem, muito mais jovem do que o desprezível daimyo que se casara. Ela conhecia até aquele instante somente o lado ruim dos homens, seu pai, um mercador de ervas e chá  extremamente rígido e cruel casou sua filha para se aliar ao poderoso daimyo. Seu marido a humilhava insultando-a e por vezes até mesmo lhe agredindo nas noites em que o saquê não lhe permitia desempenhar as funções de marido. Aquele guerreiro parecia ter surgido das canções e lendas que os monges, os únicos homens que ela conhecera que eram bons, contavam.
    Ela não podia aceitar que ele partisse depois de tê-la salvo, ela precisava de alguma forma agradecer por sua bondade, mesmo não sabendo como. Ela queria mostrar para ele o que sentia, mesmo que ela mesmo não soubesse explicar. Por isso pediu que fossem até a floresta onde antigamente os monges meditavam entre estátuas ancestrais. E lá, depois de acender uma fogueira para aquecê-los, ele lavava as mãos enquanto ela com o coração partido ao vê-lo tão triste e perdido decidiu lavar sua alma.
   Ela era bela, mais bela do que qualquer gueixa das okyias, porque seu encanto era natural. Ela foi até o homem e o abraçou de costas, então ele se virou e fitando-a um nos olhos, beijou. As mãos sem pedir ordem correram despir e desamarrar armadura e quimono. Ela o chamou para dentro das águas e o fez entrar em seu íntimo. Carpas vermelhas e douradas bailavam ao redor deles enquanto eles descobriam a paixão. O fogo queimava os gravetos e liberava aromas de incenso enquanto a pele dos amantes queimava.
   Ele se tornara dentro dela uma onda borbulhante, espumante, caótica e imprevisível, um ronin. Um samurai sem mestre nem destino. Um homem livre para amar sem medo.
   E ela uma mulher protegida, recebendo carinho como nunca sonhara, e feliz.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Só se for a Dois

No fim daqueles dias longos
Em que tudo parece meio morno
Como intermináveis outonos
Em que se nos descuidarmos
Podemos até esquecermos quem somos
Preocupados com o zumbido dos pernilongos
Quando você mais precisar hei de te garantir um porto

Esconda-se em meu colo que te protejo em meus braços
Te abrigo dos trovões, da chuva, das sombras, te livro do cansaço
Acomode-se como bem quiser, com a demora dos gatos
E então em um enlaço, como criança com sono
Irei te fazer cafuné e beijar seus olhos
Sonhando acordado, velarei teus sonhos

E vou te permitir o descanso merecido
Enquanto leio algum poema bonito
E sorrir sem explicação, sem sentido
E achar romantismo até nos poetas malditos
E te acordar com o despertador da saudade

Como se me custasse acreditar na verdade
O que sinto é simplesmente felicidade
E como um louco, achar-nos razoável
E surpreender a todos, a nós mesmos
Com uma alegria sem segredos, mas inexplicável

quarta-feira, 18 de julho de 2012

O Flautista de Hamelin



Eles surgiam de noite enquanto todos dormiam. Vindos dos esgotos, dos bueiros se esgueirando para dentro das casas, assaltando as despensas. Nada podia pará-los, eles destruíam os sacos de mantimentos, devoram até a carne salgada, mesmo os gatos trazidos do Egito não foram capazes de vencê-los. E quando o dia raiava, gritos de desespero ecoavam por Hamelin. A horda de ratos era tão insaciável que pulavam até mesmo dentro dos berços dos recém-nascidos. Ninguém estava a salvo daquela praga bíblica. O povo, reconhecendo sua impotência ante ao mal que se abatera sobre eles, foram até a igreja rezar e pedir ajuda. E em uma manhã de sol eles foram atendidos.
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Um flautista apareceu na cidade dizendo-se capaz de libertar Hamelin. Havia algo de estranho, encantadoramente desafiador, ameaçador, naquela figura. Um bardo insano, um bobo da corte que conhece os segredos mais terríveis de seu monarca, um lunático. As pessoas não o queriam por perto, porém como nada mais fazia sentido, deram-lhe uma chance. O prefeito selou o acordo: para cada roedor, uma moeda. Ninguém sabia quantos ratos havia, ninguém esperava que ele conseguisse.
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Enquanto todos dormiam o menestrel esperava. A lua o banhando. Um pouco depois da meia-noite os  guinchos agudos começaram a ser escutados nos becos escuros. Ligeiros e furtivos eles se multiplicavam, centenas, milhares, tomando as ruas. O flautista então pegou sua flauta e docemente pôs-se a tocar.
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Os ratos pararam como que encantados e se voltaram todos para ele. Então vagarosamente se aproximaram, cheirando seus pés, alguns brincando com os guizos de suas roupas, roendo seus cadarços. E mais, começaram a escalar suas pernas e a entrar por suas roupas, mesmo assim, o flautista não parou um segundo.
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As pessoas despertadas pela música abriram suas janelas e portas e viram sua cidade infestada. As mulheres gritaram horrorizadas, as crianças choravam de medo. O flautista estava coberto pelos animais, como um monstro, uma legião partilhando uma mesma consciência saído dos pesadelos do povo de Hamelin. Só depois que a cidade testemunhou seu feito que o flautista calmamente começou a andar pelas ruas, sem cessar de tocar e os ratos hipnotizados pela melodia o seguiram.
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Marchou como um conquistador liderando seu exército em frente de todos e seguiu pelo cemitério até a saída da cidade ganhando a estrada. O povo descrente do que acabaram de ver seguiu os passos do flautista.
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Às margens do rio Weser o flautista que agora começava a dançar em transe derrubava os ratos de si e eles agitados se atracavam uns contra os outros. Quanto mais ele dançava e rodopiava mais enfurecidos ficavam os ratos até que foram se aproximando do rio e se jogando, um a um, nas águas turvas. À medida em que os passos ficavam mais rápidos - dançava como se estivesse possuído - mais e mais ratos pulavam para a morte.
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O povo chorava de alegria, alguns riam histéricos, todos se abraçavam, os casais se beijavam, as crianças corriam de um lado para o outro gritando. O padre ajoelhado orava aos céus, o prefeito tragava com vontade seu cachimbo. O flautista exausto os fitava, com olhos negros. Nenhuma pessoa lembrou-se dele, lhe agradeceu, todos estavam em êxtase por se livrarem de seu castigo. Rindo e cantando em júbilo se foram sem dizer ao menos adeus. Hamelin festejou como nunca o fizera pelo resto de toda a noite. 
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A cidade amanheceu em silêncio. As crianças dormiam tranquilas pela primeira vez em muito tempo. Os casais cansados pela noite de amor dormiam profundamente. O padre embriagado de vinho repousava o sono dos justos e o prefeito inacreditavelmente satisfeito por ter dado cabo do problema da cidade sem gastar uma só moeda, já que não sobrou nem ao menos um rato, dormia com um sorriso estúpido estampado no rosto.
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Assim o flautista encontrou Hamelin, indefesa, esgotada. Apenas os pássaros o recepcionaram com suas canções de primavera. Sem ninguém que o impedisse ele entrou nas casas e se serviu: fez um belo e farto dejejum, banhou-se com óleos de além-mar e perfumes caros, trocou suas roupas rotas e maltrapilhas por trajes de seda fina e encheu os dedos com anéis de prata.
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Porém o que fez seus olhos brilharem mais do que qualquer outro espólio que pudesse desfrutar foram os filhos de Hamelin. Belas criancinhas gorduchas, loiras, de pele clara como leite, rosadas até. Querubins rechonchudos e cheirosos, doces. Os meninos com seus calçõezinhos curtos e as meninas com suas camisolinhas de renda.
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Sorrindo maliciosamente o flautista alcançou sua flauta. Apenas as crianças em seus sonhos podiam ouvir o chamado. De olhos fechados e pés no chão as crianças pisavam nas pedras do calçamento seguindo o flautista que saltava como um fauno guiando cordeiros para a floresta.
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O povo quando finalmente acordou mal pôde acreditar no que acontecera. Das crianças nada mais se soube, apenas suas pegadas e camas desarrumadas ficaram para trás.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Sonífera Ilha


 Viciadas em morfina, adoradoras de Morfeu, Belas Adormecidas sonhando em camas solitárias. Muito ópio, ébrias, oníricas, porém nada como dar a cara à tapa. Antes isso a nada. Segurança demais, torres altas, Rapunzéis escovando seus cabelos, envelhecendo, juntando poeira, crescendo pelos. Princesas a salvo e com medo. Brancas de Neve enrugadas.

 Aprendam, coloquem suas capas, vistam-se de vermelho e vão à caça. Perambulem pelo Jardim do Éden, brinquem com a serpente, comam, mordam, engulam, experimentem. Percam-se na floresta.

 Os lobos lhes esperam do lado de fora para esquentar-lhes, devorar-lhes, mas vocês preferem passar frio dentro de casa. E ainda reclamam de tédio nos contos de fadas...

terça-feira, 19 de junho de 2012

quarta-feira, 6 de junho de 2012

A Outra Face


Você pode me torturar, me crucificar, me culpar e me responsabilizar por sua desgraça e salvação, não fará diferença. Ainda assim a sua condenação permanece, você é livre. Livre para viver a vida que quiser, para escolher seu caminho, para plantar e colher o que bem entender.
Mas se você continuar a me responsabilizar por tudo, continuar a ser covarde, a dizer que não sabe o que faz e que merece ser perdoado por cada bobagem que fizer, hei de te mostrar a minha outra face. E saiba, você não vai gostar do que verá.


sexta-feira, 1 de junho de 2012

Coup D'état

Silenciosamente na calada da noite em adegas, tavernas, calabouços, nos esgotos, porões e em terríveis esconderijos nos reuniremos. Sem armas, mas ideias e lembranças, um ninho de serpentes e desejos. Revolta e sonhos. Ali, traçados os planos maquiavélicos de liberdade, iremos vandalizar suas estátuas e monumentos, destruir  e incendiar suas torres de orgulho e preconceito. Como sombras ganharemos as avenidas e querubins serão os arautos do seu pesadelo.
Tomar seus prédios e parlamento, desfazer suas leis e mandamentos. Sabotar o esquema e o sistema em que te fizeste eleito para deitar em seu leito. Jamais de direito. Em assalto lhe envenenaremos e tomaremos o que sempre fora nosso, o lugar de onde nunca sairemos. E picharemos teu nome e jogaremos lama em sua reputação e escancararemos teus segredos espalhando-os como tripas jogadas pelas ruas. Todos os seus defeitos. Se vencemos antes, se não o matarmos, destronaremos. Ao menos.
Pois nada escapa, nada se apaga, nada se desfaz. Tudo se transforma e a hora é agora. Nunca antes, para trás. Seu estado será roubado, seus tesouros pilhados e o caos imperará, com lascívia iremos festejar durante cem anos em lençol de cetim. Aguarde, aguarde, nos ouça na calada da noite, a horda, espere e verá.

O que foi é o que será.

Coup D'état

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Satisfação


Primeiro foram os mosquitos. Seres abjetos que infestavam sua casa a cada refeição e a cada fornada de bolo. Descobriu então um veneno maravilhoso que misturado ao açúcar acabava com a praga. Eles eram atraídos pelo açúcar e tinham uma doce morte. Ela assistia pelas tardes os vôos rasantes e os espasmos das perninhas intoxicadas agonizando lentamente.
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Depois vieram as formigas, ligeiras operárias do asco que percorriam em silêncio, furtando e saqueando as migalhas do chão. Para elas a mesma solução. Doce morte. Porém não havia o prazer de ver seu sofrimento, elas levavam o açúcar até o recôndito de seu império e envenenavam sua rainha.
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Vencidos os inimigos que aplacavam seu tédio, a viúva começou a procurar outros até que encontrou um bom desafio. A árvore do vizinho ao lado. Ela jamais gostara daquela árvore que atrapalhava a passagem e tinha um galho baixo que acertava a cabeça dos desavisados. Fora suas folhas que caíam o ano inteiro se amontoando em sua calçada.
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Pensou cuidadosamente e decidiu como um relógio, todos os dias, de manhã e de tarde, regar a bela árvore. Era bonito de ver, todos acham que ela estava a cuidar da última árvore da rua. Entretanto ela estava mesmo era a regar uma morte líquida nas raízes da planta. Inclusive, quando ninguém a via, ela fazia cortes no tronco para a madeira absorver através das feridas o veneno em seu interior.
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Demorou meses, quase um ano. Mas ao fim, em uma chuva forte, a árvore foi derrubada destruindo o carro do vizinho no processo. Sua alegria fora imensa e ela já não sabia como parar. Sua necessidade aumentava. Ninguém jamais desconfiou ou descobriu seus atos.
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Pôs a mesma água da árvore para os passarinhos beberem e os assistia como as moscas de antes, eles se debaterem em seu quintal e ria como uma criança queimando insetos com uma lupa. Tudo isso contudo, não a satisfazia de todo, faltava algo mais.
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Em uma bela tarde de domingo no parque ela estava a jogar pipoca com a morte doce para os pombos, observando como os jovens se assemelhavam às pestes que ela exterminava. Como a vida deixara através dos anos de fazer sentido e como o mundo havia se tornado alienígena e imbecil.
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Perdida em seus próprios pensamentos não notou umas criancinhas vindo ao seu encontro, atraídas pela pipoca tão displicentemente doada aos pássaros. Eles, com o brilho nos olhos que só os inocentes possuem, claro, pediram um pouco.
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Com um sorriso diabólico a senhora entregou para cada um, um bocado de pipoca. Eles festejaram e engoliram rapidamente aquele primeiro bocado, a velha bruxa, ardilosa, cedeu mais e eles saíram de perto.
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De longe ela assistiu os meninos comerem e brincarem. Aos poucos eles foram parando, cansados, com dificuldade para respirar. Depois, desesperados pela asfixia, tremiam. As pessoas começaram a se aproximar para ver o que acontecia enquanto os meninos espumavam pela boca.
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Todavia o melhor foram os gritos de terror dos curiosos ao ver que eles haviam parado de respirar. Nunca a viúva tinha se sentido tão feliz em sua vida, nem mesmo nos braços do seu saudoso amor.
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Pela primeira vez em anos ela voltou para casa cantarolando como fazia quando moça. Passou o resto da noite ouvindo os velhos discos de bolero dos bailes de antigamente. Feliz, satisfeita.

terça-feira, 3 de abril de 2012

Sudário


Sinto- me como um médium
A dor, o sangue derramado
Choro por feridas em mim jamais provocadas
Um mártir coberto de estigmas
No deserto em meio ao nada

Vejo cego a morte
Sinto com uma sensibilidade dolorosa
A paixão rasgar o peito e odiosa
Instalar, incubar ovos e larvas
Na alma que se acostumava
A ser mal-tratada

Escravo assisto a chibata
Lamber a pele, beijar a carne
E sem querer sorrio ao sentir apenas
Porque parece-me que em um mundo
De estátuas, no jardim do Éden
Fui escolhido para saborear a última lágrima

E eis que a dor se torna uma benção
E me encho de raiva

Um cínico modesto


Sou escuridão e mágoa, medo, fraqueza, desespero e lástima
Me envolvo na lama e me cubro de sujeira, me escondo na última trincheira
Do abismo, eu vi no olho do obelisco o meu signo
De má sorte, de azar, de dor
Porque tudo vira poeira, tudo vira pó
Minhas mãos tocam as ruínas e estou sempre só
Abraço minha sombra, estou contra
A vida, a vida, a vida que não me traz
Nada de bom, nenhuma paz
Me contorço e me deixo levar
Pela esperança de me entregar
Em me tornar aquilo que detesto
Um cínico modesto.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

O Dia do Caçador


Me lembro aos dez anos, mais ou menos, de ver meu pai sair de casa bem cedo. Sempre que eu o via pegar o rifle e o facão, mesmo correndo risco de apanhar pedia para ir junto. Não era sua companhia que desejava, as armas era o que me atraía. Minha vida se resumia em passar os dias ajudando minha mãe com os afazeres da casa, foi com ela que aprendi a quebrar o pescoço das galinhas e a furar os porcos para fazê-los sangrar rapidamente. Nessa última lição, demorei a me aprimorar, por alguma razão me divertia errar e vê-los se debatendo e gritando esvaindo-se em sangue.
Não me lembro bem quando foi, mas um dia meu pai farto dos meus pedidos e mais bêbado do que o de costume me deu um canivete e um vira-lata para que eu cuidasse. Ele prometeu que quando o cachorro estivesse grande e forte eu poderia acompanhá-lo.
Cuidei do cachorro o melhor que pude. Minha mãe não gostava de tê-lo por perto e meu pai sempre o chutava quando passava por ele. Em pouco tempo o cachorro estava enorme, forte. Sempre tentava me defender de meu pai o que o deixava furioso. Esse cão foi o mais próximo de um amigo que tive e eu sabia que logo meu pai teria de cumprir sua promessa. E de repente em uma manhã, com poucas palavras ele me chamou. Fomos os três: ele, eu e o cão. Ordenou que eu não esquecesse o canivete.
Caminhamos por um bom tempo até uma clareira grande com um tronco no meio. Meu pai então me pediu que amarrasse o cachorro ao tronco. Enquanto eu fazia isso ele começou a explicar que para aprender a caçar eu precisava antes aprender a ser forte, entender o que significava tirar uma vida. Estremeci de pânico quando entendi o que meu pai queria que eu fizesse. Tive ódio de mim mesmo por ter pedido para acompanhá-lo e quis desistir, porém o tapa que ele me deu no rosto me fez perceber que eu não tinha escolha.

Passei a tarde inteira enfrentando aquele que foi o único que me fizera sentir amado. A cada mordida e a cada golpe de canivete gemidos e ganidos desesperados escapavam de nós. Só com o canivete eu o enfrentei, ele me amava, mas sabia que tinha que se defender porque eu iria matá-lo. E eu sabia que se não conseguisse vencer, meu pai não iria me salvar dos dentes que procuravam rasgar minha garganta.
Não sei quantas horas aquilo levou. Eu todo machucado o furava cada vez que ele se aproximava. Anos mais tarde me peguei chorando ao assistir uma tourada pela tv, meu cachorro agonizara exatamente como o touro que depois de ser cravados de lanças começa a sangrar pela boca e cambalear. Finalmente tudo terminou quando cortei sua garganta. O abracei forte para não deixá-lo fugir e em silêncio, enquanto ele se debatia e seu coração pulsava cada vez mais fraco, me despedi.
Meu pai orgulhoso das minhas feridas me obrigou a cavar com as mãos, no escuro, uma cova para minha primeira presa. Para dificultar ainda mais a situação uma chuva desabou sobre nós misturando o sangue à sujeira. A tempestade disfarçou minhas lágrimas. Voltamos tarde da noite, minha mãe se assustou ao me ver todo machucado, sujo e tremendo de frio, contudo não questionou meu pai. Eu estava exausto, ferido, triste, mas era enfim um homem. Sabia o que significava tirar uma vida e estava pronto para caçar.
Esperei até a baixa estação, não queria correr o risco de encontrar alguém. Lembro que fazia muito frio, as folhas úmidas calavam nossos passos. Passamos o dia seguindo rastros, checando armadilhas. Conseguimos muito pouco, as trilhas se desfaziam com facilidade. O humor do meu pai após a morte de minha mãe tinha ficado pior, insuportável. Então a alça do rifle arrebentou e ele foi obrigado a me dar a arma já que precisava das mãos livres para abrir a mata com o facão. Isso o deixou no limite, ele nunca me deixava carregar o rifle, não confiava em mim.
Então meu pai encontrou algumas pegadas frescas na lama. Seguimos com cuidado por um tempo até que avistamos um cervo bebendo água em um fio d’água abaixo de nós. Meu pai fez sinal para que eu esperasse e ele foi devagar se aproximando de nossa presa. Ele estava concentrado procurando uma posição de vantagem onde as árvores não atrapalhassem a visão. A ideia que me perseguia desde a minha iniciação também me mantinha focado, a respiração lenta, os olhos cerrados no alvo. Um suor frio escorria do meu rosto, minhas mãos firmes no aço sentiam o peso do rifle. Lentamente dobrei o joelho e me coloquei em posição, a arma encostada no ombro, o coração acelerado.
Um pouco antes de apertar o gatilho meu pai se voltou para trás para pedir a arma com um sorriso de satisfação por ter encontrado o ponto perfeito para disparar. Ao me ver seu semblante mudou subitamente – seu olhar espantado me encarou – e eu mirando em sua testa, puxei o gatilho.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

O Fim do Mundo



Um dia as bandeiras sumirão do céu e as fronteiras se dissiparão porque simplesmente perceberemos que nunca existiram. Quem é que diz onde acaba o meu mundo e começa o seu? E entenderemos que o valor não se conta em cédulas nem se guarda em bancos. O que te faz pensar que é isso que te torna melhor?
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O nosso ódio contra raças, origens, pele, sexualidade que carregamos será extinto, porque enxergaremos o óbvio - isso jamais fez diferença, a atitude é que faz. A sua, a minha.
E nos daremos conta de que mais importante do que acreditar em Deus é acreditar em nós mesmos. A maior batalha não é pelo paraíso, mas pela vida. Por todos nós.
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E nos envergonharemos por tratar doentes como criminosos e criminosos como animais e animais como brinquedos e aqueles que deveriam brincar como produtos descartáveis. Descobriremos que há escolhas que todos devemos fazer e há escolhas que só os envolvidos podem tomar e não escolheremos pelas mulheres o que acontecerá no seu mais íntimo ou a uma pessoa no fim de seu corpo se ela pode partir ou não. E aprenderemos com os nossos erros e não os repetiremos por tradição e não seremos como os nossos pais, mas sempre, ao menos, um pouco melhores.
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Reconheceremos que precisamos aprender a viver sem nos deixar consumir em mesquinhez e sem tornar entretenimento em fuga.
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Um dia desses, um dia qualquer.