terça-feira, 23 de outubro de 2007

Augusto dos Anjos, o poeta esquecido




PSICOLOGIA DE UM VENCIDO

Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênese da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.

Produndissimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância...
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.

Já o verme -- este operário das ruínas --
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e à vida em geral declara guerra,

Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!
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Trazer a poesia de volta para onde ela pertence, tirá-la das poeirentas prateleiras e fazê-la retornar ao povo, inovar temas, formas. Esse é um grande desafio que os poetas encaram, mas um em especial, o fez com tamanha competência e ousadia que até hoje os críticos não sabem se o amam ou o odeiam. Esse foi Augusto dos Anjos, que com a crueza de um legista, disseca cada verso para mostrar a dor, seja de quem é derrotado na vida, pela vida, ou pela morte. Vocês ainda ouvirão falar mais sobre ele por aqui...

2 comentários:

erika Karina disse...

RECOLHIMENTO

Sê sábia, ó minha Dor, e queda-te mais quieta.
Reclamavas a Tarde; eis que ela vem descendo:
sobre a cidade um véu de sombras se projeta,
a alguns trazendo a angústia, a paz a outros trazendo.

Enquanto dos mortais a multidão abjeta,
sob o flagelo do Prazer, algoz horrendo,
remorsos colhe à festa e sôfrega se inquieta,
dá-me, ó Dor, tua mão; vem por aqui, correndo

deles. Vem ver curvarem-se os Anos passados
nas varandas do céu, em trajes antiquados;
surgir das águas a Saudade sorridente;

O Sol que numa arcada agoniza e se aninha,
e, qual longo sudário a arrastar-se no Oriente,
ouve, querida, a doce Noite que caminha.


Charles Baudelaire

E agora José? disse...

Baudelaire, esse é ótimo também. E Augusto dos Anjos como todos os poetas "malditos" depois de Baudelaire carregam essa herança do francês. Gostei do poema, não me lembro dele, madrugadas produtivas essas, não?