sábado, 17 de novembro de 2007

Maria Apparecida Coquemala, Além dos Sentidos


Bem, já faz algum tempo que eu quero apresentar a vocês, meus leitores, a Maria Apparecida Coquemala; depois de sofrer uma sabotagem do destino (através do meu computador), resolvi não adiar mais esse encontro. Pois então, eu sempre encantado com a produção cultural de nossa cidade, certa vez perguntei para o meu amigo Neves da banca de jornais da Praça São Pedro, sobre os novos livros de autores itarareenses e ele me mostrou uma antologia de contos, Folhas Ao Vento, onde constava um da Maria Apparecida Coquemala, professora, ele me falou. Comprei e o li tomando conhaque no Bar do Santo, ali perto mesmo. A antologia é ótima, feita por uma editora especializada em ajudar a divulgar o trabalho de novos escritores e por essa razão, continha o e-mail para contato dos mesmos. Encantado com o conto À Espera, de Maria, que fala de uma mulher que trabalha em uma padaria e sonha com um cliente que embora, não troque palavras com ela, parece lhe corresponder veladamente o sentimento de carinho e amor. Sendo assim, entrei em contato com a Maria e depois de remarcarmos o dia do nosso encontro, ficou certo para nos encontrarmos em uma tarde de fim de semana. Nesse meio tempo, um novo livro dela, Além dos Sentidos, com contos somente de sua autoria chegou à banca e eu também o devorei, ainda mais perplexo com o talento de Maria.
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Nos encontramos e conversarmos muito, Maria é simpaticíssima, em uma conversa gostosa regada a café, ela me contou sobre a sua vida, sobre suas viagens pelo mundo, seu trabalho e sua carreira literária. Todos os seus contos, mesmo os mais surreais, possuem alguma ponta de ligação com algum fato real, que de alguma forma a inspira a escrever sobre ele. Cada história mais interessante que a outra. Passei toda a tarde e o começo da noite jogando conversa fora, até que me toquei do horário. Na despedida, Maria ainda me presenteou com alguns outros livros que continham contos seus, antologias e seleções de premiações de concursos de literatura, prêmios que ela coleciona aos montes, tanto no Brasil como no exterior. Enfim, uma pessoa adorável, inteligente, bonita e alegre, que encanta. Espero poder retribuir um dia o presente de Maria, com livros de minha autoria. Segue um conto da autora para quem ficou interessado, poder experimentar um pouco do gostinho do trabalho dela. Não preciso dizer que recomendo e admiro grandemente o trabalho da Maria e quem gosta de ler, deve tentar saber mais sobre ela.
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O Prefeito
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Eleito, quis de imediato ouvir o povo em suas mais profundas aspirações, conforme prometido em campanha. Solicitou ao secretário, Prof. Poincaré, amigo e emérito pesquisador de matemática, estreante em cargo político, que convocasse todos os munícipes, sem qualquer restrição. Democracia é participação, daí que todos deveriam participar, ensinava ele. Aquele “todos”, levado ao pé da letra pelo professor Poincaré, profundo conhecedor das ciências exatas, mas desconhecedor da natureza humana em suas complexas manifestações, levou-o a organizar o atendimento começando pelas criancinhas, pois “todos” são todos mesmo, de qualquer idade, inclusive elas. Que encheram a Prefeitura, chilreando seus cândidos pedidos, bolas, sorvetes em milhares de sabores, bicicletas, pipoca, pirulitos, bichinhos, bexigas coloridas, flechas, apitos, peixinhos, gatos e cachorros, patinetes, ruas só com descidas... Sua Excelência coçou a cabeça, difícil descobrir a mágica de ruas só com descidas, subidas nunca, mas haveria de conversar com Poincaré... Quanto ao resto, sempre se poderia dar um jeito...
Mas Poincaré, sempre sério e atencioso, já convocava os adolescentes, fizessem seus pedidos, também faziam parte do “todos”. E a vetusta Prefeitura se encheu de rabos de cavalo e bonés com abas para trás, o que levou o distraído secretário a se perguntar se meninos tinham agora algum problema visual, ou quem sabe? Um novo olho na nuca, havia que protegê-lo... Como quer que fosse, o recinto se encheu de vozes e cores, tênis luminosos, jeans apertadíssimos e camisetas enormes, chicletes e “piersing” nos umbigos e narizes, celulares, radinhos, colares e tatuagens, todos pedindo clubinhos exclusivos, imensas mesadas, liberdade total, com pais e na escola, substituição dos velhos e ranzinzas professores de mais de 25 anos, queima da velharia guardada nas bibliotecas, o mundo exigia idéias novas... Sua Excelência aproveitou a data, dia de S João, fez enorme fogueira com a livraiada, aposentou todos os idosos professores conforme o solicitado, proclamou as liberdades pedidas, uniformes foram também queimados, despertadores agora inúteis foram quebrados em praça pública como símbolo da liberdade conquistada. E pra mostrar modernidade, ele mesmo colocou um “piercing” no nariz. Verdade que ouviu alguns comentários maliciosos, xiiiiiiii, o prefeito pirou... Entre outros de que preferia nem falar... Ser prefeito é ser paciente, filosofava... Então Poincaré convocou os velhinhos, afinal precisavam ser ouvidos antes que morressem. Atendidos, morreriam felizes. Estavam pedindo dentaduras de ouro, pílulas achocolatadas, elixir da juventude, bibliotecas lotadas com antigos e famosos clássicos da Literatura e sábios de todos os tempos, quando foram interrompidos por Sua Excelência que desconhecia a mágica de fazer os livros voltarem das cinzas já espalhadas pelo vento no dia de S. João. No resto, talvez pudesse também dar um jeito. E em sinal de compreensão, passou a usar uma elegante bengala, o que levou alguns cínicos a verem nela um símbolo fálico... Mas Sua Excelência preferiu ignorar as risadinhas à socapa, ser prefeito é engolir sapos sorrindo, continuava ele filosofando...
Mas Poincaré, incansável, já pedia a Sua Excelência que atendesse aos profissionais liberais que entre tantas outras coisas, queriam espaço e liberdade para o exercício da profissão, nada de alvarás e outras exigências burocráticas, emperradoras do progresso. Todos os espaços públicos da cidade foram, pois, liberados, médicos passaram a atender sob os ipês floridos, cachorros farejando sangue rodeavam cirurgiões, exames médicos atraíam platéia de todas a idades, deixando perplexo o sábio Poincaré. Advogados empertigados em ternos e gravatas ouviam clientes nas ruas; dentistas trabalhavam sob as árvores, amálgamas se enriquecendo com o cocô dos passarinhos; arquitetos, paradoxalmente, projetavam mansões de sonho no pó do chão, crianças se deliciavam com os belos desenhos, mas que o vento teimava em desmanchar... E vieram as mães, Poincaré era incansável, mas desesperadas pediam a retirada das criancinhas da rua, estavam se matando em guerras de flechas e pirulitos, fizesse voltarem os adolescentes à escola, ouvir músicas em altíssimo som em casa era desesperador... E era tanta a gritaria que Sua Excelência em sinal de solidariedade colocou uma pleonástica faixa em frente à Prefeitura, “Amo todas as mamães”, alterada à noite por algum engraçadinho, de modo tal que nem se pode contar aqui. O que gerou um clima de risadas gerais na cidade. Então Sua Excelência, cansado de mudanças, incapaz de construir ruas sem subida, só descida, de extrair livros das cinzas; cansado de suspeitas risadinhas e filosofia consolativa, arrancou o “piercing”, jogou para longe a bengala, exonerou Poincaré e contratou um secretário surdo-mudo.

4 comentários:

Lucas disse...

entao pelo jeito o computador ja voltou com força total haahha abraço josé

Lucas disse...

entao pelo jeito o computador ja voltou com força total haahha abraço josé

Lucas disse...

entao pelo jeito o computador ja voltou com força total haahha abraço josé

Tulipa disse...

Difícil, difícil, é querer agradar a todos...para não dizer que é ridículo...
A verdade é que, os nossos políticos (e falo em Portugal, que não é muito diferente do Brasil) nem chegam a ter essas preocupações, eles próprios já são surdos-mudos...
Gostei muito deste conto.
Bj