terça-feira, 28 de agosto de 2018

"Memento Mori" - Capítulo V



O século vinte surgiu em um crescendo que culminou em um ápice de insanidade e horror, uma confluência astral maligna onde todos os signos se entrelaçaram para tecer os piores episódios da raça humana. Todos se afetaram em maior ou menor grau. Artistas se inspiraram a retratar coisas que não deveriam existir e criaram aberrações nunca antes sentidas. Crianças foram marcadas para sempre por pesadelos inomináveis criando toda uma geração traumatizada e psicóticos ouviram vozes ecoando na escuridão profetizando o que estava por vir e revelando-lhes a verdade estarrecedora. As estrelas entraram em formação para que a má influência do vazio eterno pudesse emanar e enlouquecer as pobres e frágeis mentes neste planeta perdido no recanto escuro do Universo.

Como um rio lúgubre que corre inadvertidamente até um oceano de obliteração ou uma locomotiva seguindo inevitável pelos trilhos do destino nós rumamos para duas grandes guerras mundiais, revoluções, quedas de impérios e ascensão de superpotências e a criação da maior e mais terrível das armas feitas por mãos mortais fazendo o medo da aniquilação se tornar palpável e real nos corações de todos. O relógio do Juízo Final nunca esteve tão próximo da meia-noite. Carcosa se aproximava.

Assim como encaramos esta possibilidade trágica de nossa extinção esta revelação ante ao terror inominável e asqueroso como o de quem compreende e aceita finalmente a sorte derradeira; – “Deixai toda esperança, vós que entrais” (Inferno de Dante) – assim foi chocante e repugnante também a reação da descrição no diário dos tropeiros ante as águas - um dos primeiros registros que se tem notícia sobre Itararé - ao traçar o caminho do sul até as entranhas do interior do estado de São Paulo: “Paramos à borda deste Itararé, rio muito caudaloso, muito feio, vem sempre por baixo de pedras, muito perigoso de passar” (27 de janeiro, 1845). A natureza foi afetada na sua raiz e criou o cenário pervertido ideal onde finalmente o casulo da estrela negra que descansa abaixo das águas do rio poderia eclodir o apocalipse. O tempo para o despertar dos Grandes Antigos se aproximava.

***

O ramal de Itararé da Estrada de Ferro Sorocabana havia sido construído sobre as águas deste mesmo rio com muito esforço e a custa de vidas de vários trabalhadores. Os palanques de madeira que ajudaram a sustentar os pontilhões de ferro para serem assentados pegaram fogo e um vagão chegou a desmoronar de cima rolando pelas pedras abaixo sendo engolfado pelas gargantas do percurso do rio. Mesmo assim o progresso é implacável e em 1930 os rumos do país se cruzaram na gare de Itararé quando o golpista gaúcho Getúlio Vargas desceu de seu trem e se tornou presidente de um Brasil rendido. O preço por profanar a terra daquilo que descansa abaixo de Itararé com sua petulância e fome de poder foi o suicídio décadas mais tarde. Este pequeno homem, Bonaparte tupiniquim, teve um sonho na viagem de trem que mudou sua história e foi visitado por uma presença inexplicável que ele apenas registrou em um diário secreto que tentou queimar antes de tirar a sua vida no Palácio do Catete. Esta informação foi varrida da História por conter um reflexo doentio passado de uma mente colapsada prestes a tirar a própria vida. Não cabia à memória de um déspota que se autointitulava o “Pai dos Pobres” o conhecimento das massas de seus devaneios profundos e mórbidos. Algo tão perturbador e despropositado que se assemelhava apenas talvez, às tentativas do III Reich em desvendar  segredos místicos e criar círculos de estudos de ocultismo. Entretanto, claro, quando um rei cai, os peões não mais precisam seguir suas ordens. Por isso este tal documento sobreviveu, em partes ao menos, e acabou por se tornar uma lenda entre especialistas sobre uma visão mais complexa e sombria do homem por trás da figura construída pelo populismo. Seu paradeiro e quanto a veracidade do que nele se supõe ter sido escrito é impossível de localizar e certificar se perdendo durante os anos da ditadura militar.

Na medida que o trem ia serpenteando até Itararé onde o conflito iminente pairava sobre as margens onde as tropas enfrentavam a espera de ambos os lados Getúlio sentia um peso na alma. Não era apenas a antecipação de finalmente fazer valer a sua vontade, sua carreira tinha sido habilmente construída na política e militarmente para este momento e todas as peças tinham sido jogadas para que o xeque-mate contra São Paulo fosse dado e a esperança era que ele não precisasse dizimar os últimos peões que se erguiam contra ele para assumir o controle. Uma guerra civil não ajudaria em nada nos seus planos e a morte de jovens é uma tragédia difícil de recuperar ante às famílias. Ele precisava manipular o povo para que este o visse como um messias, como aquele que estava disposto a tudo para salvá-los dos desmandos da política vigente de oligarquias. Entretanto este mal-estar não era só ansiedade sobre os eventos que iam se seguir, era algo mais inexplicável, possível descrever até como uma sensação sobrenatural. Um sentimento quase palpável de uma presença maligna.

O líder das forças sulistas estudara o pouco que havia para saber sobre o território onde a maior batalha da América Latina ocorreria e estava preocupado sobre as poucas formas de transpor o rio Itararé. Esta ponte principal poderia dar vantagem aos defensores paulistas que encurralariam as suas em um gargalo. Seria melhor que eles desistissem antes. E a cada centímetro que se aproximava noite adentro parecia ouvir algo sussurrar rastejando sibilante em seu ouvido que a vitória estava a seu alcance. Bastava ele sacrificar as vidas na batalha em Itararé, dizimar a cidade, e o país seria seu. O temor é a ferramenta dos deuses, com ele se criou impérios que jamais serão esquecidos. Os faraós, os sacrifícios incas, a morte molda o mundo. Abre portas. Afinal, é a ordem quem arranja as peças no tabuleiro, mas é o caos que as move.

Estes pensamentos surgiam em sua mente, porém pareciam vir de outro lugar, sugestionados por uma outra força, eles invadiam e brotavam sementes. Getúlio estava repetindo estes pensamentos baixo, murmurando consigo mesmo em transe. E uma palavra ininteligível começou a sair de sua boca: Nyar-la-tho-tep... Nyar-la-tho-tep... Uma palavra não, um nome. Um nome que ele jamais esqueceria. Pois aquilo propunha a ele a morte, o sacrifício de milhares de homens para lhe garantir o poder absoluto. Algo demandava o derramamento de sangue no rio Itararé. Algo que aguardara até o momento pacientemente, adormecido e preso, vindo da escuridão eterna e que ansiava por se libertar ao preço de vidas quando finalmente as conjunções estelares e planetárias lhe favoreciam. Lucien e Marie Foiz já haviam deixado tudo preparado, o ritual fora feito e agora o sacrifício era o único obstáculo que impedia a loucura de sair de sua prisão.

Por sorte esta decisão que perturbou a sanidade de Getúlio não precisou ser feita, São Paulo se rendeu antes dele chegar e nenhuma gota de sangue foi derramada. Mais tarde o então Presidente ficou sabendo sobre o relato de um rapaz paulista que enlouquecera aguardando o combate nas trincheiras e esta notícia o fez rememorar os seus próprios pesadelos no trem indo para Itararé. Em seu anos de exílio voluntário no final dos anos quarenta ele voltou a escrever em seu diário secreto sobre a sensação que lhe tomou em Itararé. Aquilo que o cercou aparentemente jamais lhe abandonou por completo. Aquela voz alienígena e estranha que falava através de palavras e sons que não podiam ser produzidos por humanos. Ele tomou uma decisão neste tempo que se caso voltasse à política faria o que fosse preciso para completar seus desejos e preservar seu legado ou morreria tentando. Como os escravos dos generais romanos repetiam aos ouvidos de seus mestres: “Memento Mori” (lembre-se que você é mortal, lembre-se da morte) - Vargas tinha incrustado em sua mente esta mensagem que ecoava na voz horrenda e disforme de Nyarlathotep. Ele deixara de aceitar o pacto de derramar sangue para ascender ao poder e mesmo assim havia conseguido o poder. Entretanto ele parecia compreender que a sua importância e relevância no cenário político e histórico diminuía cada vez mais. Seu nome era alvo de campanhas oposicionistas e motivo de chacota. Não haveria respeito nem legado, Vargas seria apagado dos anais e somente ter apagado Itararé do mapa poderia ter-lhe garantido a chance de ser lembrado.

Mesmo sabendo que sua derrocada estava próxima e que seus esforços poderiam muito bem não vingar como já não o faziam, ele jurou para si mesmo antes de novamente ganhar a sua última eleição que iria provar para a voz em sua cabeça que as pessoas se lembrariam dele e que ele não precisava ter aceito o pacto com o diabo para conseguir isso. As últimas coisas que Getúlio Vargas registrou antes de morrer no tal diário secreto após escrever a carta de suicídio foi ter ouvido a risada insana de Nyarlathotep e que tudo que ele queria era calá-la. A bala de seu revólver o fez para sempre.

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