sábado, 15 de maio de 2010

O Einherjar e a Valquíria


Os céus urravam em estrondosos trovões e a tempestade varria o outrora campo de batalha transformado em cemitério onde os grandes guerreiros nórdicos tombaram contra as hordas do caos. Entre aqueles que ali jaziam, homens e criaturas, apenas um se recusava a partir - não por temer o fim - mas por exigir o reconhecimento de seu lugar nos salões de Valhala pelos deuses. Ele fora o primeiro a investir contra as ondas de garras, chifres, espinhos e dentes e o último a cair empunhando a espada. Com uma fúria selvagem, um frenesi insano, ele se jogava na frente do inimigo desafiando a morte.

Agora, derrotado, ele observava as nuvens negras, a chuva lavando o sangue da terra e os corvos que sobrevoavam os corpos. Entre eles estavam Hugin e Munin, os olhos de Odin. Sua fé estava na esperança que o grande deus o visse também e percebesse o guerreiro agonizante que dedicara sua vida para se tornar um Einherjar. E do alto de seu trono em Asgard, o deus caolho o fitou e ordenou a Svana, a mais bela das valquírias, que fosse trazer o herói abatido até sua fortaleza.

Suas forças começavam a abandoná-lo quando o som de bater de asas ecoou na escuridão. Os céus se abriram e entre uma cortina de luz e cores, surgiu cavalgando um corcel alado e empunhando lança de guerra a rainha das valquírias. Imponente, o anjo de guerra com um só golpe enterrou a lança no peito do guerreiro afugentando os dedos gélidos do abraço inglório do esquecimento. A morte era para os fracos e covardes, a batalha duraria até o Ragnarök, o fim dos tempos, e o nome daqueles que estivessem nesse embate seria eterno.

Contudo não fora apenas Odin que voltara sua atenção para o mundo mortal. Farejando o odor de morte o filho de Loki, um monstro em forma de lobo chamado Fenrir, a ruína dos deuses, havia se libertado de suas correntes e procurava o lugar onde tantos haviam perecido para saciar sua fome. Entretanto não existia nada exceto os próprios deuses que pudesse aplacar a fome de tal criatura maldita e quanto mais o lobo devorava, mais sentia a urgência de destruir. Ao ver o Einherjar e Svana, os olhos de Fenrir brilharam de satisfação.

Uma batalha se iniciou e lançando luz no coração das trevas a valquíria em vão golpeava a bocarra negra que anseava engolí-la. Em pouco tempo Fenrir estava sobre a valquíria pronto para desfazê-la em pedaços quando o guerreiro com o peito aberto e o coração pulsando, desafiou a fera a abatê-lo. O sangue escorrendo da ferida excitou o lobo que correu para matar o Einherjar, então, nesse momento o sol levantou-se sobre a terra e a luz cegou Fenrir. Há muito tempo Fenrir sonhava em ter dentro de si tanto poder. Encantado e esfomeado ele foi-se caçando a luz, deixando para trás o guerreiro e a amazona.

Svana, trêmula, agradeceu o guerreiro que retribui seu gesto com violência. Ele jogou-a por terra e assumindo de onde Fenrir parara, ele a possui cruelmente. Ao contrário do monstro que queria a valquíria em suas entranhas, o guerreiro invadiu a valquíria e penetrou em sua carne que perdia sua luz e se ruborizava. Arfantes gemidos e súplicas sairam da boca da rainha que era feita de escrava, servindo ao desejo do guerreiro. Quando tudo acabou ele não mais se importava com a companhia dos deuses ou com a guerra final, apenas queria estar com Svana para batalhar o prazer, como acabara de fazer. E a valquíria, humilhada e currada, machucada, procurava o calor do homem para esquentá-la, já que seu corpo perdera a luz divina e ganhara o toque mortal.

Um comentário:

Marcos Paulo Dambrós disse...

A parte final achei admirável na relação entre carnal e divino, como também a comparação entre humano e animal tão comum numa mitologia onde a natureza era parte para a construção mítica religiosa. Parabéns Rodolfo.