segunda-feira, 23 de março de 2015
quarta-feira, 18 de março de 2015
Fogaça
Essa menina vivia de Chico.
Volte e meia Buarqueava-se.
Embora não transparecesse.
Havia quem desconfiasse.
De que quando ela colocava os seus fones.
E se calava lendo, pensando, podia-se ouvir.
O som de um pássaro mesmo durante a tempestade.
Como se preso em uma gaiola invisível pedisse pra sair.
Vivendo em seu peito cheio de segredos tal ave.
Era delicada, mas usava literatura pesada.
Que fedia a charuto, sarjeta e tinha gosto de whisky barato.
Embora vivesse bem, dentro de suas pálpebras.
Andava com gente da pior espécie.
Namorava Bukowski e escrevia escondido.
O alpiste para o pássaro azul era o sonho de devorar o infinito.
Em chamas, um incêndio feminino: Fogaça.
Essa menina vivia de Chico.
Volte e meia Buarqueava-se.
Embora não transparecesse.
Havia quem desconfiasse.
De que quando ela colocava os seus fones.
E se calava lendo, pensando, podia-se ouvir.
O som de um pássaro mesmo durante a tempestade.
Como se preso em uma gaiola invisível pedisse pra sair.
Vivendo em seu peito cheio de segredos tal ave.
Era delicada, mas usava literatura pesada.
Que fedia a charuto, sarjeta e tinha gosto de whisky barato.
Embora vivesse bem, dentro de suas pálpebras.
Andava com gente da pior espécie.
Namorava Bukowski e escrevia escondido.
O alpiste para o pássaro azul era o sonho de devorar o infinito.
Em chamas, um incêndio feminino: Fogaça.
terça-feira, 3 de março de 2015
MORFINA - A Bela Adormecida
Pálida e imóvel ela se assemelhava a uma miragem, uma ilusão de ótica tal qual um quadro da mais bela arte ultrarrealista que tenta imitar a crueza da vida. Ela ali deitada era como um anjo caído que perdera na sua queda as asas e estivesse repousando suavemente entre os lençóis, belo como o paraíso perdido, inocente como um recém-nascido. Um cadáver poupado dos dedos pútridos da morte, uma múmia preservada perfeitamente como uma estátua esculpida pelas mãos de um deus.
Ela dormia um sono tão profundo quanto a morte, mas estava viva, presa dentro de seu próprio corpo. Sua consciência se inebriava de fantasia, de sonhos febris, mas o eco do mundo reverbera mesmo nos longínquos reinos de loucura daquela pobre alma.
Ela dormia um sono tão profundo quanto a morte, mas estava viva, presa dentro de seu próprio corpo. Sua consciência se inebriava de fantasia, de sonhos febris, mas o eco do mundo reverbera mesmo nos longínquos reinos de loucura daquela pobre alma.
A agulha que lhe rendera tamanha maldição não fora a roca de um tear e sim a de uma seringa. Ao injetar veneno em suas veias ela se condenara e nenhum príncipe poderia lhe tirar daquele coma, o que não impedia dos príncipes aos plebeus de desejar beijá-la. Afinal ela parecia ali tão calma e serena que na mente dos homens ela se oferecia como uma ovelha, um cordeiro para o sacrifício. Ela praticamente em suas imaginações perversas pedia, consentia em ser amada, usada, abusada para aliviar a existência dos machos fracassados que jamais poderiam sonhar em copular com uma donzela tão linda. Nem mesmo pagando, subornando, eles teriam acesso a um sonho como ela, ela que era produto refinado do delírio mais acalorado do imaginário masculino.
Mesmo seu pai fora encantado por seus feitiços e deixara com o passar do tempo de vê-la como sua filha e começara a salivar como um predador encarando sua presa. Ele jamais a atacara, porém ela sabia do desejo que inflamava seu pai e sentia-se enojada. Os homens pareciam todos para ela seres repugnantes, desprezíveis, dignos de pena e medo e ela tinha motivo para pensar assim pois era exatamente como loucos varridos tomados pela libido que eles se mostravam a ela. Todos desejavam seu corpo, sua carne, como a hiena e o urubu ao encontrar uma carcaça, como o lobo ao espreitar o rebanho, sem lembrar que ela também sentia, pensava, amava.
Decidiu fugir enquanto podia e nas ruas sentiu uma liberdade que jamais vivenciara entre as paredes sob o jugo de seu pai. E na selva de pedra aprendeu a sobreviver e a ceder às tentações. Se a luxúria se apresentava como prática asquerosa, o desejo precisava ser anulado, anestesiado de outras formas e logo as drogas revelaram o prazer e a dor de seus poderes. Ela sucumbiu tão rapidamente que para conseguir um pouco do mal que lhe destruía ela começou a se vender, já que mesmo maculada pela sujeira ela brilhava como um diamante na lama, igual a uma pérola atirada aos porcos.
Seu fim foi repousar no leito e definhar enquanto Morfeu tecia histórias que fizessem ela esquecer o pesadelo que vivera, sonhos que justificassem sua existência. Sonhos tão absurdos quanto uma princesa adormecida esperando por uma amor impossível, sonhos tão antigos como contos de fadas. Sem o efeito da heroína, sem o gosto da saliva e do sêmen da prostituição, só éter onírico.
Etérea se tornou sem alarde e antes de ser enterrada o legista a beijou sem culpa, com lágrimas nos olhos, estava agradecido por ter a chance de se deparar com um corpo tão lindo e de ser o último a se despedir de uma vida tão amargamente desperdiçada.
Ela sorriu, finalmente seu príncipe havia a encontrado, mas seus lábios não se mexeram, nunca mais.
Ela sorriu, finalmente seu príncipe havia a encontrado, mas seus lábios não se mexeram, nunca mais.
quarta-feira, 7 de janeiro de 2015
WITH A LITTLE HELP FROM MY FRIENDS
O soldado conta com os seus companheiros para lhe cobrirem do fogo inimigo. O guerreiro conta com os seus iguais para defenderem as suas costas. As colunas romanas usavam este mesmo conceito para suas formações militares. Há como vencer sozinho, mas a chance de vencer cresce na medida que temos mais pessoas em quem confiar para lutar conosco. Cada um procura esta parceria de uma forma ou de outra, de Deus às drogas, todos queremos: reconhecimento, aceitação, companhia, cumplicidade, parceria e confiança. Mesmo que as escolhas alheias lhe pareçam algo que você jamais faria, os motivos entre você e o resto do mundo de fazer o que faz são mais parecidos do que talvez você queira admitir.
Por isso temos que aceitar, mesmo às vezes sem concordar com as escolhas, que cada um trilhe seu caminho e ficar feliz pelos outros. Ao invés de jogar pedras, ofereça a mão em um gesto de amizade. Só temos a ganhar com mais pessoas ao nosso redor. O seu exército de amizades depende do seu potencial de entender como é a vida das pessoas e como você pode fazer para torná-las melhores e elas de fazerem o mesmo por você. Não existe fórmula ou receita para isso, é preciso aprender na prática.
Todos precisam aprender a lidar consigo mesmo e com as outras pessoas, errar faz parte do processo. Aprender a se desculpar, a desculpar os outros e a se aceitar também faz parte. Não é fácil, mas não há escapatória. Estar cercado de pessoas que talvez não te conheçam como você gostaria ainda é melhor do que estar sozinho. Porque junto das pessoas você pode aprender a se abrir, sozinho você se coloca contra todos.
E cada um de nós tem tantas facetas, tantos lados, podemos ter tantas parcerias o quanto desejarmos. Ninguém vai te conhecer tão bem quanto você mesmo o que não te impede de partilhar ao menos um lado em comum com alguém.
Por isso e por tudo agradeço a vida que tenho, porque sei que há quem se importe e me ame e faça questão de me ter por perto. Sei que posso contar com os meus amigos e eles sabem que podem contar comigo. Se os meus sonhos de projetos pessoais existem e há a mínima possibilidade de eu realizar alguns deles é porque me cerquei de pessoas que multiplicam a minha força.
domingo, 4 de janeiro de 2015
Homem-Barro
A chuva violenta se suicida contra janelas, galhos e chão
Tudo que está acima, está abaixo, ciclo e reflexão
Escorre pelas ruas, empoça, correnteza
A água esconde fúria na beleza
Nem sempre ela circunda o obstáculo
Um rio pode cavar a pedra
E assim, criando cavernas
Um lago que reflete o sol também é escuridão
Mares e oceanos dentro dos seus olhos
Varrendo vilas costeiras, chuvisco sobre a serra
Nós somos ela, redemoinhos de emoções
Perdendo-se dentro de nós ela flui
Circulando através do coração se transforma em sangue
E faz de nós, seres meio líquidos, meio sólidos, feitos do mangue
quarta-feira, 26 de novembro de 2014
O Testemunho de um Maldito
Os antigos incas ao contrário da maioria de nós olhavam os céus e não se encantavam com o brilho das estrelas, mas temiam a escuridão profunda entre elas. Eu era assim, como eles: o céu, o espaço, o universo sempre me encantaram e me despertaram um temor inexplicável. Dediquei minha vida a compreender as teorias, filosofias e equações que poderiam explicar o inexplicável. Descobri que mais de três quartos do que compõe o nosso Universo é algo que não fazemos ideia do que seja: o "nada primordial". Um nada que é na verdade algo tão minúsculo e poderoso que comporia uma quarta dimensão na estrutura da Física, algo que iria além da nossa percepção e a partir desse ponto poderíamos supor que haveria não apenas novas dimensões no sentido de espaço/tempo, mas novos mundos, galáxias, universos. A questão é muito maior do que haver ou não vida fora do nosso planeta, a questão é compreender quantos Big Bangs poderiam ter existido e dado vida a universos inteiros como o nosso, só que diferentes e independentes. Algo que meus colegas e eu chamamos de "Multiverso". Contudo, tudo isso, todos esses mistérios se perderam no dia em que eu morri. Me perdoem, mas como estou prestes a ter a minha existência definitivamente extinta, estes sonhos e paixões que fizeram eu ser quem eu fui em vida ainda me movem, mesmo que eu seja apenas uma sombra do cientista e estudioso que viveu.
A morte deveria ser o nosso verdadeiro foco penso eu agora, afinal, se não temos capacidade, tecnologia ou se simplesmente a natureza nos impede de descobrirmos todos os segredos do cosmos ao menos podemos compreender o mistério que envolve a todos nós. A nossa finalidade no sentido de fim e significado. Eu procurei por tanto tempo, com tamanha dedicação e obsessão diria até, as respostas para as perguntas da ciência sobre o Universo que quando me deparei me afogando com o meu próprio sangue caído na sarjeta após um assalto não pude aceitar que aquele seria o meu fim. O meu medíocre e banal fim violento que acabaria apenas como mais uma mera e desimportante estatística. Este meu rancor, minha incapacidade de aceitar o inevitável me fez despertar dentro de outra dimensão, aquilo tudo que eu queria saber sobre um mundo ao redor do nosso estava finalmente ao meu alcance. E era tudo um pesadelo sem fim.
Tentei ao máximo me manter concentrado em explicações lógicas e racionais, entretanto quando você está a um passo do mundo que nós conhecemos, testemunhando a sua família envelhecer e superar a sua perda, sua mulher passar do luto a um novo casamento, seus filhos terem seus filhos e não lembrarem de como você os tratava para fazerem o mesmo com os filhos deles a lógica e a sua sanidade se desfazem. Eu estava no Purgatório. O lugar descrito por Dante Alighieri onde as almas ficavam presas no pós-vida para pagar por seus pecados na esperança de ascender ao Paraíso. Ao menos era essa a única absurda explicação que eu me recordava para aceitar o meu destino. E eu não era o único a jazer naquele lugar. Almas de pessoas esquecidas vagam sem rumo neste mundo de ruínas, dor e memórias e dentro deste reino cinzento uma nova sociedade se erguera em uma nova ordem mundial avassaladora. Tudo do outro lado do Véu é feito da mesma matéria, talvez, a tal matéria escura que comporia o "nada primordial". Nós, almas perdidas e tudo ao nosso redor é um pálido rascunho do mundo que existe e somos todos constituídos da mesma coisa: ectoplasma. Uma matéria viscosa e ao mesmo tempo gasosa que está em toda parte e em parte alguma simultaneamente. E esta cruel verdade nos transforma em moedas de trocas. Escravidão e tortura são realidades no reino das sombras e almas são rasgadas, aquecidas em fornos que ardem usando como combustível outras almas e despedaçadas para serem moldadas em criaturas bizarras, monstros, armas, moedas e até mesmo trens. Trens onde se levam mais almas para se construir mais de tudo, há mesmos cidades inteiras construídas desde tempos remotos com as almas humanas que não conseguem deixar suas existências para trás.
E os anciões, aqueles que temem tanto o próprio fim, almas seculares, são os senhores destas terras. - os seus Lordes. Poucos duram nesta existência porque os anciões não querem que novas almas ganhem a experiência e a sabedoria que eles conquistaram através do tempo e da angústia. E além disso, todos nós partilhamos uma outra singularidade: somos todos tentados por nossas "sombras" a desistir e se entregar para o vácuo e assim desaparecer. A mais forte das consciências se enfraquece e se torna frágil quanto a de um suicida desequilibrado quando os anos mostram o quão insignificante fomos e somos e vemos tudo aquilo que perdemos se repetir em rostos diferentes que amam, gozam e desfrutam de prazeres que cada vez mais nos parecem distantes e ao mesmo tempo atraentes.
Eu consegui ganhar espaço nesta nova sociedade porque havia ali um desespero tão colossal que todos, não apenas a mim, anseavam por algum tipo de resposta, de conforto. Alguma coisa que nos fizesse acreditar que existiria uma forma de ultrapassar todo aquele suplício. Eu, um homem da ciência, me tornei um líder religioso. Não como os pastores que exorcizam e praticam milagres na TV, eu acabei me tornando primeiramente para me confortar uma pessoa espiritualizada e repeti tantas vezes para mim que aquela dimensão mórbida era a prova definitiva de que havia uma força superior acima de todos nós que nos encurralara entre os mundos dos vivos e dos mortos que outras almas começaram a me ouvir. E a me seguir.
Experimentei então o gosto de algo que jamais havia sentido antes: o sabor do poder. Eles me seguiam e me compreendiam e queriam acreditar em mim porque não havia nenhuma escolha. E logo, claro, os anciões souberam do que se passava e começaram a nos caçar. Eu me tornei uma ameaça e usei os meus fiéis como ovelhas para fugir dos lobos. Contudo eles eram incansáveis, possuíam a eternidade para me caçar e mais e mais eu era seduzido por minha própria ideia de grandeza. Me entregar ao poder maior, a Deus e me deixar levar pela entropia. Me desfazer em escuridão. A única coisa que me impedia de desistir era o desafio de sobreviver aos meus inimigos. Nesta luta me tornei novamente outra coisa: um guerreiro estrategista.
Perdi a noção do tempo, porque para nós o tempo se arrasta com uma monotonia opressora e temos os nossos grilhões pesados como âncoras que nos prendem aos nossos medos que nos deixam lentos. Destruí e ataquei muitos dos postos e batalhões inimigos. Sacrifiquei e distorci almas para me tornar perigoso e temível como aqueles que tentavam me vencer. Me tornei um monstro como eles. Na verdade - possivelmente sinto uma fagulha do que eu conhecia como orgulho - eu me tornei um monstro pior do que eles.
Nem razão ou fé me salvaram de mim mesmo. E a minha arrogância e pretensão me levaram a minha derrocada. Quando enfim me colocaram de joelhos na sala mais escura da capital dos mortos, Estígia, no coração do Limbo ante aos pés do maior dos Lordes eu não sentia mais nada. Perdido entre tantas vidas sem vida, sem significado, abracei o meu fim. Os senhores dos mortos entenderam que eu queria ser derrotado e não me atiraram na Tempestade. Eles encontraram uma saída melhor. Eu hoje sou o relógio dos mortos que em gritos anuncia a passagem do tempo. Minhas engrenagens foram feitas a partir das minhas tripas ectoplasmáticas e eu fiquei desfigurado e a minha dor é infinitesimal. Agora não posso mais crer em deus algum, não acredito mais na ciência dos homens, não acredito mais em mim. Só o Tempo poderá me libertar da minha prisão incrustada e fabricada de mim mesmo. Aguardo a hora quando a Tempestade engolir a tudo e me tirar da eternidade onde me coloquei.
Eu sou um aviso ambulante do que acontece para quem desafiar as leis dos mortos. Nada pode vencer a Morte. Eu sou Sísifo rolando a rocha morro acima e sendo esmagado por ela. Este é o meu testemunho antes de ser transformado em uma coisa que jamais deveria existir. Uma aberração em um mundo de espelhos enferrujados.
Ai de mim. Ai de quem não abraçar a morte e lamber os seus lábios gélidos em um beijo na derradeira hora. Ai das almas que se apegam àquilo que não mais lhes pertence. O Limbo os devorará por dentro, somos todos malditos.
Escutai mortais, esta é a minha sina e será a vossa se não me escutares.
E ninguém jamais me escutou.
Escutai mortais, esta é a minha sina e será a vossa se não me escutares.
E ninguém jamais me escutou.
quinta-feira, 30 de outubro de 2014
A Semente da Mudança
A casa de cada homem é o seu castelo. Mas nem todos tem casas.
O coração de cada pessoa é o bastante para formar laços. Mas nem todos reconhecem tais alianças.
O corpo de cada mulher é sua propriedade. Mas nem todos respeitam a santidade da escolha.
Cada um escolhe como abraçar a morte. Mas nem todos aceitam os vícios alheios.
Todos somos iguais em nossas diferenças. Mas nem todos permitem que as diferenças façam diferença.
Juntos somos mais fortes e por isso mesmo é nosso dever dar às minorias o que pra nós já é direito. Mas nem todos se sentem fortes ao defender o outro.
Todos queremos mudanças. Mas nem sempre discutimos formas de melhorar e sim discordamos simplesmente para provar que o outro está errado.
As coisas estão mudando, mudar é reconhecer a Vida. Só não muda aquilo que está morto. Que a Semente da Mudança encontre em você solo fértil para termos um mundo melhor.
quarta-feira, 24 de setembro de 2014
O Universo Particular
Nós e tudo no Universo somos feitos da mesma coisa. Poeira primordial da qual surgiram estrelas, galáxias, planetas, sóis, luas, eu, você. Nossas vidas não são nada se comparadas aos milhares de milhões da anos dos seres celestiais, mesmo assim a cada dia uma estrela pode ter nascido ou desaparecido, um buraco negro pode ter engolido misteriosamente tudo a sua volta, planetas podem ter sido atingidos por meteoros ou colidido com outros planetas.
A dança do Universo é inexorável, incessante, assim como o tempo sobre nós. Os ponteiros não param mesmo que às vezes eles pareçam rápidos de mais nos momentos bons e lentos de mais para os menos importantes. Assim como a Terra nós vivemos em rotação, vivendo ao redor de nós mesmos e dos detalhes desimportantes da rotina, somos afogados por coisas ordinárias, entorpecidos e anestesiados pelo comum. Para muitos este é o resumo de suas vidas, as preocupações banais, porém para realmente existir precisamos ter as nossas translações, as nossas voltas que nos fazem conhecer e sentir a luz de experiências únicas, de situações especiais, de momentos inesquecíveis. São eles que guardamos na memória e não as neuroses com contas e prazos.
A cada ano um ciclo se fecha para se reiniciar, para algo novo nascer e então contamos quantas transliterações tivemos. E nos perguntamos quantas deixamos de ter devido as nossas rotações. Somos apenas peões rodando para divertir os outros como as crianças de antigamente que se divertiam rodando esses brinquedos ou nos divertimos e criamos lembranças como as do tempo de criança ao brincar de peão? A idade tende a nos tornar mais filosóficos, ou meramente mais desconfiados. Pesamos nossas escolhas e reavaliamos a nossa vida, há sempre tempo de mudar, repensar, escolher outros caminhos. Ao menos nos convencemos que sim e deixamos para amanhã a transliteração dos sonhos enquanto cumprimos as rotações diárias.
Estou feliz com a dança do Universo, sou um mundo repleto de imagens e sons próprios, de vida. E há ainda muito para se desvendar, descobrir. Mas ao passar do tempo compreendemos que não teremos tempo para revelarmos o maior dos mistérios: a nós mesmos. De tudo que somos capazes, do que poderíamos ser. Aprender a conviver com isso é um desafio que urge sem deixar de acreditar que ainda há muito a ser contado, vivido, translado.
O meu Universo Particular está dançando e eu não quero só rodar na ponta do pé como um bailarino, quero me lançar como uma estrela cadente e cair sem abrir os olhos no desconhecido, bailar de mãos dadas com o destino e gozar a vida enquanto há possuo. E que assim seja.
O meu Universo Particular está dançando e eu não quero só rodar na ponta do pé como um bailarino, quero me lançar como uma estrela cadente e cair sem abrir os olhos no desconhecido, bailar de mãos dadas com o destino e gozar a vida enquanto há possuo. E que assim seja.
sexta-feira, 22 de agosto de 2014
A ERA DAS LOLITAS
Ela era como a representação de um conto de fada, branca como a neve, linda, aterradora e provocante como uma nevasca e todos os espelhos respondiam que não havia ninguém como ela. Seus olhos amendoados brilhantes e inocentes continham um brilho felino, como um filhote de tigre siberiano que poderia brincar ou retalhar seus dedos. Sua boca, pequena, vermelha e carnuda parecia uma armadilha para engolir a alma humana fraca e seduzível, de milhares de homens sem esboçar pena num sorriso frágil de menina má.
E sem saber ao certo o que fazer com os seus encantos mágicos, seus dotes, como um capricho da natureza que embelezou uma criatura sem dá-la condição de se conhecer ou de saber de seu real poder ela vivia respirando e anseando por um príncipe que violasse sua torre e a tomasse. Algo mais terrível do que resgatar uma princesa de um dragão é não se deixar cair pelas garras de uma donzela, em seus truques, curvas e promessas vãs de paraíso perdido.
Por isso ela era como o Narciso, amava-se e ao notar que outros lhe percebiam, amava-se mais ainda. Cobria-se com pinturas como um Dorian Gray megalomaníaco, sonhava com a grandeza de ser desejada na pequenice de seus sonhos febris, místicos e absurdamente tolos. Uma aberração para a sociedade moderna, a ruína dos homens, pois nós por mais racionais que sejamos não deixamos de ser feras e de desejar cobrir as jovens fêmeas.
Esta é uma era de Lolitas imbecis que não servem para nada porque sonham em servir, por capricho de seduzir e de ultrajar os pais. Mal sabem elas que seus pais sonham com suas amigas e que suas mães as invejam por terem o frescor do leite colhido de manhã enquanto elas ganham nata e se transformam em queijos bolorentos.
O feminismo esbarra na vaidade, na superficialidade, na quantidade de admiradores e de gracejos, se antes os homens atiravam flores hoje cobrem os perfis de juras de amor e cantadas baratas, apelativas, para enaltecer egos e inflá-los até se tornarem gigantes e mesmo assim, continuarem cada vez mais vazios. Para preencher esse abismo na alma procuramos incessantemente preencher os orifícios do corpo e saciar os prazeres da carne e ao nos servimos sentimos mais fome.
Porque o mundo está no cardápio para quem quiser e puder agir sem temer as consequências, as sereias ninfetas pulam para dentro do aquário pelo prazer de ver os homens salivando por devorá-las como lagostas em um restaurante de frutos do mar.
Na vida os seios e o pênis crescem mais rápidos do que a mente e assim a biologia entrega a crianças quase adultas armas de destruição em massa, capaz de fazê-las se multiplicar e de gerar novas almas. Hormônios e feromônios, cio interminável e jogo de poder, é uma caça, uma corte, uma dança, um sofrimento e um inferno. Porque não devemos tocar o fruto proibido, apenas aqueles incapazes de saboreá-lo devidamente podem fazê-lo e é exatamente por isso que ele nos parece tão doce.
A maldição dos homens é essa: desejar sem possuir, das mulheres é deixarem de serem possuídas mesmo desejando o serem.
terça-feira, 5 de agosto de 2014
A Foda FODA
"Tudo no mundo é sobre sexo exceto o sexo. O sexo é sobre poder."
Oscar Wilde
Já usei esta frase antes em um post antigo , mas a citação vale à pena ser lembrada.
Há na relação sexual uma disputa de poder, de controle, de dominação, mesmo na mais tenra e carinhosa reciprocidade alguém está na posição de comando e alguém se submete ao outro. Saber ceder e performar em ambas as posições é uma arte, existe quem se sinta satisfeito ou seguro em uma ou outra posição, de dominador ou de dominante, contudo entender a necessidade do outro e dar espaço para que o seu cúmplice possa atuar sendo ativo ou passivo é uma das maiores formas de cumplicidade que um casal pode atingir.
O sadismo e o masoquismo levam este conceito a outro nível e não é todo mundo que está pronto para adentrar este mundo de fetiche, couro, chicotes e nós. O bondage é uma arte para poucos, por certo, que vai muito mais longe que cinquenta tons de cinza. A palheta de cores deste universo é incontável e os quadros são a pele de quem ousar se arriscar a provar. Não há regras fora as que as próprias pessoas se impuserem.
Mesmo assim, o conceito vale para todos, o de que a força de quem está no comando provém da submissão do outro, ao compreender isso, que tudo se relaciona ao desejo e confiança de entrega, os limites do prazer são levados até o inimaginável.
Alguém tem que ceder o que não é deixar de ganhar, de se satisfazer, pelo contrário. É entregar as rédeas para aproveitar a paisagem da viagem. As sensações do orgasmo, cada arrepio e reação que para quem não é suficientemente seguro, pode parecer constrangedor, porém para quem se ama e não possui trincheiras entre si, é algo sublime.
Encontrei uma definição desta ideia em um dos filmes mais polêmicos e chocantes já feitos, "A Serbian Film - Terror sem Limites", um filme que eu não recomendo a ninguém a assistir porque é o mais pesado que já assisti e definitivamente pouquíssimas pessoas vão conseguir compreendê-lo. O filme se passa dentro do submundo dos vídeos snuff e envolve estupro e pedofilia, medonho, porém é possível compreender que ele usa da metalinguagem para criticar o próprio gênero que não traz nada de artístico e sim de monstruoso e que simplesmente explora a violência gratuita sem qualquer talento ou outro motivo envolvido se não o lucro da parafilia e do crime.
Entretanto há em uma fala entre os personagens logo no início do filme uma interpretação muito sincera do que estou discorrendo que não está ligada ao enredo principal:
"Seu senso de manipular uma mulher, o seu ritmo para esgotá-la, para humilhá-la, e então quando ela é reduzida a uma cadela, para reconquistá-la. E o seu amor por isso, isso é arte."
Esta é a definição do trabalho de Milos, o personagem principal do longa, considerado o maior ator pornô do mundo no filme e o único capaz de trazer beleza e arte para aquele mundo de entretenimento barato. Uma descrição vulgar de uma fonte de péssimo gosto, para dizer o mínimo, a maioria pode dizer - e não estará errada.
Por que então buscar esse tipo de citação quando a princípio tivemos Oscar Wilde?
Porque o sexo é em essência primitivo, um dos instintos básicos do ser humano, uma ligação direta com o seu lado mais animal, assim como a violência também é um dos nossos instintos mais vitais e é impossível negarmos tal fato. Por isso o sexo é um assunto tão difícil de ser discutido e ao mesmo tempo tão explorado, ele traz à tona um lado bestial de cada cidadão que não cabe na sociedade a não ser na cama.
"(...) O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera."
Augusto dos Anjos
Este trecho do poema "Versos Íntimos" de Augusto dos Anjos traduz de forma espetacular o que exemplifiquei anteriormente, é inerente ao homem ser fera e se tornar uma entre os outros homens-fera. Isso no contexto sexual é latente e vergonhosamente óbvio. A mulher pode amar e adorar ser bem tratada, idolatrada, contudo no ato sexual ela precisa descer do pedestal e sentir-se fêmea e a verdade de sua natureza surge, contrariando todo o feminismo e luta de igualdade de gêneros. Porque não estamos falando de racionalidade, mas de ferocidade, mesmo que haja uma breve luta por controle, de quem ficará por cima, por exemplo, alguém está sofrendo a violência da penetração e alguém a está praticando. A biologia é simples. Isso não é machismo, a natureza nos fez assim e se dentro da sociedade cada um deve e merece receber tratamento igual, do ponto de vista biológico isso é inconcebível.
Por isso, por mais que tentemos nos esconder e negar os nossos tabus atrás de romances açucarados e contos infantis com moral, precisamos entender que o sexo não é imoral e sim amoral, não existe como racionalizarmos ele e sim, simplesmente, praticá-lo. E embora esta verdade possa chocar todas as moças inocentes, no fim, todas sonharão e desejarão o Lobo Mau quando estiverem a sós com um homem e desprezarão o Príncipe Encantado e sua etiqueta real.
Uma pena que por recalque da sociedade a maioria não saiba como lidar com o Lobo Mau quando encontre um e sofra por isso. O mundo poderia ser muito mais livre se nos aceitássemos como animais que vivem em um cio eterno em que alguém sempre estará fodendo alguém e que ser fodido não é desvantagem.
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