terça-feira, 18 de março de 2008

Bocage


SONETO DO EPITÁFIO
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Lá quando em mim perder a humanidade
Mais um daqueles, que não fazem falta,
Verbi-gratia — o teólogo, o peralta,
Algum duque, ou marquês, ou conde, ou frade:

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Não quero funeral comunidade,
Que engrole "sub-venites" em voz alta;
Pingados gatarrões, gente de malta,
Eu também vos dispenso a caridade:
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Mas quando ferrugenta enxada idosa
Sepulcro me cavar em ermo outeiro,
Lavre-me este epitáfio mão piedosa:
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"Aqui dorme Bocage, o putanheiro;
Passou vida folgada, e milagrosa;
Comeu, bebeu, fodeu sem ter dinheiro".

8 comentários:

Luis disse...

Gosto daquele do Alvares de Azevedo, acho que é assim

"Descansem meu túmulo solitário
Na floresta, dos homens esquecida
À sombra de uma cruz, e escrevam nela
Foi poeta, sonhou e amou na vida"

Selma disse...

Oi,Rodolfo,to me amarrando neste teu cantinho,mas confesso que ainda não deu para ler tudo com alma,tua maneira de escrever é muito rica e exige um tempo mais especial para poder se incorporar em cada obra,tu tens muito bom gosto...li o comentário acima,amo este poema,de Álvares,"Lembrança de Morrer"....Só levo uma saudade-é dessas sombras
Que eu sentia velar nas noites minhas...
E de ti,ó minha mãe!pobre coitada
Que por minhas tristezas te definhas!

Ricardo Augusto disse...

Muito bom, José!

Bocage nunca foi dos meus preferidos. Na verdade, nunca curti muito o arcadismo, apesar de hoje, simpatizar com a idéia de uma vida bucólica e simples, hehehehe

Já Álvarez de Azevedo, mencionado pelo Luis, é um dos meus preferidos! E, já que o tema do post é epitáfio, não poderia ter sido melhor a escolha. Ninguém escrevia melhor sobre a própria morte que ele, rs.

"O adeus, o teu adeus, minha saudade,
Fazem que insano do viver me prive
E tenha os olhos meus na escuridade"

(Soneto VII - Álvarez de Azevedo

Lucas disse...

como vc diz não podemos parar visite meu blog e veja a música, sem mais abraços

I'm Nina, Marie, Genevieve, Juliette... disse...

Eu já disse que quero um epitáfio mais light e zombeteiro (não quero choro nem vela; quero festa e música - Rammstein ou Corvus Corax):

"Deixemos de lado o protocolo:
Aplausos, por favor!"

:)

E agora José? disse...

Eu também não sou muito fã do Arcadismo não Ricardo, acabei conhecendo o Bocage, mesmo, de verdade, através da Nina (sempre ela). Porque há sonetos dele, como esse, que fogem da linha árcade e falam sobre outras coisas, poemas que são mantidos esquecidos. Álvares de Azevedo é ótimo, e a escola literária a qual ele pertence produziu muita coisa boa. Bocage, para mim, é um achado recente de obscenidade e surpreendente coragem. Tanto, que muitos poemas dele, na verdade, podem ser atribuídos falsamente a ele porque muitos na época, queriam assim. Ele era o testa-de-ferro, assumidamente ou não, de poetas que queriam liberdade para escrever e não tinham coragem de mostrar o rosto. E o público achava mais conveniente dar esses poemas como provenientes do Bocage do que dizer que existiam vários outros poetas que falavam em seus poemas mais do que campos verdejantes.

Ricardo Augusto disse...

Esse poema é do Bocage? Achei que vc tinha escrito em homenagem a ele. Não conheço muito a obra dele.
E vc tem razão. Nada a ver com o arcadismo. Irônico não? O maior representante da língua portuguesa dessa escola não ser "bitolado" nela, hehehehe
Vou dar uma caçada em alguns textos dele e tentar colher algumas idéias, mesmo que no arcadismo convencional. Apesar de fã de carteirinha do ultra-romantismo, como disse, ando simpatizando com a idéia de uma vida calma, rs.

E agora José? disse...

Esse soneto é do Bocage sim, e Ricardo, você não sabe como estou lisonjeado de você me "confundir" com ele. Se me permitir, posso te mandar por e-mail dois livros de poemas dele.