quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

ALEXIA


ALEXIA
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A inocente menina Alexia veio dos limites do mundo, das estepes esquecidas para onde se baniam os imperdoáveis e indesejáveis da Rússia, exílio de vastidão dos inimigos políticos dos czares como Lenin e Trotsky, limbo branco, para ganhar o mar dentro de um leviatã de ferro e vapor. A casa, onde vivera seus quase oito anos, em que no inverno sua família compartilhava os aposentos com os animais e bestas para se aquecerem, jamais outra vez veria. O lar primordial se tornara um sonho etílico, uma lembrança vaga, uma ressaca de vodka. Seus pais, a avó materna e os avós e tios paternos sonhavam com uma terra menos árdua, menos gélida, selvagem, eles sentiam a onda de transformação que os bolcheviques traziam consigo e munidos de um sonho, embarcaram na promessa tupiniquim de esperança verde-amarela antes que a revolução estourasse. O navio era enorme, e se avolumava ainda mais diante dos olhos azuis de criança, para esses olhos que registraram na memória, ainda que com a licença poética da infância, a viagem transcontinental ocorrera durante meses. Apenas com o firmamento cinzento e com as águas negras para se apreciar, o tédio pode ter influenciado a lembrança. Os dias se passavam lentos, carregados pela estafa, a natureza parecia querer uma prova de que todas aquelas famílias mereciam evitar o destino sangrento da Europa que iniciava a engendrar um dos séculos mais atrozes da humanidade, para os amarelados registros oficiais históricos, esses imigrantes, tais quais os siberianos como Alexia, eram apenas eslavos. Um nome que resumia tudo o que o Brasil não conhecia, e tão pouco fazia questão, o importante era o uso que se faria deles, mão-de-obra barata para ser usada no desenvolvimento do país. Escravos modernos.
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Devagar, algo começou a perturbar a frágil calmaria da viagem, muitos começaram a passar mal, ter febre alta, tossir tanto ao ponto de sangrar, deixavam de comer, algo estava tirando o apego à vida dos imigrantes, mais do que isso, estava roubando-lhes a própria vida. A primeira morte chegou em uma semana, feridas vermelhas que descamavam anunciaram o nome da praga divina rogada por Posêidon aos mortais que singravam seus domínios tão petulantemente. Os velhos, fracos, e as crianças foram os primeiros atingidos pela epidemia, os marinheiros, sem saber o que fazer, encontraram somente uma solução, deixar todos os expostos e doentes em quarentena, nenhum porto os aceitaria se soubessem que as pessoas a bordo traziam consigo o signo da morte. Alexia não entendeu a razão de sua mãe, pai, irmãos, avós e tios terem que ficar no frio, escuro e feio porão do navio, trancafiados. Sua mãe lhe deu um terço para que rezasse enquanto estivesse sozinha, Alexia por toda a vida cumpriu essa promessa à mãe, Edwiga. Contou diariamente, ao menos uma vez o terço, aprendeu a ler e a escrever em português, sozinha, e aprendeu as orações em nosso idioma para manter o ritual. Também encaminhou os onze filhos no catolicismo, o único abrigo que encontrou nos árduos e cruéis anos em que viveu. Imersa no mais terrível tédio, as fadas da imaginação e do faz-de-conta começaram a maquinar brincadeiras para que a única imigrante poupada pela quarentena e isenta da ameaça da epidemia de sarampo, inexplicavelmente saudável e imune como Rasputin, pudesse se distrair. Alexia estava só com os marinheiros. Ela se divertia como podia, com os rolos de corda pelo convés, os transformando em castelos sitiados, lar de princesas, serpentes hipnotizantes e muito mais coisas que a minha imaginação, ou mesmo os relatos dos Irmãos Grimm, possam competir. A imaginação a salvou.
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Os dias eram feitos de fantasia e ilusão, e as noites, de solidão, imensa e profunda quais o firmamento e o mar. Foi pelas mãos calejadas dos homens-do-mar, que Alexia conheceu o vermelho sangue do fruto proibido que trouxe a perdição para a humanidade segundo os cristãos, a maçã. E como Eva, Alexia se encantou pelo fruto, por sua cor vibrante, de uma maneira inédita para ela até então. Doce. O som de algo sendo lançado contra as águas a tirou da admiração pelo novo tom que banqueteava seus olhos, eram volumes enrolados em lençóis, semelhantes a embrulhos. Alguns, também continham manchas rubras, fediam a comida estragada. Cordas prendiam e fechavam os panos, e pedras garantiam o sepultamento, provavelmente, o primeiro enterro que Alexia contemplou. O primeiro de muitos, na longa viagem. Alexia lembrou-se da maçã e todos os pensamentos que ameaçavam sua inocência se dissiparam, como uma tempestade que se desfaz contra um vento poderoso, a inquietude das crianças, que passam de uma idéia a outra, sem pestanejar, fez com que aquela pequena menina descobrisse o vermelho de Stálin, da União Soviética, dos mortos nas grandes guerras, da maneira mais singela. Bíblica. E foi com essa leveza angelical, de querubim, que Alexia correu as grades para mostrar à mãe, sua descoberta. Edwiga ninava sua irmã no colo, ela estava tão pálida, dormia profundamente a ponto de não se mexer. A mulher sorriu para a filha a salvo, todavia os olhos marejados não esconderam dela que alguma coisa estava acontecendo. Algo brutal e triste. Por todo o resto do interminável e monótono dia e a noite, Alexia passou chateada, chorosa, aborrecida. Corvos voavam em volta de sua cabecinha, torturando sua mente com coisas que não deveriam lhe dizer respeito. E na escuridão plena em alto-mar, quando a névoa surge e os ventos morrem, um choro familiar acordou Alexia. Era sua irmã, chorando, como se um lobo ou tigre branco estivesse pronto para atacar seu berço, ela, desesperada seguiu esse choro e esbarrou no capitão que movido por pesadelos tinha desistido de dormir. Ele não ouvira nada, não havia nada para ouvir. Alexia tentou esconder o que acontecera, mas foi impossível. Os olhos do capitão indagavam-na, determinados, e Alexia acabou por confessar que perseguia o choro da irmã. O capitão sabia que uma das imigrantes estava escondendo o corpo da filha, evitando que jogassem a morta ao mar. Porém, não sabia que a menina que observava seus marinheiros trabalhando era irmã da falecida e filha da mãe desesperada. Motivado por seus sonhos, e pela história de Alexia sobre o choro da irmã morta, o capitão finge não saber sobre o ocultamento. Alexia lembra-se de ver um barco a remo, levando sua irmã para ser enterrada em terra firme. Sua inocência não estava completamente arruinada ainda, ela disse para as filhas e netos que sua irmã teria sido enterrada em uma ilha deserta no mar. Quem sabe uma Ilha Pirata? Mal sabia ela, que aquilo na verdade, era o Brasil. Os navios de grande porte não podiam aportar no cais, e por essa razão desembarcavam os passageiros por meio de barcos.
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Alexia, no Brasil, se tornou Alexandrina. Edwiga, Elvira. Edwiga morreu depois de um parto, feito no meio do mato, seu marido abria estradas de ferro e levava junto sua família para os confins do interior do país. A criança morreu uma semana depois, de fome. Seu pai morreu no dia treze de março, como sua mãe profetizara. A cada ano que ele passava por essa data, o velho Luís Poss sabia que tinha mais um ano de vida. Luís prometeu a Edwiga que não se casaria novamente e manteve sua palavra, morreu viúvo. Alexandrina casou-se com João Klimek, abridor de rodovias e estradas, que fez nela onze filhos, cinco homens e seis mulheres. Um menino morreu um tempo depois de nascer, outro, aos sete anos. Alexandrina faleceu em mil novecentos e noventa e oito.
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Uma das filhas de Alexandrina se chama Ilda Klimeck Depetris, que se casou com Sebastião Depetris e teve quatro filhos, um menino que faleceu cedo, e três filhas: Marilda, Rosangela e Roseli. Rosangela, depois que se casou com Carlos César Machado, adotou um menino, sobrinho de César. Este sou eu, José Rodolfo Klimek Depetris Machado. Quando meus pais se separaram, escolhi agregar os sobrenomes da minha mãe. E agora, conto a história deles, do Klimek siberiano e dos Depetris, italiano.

2 comentários:

I'm Nina, Marie, Genevieve, Juliette... disse...

Muitas vezes as pessoas assustam-se com textos longos. Mas você consegue prender a atenção do leitor até o final, e fazer com que ele pense:"mas já acabou?".
Excelente.
O que posso fazer agora é esperar ansiosa por um pouco mais.

Patricia Klimeck disse...

oi!eu me chamo Patricia Klimeck,sou filha de Paulo Sergio Klimeck, filho de Valdomiro Klimeck!acho que somos parentes!achei muito interessante por a história da vida de Alexia,eu não sabia muita coisa sobre ela!