quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Depetris - continuação

Delfina era bem quista onde morasse, madrinha de todas as crianças que sempre quando cruzavam por sua presença, pediam-lhe benção. Para os que expiravam, Delfina era também necessária, os defuntos eram lavados e perfumados por suas mãos e as mortalhas que os cobririam no seu leito final eram cozidas por essas mesmas delicadas mãos. A vida e a morte faziam parte do cotidiano de Delfina, de maneira pacífica e sem sobressaltos. Delfina nasceu em Mato Preto, município de Cerro Azul e cresceu junto à mãe, Emília, e foi testemunha dos fatos extraordinários que a perseguiam, se acostumando com a mediunidade inata em seu sangue. O sobrenome Depetris foi trazido a nossa família através do marido de Delfina, José Depetris Sobrinho, também de Mato Preto, que com Delfina viveu e teve com ela nove filhos, cinco homens e quatro mulheres, sendo o primeiro deles, meu avô, Sebastião Depetris. Os nomes dos outros filhos e filhas de José e Delfina são: Nelsa Depetris Ligório (chamada por todos por “Nega”), João Depetris (o único até então que já se foi, problemas do coração), Margarida Depetris Pellegrinetti, Hélio Depetris, Antonio Depetris, Edith Depetris Akim, Terezinha Depetris de Souza e Evandro Maximiniano Depetris. Eles se espalharam entre as cidades de Itararé, Apiaí, Adrianópolis e Curitiba e não mantêm um contato muito próximo, o que dificulta o levantamento de todas essas histórias. Paciência. Tenho, no entanto, que fazer justiça, mesmo não tendo os laços renovados com freqüência, a simpatia é inerente na família, os que eu consegui conhecer e fazer perguntas me ajudaram (quase) sem pestanejar, a tia Nega, por exemplo. Também a tia Terezinha me acolheu de braços abertos em sua casa no Natal que lá passei em 2006, mesmo sem me ver há anos, o desejo de imortalizar o legado dos Depetris era na época, uma semente recém plantada no solo fértil da minha imaginação. Com exceção de Evandro Depetris, o “Wando”, que nasceu em Riversul (na época, Ribeirão Vermelho do Sul), todos os outros filhos nasceram no idílico e bucólico Cadeado, bairro rural de Jaguariaíva, Distrito de Bertanholi, o que não quer dizer que os mesmos foram registrados no local. Pelo menos meu avô e a tia Nega são registrados em Cerro Azul, provavelmente os outros irmãos também foram registrados em outros lugares. Meu avô nasceu em vinte e dois de maio de mil novecentos e trinta e quatro. O terreno no Cadeado foi dado pelo pai de José, o “Velho” Augusto que em uma reconciliação com o filho depois de uma rusga, presenteou-o com uma fazenda de 500 alqueires e com ele morou por lá, até se mudarem para Ribeira, Itararé e voltarem para Ribeira. O Velho Augusto era subdelegado do Cadeado, bravo e valente, impunha respeito na região com seu revólver 38 e sua carabina 44. Sua casa era a única na região que possuía telhas de barro, todas as outras eram cobertas por simples tabuinhas de madeira, a maioria feitas por ele mesmo, carpinteiro excelente que extraía da natureza as toras e cortava a madeira para erguer as residências. Augusto era tão agreste, que tinha como hábito mascar folhas de pimenteira e de outras plantas insuportáveis para a maioria do paladar humano, como se fossem simples goma de mascar. Sua bravura desafiava até o temível, o Cadeado onde meu avô morou na infância, era conhecido por em seus cerros surgir bolas de fogo na noite, voando rápidas. As pessoas temiam o globo incandescente o chamando pelo nome de Boitatá, o Velho Augusto, não. Quando foi avistada a passagem do olho vermelho que deixava um rastro serpenteante de faíscas no ar ao longe, as pessoas tremeram murmurando baixo que aquele era o Boitatá. O subdelegado somente cortou o alumbramento dizendo que aquela luzinha não se tratava da nada mais do que um vaga-lume. Todos se calaram com a audácia do carpinteiro sem medo. Os Boitatás também brigavam entre si, a família Moreira do Cadeado contava uma história que meu avô escutou quando era criança de duas criaturas que lutavam no alto de um pinheiro próximo da casa dessa família, provocando uma chuva de fogos a cada golpe. O cachorrinho da casa, sem noção do perigo que representava aquilo, avançou latindo embaixo de onde as duas esferas combatiam e acabou recebendo toda a chama delas e feriu-se tanto que foi impossível salvá-lo com tantas queimaduras. Um rapaz enraivecido pelo o que aconteceu com o cachorro pegou uma espingarda e atirou nos dois Boitatás. Eles respingaram sangue ígneo e alçaram vôo para longe, cada um em uma direção. Por certo, o Velho Augusto se soubesse desse feito dos Moreiras, teria feito pilhéria do mesmo, como lhe era de costume quando ouvia qualquer coisa a respeito de seres feéricos. Um conhecido de Derfa também passou um apuro com um Boitatá certa vez, ele estava a cavalgar e precisava passar por um morro quando avistou no alto de um pinheiro uma pequena luz. Furtivamente apeou e trazendo o cavalo pelas rédeas, se aproximou tentando passar despercebido o máximo que pudesse. Não deu mais que alguns passos, a luz, pequena, começou a crescer em uma fogueira e também ia de encontro a ele quando ele tentava passar por debaixo do pinheiro. Sem outra opção, este tal conhecido teve que mudar sua rota para não ter que enfrentar o fogo dos céus. O Velho Augusto cultivava a erva-mate e bebia o chimarrão dos gaúchos, imigrante de italianos, veio com seu pai, André Depetris para o Brasil em um barco a vela, quando avistaram o porto de Paranaguá, se alegraram tanto que fizeram uma festa em alto-mar, beberam e cantaram e quando se deram conta, o vento mudara e haviam perdido de vista a terra, o deslize lhes tomou oito dias para corrigir a rota. Augusto se identificou com os hábitos do sul do Brasil. Sua mulher, Delfina de França Depetris, com quem teve oito filhos, faleceu em setembro de sessenta e um, a família para diferenciar a sogra da nora, ambas Delfinas, se acostumaram a chamar a mulher de José Depetris e mãe de meu avô de “Derfa”. Psicólogos seguidores da linha freudiana poderiam ao ler sobre essa coincidência traçar alguma pista do Complexo de Édipo em José Depetris por ter se casado com uma mulher com o mesmo nome de sua mãe, com certeza, todavia, estariam se baseando apenas em especulação antiética.
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Quando se casou, Delfina vivia com o pai, Antonio Diogo e então se separou dele para ir morar no Cadeado com a família do marido. Derfa e José repartiam muitas coincidências, além da origem, fumavam, mas José se limitava a muito de vez em quando queimar um cigarro de palha, enquanto Delfina fumava cigarros comerciais, e bastante. José gostava de bebericar uma pinga, de tempos em tempos, todavia o que lhe causou o fim foi o mesmo destino de sua mulher, o pulmão de ambos era fraco (como os meus) e a fumaça dos cigarros apenas ajudou a fazer-lhes perder a vida mais rapidamente. Porém, vamos devagar, ainda há mais que contar antes de chegarmos até o falecimento do casal Depetris, histórias como a quando o meu avô ainda era criança de colo e certa noite, quando estavam em casa somente ele, Delfina e sua prima Darcília, chamada por toda a família de “Nhá Tuca”, criada pelo Velho Augusto, elas escutaram na cozinha o barulho do cão “Guri”, que toda noite pulava a janela que não fechava direito para dormir dentro da casa.
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“_O Guri se enroscou!”
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Darcília e Delfina não tiveram tempo de ir ajudar o cachorro, de repente ouviram o Gurí subir no teto da casa, as garras que estavam a pedir ajuda na janela então começaram a arranhar as telhas raivosamente perseguindo-as pelos aposentos. Perceberam, portanto, que não podia ser o cão desengonçado que estava a lhes pregar uma peça e sim uma visagem querendo roubar a criança dos braços da mãe. Delfina, como sua mãe Emília e as vozes que sobrevoavam o sítio onde morou na infância, agarrou o filho varão e pôs-se a rezar fervorosamente acompanhada por Nhá Tuca até o que quer que fosse que estivesse atacando a cobertura da casa fosse embora. Um outro mistério ocorreu ainda quando o meu avô era pequenino, essa e outras histórias lhe foram transmitidas por sua mãe, que dessa vez ouviu o balido de um cabritinho recém-nascido, havia na época uma cabrita que estava prestes a dar cria e mesmo sendo tarde da noite, José e Delfina resolveram sair e ver se encontravam o animal. Quando se aproximavam de onde deveria estar o cabritinho, ele berrava mais longe, cruzaram uma cerca e atravessaram o pasto, nada, cada vez mais e mais distante chorava o cabrito indefeso. José, agudo da idéia, percebeu que indefeso quem estava era o seu filho, Sebastião, deixado dormindo sozinho em casa e voltou apressado com Delfina antes que fosse tarde demais. Por sorte, o responsável por criar o sortilégio não havia chegado primeiro até o berço do meu avô. Quando amanheceu, o casal voltou a procurar alguma explicação para o acontecido da noite anterior. O que encontraram os deixaram mais desconcertados e perplexos; a cabra nem havia dado cria e não havia nenhum cabrito pequeno que pudesse fazer aquele barulho em toda fazenda.
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continua...

3 comentários:

I'm Nina, Marie, Genevieve, Juliette... disse...

Fico imaginando essas histórias contadas em noites de tempestade, à luz de velas...

guto disse...

ola sou da Familia depetris e moro em apiai sou bisneto de palmira andolfato depetris e joaquin depetris .. eles residiam em adrianopolis a muito tempo...
gostaria de saber mais sobre o antepasado da familia. meu email é guto_apiai@terra.com.br

Elisama disse...

Sou da família Depétris do Vale do Ribeira... atualmente moram em Cerro Azul. Sou filha de Elizabeth Depétris, filha de Lourival Depétris, filho de André Depétris, filho de Domingos Depétris. Até agora só consegui até aqui, mas tenho muito interesse em completar a minha arvore genealógica.... se pudermos ligar os pontos....